A ladeira da baderna

José Horta Manzano


Como líder, Bolsonaro já não faz jus à consideração do mundo. E os brasileiros, seus liderados, descem a ladeira da baderna.


Hoje de manhã, escutei uma reportagem de 15 minutos na rádio pública suíça sobre a campanha de desconfiança no voto eletrônico que Bolsonaro vem promovendo há três anos. E que se intensifica à medida que se aproxima a hora da onça. Ou da degola – que cada um escolha a imagem que preferir.

Fora do Brasil, a reação a esse fenômeno é de perplexidade. Todos se perguntam como é possível essa cruzada de desorientação estar sendo comandada por um indivíduo que foi eleito repetidas vezes por esse mesmo sistema eletrônico.

Se ele tivesse perdido alguma eleição, seria até compreensível que guardasse ressentimento. Mas ele ganhou todas! Essa campanha de desinformação e medo que ele promove agora é extravagante. Uma coisa não combina com a outra.

A reportagem radiofônica, feita durante um comício do capitão, trazia algumas dessas rápidas entrevistas com transeuntes. É surpreendente constatar que os devotos incorporam todas as imbecilidades que o chefe solta. Um aqui grita: “Quero minha pátria livre!”. Outra ali replica: “Sou contra o comunismo!”. E mais outro: “Os ministros do STF são todos estelionatários!”. Coisa de desequilibrados.

A impressão que fica é a de estar diante de um bando de zumbis descerebrados, sem eira nem beira, que perderam a capacidade de pensar com os próprios miolos. O mais chato é que, pouco a pouco, o veneno destilado por esse ser ignóbil vai respingando sobre a população. E o encanto com que o mundo mirava nosso país vai desmilinguindo. Um país de ingênuos capazes de aceitar o que diz Bolsonaro não merece ser objeto de consideração.

Em matéria de mentira e engodo, o capitão é um verdadeiro Putin tropical. Sem as armas.

O padrão dos loucos varridos

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Mesmo para os padrões que costumam ser usados para avaliar loucos varridos, Bolsonaro exagera na paranoia. Vamos aos antecedentes.

Em 1988, o capitão se candidatou pela primeira vez a um cargo eletivo. Naquele tempo, a urna eletrônica ainda era um sonho com ares de ficção científica. Foi eleito vereador do município do Rio de Janeiro.

Com dois anos de vereança, decidiu alçar voo mais ambicioso. Abandonou o mandato e candidatou-se a deputado federal. Saiu eleito. Deve ter gostado do novo emprego. Profissionalizou-se. De lá pra cá, cumpriu oito mandatos seguidos, sempre representando o Rio na Câmara Federal.

Desde a virada do século, as eleições vêm sendo realizadas com urna eletrônica. Que se saiba, Bolsonaro jamais reclamou nem lançou dúvida sobre a lisura dos pleitos. É sabido que os insatisfeitos costumam chiar; portanto o silêncio do capitão indica que ele estava feliz e satisfeito.

Um dia, decidiu tentar a Presidência da República. A história, todos conhecemos. Foi o candidato mais votado no 1° turno, mas não atingiu os 50% necessários para a vitória. Foi preciso organizar mais um turno. No segundo, os 55% de votos recebidos foram amplamente suficientes pra lhe dar direito a subir a rampa.

Pouco tempo depois da eleição, Bolsonaro botou em circulação um rebuliço estranho e fora de esquadro. Deu início a uma bizarra campanha de descrédito do sistema que o tinha levado ao Planalto.

Choramingou que a eleição tinha sido “fraudada”. Com toda probabilidade, a atitude do capitão é caso único no mundo. Um candidato enxergar fraude na eleição em que saiu vencedor é realmente de dar vertigem.

O mais curioso vem agora. Nas oito vezes em que se elegeu deputado, o capitão nunca se insurgiu contra a lisura do sistema. Já nas eleições presidenciais, denuncia fraude no primeiro turno, mas não no segundo. Como é que pode?

Se o sistema tivesse sido fraudado para impedi-lo de ganhar no primeiro turno, os autores da fraude, vendo que tinha funcionado tão bem, teriam insistido na falsificação. Ou seja, Bolsonaro também teria sido impedido de ganhar no segundo turno.

Esse mistério da desconfiança seletiva, o capitão nunca esclareceu. Nem esclarecerá, visto que o delírio, que decorre da triste patologia que o acomete, só existe na cabeça dele.

Quase-verdades

José Horta Manzano

No Brasil, todos se lembram das irritantes “quase-verdades” do Lula. Na época, pensávamos que, com esse discurso, ele tinha descido ao ponto mais baixo que um presidente pode atingir. Era engano.

Com Bolsonaro, já não temos meias verdades: o capitão mente descarada e compulsivamente. Despudoradamente. E ninguém parece se importar mais com isso. Uns chegam até a aplaudir. Essa indiferença mostra uma complacência perigosa para o futuro das relações sociais entre cidadãos deste país.

Lula e Bolsonaro passarão, mas o tecido social que eles esburacaram permanecerá. Se a mentira já não choca, é sinal de que a confiança desapareceu. Como viver numa sociedade em que todos desconfiam de todos?

Desconfiança dá muito trabalho e consome muita energia. Se esse fator um dia entrar no cálculo do PIB nacional, o resultado será desastroso. Devemos estar abaixo do Afeganistão.

Paranoia ou método?

José Horta Manzano

«Minha campanha, eu acredito que, pelas provas que tenho em minhas mãos, que vou mostrar brevemente, eu tinha sido, eu fui eleito no primeiro turno, mas no meu entender teve fraude

«[Essa quantidade de óbitos] está muito grande para São Paulo. Tem que ver o que está acontecendo aí. Não pode ser um jogo de números para favorecer interesse político. Não estou acreditando nesse número

Ambas as frases, nem precisa dizer, foram pronunciadas por doutor Bolsonaro. A primeira, em Miami, num evento neopentecostal. A segunda, no Brasil, em entrevista a uma estação de televisão.

Em ambas, ele abre o jogo: deixa claro que, no seu entender, manipulação de resultados é matéria corriqueira, coisa que todo o mundo faz. Está brincando com assunto sério, Excelência! Nem sua proverbial mania de perseguição explica essa desconfiança.

A menos que…
A menos que, por detrás dessa conversa boba de matuto, haja método, armação, orquestração. É permitido imaginar que Sua Excelência esteja preparando o espírito do distinto público para uma dança de números, jogados no ventilador com o intuito de causar polêmica, confusão e descrença geral. Ele mesmo já deu a dica de como enxerga o problema quando insinuou não acreditar nos números paulistas porque pode ser um jogo de números para favorecer interesse político”.

Imaginemos um cenário
O Planalto sabe muito bem que, afrouxadas as medidas de confinamento, a doença vai se alastrar. Assim mesmo, decide apoiar o afrouxamento, com o fim de evitar catástrofe que lhe parece mais importante: a perda de renda dos trabalhadores informais. Diga-se, en passant, que o presidente já avisou que «terão mortes»(sic).

Pra evitar que esse ‘terão mortes’ resulte em número assustador, prepara-se para maquiar estatísticas e mascarar a realidade. Afinal, cada hospital tem seus números, mas só o governo federal é dono da planilha que coleta todos os dados. Com um pouco de arte, não é difícil ‘achatar’ essa curva. Os números paulistas são os que fazem a curva empinar, daí o descrédito que o presidente lança, desde já, sobre eles.

O achatamento artificial somado à não notificação de casos em que a morte tiver ocorrido em casa, longe de amparo e assistência, vão dar o resultado sonhado pelo doutor. Ficará demonstrado que ele tinha razão ao liberar geral.

Engenhoso, não?

De vices e suplentes

José Horta Manzano

Em filme policial, para investigar autoria de homicídio, começa-se pela clássica pergunta: qual o móvel do crime? Quando a vítima era abastada, a desconfiança recai naturalmente sobre o(s) herdeiro(s). É natural. É sabido que a cupidez pode levar ao crime.

Convivência de anos e anos entre possuidor e herdeiro pode ser desgastante. O dono da fortuna tem a incômoda impressão de que o outro não vê a hora de enterrá-lo. O herdeiro, muita vez, se impacienta com a longevidade do outro e pode até deixar transparecer a irritação. É da vida.

Voto 1O que são vices e suplentes? Nada mais que herdeiros presuntivos do titular. Estão ali, na esquina, de tocaia, com cara de quem não quer nada. No entanto, bastou o dono do cargo dar uma brecha, e pronto: lá estão eles aboletados e donos do pedaço. A meu ver, a existência de herdeiro designado cria situação malsã, susceptível de perturbar e até envenenar as relações do dia a dia. Melhor seria que não existissem.

No caso de suplente de deputado, o problema só se desanuviará com a instituição do voto distrital. Quando (e se) for implantado esse sistema, o país será dividido em 513 distritos de população equivalente. Cada circunscrição elegerá, em dois turnos, SEU deputado. O sistema traz grandes vantagens. Cada eleitor saberá quem é o deputado que o representa. O eleito saberá quem são seus eleitores e onde se encontram. E, vantagem suplementar, a figura do suplente desaparecerá.

Caso o deputado seja impedido de continuar a exercer o mandato ‒ seja por morte, renúncia, doença, prisão ou simplesmente por ter assumido outras funções ‒, nova eleição se realizará. O voto será organizado unicamente naquele distrito. O vencedor assumirá a vaga pelo tempo que restar de mandato. Caso um prefeito (ou um governador ou até o presidente) se encontre impossibilitado de continuar no cargo, aplica-se o mesmo sistema. Vota-se de novo e escolhe-se novo titular.

by Jacques Sardat (aka Cled'12), desenhista francês

by Jacques Sardat (aka Cled’12), desenhista francês

O sistema funciona, sem grandes traumas, em numerosos países. Na França, quando Georges Pompidou morreu em pleno exercício da presidência da República, novas eleições foram convocadas. Três meses mais tarde, novo presidente estava eleito para mandato integral.

Se, no Brasil, não tivéssemos vice-presidente da República, o abalo da destituição de Dilma teria incomodado menos. Caída a doutora, nova eleição teria sido convocada. Em três meses, teríamos presidente novinho em folha pronto para dar melhor rumo ao país.

Como resultado das recentes eleições para prefeito, 18 deputados federais devem abandonar o cargo para se tornar alcaides(*). Na Câmara, assumirão suplentes. Teremos assim deputados novos, desconhecidos, que sequer foram eleitos. Tem cabimento?

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Nota etimológica
A palavra alcaide vem da língua árabe. Em nossa língua, é sinônimo de prefeito. No original, significa «o guia», «o chefe da tribo». O termo é utilizado em francês coloquial, sob a forma «caïd» (pronúncia: caíd). Carrega nuance pejorativa e designa o chefe de um bando de malfeitores. No Brasil, assumiu significado menos sinistro. Se bem que…

Urna eletrônica na França

José Horta Manzano

Faz anos que dois grandes partidos condividem a cena política francesa: UMP (direita) e PS (esquerda). É verdade que o atual marasmo econômico alavancou um terceiro ator, a Frente Nacional, partido de extrema-direita, que se vale de métodos populistas. Sua ascensão vem assustando muita gente.

Daqui a oito dias, os afiliados à UMP (União por um Movimento Popular) votarão para eleger o presidente do partido. O voto será eletrônico, método praticamente desconhecido na França.

Vozes já se alevantam dentro da agremiação para denunciar a alta periculosidade do sistema. Muitos veem, no voto eletrônico, risco grande de fraude, de pirataria cibernética, de sobrecarga e falha na consolidação de dados.

UMPNo entourage de Nicolas Sarkozy – antigo presidente da República e atual candidato a dirigir o partido – estão os que mais desconfiam do sistema. Na França, cargo de presidente de partido político é trampolim excepcional para projetar-se e atingir esferas mais altas.

François Mitterrand, antes de ser eleito ao posto máximo da República, tinha sido presidente de partido. O mesmo aconteceu com Jacques Chirac e com François Hollande. Daí a preocupação de Nicolas Sarkozy. Conquistar o cargo de presidente da UMP é, para ele, de capital importância.

François Hollande, que preside o país atualmente, anda amargando índice de popularidade próximo de zero. Assim como no Brasil já se ensaiou um tímido «Volta, Lula!», na França também começa a se elevar um «Retourne, Sarkô!».

Pode até ser que dê certo. Com duas condições: se o voto eletrônico da semana que vem não atrapalhar; e se, mais adiante, a Frente Nacional não melar o jogo. De todo modo, ainda faltam dois anos e meio para a eleição presidencial.

Como se vê, desconfiança com voto eletrônico não é exclusividade nossa.

Frase do dia — 89

«A desconfiança em relação ao Brasil é excessiva. Os críticos estão exagerando.
(…)
Mas hoje (…) estamos fazendo road-shows.»

Guido Mantega, ministro da Fazenda de nossa República, em entrevista concedida dia 25 jan° 2014 aos enviados do Estadão a Davos.