Vivo ou morto

José Horta Manzano

Mais do que regrinhas de acentuação ou de hifenização ― que mudam da noite pro dia e cuja lógica nem sempre é evidente ― dou grande valor à adequação vocabular. Encontrar o termo mais adaptado a cada contexto demanda um pouco de esforço. Na oralidade, não tem jeito: como não há tempo para pensar, cada um usa a palavra que lhe vem à cabeça. Na escrita, é outra coisa.

Em artigo deste 7 de dez°, o Estadão nos brinda com este período um tanto claudicante(*):

«A presidente Dilma Rousseff decidiu convidar os ex-presidentes brasileiros vivos para acompanhá-la em viagem a Johannesburgo, onde será celebrada uma missa em homenagem ao líder sul-africano Nelson Mandela, morto quinta-feira após uma infecção pulmonar.»

Tenho 4 reparos a fazer:

1) Vivos
Ex-presidentes vivos? A formulação não é das mais felizes. Não estamos na Venezuela, onde presidentes mortos continuam a se manifestar sob forma de pajaritos. O que é evidente dispensa ser explicitado. Dona Dilma só poderia convidar o vivos. Podia até ter-se limitado a levar seu padrinho a tiracolo, mas ia pegar mal. Para não fazer feio, estendeu a carona aos outros. Excluiu os mortos, naturalmente.

2) Homenagem
Dizer que uma missa será rezada «em homenagem» a um defunto soa estranho. Salva de palmas, bandeira a meio pau, minuto de silêncio são homenagens. Missa, não. Tradicionalmente, missas são ditas (ou rezadas) em intenção de um falecido ou pelo sufrágio de sua alma. Se se fizer questão de manter o termo “homenagem”, melhor será dizer que os presentes assistirão a uma missa incluída no programa de homenagens ao defunto.

3) Morto
O artigo diz : «(…) Nelson Mandela, morto quinta-feira (…)». Sem dúvida, o homem morreu. Tecnicamente, a frase está perfeita. Mas ― convenhamos ― para um ancião que morreu de velhice, a palavra é um tanto crua. Melhor substituir morto por uma expressão mais suave, como falecido, desaparecido, que se extinguiu, que nos deixou, que expirou, que se foi.

4) Após
«Morto após uma infecção pulmonar» ― diz o texto. Não tive acesso ao boletim médico, muito menos ao atestado de óbito. Mas é permitido supor que a causa mortis tenha sido exatamente a infecção pulmonar. Portanto, Mandela não morreu após a doença. Morreu de ou por causa dela.

Interligne 18b
Reescrito com mais apuro, o período fica assim:

A presidente Dilma Rousseff decidiu convidar os ex-presidentes brasileiros para acompanhá-la a Johannesburgo, onde será celebrada missa em intenção do líder sul-africano Nelson Mandela, falecido quinta-feira de infecção pulmonar.

Fica mais arejado, não acham?

(*) Claudicante é a forma politicamente correta para manquitola, coxo, manco.