O bacana

Vai doer, doutor?

José Horta Manzano

A gente está habituado ao linguajar de meliante utilizado pelos membros da família Bolsonaro. ‘Habituado’ é maneira de dizer. Acho que quem tem ouvidos sensíveis e vive distante desses ambientes rasteiros não se acostuma nunca. É um susto a cada novo pronunciamento do clã.

Tem horas em que o palavreado que eles usam em público deixa o cabelo mais arrepiado que de costume. Foi o que aconteceu em 10 de março deste ano. Um dos bolsonarinhos, aquele que é deputado, irritado com a obrigação de portar máscara para proteger a si e aos outros, exprimiu-se no fino linguajar da família e ordenou à nação que “enfiasse a máscara no rabo”. Não se sabe se foi atendido.

Ao se deixar fotografar ontem no momento em que recebia vacina anticovid, surpreendeu a nação. Ninguém imaginava que o bacana fosse aparecer dando o braço a torcer – perdão! – dando o braço a vacinar. Provou que é macho e que não tem medo de agulha. Só um pouquinho.

Ainda por cima, mostrou que é homem de palavra: apareceu sem máscara. Só que a demonstração de coerência ficou pela metade. Por descuido ou por pudor, não instruiu o cinegrafista a filmá-lo de costas, de modo que não ficou confirmado se realmente enfiou a máscara no lugar que ele mesmo tinha sugerido à nação.

A atitude do bolsonarinho inspira nova cantiga de roda. Pra cantar depois que as crianças forem pr’a cama. Chama-se “Onde está a mascarinha?”

Ti-ra, ti-ra,
Tira a cuequinha
Não deve ficar brabo
Queremos ver seu rabo

Estão na mesma infração

José Horta Manzano

Conheço vagamente Danilo Gentili, mais de ouvir falar do que de ver. Escutei uma vez, faz alguns anos, uma entrevista dele no rádio. Na época, se me lembro bem, combatia veementemente o lulopetismo e a corrupção que o acompanha. Ponto pro rapaz!

Fiquei sabendo hoje que ele apresenta um programa no canal de televisão do Sílvio Santos, em que o entrevistador é ele mesmo. Deve ser interessante, dada a vivacidade de senhor Gentili. Felicito-o por ter passado de entrevistado a entrevistador.

Fiquei sabendo também que a Câmara Federal acaba de pedir ao STF que mande prender o rapaz. O motivo é ele ter tuitado um incentivo à população para entrar no Congresso e «socar todo deputado que estivesse discutindo a PEC de imunidade parlamentar».

Vai preso? Não vai preso? A meu ver, não tem muito que discutir. Pau que dá em Francisco tem de dar em Chico. Se o deputado que atiçou o povo contra o STF foi parar atrás das grades, não há como não reservar o mesmo destino ao apresentador de tevê que incitou o povo contra o Congresso. Por mais selvagem que seja Silveira, por mais gentil que seja Gentili, estão na mesma infração, como pontificou Ataúlfo Alves no samba Errei erramos de 1938.

Nossa sociedade está regredindo aos tempos do faroeste. O cidadãos deste país estão se comportando como se estivessem em terra sem lei, onde os conflitos se resolvem no tapa, no soco ou na bala.

Não digo que Bolsonaro, com seus modos de chefe mafioso, seja o inventor da violência brasileira. A tendência nacional para embates ferozes vem de longe, já dos primeiros tempos da colonização. O que o atual presidente fez foi abrir a porteira. Com sua boca suja e seu jeito de meliante, instaurou esse clima de ‘liberou geral’, de ‘agora pode tudo’.

Em raro momento de lucidez, dona Dilma disse um dia que, uma vez espremido fora, é impossível enfiar o dentifrício de volta no tubo. Talvez ela possa nos esclarecer agora. Será possível enfiar a violência oficial de volta no baú de onde nunca deveria ter saído?