Prezado Jair

Eduardo Affonso (*)

Prezado Jair,

Lula não inventou a corrupção nem Dilma, o ridículo. Tampouco é sua a invenção da falta de compostura, civilidade e empatia. Mas é preciso que se dê conta de que governa o Brasil, não a Bolsolândia. Que 57 milhões de brasileiros o escolheram porque queriam no poder um “homem comum”, com aqueles princípios morais tão escassos nos governos anteriores. E estes sete meses não fizeram jus a essa esperança.

O sentimento anti-PT ajudou a elegê-lo. A repulsa ao seu comportamento pode trazer o passado de volta. O senhor tem até outubro de 2022 para começar a se portar como um presidente. Não espere chegar lá para refrear esse falastrão descontrolado. Pode ser tarde demais.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro. A sequência do artigo está aqui.

Recordar é viver ― 7

As dúvidas do Lula

José Horta Manzano

23 set° 2010
Questionado sobre os ataques feitos anteriormente à imprensa, Lula disse duvidar «que exista um país na face da terra com mais liberdade de comunicação do que neste País, da parte do governo».

20 out° 2013
Sobre denúncias de corrupção, Lula disse duvidar «que exista no mundo um país com a quantidade de fiscalizações que o Brasil tem».

Blabla 228 ago 2014
Cutucando o PSDB, Lula disse duvidar que o partido do ex-presidente FHC «tenha feito 10% do que fiz para investigar». E usou uma analogia doméstica para explicar a diferença entre os partidos. «Eles tinham um tapete desse tamanho para jogar a sujeira debaixo. Nós tiramos esse tapete da sala», afirmou. «Só tem um jeito: é ser honesto e ter decência. Se fizer sacanagem com o dinheiro público tem que pagar».

19 out° 2006
«Se houve crime eleitoral, terei que pagar», diz Lula. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que estará sujeito à punição da Justiça Eleitoral caso seja comprovado que o dinheiro apreendido pela Polícia Federal que supostamente seria usado para compra do dossiê contra tucanos saiu da sua campanha de reeleição.

24 set° 2007
Deu no NYT: Lula duvida de provas contra Dirceu
Além de exaltar a economia brasileira e evitar falar do colega venezuelano, o presidente Lula disse em entrevista ao jornal New York Times que não há provas do envolvimento do ex-ministro da Casa Civil e deputado cassado José Dirceu (PT) com o mensalão.

Blabla 725 ago 2012
«Lula duvida que Aécio concorra à presidência. Acha até que ele trabalhará para costurar o apoio dos tucanos a Eduardo Campos.»

1 fev° 2012
«Lá nos EUA, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar, vai chegar uma marolinha que não dá nem para esquiar.»

20 jan° 2016
«Não tem uma “viv’alma” mais honesta do que eu neste país», diz Lula.

O Lula e os nazistas

José Horta Manzano

Não há dúvida: o Lula tem o dom do mimetismo. É capaz de captar o espírito do ambiente em que se encontra e devolver o que cada espectador deseja ouvir. Quando, anos atrás, se descreveu como «metamorfose ambulante», não estava gracejando: a definição era exata.

radio 3Tivesse ele surgido nos anos 40 ou 50, seu sucesso teria sido muito mais longevo. Teria durado 20 anos no poder ou até mais. Como Franco, Salazar, Stalin & companhia. O Lula procura sempre – dentro dos limites de sua própria erudição – adaptar o pronunciamento à plateia.

Para falastrões, o problema maior de nossos tempos é que a informação se propaga com a velocidade do raio. Falou aqui e agora, todo o mundo já está sabendo daqui a segundos. Portanto, ficou difícil restringir o discurso aos que compareceram de corpo presente. Celulares permitem propagação imediata por meio de voz, uotisápis, feicibúquis, fotos, vídeos e outros tchapitchápis.

Em pronunciamento feito ontem em Pernambuco, o Lula comparou Aécio Neves aos nazistas(!). Questionou o fato de o moço não ter pegado em armas contra a ditadura – escamoteando o fato de que, nascido em 1960, o senhor Neves era pré-adolescente quando dona Dilma tentava um golpe armado contra o governo.

Foi mais longe. Herodes, Jesus Cristo, The Economist e os banqueiros entraram no discurso. Discurso? Estava mais pra salada mista. O tribuno insistiu na contraposição entre «nós» e «eles», sendo que, desta vez, o «nós» são os nordestinos. «Eles» são o resto do povo brasileiro.

Foi ovacionado, naturalmente. A esmagadora maioria dos ouvintes não faz a menor ideia do que tenham sido os nazistas. Aliás, duvido que o próprio Lula tenha ampla noção do assunto. Ninguém calculou mentalmente pra se dar conta de que dona Dilma e o senhor Aécio não são da mesma geração e que, portanto, suas trajetórias não poderiam ter sido paralelas.

DiscursoHerodes entrou na história do Lula como Pilatos entrou no Credo: por estar no lugar errado e na hora errada. Mais desonesta ainda é a tentativa do Lula de identificar a mineira bem-nascida Dilma com os deserdados do Nordeste enquanto instala o mineiro bem-nascido Aécio como carrasco dos desprovidos.

Em resumo, uma fala sem pé nem cabeça, pronunciada por quem não sabe o que está dizendo e destinada a quem não sabe o que está ouvindo.

A difusão ultrarrápida da informação, no entanto, trabalha contra tribunos populistas. Discursos incisivos têm efeito ambíguo. Agradam a uns e chocam outros. Será por isso que os mandatários atuais se opõem tão ferozmente à liberdade de imprensa.