Maragancalha

José Horta Manzano

Que presidente esquisito, gente! Acabo de ver a foto do desfile do 7 de setembro. Abrindo o cortejo, vem o Rolls Royce presidencial, aquele que o Brasil recebeu de presente do Reino Unido 65 anos atrás. (Em matéria de antiguidade, o veículo está em competição com a carruagem da rainha.)

Para acompanhá-lo, doutor Bolsonaro não levou o vice-presidente, como seria de se esperar. Tampouco levou a esposa, cuja presença seria simpática e aceitável. Levou um dos filhos, aquele que é vereador e que o pai chama de pit bull, apelido que dá uma pista sobre os bons modos do moço.

Bolsonaro e seu ‘pit bull’ no carro oficial da Presidência

Freud deve poder explicar essa fixação do presidente em fazer-se respaldar pelo filho, como se a Presidência fosse negócio familiar onde gente de fora não é bem-vinda. O filho no lugar da esposa mostra que o negócio, além de familiar, tem de ser tratado entre homens. É clube onde mulher não entra, no mais puro estilo das máfias de cinema e da vida real.

Se eu estivesse no Brasil e quisesse sair à rua hoje, não saberia como me vestir. As cores foram todas acaparadas. Quem sair de verde, amarelo ou azul, cores da bandeira, será visto como bolsonarista. Quem preferir o vermelho será tachado de petista. Se usar preto, todos o tomarão por antibolsonarista. Pra não dar bandeira nem levar pedrada, sobrou o branco. Com o perdão de Iemanjá.

Eu vou pra Maracangalha, eu vou
Eu vou de ‘liforme’ branco, eu vou
Eu vou de chapéu de palha, eu vou
Eu vou convidar Anália, eu vou.

Versos do samba Maracangalha, que Dorival Caymmi lançou em 1956. A gravação original, na voz do autor, está aqui.

Fair play

José Horta Manzano

Tem coisas que, contando, ninguém acredita. Dia destes, um jogador de futebol paulista foi protagonista de episódio inusitado. Num lance controvertido, constatou que o árbitro estava sancionando um jogador do time adversário por uma falta não cometida. Sua consciência falou mais alto. Avisou ao juiz que a verdade não era bem aquela e que a penalidade era injusta. Como resultado, o árbitro anulou a sanção.

Não sou torcedor de time nenhum, muito pelo contrário. Tampouco acompanho evolução de campeonatos. Portanto, sinto-me à vontade para comentar sem paixões. Pelo que li, o gesto do jogador deixou os adversários atônitos e enfureceu os que torciam por seu time. Houve até esportistas que, entrevistados, não ousaram desaprovar abertamente a atitude e torceram o verbo para censurar de mansinho, sem dar muito na vista. É paradoxal.

Rodrigo Caio, o autor do gesto de fair play

O assunto do momento, que nos penetra até à medula, é a corrupção, fruto da desonestidade do pessoal do andar de cima. Faz anos que trambiques vêm sendo revelados, dia a dia, hora a hora. Prenderam este! Ahhhh, já era hora! Soltaram aquele! Ohhhhh, merecia continuar atrás das grades! E aquele lá, quando é que vai pra Curitiba?

Há quem diga que não ficaria triste se uma bomba atirada no Congresso eliminasse, de um golpe, toda a classe dirigente. Todos parecem acreditar que a salvação da lavoura e a redenção do país estão na honestidade de propósitos e de comportamento. No entanto… quando um gesto de lealdade vai contra nosso interesse pessoal, a coisa muda de figura.

Nada nem ninguém pode ser e não ser ao mesmo tempo. Ou ansiamos por viver num país honesto ou não estamos nem aí. Não se pode protestar de manhã ‒ de bandeira e camiseta amarela ‒ e desaprovar à tarde o comportamento honesto de um cidadão. Ainda que contrarie nosso interesse pessoal. É questão de coerência.

No fundo, honestidade está se tornando tão rara no país que, quando surge, choca. Estamos desacostumados.

Queremos ou não queremos?

José Horta Manzano

No Brasil, nos tempos da ditadura, era proibido protestar contra o regime. Desfile na Avenida Paulista? Impossível. Protesto na orla de Copacabana? Pior ainda. Passeata em qualquer capital do país? Nem pensar. Vez por outra, alguém até chegou a tentar. Deu um forrobodó dos diabos, com tumulto, presos e feridos. Não tinha jeito. Quem não estivesse de acordo com as condições nacionais tinha duas soluções: deixar o país ou… calar-se.

Hoje, depois de mais de três décadas de democracia e liberdade de expressão, a gente se acomodou. Brasileiros com menos de 40 ou 50 anos de idade não conheceram a repressão. Têm todos a impressão de que a atual paleta de liberdades é natural, permanente, inamovível, um direito adquirido. Reclamam contra as mazelas nacionais ‒ a corrupção generalizada em especial ‒ mas, na hora de demonstrar, negam fogo. Em vez de sair às ruas com faixa e bandeira, paramentados de camisa amarela e bonezinho, preferem refestelar-se diante do domingão da televisão.

Os russos são um povo que nunca conheceu um regime democrático. Passaram direto do absolutismo tzarista para a ditadura comunista e, de lá, para a opressivo arremedo de democracia atual. Em matéria de corrupção, o páreo é duro entre os grandes «emergentes». É difícil apontar o campeão. China, Rússia, Brasil? Fato é que a Rússia é membro importante do clube. A corrupção está presente em todos os escaninhos do Estado.

Como sabemos, Vladimir Putin encontrou um meio de se eternizar no poder. Esperto, soube manejar os instrumentos de cooptação à sua disposição. Há eleições periódicas, mas ele ganha sempre. Por bem ou por mal, em jogo limpo ou fraudado, o vencedor é sempre o mesmo. Acostumado há séculos a aguentar calado, o povo aceita esse estado de coisas.

Ontem, um sobressalto. Milhares de cidadãos decidiram manifestar descontentamento. Marcaram protesto nas ruas. O número de participantes foi estimado em sete mil pelas autoridades oficiais, o que indica que terá sido dez vezes superior. A reação do governo foi uma tremenda repressão, com direito a brucutu e pancadaria. A polícia desceu o pau, prendeu centenas de manifestantes ‒ entre eles, um candidato às próximas eleições presidenciais. O passar dos séculos não mudou o país. Só são admitidas duas categorias de cidadãos: os do sim e os do sim senhor.

O brasileiro não se tem mostrado à altura de ser governado por gente fina. Vota mal. Elege bandido. Não manifesta desagrado. Vota em palhaço e acha uma graça. Elege e reelege corrupto. Come mal, transporta-se mal, veste-se mal e acha que a vida é assim mesmo. Na hora de demonstrar desagrado, prefere ficar no sofá e deixar que outros carreguem o piano.

Pois quando a música tocar, é ele mesmo quem vai dançar.

A ficha ainda não caiu

José Horta Manzano

Faz alguns dias, à aproximação do 7 de setembro, assessores do Planalto saíram em busca da faixa presidencial. Afinal, o Dia da Independência é o feriado maior, comemorado com desfile, faixa e fita. O adereço tinha de estar pronto, limpo, passado a ferro e tinindo para paramentar o presidente.

Faixa presidencialA faixa foi encontrada, mas o broche que completa o conjunto ‒ feito de ouro e diamantes ‒ tinha desaparecido. Parece que não é a primeira vez que objeto precioso desaparece nas dependências do Planalto. Ah, essas faxineiras…

A mídia divulgou o sumiço. Diante do compreensível escândalo que o “extravio” provocou, o broche, reapareceu rápida e miraculosamente. O objeto simplesmente repousava em berço plácido, bem debaixo de um armário que ‒ veja que coincidência! ‒ não via vassoura havia anos. Tinha caído e ninguém se tinha dado conta. Ah, esses distraídos…

Chegou o grande dia, faixa pronta, revigorada, aprumada, engomada e com o devido broche. E o que é que se vê? Um presidente que se apresenta na tribuna de honra como um civil qualquer, sem o símbolo tradicional.

desfile-7-setembro-5Concedo que o adereço não passa de um pedaço de seda, mas, diabos, é símbolo da nação. Nas grandes cerimônias, todo cacique usa o devido cocar. Até a rainha da Inglaterra, nas grandes horas, vem de manto e coroa. Senhor Temer houve por bem deixar a faixa em casa. Talvez tivesse receio de que o broche lhe fosse surrupiado. No Brasil, nunca se sabe.

Assim mesmo, teria valido a pena correr o risco. Ficou a desagradável impressão de que nem o próprio presidente respeita a autoridade de que está investido. A ficha ainda não caiu, o que é mau sinal.

Desfile chocho

José Horta Manzano

Por morar um bocado longe, não pude assistir aos desfiles do 7 de setembro. Mas vi as imagens – as fotos, pra ser mais exato. A parada de Brasília me pareceu chocha, murchinha, desencantada, sem público, sem calor, sem entusiasmo.

Onde está o público, gente?

Onde está o público, gente?

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Entusiasmo "espontâneo" só mesmo na tribuna da torcida organizada

Entusiasmo “espontâneo” só mesmo na tribuna da torcida organizada

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Na falta de faixa presidencial, sr. Wagner ostentou a condecoração da Ordem do Mérito da Defesa

Na falta de faixa presidencial, sr. Wagner ostentou a condecoração da Ordem do Mérito da Defesa. Questão de elegância.

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Plateia do 14 de julho, Paris

Plateia de um 14 de julho, Paris

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Plateia do 14 de Julho, Paris

Plateia de um 14 de Julho, Paris

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Mamãe, eu quero

Monica Pinheiro (*)

Carnaval 5Mamãe, eu quero. Neste carnaval eu vou é me acabar. Não adianta vir com mimimi nem quaquaquá, porque ninguém me segura. Vou sair num bloco aí qualquer. As ruas do Rio de Janeiro estão cheias deles. Só preciso escolher um. Mas qual?

Pego o jornal e percorro com os olhos a lista interminável de blocos, todos devidamente aprovados, com dia, hora e trajeto bem definidos pela prefeitura. Brasileiro é bom nisso. Quando os homens resolvem trabalhar, fazem tudo direitinho e com bastante antecedência. Primeiro, organizam a bagunça. Depois, deixam a turma se esbaldar na esbórnia triunfal. Mamãe, eu também quero!

Mas agora tenho que me concentrar na minha escolha. Qual será o bloco que mais tem a ver comigo neste carnaval? São tantas as opções! Decido escolher pelo nome. Vamos lá.

Carnaval 6Logo de início, o que mais me chama a atenção é a vulgaridade dos nomes estilo Zorra Total: Perereka sem Dono, Cutucano Atrás, É Mole Mas Estica, É Pequeno Mas Vai Crescer, Balança Meu Catete, Encosta Que Ele Cresce, Rola Preguiçosa Tarda Mas Não Falha. No começo, até acho graça. Mas são tantos os blocos com nomes desse tipo que, de repente, tudo me parece repetitivo, cansado. Nomes que antes me pareciam supercriativos passam a ser tão estimulantes quanto um copo de cerveja choca.

Nomes menos apelativos mas com senso de humor quase infantil me fazem rir mais: Virilha de Minhoca, Puxa Que É Peruca, Nunca Mais Bebo Ontem e Me Beija Que Sou Cineasta.

Volto a examinar a lista. Acho simpáticos os blocos que escolhem nomes para homenagear seus próprios bairros, como o Eu Choro Curto Mas Rio Comprido e o Largo do Machado Mas Não Largo da Cerveja. Só que eu não moro nem lá, nem cá. Preciso de uma identificação maior com o meu bloco. Continuo a busca.

Vejo que lá em Bangu tem um bloco cujo nome traduz uma humildade inexplicável: Meia Dúzia de Gatos Pingados. Tô fora. No Humaitá, batizaram um bloco com um nome que não parece prometer grande coisa: Bloco de Segunda. OK, entendi, o bloco sai na segunda-feira de carnaval. Mas, mesmo assim, acho o nome meio desanimado. Se eu for lá e não gostar, a turma da rua Marques pode até rir da minha ingenuidade e me dizer: “A gente bem que te avisou!”.

Carnaval 1Nomes menos inspirados que esses são os da “categoria hospitalar”. Sim, por incrível que pareça, eles existem! Em Campo Grande, criaram um bloco chamado Geriatria e Pediatria. Por mais que me garantam que este seja um bloco animadíssimo, prefiro não pagar para ver. E a Banda dos Inválidos, que sai na Lapa? Sei não, acho que preferiria engrossar as fileiras solidárias do Senta que Eu Empurro, que desfila no mesmo dia no Catete.

Carnaval 4Alguns nomes são até poéticos, como o Céu na Terra de Santa Teresa. E tem também aquele bloco do Leblon que inovou em grande estilo, substituindo a exaltação dos prazeres carnais pela mineralidade de um só nome, très minimalista-chic: Areia. Mas nenhum desses nomes conseguiu me cativar este ano.

Confesso que tenho uma queda pelos blocos que homenageiam com singeleza os velhos tempos do carnaval carioca. É o caso do Cordão do Boitatá, Maracangalha e Gigantes da Lira. Também sempre gostei de nomes ingenuamente convidativos, como Simpatia É Quase Amor, Só Falta Você! e Acorda e Vem Brincar.

Mas neste começo de 2015 tenho que encarar a realidade que nos cerca. Sinceramente, não me sinto muito para brincadeira, amor ou simpatia. Quero mais, mamãe.

Carnaval 3Enfim decido concentrar minha escolha em alguns blocos que selecionei para integrar aquilo que resolvi chamar de “categoria política”. Os nomes me fascinam: Tamo Junto In Folia, Desliza na Justiça, Fogo na Cueca. Poucos me dizem tanto quanto o Nem Muda Nem Sai de Cima.

Finalmente, sem maiores folias, elejo o meu bloco – aquele cujo nome mais bem reflete o estado de espírito em que me encontro neste fevereiro. É o Ai, que vergonha! Assim mesmo, com ponto de exclamação e tudo. O bloco da comunidade da Rocinha desfila dia 21 na praia de São Conrado, com seus mil integrantes. É pra lá que eu vou, mamãe. Preciso soltar o grito que está preso na minha garganta no meio da multidão.

(*) Monica Pinheiro é jornalista. Edita e anima o Blog da Monipin.

Perigo à vista

José Horta Manzano

As coisas vão mal em Brasília. Deputados se escondem atrás do anonimato do voto secreto para dar apoio a colegas criminosos. Enquanto isso, a presidente e seus áulicos, acuados por suas repetidas trapalhadas, se escondem do povo, com medo de apupos.

Artigo do Correio Braziliense de 29 de agosto nos dá conta de que as manifestações de junho abalaram mais do que se imagina. A maioria que nos governa há mais de dez anos, acostumada a arrancar aplausos e a colher vivas por toda parte, está sendo obrigada a rever sua estratégia. Os tempos estão mudando rapidamente.

As festividades de 7 de setembro, a data maior, estão aí na esquina. Por um lado, lembrarão aos distraídos que nosso País se emancipou de Portugal em 1822 e tornou-se soberano. Oficialmente, pelo menos.

Por outro lado, os festejos deixarão patente a fragilidade dos que achavam que tudo estava dominado, que estavam por cima da carne seca.

7 de setembro ― preparação Crédito: Correio Braziliense

7 de setembro em Brasília ― preparação
Crédito: Correio Braziliense

Em outras plagas, aparição pública de figurões causa suor frio nos encarregados da segurança. O pavor maior é o de um atentado, de uma bomba, de uma bala disparada por um franco-atirador. É compreensível.

Assim como Júlio César, Dom Carlos de Portugal, John Kennedy e Anuar El-Sadat, muitos mandatários já perderam a vida quando de uma aparição em público. Sem contar os que passaram rente à catástrofe e sobreviveram, como De Gaulle, o papa João Paulo II, Jacques Chirac e outros.

Mas… em nossas terras tropicais, tem disso não! O medo aqui é outro, minha gente. Nossos mandachuvas têm medo mesmo é de povo. Tantas aprontam, que começam a suar frio só de pensar em encarar uma multidão.

Nos bastidores ou diante de uma seleta assembleia de correligionários, político brasileiro se solta, conta bravatas, esbraveja, acusa, se autoexalta, faz o diabo. Já quando tem de enfrentar povo de verdade, só falta fazer cocô nas calças. Uma sonora vaia machuca o ego. Quanto mais alto é o coqueiro, mais forte é o tombo. Quanto mais inflado é o ego, maior pungente é a dor.