Tuíte – 3

José Horta Manzano

A Constituição Brasileira reza, no Artigo 84, Inciso I: “Compete privativamente ao Presidente da República nomear e exonerar os Ministros de Estado”. A novela do vai-não-vai e do fica-não-fica, estrelada pelo presidente e pelo ministro da Saúde Pública, segue enredo absurdo. Ministro é escolha pessoal do presidente. Assim como pôde nomear, deve poder demitir a qualquer momento. Ao não demitir Mandetta, doutor Bolsonaro mostra ser presidente fraco, hesitante, pusilânime, dependente da aprovação de terceiros. Um homem assim pode até ser bom executante, mas não serve pra chefiar o Executivo.

Contra-bravata

José Horta Manzano

Acabo de ler o relato de entrevista concedida por doutor Bolsonaro a um programa de televisão. A gravação teve lugar em Nova York, logo após o discurso pronunciado no púlpito da ONU. Tenho algumas considerações sobre a conversa entre o presidente e a jornalista.

Desfocados
O presidente asseverou que sua equipe e ele planejaram um pronunciamento “contundente, mas não agressivo”, necessário após “semanas de muito ataque ao Brasil”.

Entre contundente e agressivo, vai uma larga distância. Contundentes foram as palavras de Churchill ao prometer aos ingleses “sangue, labuta, lágrimas e suor”. Agressivo foi o pronunciamento de Trump quando chamou o dono da Coreia do Norte de “homem foguete (rocket man)“. É possível ser contundente sem necessariamente agredir. Pra isso, porém, é preciso arte, artigo em falta no Planalto há décadas.

A equipe de doutor Bolsonaro decidiu-se pelo tom ‘contundente’ após “semanas de muito ataque ao Brasil“. Falácia. Querer socializar os tais ‘ataques’ e compartilhá-los com o Brasil inteiro é malandragem. Os tais ‘ataques’ não foram dirigidos ao Brasil, mas ao presidente Bolsonaro pessoalmente. Não foi o povo brasileiro que insultou dirigentes europeus, foi doutor Bolsonaro. Em seu nome unicamente. O revide, naturalmente, foi dirigido a ele unicamente.

Exagerado
O presidente lembrou que o governo brasileiro não pode controlar focos de incêndio em todo o território da Amazônia. “O tamanho da nossa Amazônia é maior (sic) do que a Europa Ocidental; não tem como manter o controle“ – arrematou. Vamos passar por cima da frase mal construída. Se a gente for parar pra comentar cada pisão na lógica desferido por doutor Bolsonaro, amanhã ainda estaremos aqui.

Vamos ao que interessa: Europa Ocidental é conceito impreciso. É como coração de mãe, onde sempre cabe mais um país. Dado que não é conceito oficial, cada um põe os limites onde lhe agrada. Portanto, usar a Europa Ocidental como base de comparação de área seria proposição de má-fé. A União Europeia, sim, é entidade real, com superfície definida. Vamos supor que a esclarecida equipe de doutor Bolsonaro tenha se baseado nela.

Rápida consulta ao google esclarece a questão. A União Europeia tem superfície de 4.500.000 km2. A Amazônia brasileira (Bolsonaro falou em ‘nossa’ Amazônia) tem 3.000.000 km2. Portanto, a afirmação de que nossa floresta é maior que a Europa é mais que exagerada: é falsa.

Confissão
A entrevistadora puxou a conversa para o terreno pantanoso de eventual intervenção militar na Venezuela. Doutor Bolsonaro descartou toda ação nesse sentido. Disse esperar que as sanções econômicas americanas surtam efeito. (Esquece-se de que, ao que se saiba, sanções econômicas jamais levaram país nenhum a abrir o bico. Contorná-las é fácil como tirar chupeta de recém-nascido.)

E aí veio uma das afirmações mais surpreendentes que se poderiam esperar da boca de um presidente da República. A confissão de que nossas Forças Armadas são fracas, incapazes de enfrentar uma Venezuela. Disse ele: “No Brasil, você sabe que as nossas Forças Armadas, o seu potencial foi bastante diminuído ao longo das últimas décadas. E, pela topografia da Venezuela, qualquer intervenção militar ali, de qualquer país, seria um ‘Vietnã”.

Não é corriqueiro ouvir, do dirigente de um país, a confissão de que suas FFAA são fracas – portanto, incapazes de garantir a segurança do território. Mais comum é ouvir o contrário, afirmações do tipo: “Quem ousar mexer conosco vai conhecer o fogo do inferno”.

Aviso aos navegantes: Quem quiser vir tomar a Amazônia brasileira, esteja à vontade. Nosso exército é fraco. Não sou eu quem diz isso, foi o presidente quem afirmou com todas as letras.

Nem Dilma Rousseff, nos momentos mais delirantes, ousou soltar uma contra-bravata desse quilate.