Canário na mina de carvão

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Recentemente um amigo me encaminhou um texto filosófico altamente complexo e me pediu que analisasse sua utilidade para jovens que talvez não dispusessem de todas as referências utilizadas para a argumentação filosófica. Fez questão de alertar que estava me usando como “um canário numa mina de carvão” para saber se ele poderia ser entendido e absorvido por seus alunos.

Pesquisei na internet o significado dessa expressão idiomática da língua inglesa e adorei a analogia. Ela faz referência ao hábito de mineiros de levarem consigo um canário dentro de uma gaiola ao entrarem pela primeira vez num túnel de mina de carvão para verificar se há gases tóxicos dentro dela, como o monóxido de carbono. Dado seu pequeno porte, se houver, o canário morrerá em instantes e servirá de alerta para que os trabalhadores abandonem a mina a tempo.

Senti, sem falsa modéstia, que a metáfora me caía como uma luva. Acredito mesmo que essa foi a missão que me impus desde que me conheço por gente: identificar pessoas, ambientes e relacionamentos tóxicos. Não tenho dom para o auto sacrifício, mas sempre me senti portadora da capacidade de antecipar eventos futuros, especialmente os mais funestos. Desde criança, experimento ondas de choque e vibrações energéticas ao entrar num ambiente ou fazer contato com novas pessoas. É algo intuitivo, que não tem necessariamente a ver com o olhar, tom de voz, gestos, ou postura corporal de quem está diante de mim, nem com a estética, cheiro, modernidade ou organização do ambiente em que penetro. Talvez tenha sido por essa característica que me senti atraída desde muito pequena pelos cachorros, que são mestres na arte de ler a energia dos que estão à sua volta e são extremamente hábeis em antecipar eventos – como “adivinhar” a chegada de seus donos.

Astrólogos de todos os matizes concordam em afirmar que os nativos do signo de Peixes funcionam como uma espécie de mata-borrão, absorvendo prontamente as energias que estão disseminadas no ambiente. É como se, para eles, o ar, de tão denso e pesado, pudesse ser apalpado ou cortado em fatias. Não sei se para minha alegria ou pesar, além de nativa de Peixes, sou catastrofista crônica assumida. Cheiro o ar continuamente em busca de evidências de futuros problemas, transtornos, tragédias, crises e ameaças.

Costumo dizer que nasci com um sistema de alerta embutido na minha alma, que praticamente nunca falha: graças a ele, aprendi a diferenciar as pessoas que representam alguma forma de perigo para mim e as que são benfazejas almas gêmeas, contatos prováveis de vidas anteriores. Claro que essa capacidade me serve de importante guia nas relações pessoais e profissionais mas, ao mesmo tempo, é inegável fonte de angústia permanente.

Além da ansiedade para confirmar ou desmentir o que minha intuição indica e que contamina todas as atividades e planos do meu dia a dia, vale lembrar que é bastante difícil encontrar pessoas que disponham desse mesmo radar de navegação na vida. Assim, não é nada incomum que minhas previsões pessimistas causem desconforto e irritação em terceiros e me preguem um rótulo de prepotência, como se eu me apresentasse sempre como uma sensitiva “iluminada” que menospreza a falta de inteligência ou de sensibilidade dos demais.

Quando Bolsonaro se apresentou como candidato à presidência, minha imensa repulsa a suas crenças pessoais e a seu comportamento político ditatorial, irracional, desrespeitoso e obscurantista me induziu a escrever uma série de artigos antecipando a tragédia que se avizinhava caso ele fosse de fato eleito. Imediatamente após a eleição, produzi outro tanto de textos denunciando suas primeiras iniciativas macabras, bem como a desastrada escolha de seus ministros. Um dos textos que mais causaram furor entre conhecidos e desconhecidos foi o que levou o título de “Torço para que não dê certo”.

Reproduzo abaixo a introdução: “Não vou dizer ‘bem feito’, ‘bem que eu avisei’, nem ‘só você não percebeu que ia dar com os burros n’água’ para nenhum amigo meu, real ou virtual, que tenha achado que valia a pena eleger a geringonça que nos desgoverna hoje… Minha recusa em aderir ao bolsonarismo também tinha pouco de racional. Era e continua sendo uma questão instintiva, um alerta recebido pelos meus sensores de que a tragédia da volta dos anos de chumbo nos esperava logo adiante” [maio de 2019].

Na ocasião, recebi mais de 70 comentários irados que me acusavam de estar torcendo contra o Brasil e me convidando a ir experimentar as “delícias” dos países comunistas no que se refere à liberdade de expressão. No limite do ódio ao pensamento divergente, uma amiga próxima dos tempos de escola sugeria sem meias palavras que eu caísse e quebrasse o pescoço, sendo apoiada por mais 3 ou 4 pessoas das minhas relações. Hoje, assistindo ao derretimento do apoio dado ao inominável “capetão”, me pergunto o que diriam essas mesmas pessoas quanto às chances de o país voltar aos trilhos da prosperidade e da conciliação dos espíritos sob o comando de mais um tirânico salvador da pátria.

E é também quanto à eleição presidencial de 2022 que meus instintos de canário em mina de carvão alertam: estamos prestes a aprofundar ainda mais o buraco em que nos metemos caso o eleitor médio continue descartando a seu bel prazer candidatos moderados/menos conhecidos no primeiro turno só para forçar uma escolha praticamente impossível de ser feita no segundo turno entre dois extremos igualmente indesejáveis. A tese segundo a qual basta votar no “menos ruim” ou no único com condições de peitar e derrotar o atual presidente é, além de irracional, prova inconteste de falta de consciência política e de amadurecimento da cidadania. Votar em quem deve sair – herança maldita dos reality-shows – e não naquele que apresenta um plano factível para recuperar a dignidade da governança federal é receita mais que certa de desastre.

A ansiada “terceira via” não vai surgir do nada, como por milagre. Ela precisa ser pacientemente construída apontando nomes com os quais cada um mais se identifica, examinando desde já o curriculum dos candidatos disponíveis, analisando em profundidade a viabilidade (política e econômica) de suas propostas, identificando a compatibilidade entre as próprias crenças e valores políticos com os do candidato e, acima de tudo, lembrando que a república brasileira está alicerçada em três poderes que devem atuar com autonomia mas harmonicamente. Acreditar que só o Executivo pode dar todas as respostas de que precisamos, ignorando as pressões e obstruções do legislativo e do judiciário, é outra ilusão perigosa que pode nos matar asfixiados logo após o pleito.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O país de ressaca

José Horta Manzano

Pra quem achava que os (longos) anos do lulopetismo eram o pior que se podia imaginar em matéria de governo, aqui está doutor Bolsonaro pra provar que o que já é ruim pode sempre ser piorado.

O lulopetismo roubou os dinheiros da nação; o bolsonarismo está roubando a alma do povo. Dinheiro, trabalhando e economizando, sempre se consegue juntar de novo; alma, já fica mais complicado. Não há trabalho nem economia que conserte alma arranhada.

Se não for logo interditado, este governo vai deixar um rastro de desolação em que todos sairão perdendo. Dirigentes que desprezam a cultura, desdenham a ciência e destroem a natureza estão agindo pior do que os que assaltaram o erário: estão hipotecando o futuro do Brasil como nação civilizada.

Não sei quantas reuniões ministeriais já houve desde que doutor Bolsonaro assumiu. Alguém acredita que as anteriores tenham sido diferentes dessa que foi desvelada? Moro não apontou a reunião de 22 de abril porque havia nela palavrões, mas porque escorava sua acusação de que o presidente tencionava intervir na PF.

Reunião ministerial

Incivilidades, impropérios e rasteiras parecem ser o prato do dia, servido em todas as refeições àquela gente insaciável. Todos os presentes, excluídos o cinegrafista e a mulher do café, estão na mesma salada. Ainda que alguns aparentem constrangimento, não leve a sério. Se constrangidos estivessem, já faz tempo que teriam entregado o chapéu. Se lá continuam, é porque se sentem entre iguais. Damares inclusive, com toda a pureza que exibe, deve ter os ouvidos acarpetados de palavrões.

Falando em Moro, é curioso que tenha se segurado quietinho durante ano e quatro meses, calado, apagado, apático. Há de ter ouvido muito palavrão, muita impropriedade, muitos planos antidemocráticos. No entanto, não soltou um pio. Só decidiu abandonar o barco quando a água já estava batendo na cintura.

O Centrão acaba de aceitar, com volúpia, convite pra integrar essa caravana de insanos. Como moscas atraídas pelo mel, os do baixo clero só têm olhos para as vantagens que virão em troca de apoio ao governo. Esquecem que toda moeda tem dois lados.

Ao fazer barragem a um processo de impeachment, estão levando água ao moinho do aprendiz de ditador e contribuindo para o sucesso de seu projeto autoritário. Caso o pior acontecesse e o golpe se consumasse, o Congresso seria fechado e eles – tolinhos! – seriam as primeiras vítimas. Perderiam o mandato e só com muita sorte não terminariam na cadeia. A cupidez é defeito muito feio.

Não dá samba

José Horta Manzano

«Mulher que não dá samba, eu não quero mais». Assim vai o refrão do samba sacudido que Paulo Vanzolini criou e Carmen Costa gravou em 1974 em duo com Paulo Marquez. Nessa música, o compositor pinta os traços de uma mulher-objeto. Fosse hoje, ele seria renegado como machista malvado, plantado a milhas do politicamente correto. Na época, no entanto, a Polícia dos Costumes ainda não havia criado essas amarras. Artista podia permitir-se maior liberdade de movimento.

Hoje não se deve mais falar em mulher que dá samba, que não pega bem. Mas ainda não é proibido ver gente famosa dar substantivo e adjetivo. Não é façanha pra qualquer um. Duas condições precisam estar reunidas. Em primeiro lugar, o personagem deve ser importante e amplamente conhecido. Em segundo, seu nome tem de permitir a criação de derivados.

Vários campos da atividade humana são propícios à criação de adjetivos e substantivos derivados de nome próprio. No campo religioso, São Bento (Benedito) deu a paciência beneditina. São Francisco desembocou na humildade franciscana. Nas artes e nas ciências, há muitos exemplos: freudiano, balzaquiana, dantesco, machadiano.

A política é campo fértil para esse tipo de derivação. No passado, tivemos adhemarismo/adhemarista, janismo/janista, juscelinismo/juscelinista, getulismo/getulista e numerosos outros. É que, por capricho da história, o nome desses figurões aceitava um sufixo. Já outros nomes não aceitam derivação. FHC, nesse campo foi estéril. Como falar em FHCismo? Impossível. No mesmo caso estão Collor, Sarney, Renan, Geisel, França e tantos outros. Não se prestam a formar substantivo nem adjetivo. Collorismo? Não dá. Sarneyista? Que feio!

A cereja em cima da glória de todo homem político é a nomeação de corrente política com base em seu nome. Nesse ponto, Lula teve sorte. (Não só nesse, aliás.) Lulismo e lulista são termos amplamente aceitos e utilizados. Convenhamos: emprestar o próprio nome a uma tendência política é pra inflar o ego de qualquer um.

Quando se apresentaram treze pretendentes à Presidência da República, examinei o nome de cada um. Acabei me dando conta de que quase nenhum permitia a criação de derivados. Haddadismo? Alckminismo? Diasismo? Boulosismo? Nem em pesadelo! Era uma coleção de nomes estéreis. Só se salvava um: Bolsonaro. E o homem acabou ganhando! Que agrade ou não, bolsonarista já está na praça, aceito por número crescente de veículos. Aliás, o número de bolsonaristas da undécima hora cresce a cada dia.

Muito poucos já ousaram bolsonarismo. O substantivo virá com o tempo. Só nos resta esperar que ele nunca assuma a conotação pejorativa que hoje carregam lulismo e, sobretudo, dilmismo.