A gente lamentamos

José Horta Manzano

«A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo o mundo».

A edição impressa da Folha de São Paulo traz na capa desta quarta-feira as palavras que doutor Bolsonaro dirigiu ontem a uma apoiadora. A curta frase dá ensejo a três reflexões.

Impiedade
Mais uma vez, fica confirmada a ausência de compaixão do presidente. Aquele “mas” inserido entre as orações é terrível: ele anula a primeira parte da fala e transforma o lamento do capitão em pronunciamento burocrático saído da boca de um espírito seco. Mal comparando, faz lembrar o General Figueiredo, último presidente militar, que preferia a companhia de cavalos à do povo. Mas há uma diferença. Doutor Bolsonaro, como não é general, dispensou os cavalos e preferiu cercar-se de burros.

Correio Braziliense
Capa da edição impressa – 3 jun 2020

Poltronice
O doutor não tem a coragem dos próprios posicionamentos; esconde-se atrás de um ruborizado “a gente” em vez de se apresentar peito aberto com um sonoro “eu”.

Déficit de inteligência
Depois de a pandemia ter derrubado crenças e certezas através do globo, o doutor continua a tratá-la como se fosse assunto menor, sem importância. Mostra que ainda não entendeu a gravidade do momento mundial. Não consegue se dar conta de que, nos futuros relatos da história do Brasil, seu mandato estará irremediavelmente ligado à covid-19 e seu nome ecoará como o de um Nero que soprou nas brasas da discórdia nacional. Para todo o sempre, já está marcado.