O crime compensa

Josias de Souza (*)

No Brasil, os crimes praticados acima de um certo nível de poder e renda não costumavam ser punidos. A Lava a Jato melhorou o que era muito ruim. Mas a situação continua precária. O baixo risco de punição, sobretudo da criminalidade de colarinho branco, funciona como um incentivo à prática generalizada dos crimes do poder.

Ao libertar Dirceu, que coleciona sentenças no mensalão e no petrolão, a segunda turma do Supremo revela que, no Brasil, continua sendo mentirosa a tese segundo a qual o crime não compensa. É que, quando compensa, ele muda de nome. Quando a punição é inexistente ou cenográfica, o nome do crime é impunidade.

(*) Este texto é trecho de artigo de Josias de Souza (1961-), jornalista e editor do Blog do Josias.

Faltam prisões

José Horta Manzano

Ouve-se frequentemente que as prisões brasileiras não são suficientemente numerosas para acolher os condenados e que, portanto, é necessário construir mais e mais presídios.

Não gostaria que minha argumentação parecesse contorcionismo verbal, mas acredito que o conceito está mal formulado. Não é correto dizer que as prisões não sejam suficientes. Elas até que existem em quantidade razoável. Os criminosos é que são em demasia, eis a verdade.

Pra embasar o que disse, tomo um exemplo. Imaginemos um elevador com a tabuleta: «Capacidade: 5 pessoas ou 400kg». De repente, entram quatro pessoas e a geringonça se recusa a viajar. Ué, o que é que houve? A capacidade não é de cinco passageiros?

Sem dúvida, essa é a capacidade nominal de um elevador concebido para indivíduos pesando em média 80kg, pouco mais, pouco menos. Acontece que, nestes tempos de hambúrguer e pizza, muitos têm abusado. Por consequência, às vezes quatro pessoas bastam pra exceder a capacidade do elevador.

Onde está o problema? O elevador está com capacidade baixa? Não é bem assim. Os cidadãos é que estão superalimentados. A questão tem de ser enfrentada pelo lado certo. Em vez de aumentar a capacidade de carga do elevador, será mais ajuizado tomar medidas para reeducar a população e trazê-la de volta à moderação alimentar.

by Auguste Rodin (1840-1917), escultor francês

Como exemplo de medida interessante, lembremos que a França proibiu que distribuidores automáticos instalados em escolas ofereçam produtos altamente calóricos ou gordurosos, tais como batatas fritas e bebidas açucaradas. A medida, por si, não resolve o problema da obesidade juvenil. Mas já é um passo na boa direção.

Raciocínio análogo vale para as prisões. Construir mais e mais penitenciárias não resolve o problema da criminalidade que assola o país. A solução segue estrada de duas pistas paralelas.

A primeira é empenho redobrado na apuração cuidadosa de atos criminosos, no devido julgamento e na aplicação efetiva da sentença. A segunda é a implantação de amplo programa institucional de educação e de sensibilização da população. Tem de abarcar todos os habitantes do país ‒ do jardim da infância à idade adulta. Vai levar anos pra surtir efeito, mas não há outro jeito.

As metas são ambiciosas mas indispensáveis. Sem isso, estamos condenados a continuar curvados e de joelhos para o crime.

Quem jogará a final?

José Horta Manzano

A abundância de partidos que abarrota a cena política nacional há anos é de mentirinha, uma ilusão. Nenhuma das siglas menores chega a cutucar as três grandes.

No frigir dos ovos, é forçoso constatar que, neste último quarto de século, a presidência da República ‒ o cargo maior ‒ tem sido rateada entre duas siglas: PSDB e PT. É o que alguns chamam impropriamente de «direita x esquerda». Não é assim que eu rotularia, mas essa é história pra outro capítulo.

Pelo ranger da carroça, as eleições de 2018 vão soar o fim desse monopólio. Lula da Silva, eterno candidato do Partido dos Trabalhadores, está atrás das grades e, se nada de extraordinário acontecer, lá deverá continuar por bom tempo. Segundo as pesquisas eleitorais, nenhum candidato logrará herdar os votos do demiurgo. Nem nomes de siglas nanicas nem mesmo os do próprio PT. A sobrevivência do partido está ameaçada.

by João Bosco de Azevedo (1961-), desenhista paraense

No polo oposto, o ex-governador de São Paulo, candidato do PSDB, não conseguiu decolar até agora. A propaganda eleitoral certamente vai granjear-lhe votos, mas não há garantia de que ultrapasse os concorrentes.

Já doutor Bolsonaro parece ter lugar garantido na final do campeonato. A pergunta à qual ninguém pode responder neste momento é: quem será o adversário?

Uma coisa é certa. Pela primeira vez desde o triste fim de doutor Collor, o resultado da corrida é nebuloso. O vencedor permanece incógnito, o que não é um mal em si. Pelo menos, teremos subidas de adrenalina.

Candidatos de ficha pra lá de limpa hão de atrair a simpatia do eleitor. Cansados de assistir aos crimes, à corrupção, à roubalheira, à desfaçatez, à impunidade que reina no andar de cima, os brasileiros darão o voto àquele (ou àquela) que apresentar maior garantia de integridade. É certeza. Nosso Guia, ainda que estivesse livre e solto, não venceria.

O habeas corpus e o que vem depois

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Fazia meses que eu não dava uma prosinha com meu amigo Sigismeno. Estava até com saudade. Faz dois ou três dias, dei de cara com ele. Como tínhamos um tempinho disponível, fomos tomar um café pra pôr a conversa em dia.

‒ Então, Sigismeno, você assistiu ao julgamento do pedido de habeas corpus do Lula semana passada?

‒ Olhe, não assisti inteirinho porque estava muito atarefado. Mas dei um replay, mais tarde, nos lances principais.

‒ Fiquei pasmo com o resultado. Pasmo e decepcionado. E você?

‒ Decepcionado é pouco. A decisão das excelências foi de arrasar!

‒ Enfim, que é que se há de fazer? De toda maneira, Sigismeno, que o Lula vá pra cadeia ou que fique livre e solto, nossa vida não vai mudar. A minha, no fundo, no fundo, vai continuar igualzinha.

‒ Acho que você está sendo um bocado egoísta. Não convém agir como se o mundo girasse em torno de você, que ele é bem mais vasto.

‒ Egoísta eu, Sigismeno? Como assim? Cada um sabe onde lhe aperta o calo, ora essa!

‒ O salvo-conduto provisório dado ao Lula, se confirmado dia 4 de abril, vai abrir as porteiras da bandidagem de alto coturno. Uma torrente de pedidos de habeas corpus preventivos vai jorrar. E o STF se verá forçado a conceder o mesmo benefício a todos os corruptos. A partir daí, nenhum corrupto mais será preso. Vão todos recorrer em liberdade até que a sentença transite em julgado, o que pode levar décadas.

‒ Ora, Sigismeno, o que é que isso muda na minha vida? Os corruptos estão lá, sempre estiveram e é certeza que sempre estarão. Não há como combater essa praga. É mais fácil vender geladeira a esquimó do que acabar com a corrupção no Brasil.

‒ Não tenho certeza de estar de acordo com você. Corrupção é crime tanto quanto homicídio e latrocínio. Não pode ser encarado com leviandade. Recuso essa tese de que é impossível combatê-lo.

‒ E como é que se combate corrupção, Sigismeno de Deus?

‒ Pra começar, mandando o Lula pra cadeia. Esse é o ponto de partida. Sem isso, não vamos sair do lugar.

‒ Ok. Se o Lula for pra trás das grades, o que é que muda no panorama?

‒ Duas coisas pra lá de importantes. A primeira é que, atrás dele, uma extensa fila de gente fina vai ser hospedada na Papuda ou em Curitiba. A segunda é o medo que essas prisões vão gerar. Como todo o mundo sabe, o medo da punição é o principal fator inibidor de “malfeitos”. Quando você sabe que tem 90% de risco de ser flagrado e punido, você pensa dez vezes antes de cometer o ilícito. E acaba desistindo.

‒ É, acho que você tem razão, Sigismeno. Se tiverem quase certeza de que a «coisa» vai acabar mal, os políticos vão acabar desistindo de cometer a «coisa».

‒ E as consequências vão mais longe.

‒ Mais longe, Sigismeno? Em que sentido?

‒ O mundo não acaba amanhã. Depois de nós, virão outros, filhos, netos, descendentes. Eles vão receber o que estamos construindo hoje. Em consideração a eles ‒ que talvez ostentem sobrenome herdado de você mesmo ‒ é imperativo fazermos o máximo pra legar um Brasil melhor, mais limpo. Se, pra nós, não muda muito que o Lula vá preso ou não, pra os que virão, muda muito. Não temos o direito de nos acomodar, que seria desonesto.

‒ Tem razão, Sigismeno. Bom agora eu vou indo, que já está ficando tarde.

‒ Até a próxima!

‒ Até, Sigismeno!

Foro privilegiado

José Horta Manzano

Pode chamá-lo foro especial ou foro por prerrogativa de função ‒ o nome oficial. São ambos eufemismos para disfarçar um foro para privilegiados(*).

Se o distinto leitor, por desgraça, tiver um dia de enfrentar processo criminal, será julgado num tribunal comum, dito de primeira instância. No entanto, em nossa República de desiguais, cinquenta mil cidadãos escapam da vala comum do populacho. A função pública que exercem lhes dá o direito de passar por cima dos perigosos humores de um juiz solitário. Que estejam sendo acusados de assaltar o erário ou de dar uma guarda-chuvada no vizinho, serão julgados por um colegiado de juizes profissionais, lotados na mais alta corte do país.

Essa disparidade de tratamento é resquício de uma era em que o fato de os amigos do rei serem mais bem tratados que os demais não comovia ninguém. Por fatores que vêm se acumulando, a situação tem-se tornado insuportável.

Em primeiro lugar, os modernos meios de comunicação difundem toda informação com eficácia e põem os brasileiros a par do que ocorre no andar de cima. Hoje todos sabem e comentam tudo. Em segundo lugar, a enxurrada de «malfeitos» cometidos pelos amigos do rei estes últimos anos tem atulhado escandalosamente a corte maior.

Às carreiras, está sendo votada a supressão do foro privilegiado. Muitos acreditam que deva ser conservado para o presidente de cada Poder. Mais finórios, alguns preconizam que antigos chefes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário mantenham o direito a foro privilegiado pelo resto da vida. Todos entenderam quem é o objeto da tragicomédia. Nada é impossível nesta terra gigante e adormecida…

Quanto a mim, sou pela supressão pura, simples, integral e imediata do foro especial. Para todos. Atenção: que não se confunda foro especial com imunidade parlamentar! A imunidade do parlamentar, dos ministros do STF e do presidente da República é imperativo incontornável. Se assim não fosse, uma avalanche de processos se derramaria em permanência sobre cada um deles entravando, assim, o funcionamento da máquina pública.

Mas imunidade não é sinônimo de impunidade. A imunidade deve proteger o eleito enquanto dura o mandato. Ao deixar a função, deverá prestar contas à justiça. Para tanto, enfrentará tribunal comum, como qualquer outro cidadão.

A força democrática de uma sociedade se reconhece pela atenção que dedica a seus membros mais fracos e necessitados. Eleitos do povo e altos dirigentes ‒ atuais ou antigos ‒ não fazem parte da franja mais desvalida. Não faz sentido obsequiá-los com tribunal especial.

(*) Privilégio provém do latim privilegium, termo formado de privus (sozinho, singular, solitário) e legem (lei). Em sentido literal, é lei privada, especialmente feita para uma ou poucas pessoas. Donde, vantagem concedida a uma ou poucas pessoas em derrogação do direito comum.

A moeda e a soberania

José Horta Manzano

«Quem não tem competência não se estabelece» ‒ diz o adágio. Com razão. Pra fazer malfeito, melhor não fazer. Os governos lulopetistas criaram uma enxurrada de estatais. As novas empresas atingem o inacreditável número de 150. Novas companhias foram abertas ao ritmo de uma por mês. A cada trinta dias, nova empresa brotou do nada, não é impressionante? E pensar que, apesar desse vigoroso reforço no aparelho estatal, o país caminhou pra trás. Um aparente paradoxo que a incompetência, a desonestidade e o desprezo dos interesses da nação explicam.

Mergulhados na ignorância, na ingenuidade e na certeza da impunidade, os então recém-chegados ao poder agiram como novos-ricos. Como se tivessem ganhado inesperados milhões na loteria, seguiram a receita torta dos ideólogos do partido e gastaram, sem contar, o dinheiro fácil e abundante. Tentaram submeter o funcionamento da nação aos ditames dos desvairados líderes.

Não deu certo. As novas estatais se transformaram em cabides de emprego e em moeda de troca. Ao fim das contas, o país foi assaltado, a sociedade se desorganizou, o desemprego se instalou e a economia sentiu o baque. Vai demorar anos pra voltar ao statu quo ante bellum ‒ o estado em que as coisas estavam antes do rebuliço.

A instabilidade atual, fruto de um sistema que não foi pensado para enfrentar situações tão dramáticas e tão confusas, não ajuda. Mais de ano depois de o lulopetismo ter sido banido do Planalto, ainda estamos discutindo se o atual presidente fica ou não. A cada dia, surgem novidades escabrosas de assalto ao nosso suado dinheiro. Nada disso nos ajuda a sair do buraco.

Para mitigar a falta de fundos, o governo federal decidiu pôr à venda boa quantidade de ativos, numa lipoaspiração que ‒ espera-se ‒ deixará a máquina mais enxuta e funcional. Foi anunciada uma lista de 57 empresas a privatizar. Entre elas, está a Casa da Moeda do Brasil, responsável pela fabricação do dinheiro, dos selos e dos passaportes. A notícia deixou muita gente alvoroçada. Alguns se sentem como se estivéssemos vendendo a alma ao diabo e abrindo mão de parte da soberania.

Não enxergo as coisas assim. Embora os colonizadores holandeses já cunhassem moedas mais de três séculos atrás nas colônias que hoje constituem o Estado de Pernambuco, o Brasil foi sempre, em maior ou menor medida, dependente de importação de cédulas. Até os anos 1950-1960, todas as notas eram impressas no exterior. E isso jamais arranhou a soberania nacional.

Há que fazer a distinção entre a decisão de emitir moeda, atributo do Banco Central, e a fabricação propriamente dita. Assim como empresas gráficas não são autorizadas a imprimir talões de notas fiscais a seu bel prazer, a Casa da Moeda não é livre de produzir cédulas como bem entende. Age como fornecedor sob as ordens do banco emissor. É submetida a rígido controle.

Ainda hoje, em épocas de penúria, pode acontecer de o Brasil encomendar cédulas a empresas estrangeiras. A conceituadíssima empresa britânica Thomas de la Rue, especializada no setor, é responsável pela impressão do meio circulante de quase 150 países. Sem risco à soberania de nenhum deles.

Portanto, não vejo nenhum problema em privatizar a Casa da Moeda. Combina, aliás, com o conceito de terceirização, que anda tão na moda. Compete às autoridades monetárias controlar o meio circulante. Não lhe cabe necessariamente imprimir cédulas nem cunhar moedas.

A privatização de mais essa estatal traz um benefício extra: inibe a empresa de transformar-se em cabide de emprego. Desde que aja sob contrôle rígido das autoridades monetárias, há de continuar funcionando tão bem ou melhor que antes. Aliás, surge a esperança de que não haja mais ruptura de estoque de papel para confeccionar passaportes. Já será um avanço.

Frase do dia — 320

«Eduardo Cunha foi preso. Não tinha mais mandato. Se Renan continuar solto, é apenas porque tem um. É justo cometer crimes em série, sob o escudo de um mandato parlamentar? Renan está nervoso porque percebe o crepúsculo de um sistema de impunidade tecido pela audácia dos coronéis e a inoperância do Supremo. A evolução do país o levou a perder a cabeça, algo raro no passado. Espero que não chegue a arrancar os cabelos e ouça o meu conselho de anos atrás: se entrega, Corisco!»

Fernando Gabeira, jornalista, em artigo publicado em 30 out° 2016.

Bye, bye, Paraguai

Fernão Lara Mesquita (*)

Outro dia foi a China que anunciou que está saindo de onde o PT quer entrar. Na semana passada, quem diria, quem passou por nós na contramão e dando adeus às Venezuelas e às Cubas dos sonhos do PT foi o Paraguai que, na quinta-feira 28, acabou com a imunidade parlamentar dos seus senadores ― ou melhor, com aquela parcela dela que é abusiva e antidemocrática ― depois de duas semanas de rebelião aberta contra a decisão anterior, do dia 14, quando 23 dos colegas do senador punido votaram a favor da sua permanência impune no Senado.

Victor Bogado, do Partido Colorado, tinha a babá de seus filhos ganhando dois salários ― um pela Câmara dos Deputados e outro pela Itaipu Binacional ― e foi um dos primeiros a ter seus podres publicados no novo site da internet criado pelo presidente Horácio Cartes, do seu próprio partido, para prestar contas sobre gastos públicos e dar transparência ao que se passa dentro do governo.

Pouco depois da votação espúria, um dos parlamentares que votou pela impunidade do senador alegando a imunidade parlamentar entrou numa pizzaria para jantar. Foi o estopim. Ele foi expulso sob vaias e palavrões e, por pouco, não foi agredido pelo público.

Daí por diante foi como uma epidemia. Restaurantes, bares, comércios, shopping centers e até estádios de futebol e hospitais (estes abrindo exceções só para emergências) começaram a pôr cartazes na porta anunciando «não atendemos ratos neste estabelecimento». A única exceção foi uma funerária que pôs anúncios nos jornais dizendo que receberia qualquer um dos traidores «com todo o prazer».

O povo montou uma vigília na frente do Congresso e um site foi aberto na internet com fotos dos 23 traíras e acompanhamento diário dos seus passos. Em duas semanas nova votação foi convocada, a imunidade do senador caiu e ele foi cassado.

Nesse meio tempo, Genoino ia para casa e José Dirceu passava a ganhar 20 mil reais por mês para conspirar contra a democracia brasileira do jeito a que já está acostumado, enquanto todos os partidos de algum peso fechavam as portas para a admissão de Joaquim Barbosa como candidato em 2014.

O Paraguai esteve 35 anos sob a ditadura de Alfredo Stroessner, 14 anos a mais que os nossos ditos «anos de chumbo». O país nunca experimentou nada que lembrasse remotamente uma democracia digna desse nome. E, no entanto, taí respirando ar fresco graças às novas condições de circulação da informação e à articulação da resistência civil.

E o Brasil?
Algo de muito semelhante ocorreu aqui no mês de junho deste ano. Mesmo com todo o marasmo em que vive a nossa política, bastou que alguém agitasse uma bandeira ― no caso o STF com as condenações do Mensalão ― e o povo se levantou com força suficiente para pôr o «Sistema» em pânico.

Mas nenhuma força organizada deu sequência ao movimento, o que ensejou que os profissionais do golpe armassem a sequência de quebra-quebras que tirou a gente séria das ruas.

Se tivesse havido uma única voz disposta a puxar a fila, ela teria seguido andando. Mas você pode virar e revirar os nossos 32 partidos «de esquerda», inclusive os «de oposição» e seus milhares de candidatos; pode ver e rever o horário eleitoral e não encontrará rigorosamente nada que escape daquela tapeação vergonhosa que conhecemos, ofensiva à nossa inteligência, de tão rasa e explícita.

Pior: você pode revirar todos os jornais, ouvir todas as rádios, ver todos os programas jornalísticos da TV, e nada que não seja esses mesmos candidatos e o que uns estão dizendo sobre os outros lhe será apresentado. Haverá até quem afirme gostar e quem afirme não gostar deste ou daquele. Mas sugestão nova, propostas, reportagens sobre modos diferentes de gerir a coisa pública ou informações sobre como os outros que dão certo estão fazendo, zero! Mesmo os acontecimentos do Paraguai tiveram uma cobertura menor que um reles desastre de trem em Nova York.

Não há exemplo histórico de processos como o brasileiro que tenham sido revertidos senão por dois tipos de expediente: uma iniciativa forte do Poder Judiciário ou a articulação de propostas novas e de campanhas, protagonizadas pela imprensa, para levá-las a efeito. Ou então essas duas coisas junto.

O voto distrital com recall foi uma das propostas que nasceram assim e têm currículo mais brilhante no rol das revoluções pacíficas da humanidade. Tem mudado mundos e fundos nos dois últimos séculos e está aí esperando quem a leve adiante para mudar o Brasil.

Mas, até agora, a única figura institucionalmente forte que vi pregar esse remédio no Brasil foi ― adivinhe! ― o ministro Joaquim Barbosa. Aquele que, pela primeira vez em nossa história, pôs essa bandidagem da porta da prisão para dentro, ainda que tenha sido impedido de trancá-la.

Aécio Neves, esse alegre candidato «de oposição» em busca de um discurso, é um que, se adotasse esta proposta, correria o sério risco de ter, pela primeira vez na vida, alguma coisa a dizer que valesse a pena ser ouvida.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista. Edita o site http://vespeiro.com/

Rapidinha 4

José Horta Manzano

Dona Dilma definiu os atos de vandalismo como barbárie. Tem razão, ponto para ela. Manifestantes brutais não podem ser tratados com luva de pelica. A autoridade tem de usar métodos equivalentes. Não se enfrenta canhão com estilingue.

Já basta a imagem de pusilanimidade que nossas autoridades têm exibido. O mundo não precisa ficar sabendo que, no Brasil, além de o governo ser fraco, o povo é baderneiro e violento. Nossa imagem já anda um bocado amassada. É melhor parar por aqui.

A prefeitura tem o poder de proibir que manifestantes saiam às ruas mascarados. Aquele que desobedecer será sumariamente detido para averiguações, mesmo que (ainda) não tenha quebrado nenhuma vitrine. Depois de algumas dezenas de prisões, os ânimos vão-se acalmar. O que move esses selvagens é a certeza da impunidade.

O Ipiranga

José Horta Manzano

Os numerosos anos que já vivi me permitiram presenciar ou tomar conhecimento de muita coisa. Fatos raros, fatos corriqueiros. Acontecimentos bonitos, outros menos. Não me lembro de nenhuma ocorrência com as características do que se passou na madrugada de domingo na Avenida Paulista, em São Paulo.

Falo do ciclista atropelado. Meus leitores que moram no Brasil certamente sabem do que estou falando. Em atenção aos muitos que, como eu, vivem longe de Pindorama, deixo o endereço de duas páginas, uma do Estadão e outra da Folha de SP. Primeiro leiam aqui, em seguida aqui. Depois conversamos.

.:oOo:.

Já leram? Agora estamos todos a par. Não tenho nenhum detalhe a acrescentar, não sei mais do que aquilo que os jornais publicaram. E já é o suficiente. Tivesse um figurão político sofrido um atentado, tivesse uma grande estrela do cinema caído no Vesúvio, tivesse nevado em Manaus, nenhum desses acontecimentos teria provocado o choque que essa notícia me assestou.

Imaginaram a cena? Cinco horas da madrugada, um jovem volta da balada ao volante de seu carro. Não se sabe ainda por que razão, atropela um operário que, de bicicleta, seguia para seu emprego. A vítima tem seu braço arrancado ― sim, extirpado, desarraigado, separado do corpo. O membro fica agarrado ao para-brisa do automóvel. O motorista não se detém para prestar socorro à vítima desmembrada.

E não é só. O jovem universitário ― universitário! ― continua seu caminho com o braço sanguinolento teimosamente colado ao vidro dianteiro. Não lhe passa pela cabeça que todo braço é irrigado por artérias e que a vítima, que naquele momento se esvazia de seu sangue, há de estar precisando de ajuda. Não lhe ocorre que uma chamada de emergência pode ser feita de seu próprio celular. Não se preocupa nosso universitário em ao menos devolver à vítima o braço decepado.

Quem conhece a cidade de São Paulo sabe que, da Avenida Paulista até a Avenida Ricardo Jaffet, vão bem uns 15 minutos. Quando o tráfego está livre, naturalmente. Portanto, afaste-se a ideia de uma reação tresloucada, impensada, tomada sob momentânea e violenta emoção. O que nosso universitário fez foi, como se diz, de caso pensado. Pensado, pesado e arquitetado. Teve um bom quarto de hora para sopesar o que tinha feito e o que se preparava a fazer.

E o que fez? Parou seu veículo às margens do riacho Ipiranga ― sim, exatamente aquele do Hino Nacional ―, atirou lá o membro decepado e foi-se embora tranquilo, na certeza de nunca ser desmascarado.

Neandertal

Sabe-se que, 50 mil anos atrás, os Neandertais já tinham assimilado a noção de solidariedade. Quando a doença, um acidente, a velhice impedia que um deles continuasse a dar sua contribuição ao grupo, os demais o amparavam e provinham ao seu sustento. É uma das características que marcam a diferença entre humanos e animais. Há que reconhecer que algum resquício troglodita ainda resiste nas profundezas da alma.

O que ocorreu na Avenida Paulista às 5h da manhã deste domingo é para mim mais chocante e mais preocupante que todos os arrastões que entopem as páginas policiais de nossos jornais.

Mais do que se preocupar com dividendos de um hipotético pré-sal ou com o resultado de futuras eleições, nossos mandachuvas deveriam tomar a temperatura do desastre que a impunidade crônica está preparando para os que comandarão o país dentro de 20 anos.

De minha parte, não posso fazer grande coisa além de apontar o que me parece errado. Que aqueles que detêm o poder cumpram seu dever e façam o necessário. E urgentemente. A quase garantia de impunidade tem de ser erradicada da paisagem tupiniquim. O Brasil tem de voltar a ser um país normal. A continuar como está, nossos netos voltarão ao estado selvagem.

As margens do Ipiranga, que um dia foram plácidas, estão tingidas de sangue. De sangue e de vergonha. De 1822 para cá, elas já se tinham habituado a receber poluição e detritos, mas não estavam preparadas para dar guarida ao produto de atrocidade tão covarde.

O homem do saco 2

Você sabia?

José Horta Manzano

«Quando não vai por bem, vai por mal». Desde pequenos, ouvimos essa expressão. Há variantes, entre as quais: «Se não for pelas boas, vai com casca e tudo». Parece lugar-comum dizer isso, mas a sabedoria popular é realmente bem mais profunda do que imaginamos.

Há regras e normas que, por preguiça ou negligência, costumamos ignorar. Todos nós sabemos, por exemplo, que é proibido estacionar um veículo em cima de uma faixa de pedestres. Assim mesmo, não se passa um dia sem que flagremos carros parados bem em cima de faixas protegidas. Por que acontece isso? Será por deficiência visual do motorista? Não acredito. É negligência, fruto da quase certeza da impunidade.

Saco oficial

Saco oficial

Por aqui, faz anos que se incita o povo a triar o lixo doméstico. Nossa sociedade produz montanhas de detritos que precisam, de um modo ou de outro, ser tratados. Que se os incinere, enterre, recicle, algum fim tem de ser dado a todo esse descarte. No passado, já cheguei a ver famílias com vários recipientes em casa, cada um etiquetado para um tipo de despejo. Mas não era muita gente a proceder assim, pois a decisão dependia unicamente da boa-vontade e da consciência ecológica de cada um. As autoridades bem que tentaram fazer que os cidadãos entendessem que nem tudo o que se joga fora é lixo inaproveitável. Desde que se faça uma triagem conscienciosa, muita coisa pode ser utilizada para outros fins. Depois que está tudo misturado, a separação fica difícil, se não impossível.

Pelas boas, não foi. Os conselhos não adiantaram muito. Mentalidades não se mudam assim, da noite para o dia, sem mais nem menos, só com um apelo à consciência de cada um. A parte mais sensível do homem, como se sabe, é o bolso. Como não houve outro meio, restou a maneira forte.

Foi o que relatei num artigo postado em 21 de dezembro de 2012, quando lhes relatei sobre a nova taxa que estava para vigorar no município onde vivo. É a «taxa do lixo» também conhecida como «taxa por saco».

Na época, insurgi-me contra a obrigatoriedade do novo regulamento. Cheguei a fazer referência jocosa à história do «homem do saco», aquela figura inventada pelos antigos para domar, pelo terror, crianças desobedientes. Fiz alguns cálculos apressados e concluí que as novas regras poderiam representar uma despesa extra de 550 dólares anuais para uma família, o que me pareceu desproporcional e injusto.

Já vai para dois meses que a nova regra entrou em vigor. Dado que toda a região a adotou ao mesmo tempo, não dá nem mesmo para fazer «turismo do lixo», ou seja, embarcar o saco de entulho no automóvel para jogá-lo num município vizinho.

Todos os habitantes receberam um livreto de instruções da prefeitura municipal, todo bonitinho, com desenhos coloridos, coisa fina. Estão lá descritos todos os objetos que um cidadão costuma descartar. Começa com remédios vencidos, passa por móveis velhos, pilhas gastas, lâmpadas queimadas, papel, metal, plástico, tecidos, e vai até o lixo orgânico.

Ninguém paga de bom grado 2,50 dólares por um saco de plástico para enchê-lo de lixo. Assim mesmo, todos os habitantes fomos obrigados a nos sujeitar ao novo regime. Pois pasmem, caros e fieis leitores! Constato hoje que a mudança de hábitos foi extremamente salutar. No final, ganham todos.

Temos hoje em casa 7 recipientes, um para cada tipo de descarte. O mais volumoso ― eu não imaginava! ―, é o de plástico. É incrível o que se utiliza de matéria plástica, sobretudo para embalagens.

Temos ainda um recipiente para metais, onde vai o que for de ferro, aço ou alumínio. Não serve para pilhas nem para lâmpadas, que essas têm de ser devolvidas à loja que as vendeu.

Uma outra caixa é para papel e papelão. Uma outra ainda fica reservada para PET, aquele polímero usado para água engarrafada. Antes de descartar, tem-se de pisar a garrafa para tirar o ar e atarraxar de novo a tampinha no bocal. Uma quinta caixa serve para objetos de vidro.

O sexto recipiente é especial: serve para o lixo orgânico, ou seja: resto de comida, casca de fruta, escama de peixe, coisas desse tipo. É conveniente que esse recipiente seja pequeno, de modo a caber no congelador. Se não, ai, ai, ai, vai exalar um cheirinho. É conveniente forrá-lo com um saco de material biodegradável, que será aceito como lixo orgânico. Essa matéria, depois de processada, vai se transformar em adubo. Por caminhos tortuosos, voltará a nossos pratos.

Por fim, sobrou… a antiga lixeira, devidamente forrada com seu novo (e caro) saco. Depois da triagem, pouco ou nada sobra para este sétimo recipiente. Talvez algum saco de aspirador, objetos que contenham plástico e metal ao mesmo tempo, fraldas de recém-nascido, coisas assim.

O depósito de lixo municipal tem caçamba para cada tipo de lixo. Cada habitante do município pode levar seus detritos ao depósito e lançá-los no contêiner adequado. Não pagará nada. As crianças adoram jogar garrafas na caçamba apropriada. Não só as crianças. É um dos raros lugares onde se pode quebrar vidro sem sentimento de culpa. Mas atenção, há um requinte: garrafas brancas, verdes ou marrons vão em recipientes diferentes.Poubelles

Para facilitar a vida dos munícipes, evitando que tenham de visitar o depósito municipal a todo momento, pequenos contêineres de cor marrom estão instalados em pontos estratégicos da cidade, disponíveis o tempo todo. São reservados exclusivamente para lixo orgânico, aquele que ninguém quer guardar muito tempo.

Pode parecer complicadíssimo, mas não é. É questão de costume, acreditem. E é sempre reconfortante saber que cada um está fazendo sua parte na preservação do planeta.

Não deu para introduzir a nova prática pelas boas. Foi pelas más.