Há um benefício óbvio em seguir regras: a economia de energia. Seja energia física, mental ou emocional, não é preciso fazer nenhum esforço de adaptação quando se obedece incondicionalmente aos procedimentos exigidos pelas normas. Quando, por exemplo, lhe ensinam na infância que 2+2=4 e você decora a regra, não precisa mais contar nos dedos nem recorrer a uma tabela de adição para saber a resposta. Em termos psicológicos, a conformidade com as regras gera uma forte sensação de segurança e pertencimento, além de trazer outras importantes gratificações: a pessoa que adere voluntariamente a elas tende a ser vista socialmente como uma pessoa honesta, justa e moralmente correta.
No entanto, a observância estrita das regras traz consigo um efeito paradoxal: a estagnação do conhecimento, a cristalização de condutas e o fechamento mental para a mudança. E, como todos sabem desde Darwin, a sobrevivência não está atrelada ao mais forte, mas à flexibilidade para se adaptar às mudanças. Ora, para que a ciência avance e traga inovações consideráveis é muitas vezes necessário quebrar os paradigmas. A teoria da relatividade de Einstein não seria viável caso fossem respeitados rigorosamente os critérios de base da física newtoniana. A IA só se tornou possível quando se permitiu que a máquina deixasse de dar simples feedback mecânico e passasse a processar os dados do sistema como um todo, com o objetivo de aprender, prever e tomar decisões autônomas diante de novas situações.
Desobedecer às regras, por outro lado, é sempre uma atitude de risco. Se não se assumem consciente e voluntariamente as consequências do investimento em desvios do padrão, o resultado pode ser dramático. No trânsito, desrespeitar o sinal vermelho, ultrapassar em locais proibidos ou dirigir acima da velocidade permitida são atitudes quase sempre letais. Na área de costumes, a quebra de paradigmas costuma cobrar um preço psicológico bastante pesado. Que o digam os que ousaram desafiar o padrão patriarcal, ariano, cristão fundamentalista e heteronormativo de nossas sociedades. Isso não significa, entretanto, que racistas, misóginos, homo/transfóbicos, capacitistas, etaristas e quejandos possam dormir o sono dos justos eternamente sem serem incomodados: ou abrem mão voluntariamente de seus anéis ou perigam perder os dedos na roda-viva da intolerância.
Já dizia Heráclito que é impossível banhar-se duas vezes no mesmo rio. A mudança é permanente e quem resiste a ela acaba perdendo o bonde da história. Freud deixou claro que as normas sociais são mecanismos de repressão de pulsões primitivas, necessários sim para viabilizar a vida em comunidade, mas por isso mesmo geradoras de mal-estar e infelicidade. Viktor Frankl expressou de diversas formas em seus livros a crença de que o comportamento humano não deve ser ditado por imposições externas e que a conduta correta nasce da consciência moral individual e de uma ética de responsabilidade: “Tudo pode ser tirado de uma pessoa, exceto a última das liberdades humanas: a liberdade de escolher sua atitude em qualquer circunstância da vida”.
Apesar de tantas evidências de que regras existem para serem questionadas e eventualmente quebradas, temos assistido ultimamente a um verdadeiro festival de pressões para retorno a regras de conduta dignas dos tempos bíblicos. Em pleno século 21, ainda me deixam perplexa reivindicações como submissão da mulher ao marido, substituição do voto feminino individual por voto familiar, rejeição ao aborto mesmo nas condições já aprovadas legalmente, abolição das aulas de educação sexual nas escolas, educação centrada em escolas cívico-militares ou em homeschooling, de forma a preservar os valores da família, e por aí vai.
Tenho pensado muito a esse respeito. Inevitável me perguntar das motivações para essa fúria fundamentalista e abertamente antifeminista. Estaríamos vivendo os estertores finais do patriarcado? Tudo leva a crer que sim. A reação violenta ao enfraquecimento do sistema estrutural de dominação masculina pode ser percebida não só no recorde assustador de casos de feminicídio e violência contra a mulher, mas também na oposição mal disfarçada a pautas como salário igual para homens e mulheres na mesma função, desconforto e insubmissão a mulheres em posição de liderança, rejeição à equiparação de mulheres trans ao gênero feminino e oposição ferrenha a novas formas de equidade e justiça social.
Quando os combustíveis da religião patriarcal e da política oligárquica se unem, a fogueira da caça às bruxas se expande, atingindo todas as demais formas de diferença ideológica e social. A multiplicação de grupos Incel/ Red Pill e o crescimento de grupos de orientação nazista deixam escapar o medo de que o padrão ariano, cristão fundamentalista e heteronormativo esteja à beira da extinção. À pressão de grupos evangélicos pelo conservadorismo nos costumes somou-se na última eleição presidencial a ojeriza a grupos políticos de esquerda, ainda que o fantasma do “comunismo” já não assombre mais ninguém e tenha se transformado numa caricata e triste fantasia de Halloween.
Conceitos que ainda mobilizam milhões – como Deus, pátria, família, liberdade, democracia, estado de direito, autoridade e que tais – vão se transfigurando a cada dia, não passam de palavras “ditas por um idiota, cheias de som e fúria, que não significam nada”. Então, cabe se perguntar: a que – e a quem – se destinam as regras? E, como forma temporária de resposta, concluo: as regras são referências a serem filtradas pelo pensamento crítico de cada um. Adote-as ou deixe-as a cargo de quem ainda precisa delas.
Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

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