Quem bebe soviete não repete

Fernão Lara Mesquita (*)

Segundo dona Dilma, «Os casos da Venezuela e da Ucrânia são absolutamente díspares».

GrapetteSem dúvida nenhuma.

A Venezuela quer sair de qualquer jeito de onde a Ucrânia já esteve e a Ucrânia não quer voltar de jeito nenhum para onde a Venezuela está, nem por todas as «conquistas sociais» do bolivarianismo que fazem a nossa presidente continuar hesitando no meio do tiroteio e dos corpos caindo. Conquistas multiplicadas por mil.

Vamos esperar que ela não dê uma de Vladimir Putin escondendo o Yanucovitch dos venezuelanos quando o povo de lá se livrar dele.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista. Edita o site http://vespeiro.com/

Como desvirtuar um símbolo

José Horta Manzano

Será certamente por ignorância, não vejo outra explicação. O dito «gesto de Lenin», braço levantado com punho cerrado, tem-se demonstrado útil em muitíssimas ocasiões. Como aquela famosa palha de aço, tem 1001 utilidades.

A recrudescência de gente fazendo esse gesto é sinal de nossos tempos, pelo menos no Brasil e nos demais países sul-americanos.

Por um lado, mostra a ignorância histórica dos que ensaiam toscamente imitar o pai da Revolução Russa.

Por outro, revelam feio significado que se esconde atrás do símbolo. Explico.

Mão aberta, em qualquer cultura, indica generosidade, dádiva, acolhida, saudação. Mão fechada, em qualquer agrupamento humano, é sinal de avareza, de mesquinhez, de egoísmo, de amor a seus próprios interesses em detrimento das necessidades do próximo.

É a cara de nossos líderes atuais. E dos que pretendem tomar seu lugar.

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Vladimir Ilitch Lenin, o professor

Vladimir Ilitch Lenin, o original

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Dolores Ibarruri, la Pasionaria "Más vale morir de pié que vivir de rodillas"

Dolores Ibarruri, la Pasionaria
“Más vale morir de pié que vivir de rodillas”

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Lula de punho em riste ― 2013

Um imitador flagrado em 2013

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Dirceu: braço direito Crédito: Agência Estado

Dois imitadores tupiniquins
Crédito: Agência Estado

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Nicolás Maduro, o opressor

Nicolás Maduro, um imitador vizinho nosso

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Leopoldo López, o oprimido

Leopoldo López, o imitador que pretende derrubar o personagem retratado logo acima

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Venezuela: o resultado

O resultado da soma de ignorância com má-fé

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Lavoisier

José Horta Manzano

«Rien ne se perd, rien ne se crée, tout se transforme». Costuma-se atribuir a Antoine Laurent de Lavoisier, cientista parisiense do séc. XVIII, a adaptação francesa de máxima formulada, mais de um milênio antes dele, pelo filósofo grego Anaxágoras.

Seja como for, taí uma verdade incontestável: nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Protestos já havia na Grécia conturbada de Anaxágoras e na França pra lá de tumultuada de Lavoisier. Há que lembrar que o infeliz químico francês terminou seus dias na guilhotina.

Dado que é impossível satisfazer a todos, descontentamento sempre houve e sempre haverá. O que muda, eventualmente, é a maneira de exprimir desagrado. Pode ir de uma praga rogada em silêncio até um golpe de Estado com exército e canhões.

O Brasil anda meio pasmo com a ressurgência de manifestações de protesto. É compreensível. Os que hoje travam batalha contra policiais não haviam nascido quando as últimas manifestações vigorosas tiveram lugar no Brasil, no fim da Era Collor.

Passeatas que degeneram estão longe de ser particularidade brasileira. Como prova, estão aí as atualíssimas manifestações populares venezuelanas, bem mais mortíferas que as tupiniquins.

Até a pacífica Suíça ― espante-se o senhor e a senhora ― tem escaramuças episódicas. As últimas aconteceram em novembro de 2009. Foi quando o bando autodenominado «Black Blocs» decidiu promover manifesto, em Genebra, contra a OMC.

Genebra, 28 nov° 2009 Quebra-quebra promovido por blocos pretos

Genebra, 28 nov° 2009
Quebra-quebra promovido por “blocos pretos”   –   Clique sobre a imagem para assistir

Acho curioso que quadrilhas protestem contra a Organização Mundial do Comércio, um fórum onde o mundo se reúne justamente para dialogar. Que se combatam decisões autoritárias, posso entender. Hostilizar concertações civilizadas parece-me despropositado. Mas assim acontece, infelizmente.

No sábado 28 nov° 2009, Genebra assistiu a cenas de deixar qualquer integrante do bloco preto brasileiro babando de inveja. Que clique aqui quem quiser ter uma ideia do que aconteceu aquele dia.

E sabem qual foi a consequência? Nenhuma, absolutamente nenhuma! A OMC continua lá fazendo o que sempre fez. Se eu fosse integrante de algum bloco preto, me sentiria desapontado. A não ser…

… a não ser que estejam fazendo arruaça pelo simples prazer de fazer arruaça. Sei não, algo me diz que a hipótese da bagunça pela bagunça não está longe da verdade.

Dona Dilma foi a Cuba

José Horta Manzano

Depois de visitar a rica Suíça, dona Dilma dá mais uma prova de sua largueza de espírito. Antes de regressar ao Brasil remediado, passeia sua simpatia pela miserável ilha dos Castros. Vai inaugurar um porto marítimo.

A modernização do Puerto de Mariel, principal porta de escoamento da produção de Cuba, está sendo levada a cabo por uma grande empresa brasileira de construção pesada.

Do custo total de um bilhão de dólares(!), mais de 70% estão sendo financiados pelo BNDES, o brasileiro Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

Ao bancar essa obra de infraestrutura, a estratégia confessada do governo brasileiro é dotar Cuba de uma moderna porta de saída marítima de maneira a permitir que indústrias brasileiras se instalem na ilha e explorem o baixo custo da mão de obra local.

Enxergo, nesse empreendimento, três contradições e uma ilusão. Vamos por partes.

Dilma Rousseff & Raúl Castro Crédito: Reuters

Dilma Rousseff & Raúl Castro
Crédito: Reuters

Primeira contradição
O banco de fomento criado pelo governo brasileiro em 1952 nasceu como BNDE. Nos anos 70, suas atividades passaram a se preocupar com o social. E o S foi acrescentado.

Para um banco cujo objetivo declarado é promover o desenvolvimento econômico e social, financiar o «aproveitamento» de mão de obra semiescrava de infelizes cubanos é, no mínimo, vergonhoso. E contraditório.

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Segunda contradição
O BNDES é sustentado com nossos impostos. Espera-se que essa sacola comum reverta em benefício de nosso povo. Financiamento de projetos em solo estrangeiro são admissíveis desde que provoquem exportação de produtos brasileiros. Não é o caso do custeio do porto cubano. Não há, em princípio, exportação de produtos nossos. A mão de obra é local. O principal beneficiário — se não o único — é o empresário financiado com nosso pecúlio. É contraditório.

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Terceira contradição
É curioso financiar a contratação de mão de obra estrangeira para trabalhar fora do território nacional. E o trabalhador brasileiro como é que fica? Sem trabalho? Pendurado numa bolsa qualquer? Melhor seria utilizar esse bilhão de dólares para financiar nossa própria infraestrutura, que anda bem necessitada. Consertar o dos outros e deixar o nosso ao deus-dará é contraditório.

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A ilusão
Enganam-se aqueles que imaginam que o regime ditatorial cubano vai durar pela eternidade. Mais dia, menos dia, cai. Se a União Soviética desapareceu um dia, não é a ilha dos Castros que vai permanecer para mostrar ao mundo o caminho de um futuro radioso. Aí vai chegar a hora do vamos ver.

O povo cubano não há de guardar gratidão eterna àqueles que tiverem sustentado sua interminável ditadura. É mais que provável que Venezuela e Brasil não sejam idolatrados por aquelas bandas. Por outro lado, Cuba tem ligação visceral com seu vizinho de parede, os EUA. No dia em que a ditadura se for, vão-se jogar nos braços do grande irmão do Norte. Pode apostar.

Imaginar que o Brasil venha a ser benquisto por ter contribuído a manter em vida a dinastia dos revolucionários é tolice. Uma doce ilusão.

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E pensar que tudo isso está sendo feito com nosso dinheiro. Que desperdício!

Frase do dia — 91

«En el último año un promedio de tres mil cubanos, en su mayoría médicos, llegaron a Estados Unidos desertando de los distintos programas sociales que ejecutan en Venezuela, lo que representa un incremento de 60% con respecto a 2012.»

Frank López Ballesteros in El Universal, jornal diário de Caracas, Venezuela.

Frase do dia — 81

«(…) A atual conjuntura sugere que o Brasil está se tornando uma Argentina, a Argentina está virando uma Venezuela, e a Venezuela já é quase um Zimbábue.»

Editorial do Estadão de 17 jan° 2014.

Frase do dia — 75

«Se houve um tema predominante na América Latina em 2013, foi o naufrágio das ilusões óticas. Da guerra às drogas no México, que matou 60 mil e segue sem trégua, ao Mercosul, que se encorpou com a entrada da Venezuela e definhou como pacto de integração regional, o ano velho foi-se e levou a soberba.»

Mac Margolis, em sua coluna publicada no Estadão, 5 jan° 2014

Frase do dia — 63

«Ao propor a fundação da Alba, Chávez disse que a integração latino-americana por ele projetada era vital: “Ou nos unimos ou afundaremos”. Pelo visto, os países bolivarianos estão se afastando da Venezuela justamente para evitar esse abraço dos afogados.»

A fonte chavista secou, editorial do Estadão, 27 dez° 2013

Vivo ou morto

José Horta Manzano

Mais do que regrinhas de acentuação ou de hifenização ― que mudam da noite pro dia e cuja lógica nem sempre é evidente ― dou grande valor à adequação vocabular. Encontrar o termo mais adaptado a cada contexto demanda um pouco de esforço. Na oralidade, não tem jeito: como não há tempo para pensar, cada um usa a palavra que lhe vem à cabeça. Na escrita, é outra coisa.

Em artigo deste 7 de dez°, o Estadão nos brinda com este período um tanto claudicante(*):

«A presidente Dilma Rousseff decidiu convidar os ex-presidentes brasileiros vivos para acompanhá-la em viagem a Johannesburgo, onde será celebrada uma missa em homenagem ao líder sul-africano Nelson Mandela, morto quinta-feira após uma infecção pulmonar.»

Tenho 4 reparos a fazer:

1) Vivos
Ex-presidentes vivos? A formulação não é das mais felizes. Não estamos na Venezuela, onde presidentes mortos continuam a se manifestar sob forma de pajaritos. O que é evidente dispensa ser explicitado. Dona Dilma só poderia convidar o vivos. Podia até ter-se limitado a levar seu padrinho a tiracolo, mas ia pegar mal. Para não fazer feio, estendeu a carona aos outros. Excluiu os mortos, naturalmente.

2) Homenagem
Dizer que uma missa será rezada «em homenagem» a um defunto soa estranho. Salva de palmas, bandeira a meio pau, minuto de silêncio são homenagens. Missa, não. Tradicionalmente, missas são ditas (ou rezadas) em intenção de um falecido ou pelo sufrágio de sua alma. Se se fizer questão de manter o termo “homenagem”, melhor será dizer que os presentes assistirão a uma missa incluída no programa de homenagens ao defunto.

3) Morto
O artigo diz : «(…) Nelson Mandela, morto quinta-feira (…)». Sem dúvida, o homem morreu. Tecnicamente, a frase está perfeita. Mas ― convenhamos ― para um ancião que morreu de velhice, a palavra é um tanto crua. Melhor substituir morto por uma expressão mais suave, como falecido, desaparecido, que se extinguiu, que nos deixou, que expirou, que se foi.

4) Após
«Morto após uma infecção pulmonar» ― diz o texto. Não tive acesso ao boletim médico, muito menos ao atestado de óbito. Mas é permitido supor que a causa mortis tenha sido exatamente a infecção pulmonar. Portanto, Mandela não morreu após a doença. Morreu de ou por causa dela.

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Reescrito com mais apuro, o período fica assim:

A presidente Dilma Rousseff decidiu convidar os ex-presidentes brasileiros para acompanhá-la a Johannesburgo, onde será celebrada missa em intenção do líder sul-africano Nelson Mandela, falecido quinta-feira de infecção pulmonar.

Fica mais arejado, não acham?

(*) Claudicante é a forma politicamente correta para manquitola, coxo, manco.

Bye, bye, Paraguai

Fernão Lara Mesquita (*)

Outro dia foi a China que anunciou que está saindo de onde o PT quer entrar. Na semana passada, quem diria, quem passou por nós na contramão e dando adeus às Venezuelas e às Cubas dos sonhos do PT foi o Paraguai que, na quinta-feira 28, acabou com a imunidade parlamentar dos seus senadores ― ou melhor, com aquela parcela dela que é abusiva e antidemocrática ― depois de duas semanas de rebelião aberta contra a decisão anterior, do dia 14, quando 23 dos colegas do senador punido votaram a favor da sua permanência impune no Senado.

Victor Bogado, do Partido Colorado, tinha a babá de seus filhos ganhando dois salários ― um pela Câmara dos Deputados e outro pela Itaipu Binacional ― e foi um dos primeiros a ter seus podres publicados no novo site da internet criado pelo presidente Horácio Cartes, do seu próprio partido, para prestar contas sobre gastos públicos e dar transparência ao que se passa dentro do governo.

Pouco depois da votação espúria, um dos parlamentares que votou pela impunidade do senador alegando a imunidade parlamentar entrou numa pizzaria para jantar. Foi o estopim. Ele foi expulso sob vaias e palavrões e, por pouco, não foi agredido pelo público.

Daí por diante foi como uma epidemia. Restaurantes, bares, comércios, shopping centers e até estádios de futebol e hospitais (estes abrindo exceções só para emergências) começaram a pôr cartazes na porta anunciando «não atendemos ratos neste estabelecimento». A única exceção foi uma funerária que pôs anúncios nos jornais dizendo que receberia qualquer um dos traidores «com todo o prazer».

O povo montou uma vigília na frente do Congresso e um site foi aberto na internet com fotos dos 23 traíras e acompanhamento diário dos seus passos. Em duas semanas nova votação foi convocada, a imunidade do senador caiu e ele foi cassado.

Nesse meio tempo, Genoino ia para casa e José Dirceu passava a ganhar 20 mil reais por mês para conspirar contra a democracia brasileira do jeito a que já está acostumado, enquanto todos os partidos de algum peso fechavam as portas para a admissão de Joaquim Barbosa como candidato em 2014.

O Paraguai esteve 35 anos sob a ditadura de Alfredo Stroessner, 14 anos a mais que os nossos ditos «anos de chumbo». O país nunca experimentou nada que lembrasse remotamente uma democracia digna desse nome. E, no entanto, taí respirando ar fresco graças às novas condições de circulação da informação e à articulação da resistência civil.

E o Brasil?
Algo de muito semelhante ocorreu aqui no mês de junho deste ano. Mesmo com todo o marasmo em que vive a nossa política, bastou que alguém agitasse uma bandeira ― no caso o STF com as condenações do Mensalão ― e o povo se levantou com força suficiente para pôr o «Sistema» em pânico.

Mas nenhuma força organizada deu sequência ao movimento, o que ensejou que os profissionais do golpe armassem a sequência de quebra-quebras que tirou a gente séria das ruas.

Se tivesse havido uma única voz disposta a puxar a fila, ela teria seguido andando. Mas você pode virar e revirar os nossos 32 partidos «de esquerda», inclusive os «de oposição» e seus milhares de candidatos; pode ver e rever o horário eleitoral e não encontrará rigorosamente nada que escape daquela tapeação vergonhosa que conhecemos, ofensiva à nossa inteligência, de tão rasa e explícita.

Pior: você pode revirar todos os jornais, ouvir todas as rádios, ver todos os programas jornalísticos da TV, e nada que não seja esses mesmos candidatos e o que uns estão dizendo sobre os outros lhe será apresentado. Haverá até quem afirme gostar e quem afirme não gostar deste ou daquele. Mas sugestão nova, propostas, reportagens sobre modos diferentes de gerir a coisa pública ou informações sobre como os outros que dão certo estão fazendo, zero! Mesmo os acontecimentos do Paraguai tiveram uma cobertura menor que um reles desastre de trem em Nova York.

Não há exemplo histórico de processos como o brasileiro que tenham sido revertidos senão por dois tipos de expediente: uma iniciativa forte do Poder Judiciário ou a articulação de propostas novas e de campanhas, protagonizadas pela imprensa, para levá-las a efeito. Ou então essas duas coisas junto.

O voto distrital com recall foi uma das propostas que nasceram assim e têm currículo mais brilhante no rol das revoluções pacíficas da humanidade. Tem mudado mundos e fundos nos dois últimos séculos e está aí esperando quem a leve adiante para mudar o Brasil.

Mas, até agora, a única figura institucionalmente forte que vi pregar esse remédio no Brasil foi ― adivinhe! ― o ministro Joaquim Barbosa. Aquele que, pela primeira vez em nossa história, pôs essa bandidagem da porta da prisão para dentro, ainda que tenha sido impedido de trancá-la.

Aécio Neves, esse alegre candidato «de oposição» em busca de um discurso, é um que, se adotasse esta proposta, correria o sério risco de ter, pela primeira vez na vida, alguma coisa a dizer que valesse a pena ser ouvida.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista. Edita o site http://vespeiro.com/

Eu espio, tu espias, ele espia

José Horta Manzano

De certas coisas, mais vale não falar. Não se pode dizer tudo o que se pensa. Não se pode fazer tudo o que se quer. Não se pode ficar sabendo de tudo o que se passa. O mundo é assim, sempre foi, e assim há de continuar. Cada macaco no seu galho.

Todos os suíços sabem que suas montanhas lembram queijo Emmenthal. São todas cheias de furos, de túneis, de cavernas, de depósitos de munição, de bunkers, de sofisticados sistemas de ventilação, de importante estoque de víveres, de geradores de energia, de postos de comando dotados de sofisticada eletrônica. Parece que até baterias antiaéreas, tanques de guerra e aviões estão armazenados em galerias escavadas. Esses refúgios, que existem há séculos, estão previstos para abrigar, em caso de guerra, o governo e as personalidades que conduzem o país.

Antena Crédito: Riccardo Umato

Antena
Crédito: Riccardo Umato

Devem servir também como reserva de alimentos para a população em caso de bloqueio do país. Todos sabem da existência dessas instalações, mas muito poucos estão a par dos detalhes. Uma meia dúzia de oficiais de alta patente, ninguém mais. Não faria sentido anunciar aos quatro ventos a localização, o conteúdo e a função de cada esconderijo. Não ajudaria ninguém e, pior, daria preciosas informações a eventuais adversários.

Por definição, o que é secreto não deveria ser comunicado ao distinto público, muito menos publicado em jornal. É o caso das atividades ligadas aos serviços de inteligência. Nesse campo, toda discrição é pouca. Se assim não for, não faz sentido. Um serviço secreto aberto à curiosidade pública não tem razão de ser.

Essa CPI da espionagem, a meu ver, não deveria nem ser cogitada, que é vespeiro peçonhento. Furiosa da vida quando se soube espionada, dona Dilma reagiu como criança mimada: melindrou-se e acabou dando mais uma prova de sua inexperiência. Armou um fuzuê, desperdiçou a deferência especial de ser a primeira a discursar na abertura anual dos trabalhos da ONU, esperneou, procurou juntar aliados, perturbou relações bilaterais entre o Brasil e os Estados Unidos. Tudo isso para um resultado nulo.

Estes últimos dias, chegou a vez de nossa despreparada presidente engolir sapinhos. O anúncio de que nossos serviços de inteligência também espionam invalida todo o esperneio destas últimas semanas. Ou dona Dilma sabia de tudo ― nesse caso, tem simplesmente mentido e feito jogo de cena. Ou dona Dilma não sabia de nada ― nesse caso atesta sua inaptidão para exercer as funções que lhe foram confiadas.

Jornais ― e até a própria chapa-branquíssima Agência Brasil ― informaram estes dias que países estrangeiros dispõem de centenas de antenas de comunicação instaladas em território brasileiro. Quatro países estão mencionados: EUA, França, Chile e… Romênia. Só esta última conta com 20 antenas próprias plantadas legalmente em território brasileiro! Datam da época soviética?

Eu confesso que não sabia disso. Mas tenho uma desculpa: não sou presidente da República. O ocupante do cargo maior dispõe de assessores, informantes, secretários, assistentes, ministros, comissários, enfim, gente paga para mostrar-lhe o caminho das pedras. Ou a equipe de dona Dilma é constituída de incapazes, ou a presidente não lhes dá ouvidos. Tenho tendência a dar mais crédito à primeira hipótese.

Antena

Antena

Falou-se de antenas instaladas por quatro países. E os outros? Rússia, Reino Unido, China, Alemanha, Japão, Venezuela, Argentina como fazem para se informar? Escutam A Voz do Brasil ou o Jornal Nacional?

Faltou ainda mais um capítulo. O Brasil também há de ter antenas plantadas em território alheio, pois não? Quantas são? Onde estão? Para que servem?

Se os responsáveis não acharam útil informar nem a presidência da República ― que parece cair das nuvens com a descoberta ―, não é a nós, meros mortais, que grandes revelações serão feitas.

E está muito bem assim. Serviços secretos não têm vocação para trabalhar abertamente, muito menos para conceder entrevistas coletivas. Deixemos que cumpram sua missão tranquilamente.

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Informações repercutidas por:
Agência Brasil
Estadão
Blog Link, alojado no Estadão

O desaforo inútil

José Horta Manzano

A diversidade humana é fascinante. O que um tem sobrando pode faltar a um outro. Por sua vez, este outro pode esbanjar alguma característica que escasseia no primeiro. Assim caminha a humanidade, é salutar.

O que pode causar algum problema é o excesso. Nenhum descomedimento é bom. Pode provocar encontrões com a família, com os colegas, com os amigos. Quando o indivíduo excessivo exerce função de mando, os transtornos serão mais amplos. Quando o posto de mando é o mais importante do país, decisões impulsivas e exageradas podem acarretar resultados calamitosos para a nação inteira. Quem ocupa posição elevada deve pensar duas vezes antes de agir.

Característica marcante de nosso antigo presidente era seu espírito exageradamente maleável e conciliador. Para aumentar seu rebanho, por exemplo, não hesitava em lançar mão de expedientes, digamos assim, pouco convencionais. Manobras de bastidores, cooptação, distribuição de benesses, atribuição de sinecuras, criação de ministérios sob medida para acomodar mais ovelhas, afagos em adversários, todos os meios, fossem eles quais fossem, justificavam o almejado fim.

No afã de fazer-se bem querer por todos, nosso messias chegou a extremos e navegou por mares traiçoeiros, nunca dantes navegados nessepaís. Chamou para junto de si um acadêmico que vivia nos EUA ― justamente aquele que havia escrito que o governo do Lula era o mais corrupto que jamais houvera no Brasil. Fez as pazes com José Sarney, inimigo de 30 anos, e ainda ensinou a todos que o novo companheiro, por não ser pessoa comum, merecia tratamento especial. Curvou-se aos caprichos de Paulo Maluf e não se envergonhou de ir até a casa do tradicional adversário para suplicar apoio eleitoral. Mas esses eram assuntos internos, que não transpunham as fronteiras do País. Não fosse a orientação ideológica que arruinou sua diplomacia, poderia até ter legado ao mundo a imagem de um Brasil civilizado e confiável. Fica para uma próxima vez.

Já nossa atual presidente… ah, nossa atual presidente! São outros quinhentos. O que o Lula tinha de sobra, falta a dona Dilma. A diferença entre o criador e a criatura é tão gritante que a gente fica a cismar que bicho terá mordido nosso messias no dia em que resolveu, com um dedazo, designar sua sucessora. Dona Dilma está nos antípodas da maleabilidade e da conciliação.

Reunião ministerial

Reunião ministerial

É sabido que nossa presidente tem gênio forte, que é irascível, estabanada, agressiva. Dizem que, vendo-se contrariada, é sujeita a ataques de fúria. Ao contrário de seu predecessor, não procura convencer por meios suaves ― prefere impor sua vontade. Talvez esteja aí a explicação para o andamento errático de seu governo. Seus auxiliares, intimidados, encolhem-se e não ousam contradizer a chefe. Na ausência do contraditório, ela se convence de que está no caminho certo e acaba tomando decisões inapropriadas.

Esta terça-feira, dona Dilma anunciou o cancelamento de sua visita de Estado aos EUA. Nenhum de seus conselheiros diplomáticos terá conseguido explicar-lhe que essa decisão, conquanto satisfaça seu amor-próprio, pode não ser benéfica para nosso País. Na valsa aveludada da diplomacia mundial, anular uma visita de Estado é pior do que pisar o pé da dama no meio do baile.

Concordo que não é confortável saber-se espionado por quem quer que seja. Mas, que fazer? Ainda que dona Dilma se sinta incomodada, governos sempre se espionaram e vão continuar a fazê-lo. O Brasil não é o único país na mira de espiões internacionais. Todos dão uma xeretada nos que lhe interessam. Estes últimos meses, tornou-se pública a informação de que os EUA espionam praticamente todos os governos do planeta. Alguém viu alguma reação epidérmica? Não. Todos se limitaram a um protesto formal e tudo ficou por isso mesmo.

A reação violenta de nossa presidente só faz escancarar a realidade: os dirigentes brasileiros, desprovidos de proteção contra intrusões, se encontram em situação de total vulnerabilidade. A revelação dessa verdade soa como um estímulo a outras potências que estejam planejando matricular-se no clube dos que espionam o Planalto.

Aquilo roxo by Alpino

Aquilo roxo
by Alpino

Por que o governo de outros Estados reagiu de maneira tão suave? Porque são realistas. Entendem que o vigor e a intensidade do protesto não mudarão a situação. Todos continuarão a espionar todos, como sempre se fez.

Está faltando realismo ao Planalto. Conseguem-se melhores resultados com um sorriso do que com uma carranca. Nossa ultrassusceptível presidente não deve conhecer esse princípio basilar da boa convivência. Uma boa conversa reservada com o presidente Obama teria surtido melhor efeito. Sem causar escândalo. Derrubar pontes, barrar estradas e fazer beicinho não são a melhor solução. Nosso messias esqueceu-se de ensinar à pupila as artes da persuasão pelo diálogo.

Entre importação de cubanos, perdão a dívidas de países africanos ditatoriais e enfrentamento com o império, estamos cada dia mais parecidos com nossa república vizinha, a bolivariana.

Conduta estabanada

José Horta Manzano

Depois de um messias rastaquera e deslumbrado, veio uma presidente grosseira e colérica. O Brasil está bem arrumado. Ô carma pesado este nosso!

Dilma e o ET by Zé Dassilva

Dilma e o ET
by Zé Dassilva

Dilma perturbada by J. Bosco

Dilma perturbada
by J. Bosco

Dona Dilma pode até ter alguma qualidade ― confesso que ainda não me dei conta. Por outro lado, sem dúvida, tem defeitos aos borbotões. Todos visíveis, uns mais, outros menos. As repetidas demonstrações de fúria que ela nos tem dado estes últimos dias estão ultrapassando os limites da conveniência. Já não é mais questão de salvar a honra nacional, mas de vingar-se de uma afronta pessoal de que a mandatária considera ter sido vítima.

Tempos atrás, um irresponsável chamado Assange andou espalhando segredos diplomáticos aos quatro ventos. Até hoje não se sabe direito qual era sua intenção. Terá tido seus 15 minutos de glória, mas o maior prejudicado foi ele mesmo. Enquanto o mundo continuou a girar, nosso dom quixote sobrevive confinado em prisão domiciliar num cubículo da embaixada do Equador em Londres. E tudo indica que lá permanecerá por anos. Inglês não costuma largar a presa tão fácil assim.

Dilma enfezada

Dilma enfezada

Pois bem, naquela época, embora o Brasil aparecesse entre os países alvejados pelo vazamento, nossa reação oficial foi inaudível. A presidente, não se sentindo envolvida pessoalmente, deu pouca importância aos acontecimentos. Aliás, nesse ponto, acompanhou a tendência global. Nenhum governo se encarniçou com o assunto.

Já agora, a coisa mudou de figura. Anunciou-se que a própria presidente teria sido monitorada por uma potência estrangeira. Para dona Dilma, acima da honra nacional, parece estar o orgulho pessoal. Tem reagido de modo estabanado e pueril. A atual inquilina do Alvorada faz lembrar aquela criança mimada que, zangada, atira o brinquedo ao chão, pouco ligando para as consequências. Se quebrar, papai compra outro.

Antes de tomar alguma atitude ríspida e capaz de desagradar alguém, é sempre bom medir as consequências e avaliar os desdobramentos. Em interessante artigo, o Estadão nos informa que, num acesso de ira, dona Dilma atirou o brinquedo ao chão: suspendeu os preparativos para a viagem aos EUA prevista para o mês que vem. Vamos torcer para que o brinquedo não esteja irremediavelmente espatifado.

Dilma e Obama by Sponholz

Dilma e Obama
by Sponholz

Outro artigo do mesmo Estadão conta que o embaixador americano em Brasília está sendo removido, após 3 anos de serviço. Uma coisa não tem nada que ver com a outra. Segundo a autora deste segundo artigo, em vista da peleja que já dura mais de 10 anos contra os ideólogos antiamericanos que dominam a intelligentsia do Planalto, o governo americano preferiu fazer uso mais adequado de seus bons diplomatas. Shannon, que estava no Brasil, vai para a Turquia, país mais estratégico ao olhos de Washington. Brasília deverá contentar-se com a embaixadora que atualmente representa os interesses americanos no Paraguai.

Esse, sim, é sinal bem mais inquietante para nosso País. Nosso segundo maior parceiro comercial já nos enxerga como país políticamente menos interessante que a Turquia. Se dona Dilma continuar a fazer beicinho, pode azedar de vez as relações. E quem é que vai sair perdendo? É urgente dizer a ela que o Brasil precisa mais dos EUA do que eles de nós.

Dilma de maus bofes

Dilma de maus bofes

Não faz sentido tratar Argentina, Bolívia, Venezuela a pão de ló e os EUA a pontapé. É inacreditável a relutância que esses ideólogos do Planalto têm em aceitar que a guerra fria terminou 25 anos atrás e que o mundo mudou muito. Continuam com os pés cimentados nos anos 60.

As oportunidades políticas e econômicas que essa visão obtusa nos tem feito perder não voltarão mais. O trem da História não passa duas vezes.

A retorção

José Horta Manzano

Pasma perante o óbvio, como de costume, dona Dilma descobriu uma verdade milenar: governos costumam espionar-se entre si. Mentes mais sutis pensariam em arquitetar um plano esperto, desses que se veem nos filmes de guerra, em que o espionado se finge de morto, faz que não sabe de nada, e aproveita o mesmo canal para fazer chegar ao espião falsas informações. (Foi assim que os aliados conseguiram desembarcar na Normandia em 6 de junho de 1944, praticamente sem encontrar resistência por parte dos ocupantes alemães.)

Fazer um casus belli da notícia dada com estardalhaço pela televisão não foi uma ideia genial. Astucioso teria sido minimizar ou mesmo ignorar a informação, justamente para tirar dela o melhor proveito.

Se o governo brasileiro não espiona as altas esferas americanas, é unicamente porque não dispõe dos meios necessários para isso. Mas que ninguém se engane. Sem manter uma rede complexa de informação mundial ― como fazem EUA, China, Rússia, França, Reino Unido ― o Brasil certamente utiliza os meios que pôde desenvolver para saber o que se trama nos gabinetes que lhe interessam.

Espião

Espião

Esse não é o tipo de notícia que costuma aparecer na imprensa nem nas redes sociais, o que não quer dizer que não exista. Portanto, não adianta representar o papel de moralista indignado. Pode impressionar a galeria, mas não fará cessar a espionagem. Pelo contrário, as técnicas futuras tendem a ser ainda mais sofisticadas.

A política é a arte de engolir sapos, como sabemos todos. O governo brasileiro tem engolido cobras e lagartos. Baixou a cabeça diante da invasão de uma refinaria da Petrobrás situada na Bolívia. Silenciou a propósito da inspeção de que foram vítima aviões da FAB naquele mesmo país. Enfiou o rabo no meio das pernas no dia em que palestinos e israelenses declararam alto e bom som que dispensavam nossa intromissão para resolver problemas deles.

Brasília até hoje não passou nem um pito nos venezuelanos por não terem cumprido a parte deles no financiamento da construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. O Planalto não reagiu quando Evo negou salvo-conduto ao senador refugiado ― deixou que a coisa se envenenasse ao ponto de a vítima ter de se virar sozinha para escapar do cativeiro forçado. Brasília tampouco se indignou quando Zelaya, o presidente deposto de Honduras, se aboletou em nossa embaixada em Tegucigalpa e transformou o local em comitê político.

Depois de tantas cobras e tantos lagartos, um sapinho a mais ou a menos não há de causar indigestão. Além do mais, que o governo brasileiro esperneie ou não, vai continuar sendo espionado. E não só pelos EUA. É o tributo que devem pagar os países mais relevantes.

Alguém ― além dos vizinhos de parede ― gastaria dinheiro e esforço para espionar o Nepal ou a Mongólia?

O cofrinho rachou

José Horta Manzano

Suponhamos que você tenha um dinheirinho para guardar. Pode até nem ser muito, mas é o que você tem. Se guardar em casa, corre dois riscos: o ladrão e a inflação. Se o primeiro não levar, a segunda vai carcomer. Você decide então, por prudência, investir ou, mais simples, depositar nalgum banco.

Como é que você vai escolher esse banco? Seu dinheiro, fruto de esforço e trabalho, não caiu do céu. Não faz sentido entregá-lo na mão de qualquer um. Entre um banco que lhe pareça sólido, confiável, bem afamado, e um outro meio duvidoso, não há que hesitar: você ficará com a segurança.

Cofrinho magro

Cofrinho magrinho

O exemplo que acabo de dar vale para você e para mim, para pequenos e grandes capitais, para investidores privados e institucionais. É lógica elementar, cristalina. Só destrambelhados poriam seu dinheiro na mão de gente imprevisível.

Para confirmar o que digo, lembre-se de que o messias de Garanhuns só foi eleito ― e o Brasil só recebeu aquela avalanche de aplicações ― na sequência da Carta aos Brasileiros, elaborada pouco antes das eleições presidenciais de 2002. As promessas contidas no documento ― e confirmadas pelos primeiros meses de governo, durante os quais foi mantido ambiente econômico tranquilo e acolhedor ― afastaram todo temor de aplicadores estrangeiros.

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Em dois artigos publicados no Estadão (aqui e aqui), Luiz Guilherme Gerbelli nos dá conta de que a confiança do investidor estrangeiro vem caindo desde o segundo semestre de 2011. Pode parecer mentira, mas grandes capitais se desviam do Brasil e se dirigem ao Chile, ao Peru, até à perigosa Colômbia! Onde foi parar nossa pujança, cantada em prosa e verso desde que nosso presidente milagreiro e sua corte inventaram o Brasil em 2003?

O mundo gira e as coisas mudam. Investidores levam em conta não somente o momento presente, mas também, naturalmente, as perspectivas de evolução. A partir de 2011, nosso País passou a contar com dois presidentes: uma titular e um emérito, uma que mostrava a cara e outro que mexia os pauzinhos, uma titular e um adjunto. Os observadores estrangeiros botaram um pé atrás. Foi um primeiro aviso. Aquele governo bicéfalo poderia não dar certo. De fato, a partir do segundo semestre de 2011, a avaliação do Brasil começou a perder fôlego na comparação com os vizinhos latino-americanos.

Tem mais. Todos se lembrarão que, um ano atrás, o parlamento paraguaio decidiu ― dentro de seus preceitos constitucionais ― destituir o presidente do país. Está ainda na memória de todos o papelão protagonizado pela presidente do Brasil e por sua homóloga Argentina que atropelaram o pequeno Paraguai e, num ato prepotente de traição e desonestidade explícita, admitiram a Venezuela no clube ideológico em que transformaram o Mercosul.

Cavalo de Troia

Cavalo de Troia

Essa agitação não passou em branco no exterior. Uma luz vermelha se acendeu nas instâncias que coordenam a movimentação de capitais. A simples menção da palavra socialismo afugenta qualquer investidor, o que não é difícil entender. Pois a entrada da Venezuela, qual um cavalo de troia, introduzia um germe perigoso no clube sul-americano. «El socialismo del siglo veintiuno» é de assustar qualquer um. Ou não?

Os que mandam em nossa economia estão surpresos de constatar que nosso País já não exerce a atração de anos atrás. Parecem não entender que investidores analisam muitos parâmetros antes de aplicar seus capitais. A economia é apenas um deles. A política tem peso importante.

Haverá outros fatores para o escasseamento de aplicações. Mas, convenhamos, um deles é evidente: eu não entregaria minha poupança a um clube de cuja diretoria faz parte a Venezuela bolivariana e socialista. E você?

O Mercosul e o fim da missa

José Horta Manzano

Nos tempos em que a missa era dita em latim e os ritos da Igreja ainda guardavam aquela aura de mistério que infundia respeito e temor, a gente não entendia as palavras. Mas isso não incomodava ninguém. Todos sabiam quando era hora de sentar, de levantar, de ajoelhar, de bater no peito.

Missal

Missal

Havia um momento especial, por cuja chegada nossa marotagem adolescente ansiava. Hoje, que já se foram todos os antigos e que ninguém mais está aqui para me repreender, posso confessar: o melhor momento da missa era quando o padre dizia «Ite, missa est». Os fiéis respondiam em coro «Deo gratias!». Nessa réplica ninguém se enganava.

A última missa à qual assisti ainda era rezada em latim. Pra você ver que faz um tempinho. Mas me contaram que o ritual não mudou, só ficou mais explícito. O oficiante continua dizendo «Ide, a missa acabou». E a resposta tampouco se alterou: «Demos graças a Deus!». Ouvidos mais sensíveis juram que chegam a captar no «graças a Deus!» a expressão de um certo alívio. Um certo ar de «até que enfim, acabou!». Pode ser ilusão auditiva ou intriga de gente de pouca fé.

Mas vamos parar por aqui, antes que me acusem de apostasia. Longe de mim posicionamentos anticlericais. Costumo respeitar e apreciar ritos.

Essas lembranças têm-me ocorrido estes últimos tempos, quando observo a involução desse infeliz Mercosul, que continua dançando sua estranha quadrilha: um passo à frente e dois pra trás. Criado para fluidificar e favorecer o comércio, tornou-se, com o passar dos anos, instância política. Trocas comerciais foram repelidas a segundo plano. Sobressai a vaidade e o jogo de cena de líderes deslumbrados e ineptos. A cada novo episódio, acentua-se a irrelevância da natimorta «união aduaneira».

Cúpula do Mercosul Junho 2013

Cúpula do Mercosul sem o Paraguai, que estava de castigo
Junho 2013

Faz um ano, quando o congresso paraguaio decidiu, dentro de suas normas constitucionais, dar um «ite, missa est» ao ex-bispo que presidia o país, os dirigentes progressistas de algumas repúblicas da região entraram em efervescência. Num golpe malandro, os mandachuvas do Mercosul mandaram o Paraguai para fora da classe, de castigo. Enquanto isso, trataram de admitir, rápido, a Venezuela no clubinho. Lembremos que o parlamento paraguaio era amplamente contrário à entrada desse novo membro.

Essa inacreditável tratantada teve pelo menos um efeito colateral de alcance planetário: o Mercosul confirmou ao mundo que não é instância séria nem confiável. Desse clube, não se pode esperar nada de bom. Seus sinais de colapso, aliás, já estão uivando. Só não ouve quem não quer.

O Paraguai, embora tencionando guardar boas relações com o Brasil, dá mostras de total desinteresse por um Mercosul que o humilhou e que, de todo modo, não lhe traz nenhuma vantagem econômica.

Señor Nicolas Maduro, da Venezuela, não foi convidado (nem assistirá) à cerimônia que Assunção está organizando para entronizar o novo presidente do Paraguai. Doña Cristina Fernández de Kirchner, da Argentina, um dia diz que vai, no dia seguinte desdiz. Anda um bocado acachapada com a derrota eleitoral que acaba de sofrer. Quem viver, verá.

Por seu lado, o Brasil dá a entender que não descarta iniciar negociações comerciais diretas com a União Europeia, sem combinar antes com os sócios do clubinho sul-americano. Esse tipo de comportamento é a negação da essência do clube. Se assim proceder, o governo brasileiro estará passando o atestado de óbito do Mercosul.

E já não é sem tempo. Constatado o passamento e firmado o atestado de óbito, que se enterre o defunto. E que o último a sair apague a luz.

Ite, fratres, missa est! (*)

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(*) Ide, irmãos, a missa acabou!

O fim da zelite

José Horta Manzano

Segundo o discurso oficial, a zelite foi apeada do poder doze anos atrás. Desde então, nos livramos da promiscuidade entre o probo e austero governo tupiniquim e o execrável e corrupto império norte-americano.

Demos as costas ao bicho-papão para melhor dar as mãos a compañeros mais póximos do nosso feitio. Ahmadinejad, os Castros e Chávez foram os primeiros. Depois aceitamos novos sócios no clube dos virtuosos: Correa, Evo, Ortega, Zelaya e a inefável señora de Kirchner. As inscrições continuam abertas, mas por tempo limitado.

Para coroar tudo, estabelecemos as bases de uma sólida, profícua e duradoura parceria estratégica com a Rússia, a Índia e, principalmente, com a China. Foi a melhor decisão político-econômica jamais tomada na história deste país. Afastamo-nos dos malvados e atrelamos nosso vagão à locomotiva chinesa que representa, sabemos todos, o futuro brilhante da humanidade. Um modelo de equidade, lisura e justiça.

Perdemos algumas plumas no meio do caminho, é verdade. Mas que importa se descemos alguns degraus, se nos desindustrializamos, se voltamos a ser produtores de matéria-prima? Isso é coisa pouca se comparado ao caminho radioso que preparamos para nós mesmos.

O grito lançado em 1822 pelo filho do rei tinha ficado meio entalado na garganta. Afinal, que história é essa de o símbolo maior da zelite ― o herdeiro da coroa! ― liberar o país? Coisa esquisita. Pois agora a obra está completa. Estamos independentes!

O governo popular, preocupado exclusivamente em servir ao povo, fechou o círculo. Os peçonhentos americanos ― ou estadunidenses, como usam dizer alguns ― foram definitivamente removidos de nosso horizonte.Interligne 18d

Excelente reportagem de investigação assinada por Rubens Valente e publicada na Folha de São Paulo deste 15 de julho contradiz frontalmente os parágrafos anteriores. Essa história de bater na madeira e nos isolar dos malvados do Norte não passa de cortina de fumaça, produto de elaborado marketing palaciano. A história real é bem diferente.

Se já não o fizeram, leiam a reportagem da Folha. Ela nos informa que os serviços de inteligência dos Estados Unidos continuam colaborando estreitamente com a Polícia Federal brasileira. Acordos ― alguns sigilosos, outros não ― continuam sendo firmados entre os dois países.

Ajuda financeira

Ajuda financeira

Entre 1999 e 2008, ajuda financeira por um total de 140 milhões de reais foi oferecida pelas autoridades americanas. E, naturalmente, aceita pelos altos responsáveis brasileiros.

Essa detestável zelite não tem jeito mesmo: a gente enxota pela porta, e ela entra pela janela. Acabrunhado, o governo popular não sabe mais que fazer.

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Interligne vertical 5Nota pessoal:
Não tenho notícia de que nenhum de nossos parceiros estratégicos ― China, Índia, Venezuela, Bolivia, Nicarágua, Irã & companhia ― tenha desatado os cordões da bolsa para nos enviar alguma ajuda. Nem que fosse simbólica.

Y ahora, ¿bailamos?

José Horta Manzano

Interligne vertical 4Em sua nota n° 241, o Itamaraty nos informa sobre a reunião de cúpula de chefes de Estado do Mercosul, que se realizou em Montevidéu, dias 11 e 12 de julho de 2013.

Algumas considerações me ocorrem.

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Objetivo
A visão dos que idealizaram e fundaram a união alfandegária certamente alcançava horizontes mais distantes do que os que conseguimos atingir. Desgraçadamente, a ideologia terceiro-mundista fora de moda que impregnou o governo do Brasil estes últimos dez anos gerou uma distorção. Emperrou o bloco.

Chega a ser grotesco o Brasil acusar a Argentina de atrapalhar o funcionamento da organização. Quando se detém 70% de participação numa associação qualquer, tem-se a faca e o queijo na mão. É o caso do Brasil no Mercosul. Se temos cedido aos caprichos de nossos hermanos, é porque assim foi decidido em nossas altas esferas.

Na ânsia de aparecer como «o bonzinho» e na impossibilidade de montar um verdadeiro império à soviética ou à americana, nosso País perde-se em suas ilusões e fica no meio do caminho ― sem condições de avançar, nem coragem de recuar.

Quem pretende liderar tem de saber meter medo nos liderados. Pouco deveria importar que nossos sócios «gostem» do Brasil ou não. O importante é que respeitem o sócio maior. Para aparecer como o «paladino dos pobres», papel sonhado por nossos dirigentes, um país tem de começar por fazer-se respeitar.

Não temos um exército ameaçador. Não dispomos de arsenal nuclear. Não temos sequer nosso próprio satélite de comunicações. Nosso ministro da Defesa(!) confessou outro dia, candidamente, que desconfiava que seu telefone estivesse sendo grampeado. Tudo isso deixa claro que o Brasil é um país fraco, que não amedronta ninguém. Se, além disso, cedermos a todos os caprichos de nossos hermanos, estaremos cada dia mais longe do objetivo.

Um gigante bobão não assusta.Interligne 07

Cúpula da União Europeia Junho 2012

Cúpula da União Europeia
Junho 2012

Números reveladores
Em sua nota oficial, o Itamaraty revela que, embora represente 80% do PIB da América do Sul, o Mercosul responde unicamente por 65% do comércio exterior do subcontinente. Trocando em miúdos, isso significa que os países sul-americanos não membros do Mercosul exportam, proporcionalmente, muito mais que nós. E tudo isso sem união aduaneira e sem reuniões de cúpula. Não é curioso? Pra que mesmo tem servido nossa associação?Interligne 07

Ambiente cordial
O jornal venezuelano El Mundo publica surpreendentes declarações do presidente Mujica, do Uruguai. O dirigente vizinho se lamenta do volume de burocracia e da quantidade de instituições inúteis que regem o Mercosul.

Mujica não tem papas na língua. Diz textualmente que «quando se tem de falar tanto em livre comércio é porque não há livre comércio». Acrescenta que, na atualidade, os dirigentes passam seu tempo «cada um desconfiando do outro e olhando de soslaio para ver se consegue enganar o colega».

O ambiente, como se vê, é de franca amistad y fraternidad.Interligne 07

Clube político
O próprio de uma associação comercial é fomentar o comércio, seja entre os sócios, seja com parceiros de fora. Quando se observa o Mercosul, constata-se que estamos muito longe do objetivo.

O tema dominante da última reunião de cúpula não tem que ver com o comércio, como seria de esperar. Discutiu-se espionagem, ameaça externa, asilo a Snowden ― o delator destrambelhado.

O jornal gaúcho Zero Hora nos informa que, em comunicado conjunto, os sócios «repudiam» a espionagem americana. Os dirigentes da agência americana de segurança nacional não devem ter dormido à noite de tanto medo.

Reunião de condomínio costuma ser mais produtiva.Interligne 07

Miopia brasileira
Das trevas nasce a luz. Pelo menos, deveria nascer. Mas quem tem cabeça dura não aprende. Incapacidade é defeito difícil de suplantar.

O Planalto tem esperneado desde que tomou conhecimento de que espiões espionam, e que o Brasil, tanto quanto todos os outros países, está na mira dos que têm capacidade de bisbilhotar casa alheia. Em vez de espernear, o governo faria melhor se usasse esse episódio como fonte de inspiração.

Nosso País não dispõe da mesma parafernália tecnológica de grandes potências como EUA, Rússia, China, Reino Unido, França, Alemanha, Japão. Esses, sim, têm os meios necessários e podem se permitir muito mais.

Mas nós temos gente. Temos diplomacia ― ainda que estranhamente direcionada nos últimos doze anos. Deveríamos utilizar nossos canais de informação diplomática, nem que fosse para não fazer papelão.

O Estadão nos informa que, num gesto magnânimo, os membros do Mercosul declararam que permitiriam a volta do Paraguai, suspenso há uma ano por decisão sumária. Só que nossa antigamente festejada diplomacia se esqueceu de combinar com o adversário. Não se preocuparam em perguntar ao sócio se ele queria voltar do castigo.

Pois o presidente eleito do Paraguai, numa resposta corajosa e sintomática, recusou-se a reintegrar o bloquinho. Pelo menos, enquanto a Venezuela estiver no exercício da presidência rotativa.

Nossa diplomacia podia ter ido dormir sem esse tapa na cara. Mais preocupados em costurar termos indignados para «repudiar» espionagens do «hermano del Norte», esqueceram-se de que é importante arrumar a casa e pôr-se de acordo primeiro. Que papelão!Interligne 07

Cúpula do Mercosul Junho 2013

Cúpula do Mercosul
Junho 2013

Conclusão
Como ilustração deste artigo, ponho a foto de uma cúpula europeia e um instantâneo da reunião do Mercosul. O contraste é patético. Quase uniformizados, os europeus transpiram seriedade. Até demais. Já nossos sócios mais parecem estar vestidos para um baile à fantasia. O Mercosul morre um pouco a cada dia.

Mas que os pessimistas não percam a esperança: está sendo preparada a adesão da Guiana, do Suriname e da Bolívia. Agora, vai!

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Hipocrisia

José Horta Manzano

Desde que o mundo é mundo, espia-se o próximo. Desde a esposa que remexe nos bolsos da calça do marido (e vice-versa) até altas esferas do governo do país A que bisbilhota os assuntos internos do país B. Desde o mordomo que escuta atrás da cortina, como nos filmes, até organizações oficiais ― complexas, estruturadas e gordamente financiadas ― especializadas no ramo.

Sempre foi assim e sempre será. No entanto, em nome da coabitação harmoniosa, convém tomar cuidado para manter a discrição. Seja debaixo do teto familiar, seja entre países. Assim como os mafiosos, os espiões também têm sua omertà, seu código de conduta.

Embora não se faça muito alarde sobre o assunto, a cada ano são organizadas em vários países (inclusive no Brasil) dezenas de feiras e exposições especializadas em armamentos. Expõem-se revólveres, carabinas, espingardas, bombas de fragmentação, minas antipessoais, até tanques de guerra. As balas são apresentadas em estojos almofadados. Coisa de louco.

Faz algum tempo, num salão desse tipo organizado em Paris, descobriu-se que os chineses haviam montado, no interior de seu estande, uma complexa central de escuta telefônica. Conseguiam captar todas as comunicações que circulassem via telefone celular no recinto da feira. Alguns poucos jornalistas ficaram sabendo. Para evitar um incidente diplomático, o Estado francês fez questão de abafar o acontecido. Ficou tudo por isso mesmo.

A História (não) registrou milhares de outros episódios de mesmo tipo. Dar publicidade a certos fatos pode ser mais danoso do que fazer de conta que não aconteceu.

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Estes dias, um jovem com vocação para salvador do mundo tomou a ousada decisão de subir ao telhado para anunciar que espiões espionam. Não contou nenhuma novidade, o infeliz. Nada disse que especialistas no assunto já não soubessem. Mas rompeu velho acordo tácito, atributo básico da velha profissão de espião: manter a discrição a todo custo.

Os países espionados ― os quais, sejamos claros, também se espionam entre si ― mostraram-se indignados. «Oh! Como é possível? Entre amigos?» Esqueceram-se todos de que até marido e mulher cometem a mesma incorreção. Mutuamente, às vezes.

Aeroporto Шереметьево Chirimiêtiva Moscou, Rússia

Aeroporto Шереметьево Chirimiêtiva
Moscou, Rússia

Enfim, cada um tem de representar seu papel nesta grande comédia planetária. Ao mesmo tempo que juram respeito e amizade eterna, todos os países transgridem como podem. Espionam-se uns aos outros na medida da tecnologia de que cada um dispõe. Quando um é apanhado com a boca na botija, vem a grita generalizada: «Céus! Nunca esperava isso de você!».

Quanta hipocrisia! No final, vai ficar tudo por isso mesmo. O mundo não vai acabar. O infeliz denunciante, que tenha feito isso por ingenuidade ou por estrelismo, será o único prejudicado.

Que seja acolhido no Equador, na Venezuela ou no Sultanato de Omã, está condenado a viver em aflição permanente até o fim de seus dias. Terá palpitações a cada vez que tocar o telefone ou a campainha de casa. Não se quebram as regras do métier impunemente.

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Preguiça mental
O site Wikileaks informa que o jovem imprudente enviou pedido de asilo a mais de 20 países. Não sei se por erro de digitação ou por ignorância, a nota informa que o Consulado Russo (sic) no Aeroporto de Шереметьево(*) está despachando os pedidos às embaixadas que os países solicitados mantêm em Moscou. Consulado russo em Moscou? É tão incongruente quanto falar de um consulado brasileiro em Brasília. Vivendo e aprendendo…

Mas não pára por aí. Os funcionários de plantão na Folha de São Paulo e no Estadão, meio sonolentos, repercutiram a informação tal qual a receberam. Engoliram sem mastigar. Confirmam todos a existência de um consulado da Rússia dentro da própria Rússia.

Mundo, mundo, vasto mundo…

 .

(*) Шереметьево = Na Rússia, a pronúncia “Cheremetiêvo” é considerada inculta. Faça como os moscovitas, diga Chirimiêtchiva, numa pronúncia proparoxítona.