Prezado Jair

Eduardo Affonso (*)

Prezado Jair,

Lula não inventou a corrupção nem Dilma, o ridículo. Tampouco é sua a invenção da falta de compostura, civilidade e empatia. Mas é preciso que se dê conta de que governa o Brasil, não a Bolsolândia. Que 57 milhões de brasileiros o escolheram porque queriam no poder um “homem comum”, com aqueles princípios morais tão escassos nos governos anteriores. E estes sete meses não fizeram jus a essa esperança.

O sentimento anti-PT ajudou a elegê-lo. A repulsa ao seu comportamento pode trazer o passado de volta. O senhor tem até outubro de 2022 para começar a se portar como um presidente. Não espere chegar lá para refrear esse falastrão descontrolado. Pode ser tarde demais.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro. A sequência do artigo está aqui.

Seres fictícios

Eduardo Affonso (*)

“Pela invasão do meu celular e pelas mensagens enviadas, imaginei que se tratasse de alguma armadilha montada por meus adversários políticos. Por isso, apesar de ser jornalista e por estar apta a produzir matérias com sigilo de fonte, repassei ao invasor do meu celular o contato do reconhecido e renomado jornalista investigativo Glenn Greenwald.”
(Manuela D’Ávila, ex-deputada pelo PCdoB e ex-candidata a vice-presidente da República).

Eu também sou assim.
Quando meu telefone é invadido, eu repasso ao invasor o contato de algum reconhecido e renomado jornalista investigativo, em vez de avisar à polícia e à operadora.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro. A sequência do artigo está aqui.

Incidente diplomático

Eduardo Affonso (*)

– Sr. Modesto Araújo, quero te apresentar aqui o novo chapeiro.

– Mas, seu Jaílson, esse não é o…

– Ele mesmo, o Ednardo. Meu filho.

– Ele tem experiência com chapa, fritura, essas coisas?

– Ele é diplomata. Fez Instituto Rio Branco. Foi embaixador na China. E já comeu pastel frito, não comeu, Ednardo?

(Ednardo concorda com a cabeça)

– Pois é, já comeu. E comeu na China, onde fritam muito pastel. É o chapeiro ideal para a JB Lanches.

– É que pastel não é feito na chapa…

– Modesto Araújo, você não está entendendo. Ele é meu filho. Portanto, está mais que qualificado para o posto de chapeiro.

– É que o fato de ele ser um diplomata… será que não vai atrasar um pouco o serviço? Ele pode querer negociar o hambúrguer bem passado por um ao ponto, não chegar nunca a um acordo com o cliente se o ketchup tem precedência sobre o alface, e aí a fila não anda…

– Com meu filho de chapeiro aqui, quando o presidente da França vier comer uma esfirra, vai falar direto com ele, sem nem fazer o pedido no caixa. Se for um xeique saudita, ele frita a coxinha de acordo com os preceitos do Alcorão. De protocolo ele entende. E de cerimonial. Ele sabe que o canudo fica à direita do copo de refrigerante e os sachês de mostarda vêm hierarquicamente embaixo dos de maionese.

– O senhor é que manda, seu Jaílson. Eu sou só o gerente desta franquia da JB Lanches. Se o senhor diz que o seu filho embaixador vai ser um bom chapeiro…

– Ele fala “quibe” e “esfirra” em vários idiomas Sr. Modesto Araújo. Fala aí “quibe” e “esfirra” em árabe, Ednardo, pro Modesto ver que você é a pessoa mais capacitada para o cargo.

(Ednardo tosse, coça a cabeça e começa a balbuciar alguma coisa.)

– Viu como ele fala? Vai lá, meu filho, que a chapa é tua. E se o pessoal do RH criar algum problema, é você quem vai pra chapa, Modesto, e ele fica de gerente.

(Modesto Araújo abaixa a cabeça, resignado. Gritos atrás do balcão. Era o pessoal do RH com o Bepantol na mão tentando – tarde demais – explicar pro embaixador Ednardo que a chapa é quente).

(*) Eduardo Affonso é arquiteto e colunista do jornal O Globo.

Loop, segundo tempo

Eduardo Affonso (*)

Com o empate no tempo regulamentar e na prorrogação, o jogo entre Lula F.C. e o Clube de Regatas L.J. vai para a disputa nos pênaltis.

O goleiro Sérgio Fernando, titular absoluto da L.J. se posiciona. Quem vai bater é Cristiano.

Lá vem Cristiano e… Fora! Cristiano chuta para fora, senhores!

Cristiano reclama com o juiz, diz que o apito tirou sua concentração e pede para bater de novo.

O juiz concede, e lá vai Cristiano – agora sem o apito.

Sérgio Fernando esfrega as mãos, Cristiano corre, dá uma paradinha e… bola na trave!

A torcida da L.J. comemora, mas a comissão técnica do L.F.C. exige que a cobrança seja feita novamente, porque a paradinha de Cristiano atrapalhou sua performance.

O árbitro acata, e lá vai Cristiano em sua terceira tentativa. Toma distância, dá uma bicuda e… Sérgio Fernando espalma com categoria.

Parece que… não, Cristiano exige bater outra vez porque Sérgio Fernando teria adivinhado o ângulo e defendido por pura sorte. Exige uma melhor de três.

O juiz informa que essa já foi a terceira cobrança perdida, mas Cristiano e a torcida da L.F.C. não se dão por vencidos. Apesar de ser uma partida do campeonato local, ameaçam recorrer à à Conmebol e à Fifa.

Nova cobrança é autorizada. Cristiano toma distância, enche o pé, mas Sérgio Fernando é um muro no gol e agarra.

Fim de jogo, amigos do esporte! L.J. é a camp… Não, ainda não. A L.F.C. exige que o árbitro consulte o VAR, porque Sérgio Fernando teria dado um passo para trás e a bola teria ultrapassado a linha.

O árbitro consulta o vídeo. Vamos aguardar seu veredito.

Volta o árbitro, e informa que apenas o calcanhar do goleiro Sérgio Fenando tocou a linha. A bola não entrou.

Cristiano e a comissão técnica cercam o juiz, argumentando que o árbitro de vídeo foi parcial, que a tecnologia não é confiável, que todo o campeonato deve ser anulado e o goleiro Sérgio Fernando suspenso.

Muita tensão no estádio, senhores, com a torcida do L.F.C. subindo no alambrado e ameaçando invadir o gramado.

A proposta apresentada pelos dirigentes do L.F.C. é que Cristiano continue batendo pênaltis indefinidamente, até a bola entrar. Enquanto isso não acontecer, a cobrança não terá validade.

Há um confronto generalizado nas arquibancadas, com as duas torcidas se engalfinhando. A PM se protege no fosso e pede reforços.

O técnico do L.F.C. tenta impugnar a bola, a grama, o tom de branco das linhas de marcação da grande área, a iluminação, a acústica e a localização do estádio, além de apresentar nudes do goleiro Sérgio Fernando, feitos com uma cam escondida no vestiário.

Sérgio Fernando aguarda o desenrolar dos acontecimentos encostado na trave e parece murmurar algo como “Om Mani Padme Hum” – ou “PQP MQGCDC”, segundo nossos especialistas em leitura labial.

Vão ser retomadas as cobranças. E, segundo as regras impostas pelo L.F.C, enquanto a bola não entrar, não vale.

Pode isso, Arnaldo?

(*) Eduardo Affonso é arquiteto e colunista do jornal O Globo.

Reconstruindo Chico Buarque

Eduardo Affonso (*)

Meu primeiro texto a viralizar nas redes sociais, em 2015, foi uma carta aberta ao Chico Buarque. Nela eu me apropriava dos seus versos para confrontá-lo por ter se tornado cúmplice de malandro oficial, de malandro investigado na Polícia Federal. Por defender quem não tem decência, nem nunca terá; quem não tem vergonha, nem nunca terá; quem não tem limite. Por não se importar em ver a Pátria Mãe, tão distraída, ser subtraída em tenebrosas transações.

Dizia-lhe que ele estava diferente, que já não o conhecia mais. Trocando em miúdos, que, apesar dele – e do PT – amanhã haveria de ser outro dia.

Eu era um pote até aqui de mágoa, claro. A trilha sonora da minha infância incluía ver a banda passar cantando coisas de amor. Depois houve dias de me sentir como quem partiu ou morreu, ao meio-dia só pensar em dizer não, comer feijão com arroz como se fosse um príncipe e catar a poesia entornada no chão.

by Carlos Avelino, desenhista paulista

Chico me ajudou a pensar em Deus como um cara gozador, que adora brincadeira. A perder a vergonha de fazer amor até mais tarde e ter muito sono de manhã. A me supor capaz de subir uma montanha não como anda um corpo, mas um sentimento; de tirar o chão dos pés, de criar raiz e me arrancar, de me indagar se é perigoso a gente ser feliz.

Chico foi a voz dos que, ouvindo passos já no vão da escada, sabiam que não havia nada a fazer senão chamar o ladrão – e pedir que afastassem de nós este “cale-se!”. Foi a mais perfeita tradução daqueles tempos de um pé na soleira e um pé na calçada, de uma mulher chamada Angélica que só queria embalar seu filho que morava na escuridão do mar.

Mas eis que chegou o destino e carregou Chico Buarque para lá – para o lado dos que apoiam ditaduras, fecham os olhos às maracutaias, se indignam seletivamente. Em algum momento sua estrada entortou, e ele resolveu ir até o fim. Se é que não tinha sido assim desde sempre, e o dono destes neurônios não via.

O PT nos roubou uma década e meia. Desviou bilhões. Nos tirou a esperança de um país mais justo, mais solidário, sem miséria. De um Brasil de todos. E, de quebra, nos tomou Chico Buarque.

Pegamos ranço dele, da sua voz de taquara rachada, da sua prática de louvar o subúrbio e a favela, e morar no Leblon. De se derreter por Havana, Luanda e Manágua, e tirar férias em Paris. Tornamo-nos macarthistas tardios, fiscais da coerência alheia. Fizemos seu funeral no mesmo cemitério dos mortos-vivos onde o cartunista Henfil um dia sepultara Elis Regina, Carlos Drummond, Clarice Lispector e todos os que cometessem o sacrilégio de colaborar com o adversário político (na ocasião, o regime militar).

Jorge Amado não é só dos baianos ou de quem cultua os orixás. Adélia Prado não é exclusiva das devotas da Festa do Divino de Divinópolis, em Minas Gerais. Por que haveria Chico Buarque de ser monopólio da sua seita?

by Carlos Avelino, desenhista paulista

Se Vinicius de Moraes, também de esquerda, fosse vivo e frequentasse o palanque de Lula, Dirceu, Gleisi e Dilma, nosso amor por ele seria finito enquanto durasse essa opção política? Ou continuaríamos a amar seus versos por toda a nossa vida? Trataríamos Tom Jobim a pau e pedra? Negaríamos a Nara Leão a liberdade de ter opinião?

Santo Agostinho pregou odiar o pecado e amar o pecador. Dá para seguir sua lição ao revés: desdenhar da ideologia do autor e amar a obra. Até porque, ao contrário da relação pecado/pecador, não há vínculo entre o marxismo e a métrica, a acumulação do capital e a riqueza da rima, a ditadura do proletariado e a transcendência da poesia. “Mesmo miseráveis os poetas, os seus versos serão bons”…

Chico, o eleitor, tem o direito de professar ideias contrárias às da maioria da população – direito inalienável numa democracia e utópico nos regimes que ele apoia. Chico, o compositor, é parte da nossa memória afetiva, é patrimônio nacional, não importando se a História passou na janela, só ele não viu.

O PT, que inventou o “nós x eles”, ora, tenha a fineza de desinventar. De nossa parte, parar de jogar pedra no Chico e de adorá-lo pelo avesso é uma forma de começar a reconstruir a nós próprios.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto e colunista do jornal O Globo.