O falso problema

José Horta Manzano

Para cada fracasso, tem de se encontrar um culpado. Essa busca de um judas faz parte do mais profundo da natureza humana. Já nos recuados tempos bíblicos, a cada desgraça, um bode expiatório tinha de ser apontado. Se não houvesse ninguém disponível, ia o próprio bode para a degola.

Entrou na moda, estes últimos anos, atribuir ao instituto da reeleição males dos quais ele não tem culpa. Se a atual presidente da República abandonou suas funções para jogar-se, corpo e alma, na campanha de sua própria sucessão, não se há de lançar maldição sobre a reeleição. A responsável é uma só: a própria presidente.

Se algo errado há – e há! – a peça defeituosa é outra. Os freios da decência, os limites entre o público e o privado, os confins da moral pública vêm sendo corroídos, deletados, suprimidos desde que um certo presidente atípico descobriu o Brasil, doze anos atrás.

Crédito: meninachic.fashionblog.com.br/

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Reeleição é habitual em país civilizado. Quando os eleitores estão satisfeitos com o governo, não é justo que não possam reconduzir a mesma equipe. Estados Unidos, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido, Espanha, todos permitem que a equipe governamental seja reconfirmada. E isso não é fonte de nenhum mal.

No Brasil, estamos enxergando problema onde não deveria existir. A degradação acelerada do trato com a coisa pública é a verdadeira responsável. Ainda que, por hipótese, a reeleição seja abolida, o titular é bem capaz de largar suas obrigações e pôr em marcha a máquina do Estado para trabalhar pela eleição de um poste. Abandono da reeleição não é necessariamente sinônimo de saneamento da mecânica governamental.

Outro falso problema é o grande número de ministérios, frequentemente denunciado como verdadeiro festival. De novo, o mal não está na quantidade de ministros e de assessores. O que enguiça a máquina é a maneira de escolher esse pessoal, a incompetência flagrante de alguns titulares, o descompromisso da maioria deles com a função que exercem.

O governo francês atual, que não é considerado particularmente corrupto, conta com 33 ministros e secretários de Estado com estatuto de ministro. E isso não atrapalha ninguém.

Quanto à reeleição, Mitterrand, Chirac, Obama e tantos outros foram reeleitos sem que ninguém os tenha acusado de se terem apoiado no aparelho estatal. Por outro lado, embora detivessem as rédeas do poder, Sarkozy, Giscard d’Estaing e Jimmy Carter foram dispensados ao final do primeiro mandato.

No Brasil, reeleição pode não ser a solução. Mas também não deveria ser um problemão.

Estrepolias: de lá e de cá

José Horta Manzano

Todos ficaram sabendo que François Hollande pagou suas estrepolias extraconjugais com moeda forte: sua companheira deixou-o falando sozinho.

Depois que todos se inteiraram de que o presidente costumava abandonar o Palácio do Eliseu numa garupa de moto para encontrar-se com uma jovem atriz 15 anos mais nova que ele, a companheira fixa foi-se embora. A França perdeu sua primeira-dama e ficou órfã de mãe.

Florent Pagny, cantor e figurinha carimbada da cena artística do país, é conhecido por não ter papas na língua. Provocado, botou fora, em linguagem chã, o que achava do acontecido.

«Para quem está num nível de responsabilidade tão elevado, das duas uma: ou tem a capacidade de se organizar para que ninguém fique sabendo ou tem de ter o poder de bloquear toda informação, como Mitterrand.»(*)

E disse mais: «Peraí, meu caro, presidente é presidente 24 horas por dia durante cinco anos. A vida privada, pode esquecer!»

AvestruzEstive pensando que, guardadas as devidas proporções, as mesmas reflexões se aplicam a nossa presidente. Haja vista a excursão gastronômica dela e de sua corte por terras lusitanas.

Quem não tem o poder de bloquear a informação tem de andar na linha ou se aplicar para que ninguém fique sabendo.

Quem é presidente tem de deixar de molho sua vida privada. Pelo menos, durante o mandato.

Taí um consolo para dona Dilma: ela não é a única a ter tido de aprender a lição na base da bordoada. Esperemos que tenham aprendido, tanto ela quanto ele.

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(*) Durante os 14 anos em que exerceu a função de presidente da França, François Mitterrand manteve duas famílias. A oficial (e conhecida por todos os cidadãos) residia no palácio presidencial. A oficiosa (conhecida pelos medalhões do regime e por praticamente todos os jornalistas) residia num apartamento parisiense. O presidente tinha dois filhos com a matriz e uma filha com a filial.

A verdade só veio à tona depois do falecimento do líder. Enquanto ele viveu, nenhum jornalista jamais ousou revelar a realidade, tamanho era o temor que o personagem infundia a todos.

Os dotô também erra

José Horta Manzano

Concurso de ortografia

Concurso de ortografia

A França deve ser um dos raros países em que se organizam periodicamente concursos de ortografia. Para nós, não faz muito sentido, mas para eles faz.

O português escrito é quase inteiramente fonético. Ao longo dos séculos, foram sendo abandonadas letras supérfluas. Assim, não escrevemos mais phtisica, mas tísica. Nichteroy virou Niterói. Assumpto, afflicto, prompto, appellido, deshonesto são hoje grafados assunto, aflito, pronto, apelido e desonesto.

Para reafirmar a tendência fonética de nossa norma, acrescentam-se letras a certos compostos para manter a relação entre a escrita e a pronúncia. Assim, escreveremos contrassenso, autossuficiente, contrarregra.

Pequenas reminiscências etimológicas subsistem em nossa grafia. Concentram-se nas palavras que comportam as sequências xc (excelente), sc (piscina) e, sobretudo, naquelas que tradicionalmente são grafadas com agá inicial (hora, hospital, herança, haver).

Em resumo, as armadilhas de nossa ortografia são poucas. A exceção a essa facilidade fica por conta da valsa dos hífens, que nos azeda a existência. Não é fácil entender a lógica que recheia maria-sem-vergonha de hífens e priva deles maria vai com as outras. No entanto, ficou combinado que assim é.

A língua espanhola, cuja pronúncia distingue um c de um s ― e ambos de um x ― é ainda mais fonética que a nossa. No topo do pódio, estão línguas como alemão, italiano e turco. Nelas, a cada som corresponde uma letra (ou um conjunto de letras) e a cada letra (ou conjunto de letras) corresponde um som. Na hora de escrever, fica fácil. Só erra quem estiver muito desatento.

Torneio de ortografia

Torneio de ortografia

Já o francês… ah, o francês! Embora a língua, de estrutura muito próxima à de suas primas-irmãs, deva ser classificada como latina, suas palavras sofreram erosão muito forte. Com o escorrer dos anos, sílabas se perderam, finais deixaram de ser pronunciados, sons se transformaram. O resultado é que o idioma francês está hoje recheado de homônimos, palavras que se pronunciam exatamente da mesma maneira, embora signifiquem coisas completamente diversas. E como diferenciá-las? A solução foi manter a escrita fiel à etimologia ― verdadeira ou suposta ― de cada palavra. Por exemplo, maire (o prefeito), mère (a mãe) e mer (o mar) se pronunciam do mesmo exato modo. Na fala, o contexto cuida de fazer a distinção. Na escrita, cada uma guarda algum traço de suas feições originais. A língua guarda profusão de consoantes duplas não pronunciadas, consoantes finais mudas, pê-agás que convivem com efes. Há quarenta maneiras de escrever o singelo som o.

Está aí a razão da existência de eletrizantes campeonatos de ortografia, de repercussão nacional, transmitidos em várias etapas pela tevê. Com provas eliminatórias, semifinais, a grande final, a premiação e a consagração do vencedor. Participam todos: adolescentes, adultos e velhos. Grafar corretamente as palavras é marca de distinção e de cultura. Todos aspiram a chegar lá, embora poucos consigam.

Esplanade François "Mitterand" Reims, França

Esplanade François “Mitterand”
Reims, França

Estes dias aconteceu um escândalo nacional. Para homenagear um antigo presidente da República, a cidade de Reims (no coração da região produtora de champanhe) deu a uma praça o nome do figurão. Só que, desastradamente, a placa contém um erro de grafia. Mitterrand foi escrito com um erre só. Horror e vergonha!

Nestas alturas, a sinalização já há de ter sido substituída às pressas. Mas, hoje em dia, o imediatismo da circulação das imagens não perdoa. O país inteiro ficou sabendo da gafe.

No Brasil, ninguém se impressionaria, mas, na França, é daqueles acontecimentos que causam comoção nacional.

Quem perde, ganha

José Horta Manzano

Engana-se quem imagina que pobreza só existe em país atrasado. Até nações mais ricas e desenvolvidas costumam ter uma franja de população pobre, às vezes miserável até.

Cada povo tem seu caráter, suas idiossincrasias, sua maneira de encarar e resolver problemas. É difícil detectar o porquê dessas diferenças entre as gentes. No entanto, são diferenças nítidas, indiscutíveis.

Os países que maior destruição sofreram durante a Segunda Guerra foram coincidentemente os que a ela deram início: a Alemanha e o Japão. Em 1945, quando o último canhão se calou, a Alemanha estava arruinada e o Japão, devastado.

Berlim e as principais cidades alemãs não eram mais que um monte de escombros. Pontes, estradas, prédios públicos, fábricas, instalações portuárias e ferroviárias haviam sido dizimadas. O Japão, castigado por dois bombardeamentos atômicos, contava com duas grandes cidades a menos. A população de ambos os países ― e isto não é mera figura de linguagem ― havia regredido a condições medievais. Estavam os dois países de joelhos, arrasados, quase extintos.

Alemanha & Japão

Alemanha & Japão

Outras nações europeias e asiáticas também mostravam cicatrizes profundas deixadas pela guerra, mas o Japão e a Alemanha estavam em situação tão calamitosa, que davam a impressão de jamais poderem reerguer-se.

Cinquenta anos mais tarde, o que é que se viu? Justamente os dois grandes perdedores da guerra tinham voltado à opulência de antes. Tão pujante e poderosa se mostrava a Alemanha nos anos 90, que os governantes europeus ― o presidente Mitterrand à frente de todos eles ― mostraram-se reticentes, incomodados e principalmente receosos quando a possibilidade de reunificação do país tornou-se real, em seguida à queda do império soviético.

Quando vim pela primeira vez à Europa, nos anos 60, o que é que vi? Uma Espanha e um Portugal ainda ancorados na Idade Média. Não dava para esconder a miséria e o atraso. Na Espanha dos anos 60, aliás, quando alguma personalidade conhecida fazia uma viagem à França, os jornais noticiavam: «Don Fulano se marchó a Europa». Era sintomático: eles próprios não se sentiam parte do continente. Mais ou menos como alguns brasileiros que, ao retornar da Florida, dizem que foram «à América». Ai, cala-te, boca, que a história aqui é outra. Continuemos.

A Itália e a França estavam em situação um pouquinho melhor, é verdade, mas o nível de conforto de 50 anos atrás ainda era precário. A França não tinha nenhuma estrada de pista dupla. Telefone era raridade. Em ambos os países, não era qualquer lar que contava com um banheiro de verdade, daqueles onde se pode pelo menos tomar uma ducha. Banhos públicos ainda estavam na moda. Por necessidade.

Já a Alemanha, ah, a Alemanha… que diferença! O país já tinha sido inteiramente reconstruído. Tudo funcionava, vivia-se um período de euforia econômica. As estradas, pulverizadas durante a guerra, haviam sido refeitas. Pareciam novas.

O Japão também renasceu das cinzas. Vinte anos depois do fim da guerra, já oferecia a seu povo condições de viver dignamente. Desprovido de recursos naturais, sem petróleo, sem minérios, sacudido por terremotos diários, superpopulado, abrasador no verão e siberiano no inverno, assim mesmo o Japão não só recuperou as condições de antes da guerra, como logo foi além. O pequenino país tornou-se uma potência econômica superada apenas pelos Estados Unidos, o gigante do ramo.

Sempre me perguntei qual seria a razão pela qual diferentes povos teriam diferentes reações diante da adversidade. Será a religião? Será a educação transmitida de geração a geração? Será a excelência da instrução pública? Será o clima? Será um pouco de cada uma dessas razões?

Comentários são bem-vindos. Ainda não encontrei uma resposta definitiva.