A Hora do Brasil

José Horta Manzano

Nos anos quarenta, a grande distração das famílias, depois do jantar, era o rádio. Espetáculos ao vivo, radionovelas, concertos preenchiam o espaço que vai da última garfada ao primeiro bocejo.

radio 3Programas caipiras contavam com boa audiência. (Naquele tempo, a gente ainda podia dizer «caipira», que a palavra «sertanejo» ainda não era obrigatória.)

Alvarenga & Ranchinho eram os reis do gênero. Mas havia outros, alguns atuando em dupla, outros a solo. Entre estes últimos, estava o Nhô Totico, de quem minha avó não perdia uma apresentação. Ele ia além do estereótipo. Precursor no gênero one man show, criou numerosos personagens que retratavam o quotidiano da São Paulo e do Brasil de seu tempo. Tinha boa audiência.

Certa noite, logo antes de encerrar o programa, Nhô Totico ousou dizer algo como: «E agora, desliguemos nossos radinhos, que vem aí a Hora do Brasil»(*).

Ai, ai, ai… Do Catete, Getúlio Vargas mandou o cacete. O humorista até que se saiu relativamente bem. Não apanhou, não foi preso, só levou uma suspensão de alguns dias. Doutor Getúlio, no fundo, devia se dar conta de que a difusão daquele programa diário e obrigatório ― criado por ele mesmo ― era maçante, uma pedra no sapato para a maioria dos radio-ouvintes.

É verdade que, naqueles anos sem internet e sem tevê, não havia outra maneira eficaz de fazer chegar aos rincões mais afastados as notícias das atividades oficiais da Corte. O tempo se encarregou de alterar o quadro.

Nhô ToticoHoje, com multimídia, multicomunicação, multirelacionamento, enxurradas de informação chegam instantaneamente a qualquer lugar. A Hora do Brasil ― que, desde então, foi rebatizada como A Voz do Brasil ― perdeu sua razão de ser. É melancólico constatá-lo, mas chegou a hora da aposentadoria. Merecida.

Em consideração à paixão que muitos brasileiros demonstram pelos jogos da Copa do Mundo ― especialmente aqueles de que o Brasil participa, tudo indica que o horário de transmissão do programa oficial será flexibilizado estas próximas semanas. Atenção, não se cogita eliminá-lo! Apenas deslocá-lo para um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde.

Acredito que, assim como a gente sabe a hora de começar uma atividade, sabe também quando é hora de encerrá-la. Salvo melhor juízo, chegou a hora de dizer adeus à Voz do Brasil. Foi bom enquanto durou, mas o ciclo, no meu entender, se extinguiu.

Que se encerrem as transmissões. E que se injetem os fundos assim poupados na criação ou no adensamento de programas de ensino à distância. Será dinheiro mais bem empatado.Interligne 37i

(*) Hora do Brasil era o nome que então se dava à atual Voz do Brasil.

Eu espio, tu espias, ele espia

José Horta Manzano

De certas coisas, mais vale não falar. Não se pode dizer tudo o que se pensa. Não se pode fazer tudo o que se quer. Não se pode ficar sabendo de tudo o que se passa. O mundo é assim, sempre foi, e assim há de continuar. Cada macaco no seu galho.

Todos os suíços sabem que suas montanhas lembram queijo Emmenthal. São todas cheias de furos, de túneis, de cavernas, de depósitos de munição, de bunkers, de sofisticados sistemas de ventilação, de importante estoque de víveres, de geradores de energia, de postos de comando dotados de sofisticada eletrônica. Parece que até baterias antiaéreas, tanques de guerra e aviões estão armazenados em galerias escavadas. Esses refúgios, que existem há séculos, estão previstos para abrigar, em caso de guerra, o governo e as personalidades que conduzem o país.

Antena Crédito: Riccardo Umato

Antena
Crédito: Riccardo Umato

Devem servir também como reserva de alimentos para a população em caso de bloqueio do país. Todos sabem da existência dessas instalações, mas muito poucos estão a par dos detalhes. Uma meia dúzia de oficiais de alta patente, ninguém mais. Não faria sentido anunciar aos quatro ventos a localização, o conteúdo e a função de cada esconderijo. Não ajudaria ninguém e, pior, daria preciosas informações a eventuais adversários.

Por definição, o que é secreto não deveria ser comunicado ao distinto público, muito menos publicado em jornal. É o caso das atividades ligadas aos serviços de inteligência. Nesse campo, toda discrição é pouca. Se assim não for, não faz sentido. Um serviço secreto aberto à curiosidade pública não tem razão de ser.

Essa CPI da espionagem, a meu ver, não deveria nem ser cogitada, que é vespeiro peçonhento. Furiosa da vida quando se soube espionada, dona Dilma reagiu como criança mimada: melindrou-se e acabou dando mais uma prova de sua inexperiência. Armou um fuzuê, desperdiçou a deferência especial de ser a primeira a discursar na abertura anual dos trabalhos da ONU, esperneou, procurou juntar aliados, perturbou relações bilaterais entre o Brasil e os Estados Unidos. Tudo isso para um resultado nulo.

Estes últimos dias, chegou a vez de nossa despreparada presidente engolir sapinhos. O anúncio de que nossos serviços de inteligência também espionam invalida todo o esperneio destas últimas semanas. Ou dona Dilma sabia de tudo ― nesse caso, tem simplesmente mentido e feito jogo de cena. Ou dona Dilma não sabia de nada ― nesse caso atesta sua inaptidão para exercer as funções que lhe foram confiadas.

Jornais ― e até a própria chapa-branquíssima Agência Brasil ― informaram estes dias que países estrangeiros dispõem de centenas de antenas de comunicação instaladas em território brasileiro. Quatro países estão mencionados: EUA, França, Chile e… Romênia. Só esta última conta com 20 antenas próprias plantadas legalmente em território brasileiro! Datam da época soviética?

Eu confesso que não sabia disso. Mas tenho uma desculpa: não sou presidente da República. O ocupante do cargo maior dispõe de assessores, informantes, secretários, assistentes, ministros, comissários, enfim, gente paga para mostrar-lhe o caminho das pedras. Ou a equipe de dona Dilma é constituída de incapazes, ou a presidente não lhes dá ouvidos. Tenho tendência a dar mais crédito à primeira hipótese.

Antena

Antena

Falou-se de antenas instaladas por quatro países. E os outros? Rússia, Reino Unido, China, Alemanha, Japão, Venezuela, Argentina como fazem para se informar? Escutam A Voz do Brasil ou o Jornal Nacional?

Faltou ainda mais um capítulo. O Brasil também há de ter antenas plantadas em território alheio, pois não? Quantas são? Onde estão? Para que servem?

Se os responsáveis não acharam útil informar nem a presidência da República ― que parece cair das nuvens com a descoberta ―, não é a nós, meros mortais, que grandes revelações serão feitas.

E está muito bem assim. Serviços secretos não têm vocação para trabalhar abertamente, muito menos para conceder entrevistas coletivas. Deixemos que cumpram sua missão tranquilamente.

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Informações repercutidas por:
Agência Brasil
Estadão
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