O país de ressaca

José Horta Manzano

Pra quem achava que os (longos) anos do lulopetismo eram o pior que se podia imaginar em matéria de governo, aqui está doutor Bolsonaro pra provar que o que já é ruim pode sempre ser piorado.

O lulopetismo roubou os dinheiros da nação; o bolsonarismo está roubando a alma do povo. Dinheiro, trabalhando e economizando, sempre se consegue juntar de novo; alma, já fica mais complicado. Não há trabalho nem economia que conserte alma arranhada.

Se não for logo interditado, este governo vai deixar um rastro de desolação em que todos sairão perdendo. Dirigentes que desprezam a cultura, desdenham a ciência e destroem a natureza estão agindo pior do que os que assaltaram o erário: estão hipotecando o futuro do Brasil como nação civilizada.

Não sei quantas reuniões ministeriais já houve desde que doutor Bolsonaro assumiu. Alguém acredita que as anteriores tenham sido diferentes dessa que foi desvelada? Moro não apontou a reunião de 22 de abril porque havia nela palavrões, mas porque escorava sua acusação de que o presidente tencionava intervir na PF.

Reunião ministerial

Incivilidades, impropérios e rasteiras parecem ser o prato do dia, servido em todas as refeições àquela gente insaciável. Todos os presentes, excluídos o cinegrafista e a mulher do café, estão na mesma salada. Ainda que alguns aparentem constrangimento, não leve a sério. Se constrangidos estivessem, já faz tempo que teriam entregado o chapéu. Se lá continuam, é porque se sentem entre iguais. Damares inclusive, com toda a pureza que exibe, deve ter os ouvidos acarpetados de palavrões.

Falando em Moro, é curioso que tenha se segurado quietinho durante ano e quatro meses, calado, apagado, apático. Há de ter ouvido muito palavrão, muita impropriedade, muitos planos antidemocráticos. No entanto, não soltou um pio. Só decidiu abandonar o barco quando a água já estava batendo na cintura.

O Centrão acaba de aceitar, com volúpia, convite pra integrar essa caravana de insanos. Como moscas atraídas pelo mel, os do baixo clero só têm olhos para as vantagens que virão em troca de apoio ao governo. Esquecem que toda moeda tem dois lados.

Ao fazer barragem a um processo de impeachment, estão levando água ao moinho do aprendiz de ditador e contribuindo para o sucesso de seu projeto autoritário. Caso o pior acontecesse e o golpe se consumasse, o Congresso seria fechado e eles – tolinhos! – seriam as primeiras vítimas. Perderiam o mandato e só com muita sorte não terminariam na cadeia. A cupidez é defeito muito feio.

Não dá samba

José Horta Manzano

«Mulher que não dá samba, eu não quero mais». Assim vai o refrão do samba sacudido que Paulo Vanzolini criou e Carmen Costa gravou em 1974 em duo com Paulo Marquez. Nessa música, o compositor pinta os traços de uma mulher-objeto. Fosse hoje, ele seria renegado como machista malvado, plantado a milhas do politicamente correto. Na época, no entanto, a Polícia dos Costumes ainda não havia criado essas amarras. Artista podia permitir-se maior liberdade de movimento.

Hoje não se deve mais falar em mulher que dá samba, que não pega bem. Mas ainda não é proibido ver gente famosa dar substantivo e adjetivo. Não é façanha pra qualquer um. Duas condições precisam estar reunidas. Em primeiro lugar, o personagem deve ser importante e amplamente conhecido. Em segundo, seu nome tem de permitir a criação de derivados.

Vários campos da atividade humana são propícios à criação de adjetivos e substantivos derivados de nome próprio. No campo religioso, São Bento (Benedito) deu a paciência beneditina. São Francisco desembocou na humildade franciscana. Nas artes e nas ciências, há muitos exemplos: freudiano, balzaquiana, dantesco, machadiano.

A política é campo fértil para esse tipo de derivação. No passado, tivemos adhemarismo/adhemarista, janismo/janista, juscelinismo/juscelinista, getulismo/getulista e numerosos outros. É que, por capricho da história, o nome desses figurões aceitava um sufixo. Já outros nomes não aceitam derivação. FHC, nesse campo foi estéril. Como falar em FHCismo? Impossível. No mesmo caso estão Collor, Sarney, Renan, Geisel, França e tantos outros. Não se prestam a formar substantivo nem adjetivo. Collorismo? Não dá. Sarneyista? Que feio!

A cereja em cima da glória de todo homem político é a nomeação de corrente política com base em seu nome. Nesse ponto, Lula teve sorte. (Não só nesse, aliás.) Lulismo e lulista são termos amplamente aceitos e utilizados. Convenhamos: emprestar o próprio nome a uma tendência política é pra inflar o ego de qualquer um.

Quando se apresentaram treze pretendentes à Presidência da República, examinei o nome de cada um. Acabei me dando conta de que quase nenhum permitia a criação de derivados. Haddadismo? Alckminismo? Diasismo? Boulosismo? Nem em pesadelo! Era uma coleção de nomes estéreis. Só se salvava um: Bolsonaro. E o homem acabou ganhando! Que agrade ou não, bolsonarista já está na praça, aceito por número crescente de veículos. Aliás, o número de bolsonaristas da undécima hora cresce a cada dia.

Muito poucos já ousaram bolsonarismo. O substantivo virá com o tempo. Só nos resta esperar que ele nunca assuma a conotação pejorativa que hoje carregam lulismo e, sobretudo, dilmismo.