Três indícios e uma hipótese

José Horta Manzano

O que escrevo aqui abaixo não é fake news. É pura suposição minha, que não deve ser tomada por verdade bíblica. O distinto leitor é livre de discordar.

Primeiro indício
Faz menos de uma semana, os dirigentes dos países do G20 se reuniram numa cúpula especial realizada por videoconferência. Como é natural, a conversa não foi pública; o que sabemos é o que filtrou do Planalto.

Devido ao grande número de participantes e ao tempo exíguo, cada dirigente que quis se manifestar teve poucos minutos. No tempo que lhe coube, doutor Bolsonaro preconizou que a proteção da saúde ande de mãos dadas com a preservação dos empregos, o que é uma evidência. Até aí, ninguém discordou.

O resto de seu tempo, nosso presidente gastou tecendo elogios a uma substância farmacêutica chamada hidroxicloroquina, vendida no Brasil sob a marca comercial de Plaquinol. Segundo o doutor, o remédio – desenvolvido para tratar paludismo e poliartrite crônica evolutiva – é tiro e queda pra curar covid-19. É fácil imaginar a surpresa dos demais dirigentes. É que as palavras do doutor cairiam bem na boca de um representante farmacêutico; vindas do presidente do Brasil, soam esquisitas.

Segundo indício
Doutor Bolsonaro diz ter sido testado duas vezes pra descobrir se estava infectado pelo coronavírus. Afirma que, nas duas vezes, o teste deu negativo. Jornalistas reclamaram a prova do teste. O hospital, que deve ter sido pressionado pela Presidência, negou-se a mostrar papel assinado.

Terceiro indício
Domingo passado, doutor Bolsonaro saiu a passeio por bairros de Brasília para atirar-se nos braços de admiradores e «ouvir o que o povo quer». Mostrou não estar nem um pouco preocupado com contágio, nem ativo, nem passivo.

Hipótese
Juntando os três indícios, é possível formular uma hipótese. Doutor Bolsonaro teria sido contagiado pelo vírus, exatamente como Wajngarten, o general Heleno e mais uma vintena de assessores. Assim que sintomas leves apareceram, ele fez o teste. Deu positivo. Aceitou, então, conselho para medicar-se com Plaquinol. Como acontece na maioria dos casos de infecção pelo novo coronavírus, os sintomas foram leves e desapareceram após dois ou três dias. Os sintomas teriam desaparecido espontaneamente, mas o presidente atribuiu a cura milagrosa ao remédio que havia tomado.

Se verdadeira, minha hipótese explica:

• por que Bolsonaro usou o tempo de palavra no G20 pra elogiar uma molécula cujo efeito contra o coronavírus ainda não está acertado. O remédio é perigoso: tem mais de 30 efeitos secundários potenciais. Só poderá (ou não) ser indicado para combate ao vírus ao fim de estudo específico e sério.

• por que Bolsonaro se negou a mostrar o resultado do teste em papel assinado pelos diretores do hospital.

• por que Bolsonaro continua a sair por aí, a se jogar nos braços do povo, a circular como se não houvesse epidemia.

• por que Bolsonaro se gaba de seu passado de atleta ter driblado a doença: sou forte, pulo no esgoto e nada me acontece.

• por que Bolsonaro nega a gravidade da covid-19 e continua a fazer força pra desconfinar os confinados.

Até atitudes aparentemente irracionais, como as de nosso presidente, têm explicação. Difícil é encontrá-la.

Discurso assombroso

José Horta Manzano

Hoje o Brasil acordou em efervescência por causa do discurso do presidente. Foi pronunciamento assombroso. Tome-se assombroso no sentido literal: discurso que lança sombra sobre o destino dos brasileiros; um falatório que ensombreia e apaga a luz que tínhamos esperança de ver no fim do túnel.

Não adianta procurar, na fala presidencial, algum traço de coerência: não há. Que não se busque tampouco linha de conduta ou objetivo fixado: não há.

É interessante comparar o modo de agir dos dois grandes falastrões que se sentaram na poltrona presidencial neste começo de século: Lula da Silva e Jair Bolsonaro. O Lula, finório por natureza, modulava o discurso de acordo com a plateia. Embora soltasse alguma asneira aqui e ali, era mais astuto. Sabia, por intuição, até onde podia esticar a corda; ao discursar, não costumava transgredir as regras da decência. Via de regra, seu discurso mostrava compaixão para com os menos favorecidos, atitude que invariavelmente lhe angariava simpatia. Tudo era da boca pra fora, mas isso só se soube mais tarde.

Doutor Bolsonaro tende a comportar-se como um Lula da Silva sem talento. Não é orador (mal sabe enunciar as palavras); não tem rumo; não é astuto; é fraquinho de intuição; desconhece as regras da decência; não deu mostras, até hoje, de nenhuma preocupação social. Ora, com todas essas insuficiências, a coisa se complica. Como fazer um discurso? Que dizer?

Homem de visão

Atualmente, discursos importantes estão sendo preparados por assessores de cunho radical. O problema maior é que tanto Bolsonaro quanto os que o rodeiam vivem encerrados dentro de uma bolha, fechados ao exterior, ignaros do que acontece no Brasil e no mundo. Como não têm programa nem falam para todos os brasileiros, discursos são moldados com um só propósito: alimentar a torcida alojada nas redes sociais.

No fundo, o presidente não está nem aí para o fechamento ou a abertura de comércios, transportes, serviços. Ele não vive no mundo real em que vivemos nós, mortais. Comida, na sua despensa, não vai faltar. Jatinhos da FAB suprem a falta de aviões. Seu cabeleireiro vem atendê-lo dentro do palácio. Portanto, se prega o fim atabalhoado da quarentena, é porque está tentando agradar à sua torcida.

Não tentem analisar nem encontrar lógica. Não encontrarão. Taí a razão pela qual o canal de comunicação entre o presidente e a maior parte da população está entupido. É que ele vive dentro da bolha; nós não. A lógica dos que habitam na bolha é interesseira e visa a manter privilégios. A nossa, cá fora, é de sobrevivência: gostaríamos todos de chegar sãos e salvos ao fim desta crise.

Falando em crise, quando é mesmo que o doutor vai mostrar o resultado de seu teste de Covid-19 assinado pelos diretores do hospital? Fica cada dia mais evidente que o dele deu positivo. Será que ele pretende continuar a contaminar, sem pudor, todos os que dele se aproximam? De um Bolsonaro, pode-se esperar tudo.

Com ou sem crase? ‒ respostas

Dad Squarisi (*)

Aqui está a solução do teste de ontem sobre o emprego do sinal indicativo de crase.

1. O governador vai a Santa Cruz domingo de manhã.

2. Tinha de agradecer muita coisa a muita gente.

3. Empregados domésticos têm direito a férias.

4. Convém esclarecer às mães solteiras de seus direitos.

5. Eis as notas promissórias correspondentes às duas últimas prestações.

6. O presidente compareceu à sessão solene de instalação dos trabalhos legislativos.

7. O sistema está parado desde as 15h30.

8. Não é essa a blusa a que me referia.

9. Estava à toa na vida.

10. Aquela pasta é igual à que comprei.

11. Fez prova semelhante à de Maria.

12. Ele pertence a uma academia com projeção nacional.

13. Não foi possível chegar a conclusão alguma.

14. Chegou à conclusão de que não valia a pena.

15. Conseguiu o emprego devido a suas qualidades.

16. A secretaria funcionará de segunda a quinta das 14h às 18h30.

17. Na faixa leste do estado, o tempo está sujeito a instabilidade passageira.

18. Ante as arremetidas dos opositores, o parlamentar se recolheu sem reação.

19. A declaração pode ser preenchida a lápis ou a (à) tinta.

20. Considerando os difíceis processos apresentados, sente-se o comitê à vontade para expressar…

21. Dirigiu a S. Exª os agradecimentos da noite.

22. O expediente será das 8h às 10h.

23. Todo infrator está sujeito a punição.

24. A situação atual, dada a ignorância dos presentes, tende a piorar.

25. Fica prejudicado o contribuinte de rendas médias devido à percentagem de apenas 55%.

26. Não pude sair devido à falta de tempo.

27. A regra também se pode aplicar à frase de Irene.

28. A regra também se pode aplicar a esta frase.

29. Espera-se um futebol à brasileira.

30. Nas minhas férias fui a Manaus.

31. Reportou-se à Roma dos Césares.

32. Faço minhas orações a Nossa Senhora.

33. Rezei à Mãe de Deus.

34. É recomendável não dar confiança a mulher alheia.

35. Emprestei o livro a (à) Teresinha.

36. Retornou à casa de Petrópolis.

37. No festival não se assistiu a nenhuma grande peça.

38. Disse gentilezas a você.

39. A fusão corresponde às expectativas do grupo.

40. Colocou o painel à direita do semáforo.

41. Para ter os direitos reconhecidos, recorreu a (à) instância superior.

42. Quando quiser saber o sentido e a forma exata de uma palavra viva, vá às pessoas.

43. Fez referência a (à) minha tia e à sua.

44. Dirigiu-se àqueles que até ontem eram seus pares.

45. Dirigiu-se às que pareciam suas amigas até ontem.

46. Eis a matéria à qual você se referia ontem.

47. Vou a casa buscar o agasalho.

48. Vou à casa de amigos buscar agasalhos.

49. Observe-a a distância, discretamente.

50. Observe-a discretamente à distância de uns 100 metros.

51. Curso de português a distância.

52. Não gosto de bife à milanesa.

53. Estava a ponto de bala.

54. Ufa! Reclama a toda hora.

55. É honesto a toda prova.

56. À medida que se acostuma no novo ambiente de trabalho, fica mais produtiva.

57. Paulo é a pessoa a quem você deve favores à beça.

58. Este é o homem a cuja filha você se referiu ontem.

59. A água inundou até a cozinha.

60. O marinheiro não está a bordo.

61. Não me refiro a Vossa Senhoria, mas à senhora que o acompanha.

62. Viram-se cara a cara.

63. Daqui à Esplanada são cinco minutos de carro.

64. Daqui a uma hora chegaremos a Brasília.

65. Tomou o remédio gota a gota.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Com ou sem crase?

Dad Squarisi (*)

Muitas vezes, o uso da crase dá dor de cabeça. Vai aqui abaixo um teste com 65 questões sobre o emprego do sinalzinho indicativo de crase. O distinto leitor está convidado a examinar cada frase e anotar se o a (as) deve ou não receber acento grave. As respostas serão publicadas amanhã.

1. O governador vai a Santa Cruz domingo de manhã.

2. Tinha de agradecer muita coisa a muita gente.

3. Empregados domésticos têm direito a férias.

4. Convém esclarecer as mães solteiras de seus direitos.

5. Eis as notas promissórias correspondentes as duas últimas prestações.

6. O presidente compareceu a sessão solene de instalação dos trabalhos legislativos.

7. O sistema está parado desde as 15h30.

8. Não é essa a blusa a que me referia.

9. Estava a toa na vida.

10. Aquela pasta é igual a que comprei.

11. Fez prova semelhante a de Maria.

12. Ele pertence a uma academia com projeção nacional.

13. Não foi possível chegar a conclusão alguma.

14. Chegou a conclusão de que não valia a pena.

15. Conseguiu o emprego devido a suas qualidades.

16. A secretaria funcionará de segunda a quinta das 14h as 18h30.

17. Na faixa leste do estado, o tempo está sujeito a instabilidade passageira.

18. Ante as arremetidas dos opositores, o parlamentar se recolheu sem reação.

19. A declaração pode ser preenchida a lápis ou a tinta.

20. Considerando os difíceis processos apresentados, sente-se o comitê a vontade para expressar…

21. Dirigiu a S. Exª os agradecimentos da noite.

22. O expediente será das 8h as 10h.

23. Todo infrator está sujeito a punição.

24. A situação atual, dada a ignorância dos presentes, tende a piorar.

25. Fica prejudicado o contribuinte de rendas médias devido a percentagem de apenas 55%.

26. Não pude sair devido a falta de tempo.

27. A regra também se pode aplicar a frase de Irene.

28. A regra também se pode aplicar a esta frase.

29. Espera-se um futebol a brasileira.

30. Nas minhas férias fui a Manaus.

31. Reportou-se a Roma dos Césares.

32. Faço minhas orações a Nossa Senhora.

33. Rezei a Mãe de Deus.

34. É recomendável não dar confiança a mulher alheia.

35. Emprestei o livro a Teresinha.

36. Retornou a casa de Petrópolis.

37. No festival não se assistiu a nenhuma grande peça.

38. Disse gentilezas a você.

39. A fusão corresponde as expectativas do grupo.

40. Colocou o painel a direita do semáforo.

41. Para ter os direitos reconhecidos, recorreu a instância superior.

42. Quando quiser saber o sentido e a forma exata de uma palavra viva, vá as pessoas.

43. Fez referência a minha tia e a sua.

44. Dirigiu-se aqueles que até ontem eram seus pares.

45. Dirigiu-se as que pareciam suas amigas até ontem.

46. Eis a matéria a qual você se referia ontem.

47. Vou a casa buscar o agasalho.

48. Vou a casa de amigos buscar agasalhos.

49. Observe-a a distância, discretamente.

50. Observe-a discretamente a distância de uns 100 metros.

51. Curso de português a distância.

52. Não gosto de bife a milanesa.

53. Estava a ponto de bala.

54. Ufa! Reclama a toda hora.

55. É honesto a toda prova.

56. A medida que se acostuma no novo ambiente de trabalho, fica mais produtiva.

57. Paulo é a pessoa a quem você deve favores a beça.

58. Este é o homem a cuja filha você se referiu ontem.

59. A água inundou até a cozinha.

60. O marinheiro não está a bordo.

61. Não me refiro a Vossa Senhoria, mas a senhora que o acompanha.

62. Viram-se cara a cara.

63. Daqui a Esplanada são cinco minutos de carro.

64. Daqui a uma hora chegaremos a Brasília.

65. Tomou o remédio gota a gota.

Amanhã vêm as respostas!

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.