A contabilidade da epidemia

José Horta Manzano

Até a presente data, os três países que contabilizam maior número de mortos por covid-19 são, na ordem: os EUA, o Brasil e o Reino Unido. Não há como escapar à evidência de serem exatamente aqueles cujos dirigentes ousaram fazer pouco-caso da epidemia. E fizeram isso publicamente.

No começo da onda de contágio, escorregaram os mandatários dos três países. Jair Messias rotulou a doença de ‘gripezinha’ e mandou que todos saíssem às ruas. O inglês Boris Johnson declarou que não via problema em “continuar a apertar muitas mãos” como sempre tinha feito. Por seu lado, Donald Trump deu de ombros e afirmou que os melhores cientistas do mundo eram americanos, e que logo encontrariam um remédio.

Deu tudo errado. O inglês apanhou a doença, foi pra UTI e faltou pouco pra bater de dez e sair de pé junto. O americano anda contrariado por ver que seu país é campeão de mortos por covid-19, fato que hipoteca sua reeleição. Jair Messias, embora não confesse, parece que também apanhou a doença. Ele se safou, mas 40 mil compatriotas seus não tiveram a mesma sorte; são eles que deixam o Brasil na lista incômoda dos países onde a curva de contágio não quer achatar de jeito nenhum.

Países que tiveram a bênção de contar com dirigentes esclarecidos já estão saindo da fase aguda da epidemia. Ao verem desempinar a curva, estão desconfinando e voltando à rotina. Já os que tiveram o azar de serem comandados por mandatário obtuso ainda estão contando mortos aos milhares. Nada acontece por acaso.

The Pixuleco

José Horta Manzano

Mr. Donald Trump está sendo esperado em Londres esta segunda-feira. A metade da população inglesa que não quer o Brexit e que não aprecia o jeitão ‘rolo compressor’ do visitante preparou-lhe uma recepção colorida. Inspirados no boneco que reproduz o Lula, inventaram The Pixuleco – a versão britânica do original brasileiro. É um very big balão inflável representando o presidente americano de fralda e topete. Inglês tem senso de humor.

Perfeitamente dentro de seu estilo tosco e brutal, mister Trump tuitou hoje de manhã que gostaria que Boris Johnson, político que já foi prefeito de Londres, assumisse o lugar de primeiro-ministro, em substituição à demissionária Theresa May. O presidente americano é useiro e vezeiro nesse tipo de intromissão em assuntos de outros países, atitude reprovada pela ética internacional.

“The Pixuleco”, o boneco inglês prontinho para homenagear Donald Trump.

O clã que nos dirige já agiu assim. O pai fez isso recentemente ao exprimir publicamente o desejo de que doña Cristina Kirchner não seja eleita nem para a presidência nem para a vice-presidência da Argentina. Quanto ao filho, aquele que funciona como ministro de Relações Exteriores bis, já apareceu em público, nos EUA, com o boné ‘Trump 2020’ enfiado no cocuruto.

Com isso, igualam-se a Trump em prepotência e descortesia. Só que tem um detalhe importantíssimo. Trump dirige o país mais poderoso do planeta, diante do qual os demais dão um reverente passo atrás. As patadas de mister president podem criar antipatia mas não prejudicam os negócios do Estado. Já os Bolsonaros não têm o mesmo poder. Se os EUA têm músculos pra aguentar a volta do bumerangue, o Brasil não tem.

Mas celebremos, irmãos! Para orgulho da raça, saibam todos que já estamos exportando gigantescos bonecos infláveis, uma genuína criação do engenho nacional. Bom mesmo seria se conseguíssemos exportar a corrupção que deu origem ao boneco. Que fosse inteirinha mandada para além-mar e não voltasse mais.