Desativando a bomba

José Horta Manzano

Li estes dias que o Brasil decente está indignado com as manifestações de «desagravo» que o partido dominante tem feito em favor dos condenados no mensalão.

Quando a esmola é muita, o santo desconfia. Não sou santo, assim mesmo ando meio desconfiado. É muita esmola pra pouca sacola.

Estamos entrando em período de campanha eleitoral. Não precisa ser marqueteiro nem cientista politico para entender que não seria boa ideia atiçar a antipatia de estratos da população já tradicionalmente hostis à atual elite política. Portanto, a lógica mais elementar ensina que quanto menos se falar no assunto, melhor será.

Qual seria, então, a razão desse auê que estão promovendo? Tiro no pé? Suicídio político?

Artimanha para convencer as massas de manobra não pode ser, que essas não precisam ser conquistadas: já faz 12 anos que comem na mão do governo. O que há então por detrás disso?

A impressão que fica é a de que o topo da cúpula havia ga-ran-ti-do aos mensaleiros que nenhum mal lhes poderia acontecer. Nunca, jamais, em tempo algum. Mas não deu certo. Mesmo fora dos planos, aconteceu. E agora?

Para acalmar os encarcerados, alguma ação teve de ser tomada à atabalhoada. Manifestação pública de «desagravo» é apenas a ponta do iceberg. Como todos sabem, a parte visível dessas montanhas de gelo que derivam no oceano corresponde a 10% do volume total. A manifestação pública é somente a parte visível. O grosso do mimo há de estar abaixo do nível da água. Pode-se imaginar o que seja, mas não dá para enxergar até onde vai.

Ainda assim, sobra uma pergunta: por que tanta preocupação em não melindrar anjos caídos, com mandatos cassados, em fim de carreira, sem futuro político?

Desativando a bomba Crédito: The Walt Disney Co.

Desativando a bomba
Crédito: The Walt Disney Co.

Não me parece incoerente crer que, caso os prisioneiros se sintam abandonados pelos antigos companheiros, podem até ter a indelicada ideia de botar a boca no trombone e contar algumas verdades incômodas. Os pequenos (e grandes) segredos de bastidores que essa gente deve conhecer não caberiam na lista telefônica.

Por essa linha de raciocínio, não é absurdo qualificar esses «desagravos» como a parte visível de um grande cala-boca entre parceiros.

Lapsus linguae

José Horta Manzano

Recorre-se à erudita expressão lapsus linguæ para descrever um erro cometido por distração, ao falar. Estudos psicanalíticos descrevem o fenômeno como expressão involuntária de pensamentos reprimidos. Seja como for, é aquela palavra «que saiu assim». O sujeito nem estava pensando naquilo, mas, quando se deu conta, já tinha dito. Às vezes, chega ao fim da fala sem se dar conta do lapso.

O senhor Mantega, ministro da Fazenda, concedeu entrevista ao Estadão. Não ficou claro se os jornalistas pediram ao ministro que os atendesse ou se terão sido convocados. A segunda hipótese me parece mais plausível, mas, no fundo, pouco importa.

by Marco Jacobsen, desenhista paulista

by Marco Jacobsen, desenhista paulista

Estes últimos anos, a sem-cerimônia com que autoridades brasileiras vêm manejando as contas do Estado tem deixado inquieto o planeta financeiro. Estamos nos aproximando demasiado das artimanhas de que se valem nossos hermanos transplatinos para melhorar a aparência de suas descarnadas finanças. Os que comandam os grandes fluxos mundiais do capital não apreciam particularmente essas excentricidades.

Ao operar com dinheiro dos outros, gestores pouco escrupulosos não raro se aventuram em negócios nebulosos. As estrepolias eleitoreiras praticadas pelo governo brasileiro com nossos impostos estão aí para provar o que digo. Por outro lado, administradores zelosos ― e isso existe, acreditem! ― evitam traquinar com dinheiro alheio. Eis por que o mundo anda meio desconfiado com as manipulações contábeis que têm caracterizado o Estado tupiniquim ultimamente.

Sentindo que a credibilidade do Brasil anda se esgarçando e que a água já está batendo no tornozelo, nosso prezado ministro foi instruído a subir ao patíbulo e bater seu mea-culpa em público. Não o fez num palanque, que isso não é assunto para militantes embandeirados nem para multidões atraídas por um boca-livre. Suas declarações foram dadas ao jornal mais respeitado do País.

Disse o que todos esperavam que dissesse. Falou do mais e do menos, deu voltas, girou em torno do assunto. O mais importante ― mais que isso: a razão da entrevista ― foi tranquilizar o mercado com a garantia de que o governo de dona Dilma não mais recorrerá a nenhuma operação «que não pareça correta».

Era o que todos queriam ouvir. Invertendo os termos de conhecida máxima, digo que «à mulher de César, não basta parecer honesta, tem de ser honesta». Ou, como dizem os franceses, de boas intenções, o cemitério está cheio. O próprio Signor Mantega, de origem genovesa, talvez já tenha ouvido o sábio ditado italiano: «tra il dire e il fare, c‘è di mezzo il mare», entre o dizer e o fazer, há um oceano no meio.

Contra bravatas provenientes da alta cúpula brasileira, o mundo já está vacinado. As boas palavras terão de se traduzir por atos concretos, sob pena de não serem levadas em conta.

by Regi, do Amazonas em Tempo

by Regi, desenhista do Amazonas em Tempo

Lapsus linguae
O governo atual tem certeza de que a presidente será reeleita. A prova está num estranho plural que escapou no meio do pronunciamento do ministro. Todos sabem que falta um aninho só para o término do mandato da atual presidente. Daqui a dez meses haverá eleições que tanto lhe podem ser favoráveis como decepcionantes. Caso ela não consiga ser reeleita, é impensável que o ministro Mantega continue ocupando seu posto no novo governo, não é assim?

Pois reparem bem na frase pronunciada pelo ministro: «A ordem neste ano e nos próximos é que uma transação deve também parecer correta.». Ele não disse no próximo, mas nos próximos. É sinal evidente de que, para o Planalto, a vitória nas eleições do ano que vem são favas contadas.

Tomai cuidado, incautos futurólogos! Nada é garantido. Irônico, o destino às vezes prega peças em gente presunçosa. Pode dar uma uruca danada.

Tem quem aprende

E tem quem, passados 25 anos, ainda não aprendeu…

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Lula de punho em riste ― 1989

Lula de punho em riste ― 1989

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Lula de punho em riste ― 2013

Lula de punho em riste ― 2013

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A quem não entendeu, sugiro dar uma espiadela em meu artigo
A simbologia e a inconsistência
publicado em 18 nov° 2013.
Está lá a receita da “saudação de Lênin” como manda o figurino.
Evidentemente, ninguém é obrigado a aprender.

O passado atirado ao lixo

José Horta Manzano

Interligne vertical 11«O nosso é um País de pouca cultura, de escassa erudição. Não se tem notícia de que realizações extraordinárias tenham sido deixadas de herança pelos últimos titulares do ministério. A última façanha de dona Marta Suplicy foi amplamente noticiada duas semanas atrás. Ignorando decisão da CNIC ― Comissão Nacional de Incentivo à Cultura ―, a ministra concedeu por volta de 7,5 milhões de reais a três estilistas de moda, para financiamento de seus desfiles no Brasil e no exterior.»

Escrevi o parágrafo acima em meu post As marionetes, de 7 set° 2013. Na época, eu mostrava minha indignação com relação à decisão de nossa ínclita ministra da Cultura de destinar verba de 7,5 milhões de reais a estilistas de moda.

Em seu blog alojado no Estadão, Sonia Racy, num post chamado Cartas que mudam a História, nos informa agora que um lote de 42 cartas manuscritas de Dom Pedro Augusto está à venda num desses sites que proliferam hoje em dia pela internet. E quem seria esse Pedro Augusto? Pois era o neto mais velho ― e predileto ― de Dom Pedro II, último imperador do Brasil.

Dom Pedro Augusto Luís Maria Miguel Gabriel Rafael Gonzaga von Sachsen-Coburg und Gotha e Bragança era seu nome completo. O drama que se abateu sobre sua família, na esteira do golpe militar de 1889 que baniu do Brasil o imperador e toda a família, há de ter perturbado a mente do jovem, com 23 anos à época.

Dom Pedro Augusto von Sachsen-Coburg Gotha e Bragança

Dom Pedro Augusto von Sachsen-Coburg Gotha e Bragança

Já no navio que os conduzia à Europa, Dom Pedro Augusto começou a manifestar os primeiros sinais da loucura que o condenaria a passar internado seus últimos 45 anos de vida.

Pois bem, um precioso lote ― 42 cartas manuscritas, mais dois retratos daqueles que se tiravam no photographo, mais envelopes sigilados com o lacre original ― está lá, anunciado no site comercial, à espera de algum interessado.

Segundo Sonia Racy, o conteúdo das cartas de Dom Pedro Augusto joga luz sobre pormenores desconhecidos e pode enriquecer a memória nacional sobre um período importante e pouco estudado. São escritos pessoais que desvelam até desavenças familiares. Em resumo, são documentos únicos, daqueles que fazem parte da memória da nação.

Estivéssemos num país civilizado, essa venda não poderia ocorrer. O Estado teria direito de preempção ― em outros termos, teria preferência na compra. Documentos desse jaez são considerados patrimônio nacional. Só poderão ser oferecidos ao público caso o país não se interesse em adquiri-los.

Mas não estamos num país civilizado. O lote está lá, oferecido a 50 mil reais. Infelizmente, os quase 8 milhões empatados no custeio de desfiles de moda em Paris e Nova York já devem ter liquidado toda a verba de que dispunha o Ministério da Cultura.

Não tem importância. Que se atire o passado ao lixo. No eterno país do futuro, quem é que se importa com velharias empoeiradas? E vamos que vamos, que amanhã é outro dia!

É tranquilizador saber que, ao menos no Ministério da Cultura, contamos com figurões sempre atentos à preservação de nossa memória. A continuarem nessa linha, logo chegaremos ao Primeiro Mundo!

E viva a Copa!

Do Brasil para o mundo!

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil e da maioria dos países americanos, o papel da rádio-televisão estatal é secundário. No Brasil, especialmente, a radiodifusão pública resume-se a meia dúzia de estações de cunho eminentemente local.

Assim ficou definido desde que surgiram as primeiras emissões de rádio, pelo final dos anos 20. Na Europa, o Estado assumiu essa responsabilidade e, durante meio século, guardou o privilégio exclusivamente para si. Até os anos 70, praticamente não havia estações comerciais no continente. Nem de rádio, nem de televisão.

De uns 30 ou 40 anos para cá, a situação se afrouxou. Centenas de estações surgiram. Mas uma prática subsiste: a cobrança da taxa de rádio e tevê. De cada possuidor de aparelho de rádio ou de televisão é cobrada uma taxa anual. Na origem, esses recursos serviam para financiar os programas da rádio e da televisão públicas, dado que nenhuma publicidade era difundida.

Os tempos foram mudando, a publicidade foi-se insinuando aos poucos, mas a taxa continua de pé. Por quanto tempo ainda, não se sabe. Na verdade, o celular é hoje capaz de captar, via internet, programas de rádio e de tevê. No entanto, seus possuidores não são sujeitos à taxa de difusão. Como é que vai ficar no futuro? Quem viver verá.

Televisão ― o começo

Televisão ― o começo

Na Europa, o fato de as transmissões radiofônicas terem sido asseguradas durante meio século pelo Estado trouxe uma consequência desconhecida no Brasil. O Estado tornou-se responsável pelo alcance, pela qualidade e pela diversidade de suas emissões. A não necessidade de buscar recursos publicitários deu ensejo a uma diversificação de programas desconhecida na Terra de Santa Cruz. Alguns canais da televisão pública podem se permitir levar ao ar rodas literárias, debates filosóficos ou documentários científicos em horário nobre.

Outra consequência de a rádio e a televisão terem sido confiadas ao Estado foi a criação de canais especificamente voltados para projetar a imagem nacional além-fronteiras. Desde os tempos pré-históricos das ondas curtas, grandes países se esforçaram de propagar sua voz. Era o caso do Reino Unido, da antiga União Soviética, da França.

Hoje em dia, com uma simples parabólica ― às vezes até sem ela ― qualquer um pode acompanhar programas de rádio e televisão emitidos pelas empresas públicas dos grandes países e também de países médios e pequenos, como Portugal, Espanha, Suíça, Bulgária, Dinamarca, Itália, Áustria. Até países exóticos têm emissoras ― em diversas línguas ― que dão ao país uma importância que ele nem sempre tem. O exemplo maior é Al-Jazeera, do Catar.

O Brasil conta hoje com muitos cidadãos vivendo fora de suas fronteiras. Embora ninguém conheça o número exato de indivíduos, estimativas chegam a falar em 3 milhões. É um bocado de gente. Se uma organização estatal e forte antes não fazia falta, agora faz. Não há quem garanta aos expatriados a ligação rádio-televisiva com a terra natal.

Na Europa Central, nenhuma emissora de rádio brasileira está disponível por satélite. Quanto à televisão, apenas duas emissoras comerciais podem ser captadas. O pacote básico da tevê a cabo inclui uma estação brasileira de cunho religioso, daquelas que transmitem novelas entremeadas de proselitismo neopentecostal. A maior emissora de televisão brasileira também está disponível, mas… só para quem estiver disposto a pagar. Na Suíça, a assinatura sai por 42 dólares mensais, mais de 500 por ano (pra lá de 1100 reais). Precisa ser fanático por novela. Quanto ao rádio, nada ― nem de graça, nem pagando.

Organizações estatais de rádio e televisão

Organizações estatais de rádio e televisão

É pena que assim seja. Quem sabe um dia destes, lá em Brasília, alguém acorda. Acho difícil. Os brasileiros são pouco voltados para o exterior. Muitos imaginam que o mundo começa e termina dentro das fronteiras nacionais.

O Brasil conta com uma esquálida organização estatal de comunicação, é verdade. Mas toda tentativa de vitaminá-la tem esbarrado na confusão entre Estado e governo. Os brasileiros do exterior gostariam de sentir a presença da terra de origem. Dispensam autolouvação do governo de turno. Muito obrigado.

O defunto

José Horta Manzano

Não recebi procuração de Nelson Mandela nem de seus herdeiros. Não sou advogado de nenhum deles. Mas certas coisas que se leem aqui e ali têm alto poder irritante.

É do ser humano endeusar os que morreram. E não deixa de ser compreensível. Para os que gostavam do falecido, a perda exalta o sentimento de dor. Para os que detestavam o defunto, o sentimento só pode ser de alívio ― até que enfim, foi-se!

Estes últimos dias tenho visto circular textos carregados de rancor contra o antigo presidente da África do Sul. Há quem aponte sua proximidade com dirigentes autoritários, há quem mostre fotos dele ao lado de Fidel Castro, há quem diga que o homem, quando jovem, era mais violento que a peste.

Pode até ser. O fato de Mandela ter começado mal e terminado bem confere ao personagem mérito maior. Dizem que, de jovem, Buda tinha todos os defeitos que se possam encontrar num ser humano. O mesmo aconteceu com figuras às quais estamos mais acostumados, como alguns santos católicos ― Francisco de Assis, Paulo Apóstolo entre outros. Todos eles começaram mal e aprenderam com as próprias experiências.

Não há que esquecer que Mandela foi apartado dos viventes no começo dos anos 60, numa época em que o planeta vivia um momento muito especial. Guerra Fria, descolonização, revolução de iluminados cubanos ― foi esse o mundo que ele deixou. Passou quase 30 anos afastado, sem televisão, sem jornal, sem internet, sem telefone, com direito a escrever uma carta a cada 6 meses(!).

Seu grande mérito foi ter visão, qualidade infelizmente rara no mundo e praticamente inexistente na política brasileira. Sua inteligência política e seu senso do dever permitiram-lhe passar por cima de rancores e engolir o ódio. Encarnou a vitória da não vingança.

Nelson Mandela by Dimas Restivo, desenhista paulista

Nelson Mandela
by Dimaz Restivo, desenhista paulista

Esse, sim, foi um salvador da pátria. Dos países colonizados do continente africano, o seu é praticamente o único que evitou uma descolonização violenta. Até os anos 80, a expectativa era de que, no dia em que aquilo explodisse, correria um rio de sangue. Os pretos eram muitos, mas os brancos detinham as armas. A briga seria muito muito feia.

Pois Mandela ― sozinho! ― evitou tudo isso. Pouco importa que tenha cometido erros em sua longa vida. Quem não os cometeu? O que a História vai guardar é que ele é o responsável por ter conferido a seu país a viabilidade que ninguém imaginava ser possível. E é isso que conta.

Quiçá todos os falsos visionários que pululam por aí, especialmente em países mais atrasados como o nosso, tivessem realmente a inteligência e o desprendimento que Mandela mostrou.

Madiba tornou possível a impensável coabitação entre as diferentes etnias que compõem a colcha de retalhos implantada na extremidade sul do continente africano. Enquanto isso, no Brasil, nossos luminares estão fazendo o que podem e o que não devem para compartimentar a população dentro de cercadinhos artificiais.

Que falta nos faz a inteligência e a sensibilidade de um líder desse naipe!

Frase do dia — 56

«Os aeroportos brasileiros estão sendo “remendados” para lidar com o fluxo de torcedores na Copa do Mundo. Mas não darão conta da expansão do mercado doméstico brasileiro. As medidas não atendem às necessidades a longo prazo.»

Jamil Chade, ao citar apreciação feita pela IATA(*), in Estadão 12 dez° 2013

(*) IATA = International Air Transport Association, entidade formada por cerca de 240 companhias aéreas, que respondem por 84% do tráfego aéreo planetário.

Em estado de dúvida

José Horta Manzano

Estádio é estádio. Arena é arena. Picadeiro é picadeiro. Palco é palco. Palanque é palanque. Não viria à ideia de ninguém dizer que a peça de teatro será apresentada no picadeiro do teatro. Não seria concebível relatar que, para pronunciar seu discurso, o candidato subiu à arena. Ficaria ridículo contar que o jogo de vôlei teve lugar no palanque.

Picadeiro é termo ligado ao circo. Palco traz à mente o teatro. Palanque lembra imediatamente um comício político. Arena é expressão intimamente conectada a tourada, corrida de bigas, luta de gladiadores. Estádio é construção ― geralmente de grandes dimensões ― onde se praticam esportes atuais, entre os quais o futebol.

O povo brasileiro, sabe-se lá por que, sempre foi bastante permeável a modismos vindos do estrangeiro. Cem anos atrás, a linguagem era recheada de palavras e expressões francesas, a língua de cultura da época. Hoje é vez do inglês. Amanhã, só Deus sabe o que virá.

Há neologismos bem-vindos. Quando falta uma palavra em nosso vocabulário, por que não adotar aquela que já nos vem prontinha do exterior? Comprar feito é tããão mais fácil que inventar um similar nacional, não é mesmo? No entanto, há modismos que perturbam. Um deles, muito em voga atualmente, é o surpreendente e repentino abandono do tradicional termo estádio, substituído pelo bizarro arena.

Será que os brasileiros logo estarão dizendo que, domingo que vem, vão à arena assistir a um jogo? Pode ser, melhor não botar a mão no fogo. Os franceses são mais duros na queda. Naquele país, ninguém jamais em tempo algum conseguiria impor uma novidade desse calibre. Stade continua significando estádio. Arènes (que é normalmente usada no plural) é a palavra empregada para designar um campo de touradas.

Le Monde ― o jornal mais prestigioso da França, traz, em sua edição datada de 12 dez° 2013, artigo de Nicolas Bourcier sob o título Le Brésil au stade du doute. A expressão contém um jogo de palavras. Stade tanto significa estádio como estado (=situação). Portanto, tanto se pode traduzir por O Brasil em estado de dúvida, como por O Brasil no estádio da dúvida. Trocadilhos e brincadeiras com palavras são comuns na imprensa francesa.

O texto, naturalmente, tece considerações sobre a próxima Copa do Mundo e sua organização. Menciona o espetáculo horripilante que se viu recentemente num estádio de Joinville. Fala também do acidente que dizimou uma parte do estádio dito Itaquerão. Relata atraso na construção dos estádios de Curitiba, Manaus e Cuiabá. Para coroar, conta que a previsão de custo das construções esportivas teve aumento de um bilhão de reais de um ano para cá. Diz ainda que o total de investimentos em infraestrutura deve ultrapassar os 25 bilhões de reais. No finalzinho do escrito, fica no ar uma dúvida maliciosa sobre a serenidade do clima no qual ocorrerá o megaevento do ano que vem.

O artigo de página inteira está engalanado por vários desenhos humorísticos. Estão aqui abaixo.

Le Monde ― 12 dez° 2013 página inteira

Le Monde ― 12 dez° 2013
Artigo completo

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Le Monde ― 12 dez° 2013 O texto

Le Monde ― 12 dez° 2013
O texto

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Le Monde ― 12 dez° 2013 "Ainda bem que estão todos em frente à tevê!" by Mix & Remix, desenhista suíço

Le Monde ― 12 dez° 2013
“Não vejo a hora em que eles se sentem todos em frente à tevê!”
by Mix & Remix, desenhista suíço

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Le Monde ― 12 dez° 2013 by Payam Borumand, desenhista iraniano

Le Monde ― 12 dez° 2013
by Payam Borumand, desenhista iraniano

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by Boligan, desenhista mexicano

by Boligan, desenhista mexicano

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by Nicolas Vadot, desenhista franco-britânico

O custo da Copa 2014  –  by Nicolas Vadot, desenhista franco-britânico

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by Marcelo de Andrade, cartunista da Folha de São Paulo

by Marcelo de Andrade, cartunista da Folha de São Paulo

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As boas-vindas

José Horta Manzano

Chega-me a notícia de que o sorridente Bill Clinton, antigo presidente ― de esquerda, frise-se ― dos EUA teve um encontro com dona Dilma faz dois dias.

Agindo com pouca elegância, nossa presidente aceitou que fossem incluídas frases agressivas no discurso que lhe prepararam para pronunciar na ocasião. Nossa presidente ainda não aprendeu que não convém assumir atitude professoral e desafiante do tipo conosco, ninguém podosco diante de visitantes estrangeiros. Pega mal pra danar.

Dona Dilma declarou que, no panorama atual, «não há espaço para relações hegemônicas»(*). Palavreado estabanado, malcriado, inútil, e típico de quem sofre do que Nélson Rodrigues chamou um dia de complexo de vira-lata. Explico.

Dilma Rousseff & Bill Clinton Crédito: Daniel Marenco, Folhapress

Dilma Rousseff & Bill Clinton
Crédito: Daniel Marenco, Folhapress

É estabanado porque visa a atingir em cheio o estrangeiro. É pisão no pé de propósito.

É malcriado porque colide com nossa tradição de dar boa acolhida a quem vem de visita. Não era hora nem lugar de proferir esse tipo de discurso.

É inútil porque se dirige a alguém que já deixou o poder há 12 anos e que não pode ser responsabilizado pela orientação política atual de seu país.

É marca de um governo que sofre manifestamente de complexo de vira-lata. Ou alguém imagina Frau Angela Merkel, Monsieur François Hollande ou Mr. David Cameron fazer esse tipo de advertência a um antigo mandatário dos Estados Unidos? É o tipo de discurso que se pode esperar de um Chávez, de um Castro, de um Evo. Na boca da presidente do Brasil, não cai bem.

A inflação voltou; o PIB empacou; o Mercosul emperrou; a cada mês que passa, mais famílias se credenciam a receber a bolsa família ― o que é péssimo sinal; o Brasil está cada dia mais longe de ser admitido com membro permanente do CS da ONU; nossas prisões, já superlotadas, passam a aceitar políticos que se julgavam acima do populacho. Com tudo isso acontecendo, é ousadia levantar a crista e tentar dar lição de relações políticas a quem entende do riscado.

Quer dona Dilma queira ou não, quer seus áulicos gostem ou não ― alô, doutor «top-top» Garcia! ― os EUA continuarão ainda por longos anos na dianteira tecnológica, econômica e bélica. Ainda não está à vista o dia em que a situação se alterará.

Em vez de dar murro em ponta de faca, nossa mandachuva-mor deveria se comportar mais como chefe de Estado e menos como chefe de facção.Interligne 12

(*) «Relações hegemônicas» é formulação tortuosa, daquelas que parecem eruditas, mas são pobres de significado. O que a presidente queria dizer ― mas provavelmente não ousou ― era que não há espaço para hegemonias. No entanto, ela se engana. Ou se ilude, o que é ainda pior. Hegemonias existirão sempre, que é assim desde que o mundo é mundo: o forte domina o fraco. O Planalto pode muito, pode mexer até em leis federais, mas não conseguirá mudar leis da natureza. Vai ficar no palavreado.

Unidos venceremos!

José Horta Manzano

Hoje teve lugar, no imenso estádio de Johannesburg, cerimônia de adeus a Nelson Mandela. Viram-se e ouviram-se acontecimentos espantosos.

Obama e Castro (o segundo) roubaram a cena com seu histórico aperto de mãos. Obama recebeu uma ovação da assistência ― dezenas de milhares de pessoas. Não passaram despercebidas as vaias com que essas mesmas pessoas receberam Jacob Zuma, atual presidente do país. Visita de presidente a estádio anda se tornando um exercício arriscado…

Cinco presidentes Foto: Roberto Stuckert F°

Cinco presidentes
Foto: Roberto Stuckert F°

Alguns notaram a falta de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel. Ele disse que não iria para não gastar dinheiro do país. Como pretexto, soou meio capenga. Dizem os analistas que, na verdade, o homem estava com receio de ser acolhido por uma salva de apupos. Muitos hão de se lembrar que, nos tempos duros em que vigorava o apartheid na África do Sul, Israel foi um dos raros e constantes parceiros econômicos do país.

Dona Dilma e sua corte tiveram a excelente ideia de convidar os quatro antigos presidentes do Brasil para acompanhá-los na viagem. E, naturalmente, deram-lhes carona no Airbus presidencial. A equipe de Obama procedeu de maneira análoga. Levaram todos os que ainda estão em condições de viajar ― faltou Bush pai que, aos 89 anos, talvez tenha dificuldade em se locomover. As imagens da chegada do avião a Johannesburg mostraram Obama e Bush filho descendo do mesmo aparelho. É de crer que todos tenham viajado juntos.

by Alberto Alpino F°, desenhista capixaba

by Alberto Alpino F°, desenhista capixaba

Quem acompanhou a transmissão ao vivo talvez tenha percebido Monsieur Hollande e Monsieur Sarkozy, o atual presidente da França e seu predecessor, sentados lado a lado na tribuna reservada às autoridades.

O que pouca gente fora da França ficou sabendo é que o presidente atual convidou, sim, seu antecessor. Mas com uma condição: que viajassem em aviões separados. É voz corrente que os dois se odeiam. Resultado: os mandachuvas franceses precisaram de três aviões ― um para o presidente, mais um para o ex-presidente e um terceiro sobressalente, aquele estepe que se costuma levar.

Quando a imprensa francesa botou a boca no trombone para anunciar ao povo esse desperdício de dinheiro público, chegou a explicação. É que, na volta, o presidente atual tinha previsto uma parada na República Centro-Africana, onde o pau anda comendo tão feio que tropas francesas estão lá para acalmar os ânimos.

Sarkozy e Hollande em Johannesburg

Sarkozy e Hollande em Johannesburg

O pretexto pareceu mal costurado. Poderiam ter viajado juntos e dado ao distinto público uma imagem mais civilizada. Para organizar a volta, sempre se encontraria um jeito.

É raro, mas acontece: as altas personagens brasileiras, desta vez, se comportaram mais civilizadamente que as francesas. Que fique aqui consignada minha admiração.

Conheceu, papudo?

José Horta Manzano

Foguete chinês

Foguete chinês

Herton Escobar nos anuncia, em seu blogue alojado no Estadão, que um lançamento de satélite brasileiro fracassou. Tratava-se de projeto desenvolvido em conjunto com a China. O veículo espacial foi lançado esta segunda-feira do Centro Espacial de Taiyuan, naquele país. Diferentemente dos fogos Caramuru, o lançamento deu chabu. Tudo indica que o tempo, o esforço, o dinheiro foram desperdiçados. E a credibilidade levou um golpe.

Mais quelle idée! ― diriam os franceses. Que ideia mais maluca essa de se associar a chineses para esse tipo de aventura. Ideologia pode ter sua utilidade num palanque, mas, na hora de gastar nosso dinheiro, nossos mandachuvas deveriam ser mais escrupulosos. Duzentos e setenta milhões de reais! Como é bom ser irresponsável com o dinheiro alheio…

Até os parafusos que mantêm unidas as placas da fuselagem de qualquer nave espacial sabem que os chineses não são detentores de tecnologia de ponta em matéria de exploração espacial. Nem os indianos, nem os brasileiros, nem os sudaneses. Os três grandes são os EUA, a Rússia e a França. Países importantes como Alemanha, Itália, Canadá, quando têm de lançar seus satélites, recorrem a um dos grandes. Não vão arriscar seu dinheiro com principiantes.

Por que essa reticência brasileira em recorrer a quem tem conhecimento no ramo? Se foi por economia, aprenderam ― com nosso dinheiro! ― que o barato sai caro. (Nossos avós já sabiam disso.)

Foguete chinês

Foguete chinês

Talvez tenha sido por medo de que americanos, russos ou franceses pudessem inserir no satélite um cavalo de troia para coletar informações sensíveis. E quem é que garante que os chineses não terão feito igualzinho?

Quem quer serviço benfeito procura o melhor fornecedor. Considerando que o atual governo brasileiro está a anos-luz de qualquer afinidade ideológica com o governo chinês, a razão para terem escolhido um fornecedor de segunda categoria terá sido demonstrar uma certa soberba. Foi para mostrar aos loiros de olhos azuis que não precisamos deles, dado que os de zoinhos puxados nos dão uma força. Conheceu, papudo?

Não deu certo.

O castelhano ― uma língua multipolar

Alberto José Miyara (*)

«O castelhano é a única língua multipolar do mundo. Idiomas como francês e alemão são monopolares: sabe-se que seus destinos se determinam na França e na Alemanha. A Suíça, a Bélgica, a Áustria ou o Québec são bem-vindos para engordar o número de falantes, mas, na hora das definições, têm direito a uma atenção meramente protocolar.

O inglês e o português são bipolares. A Inglaterra e Portugal, por serem o berço de cada uma dessas línguas, exercem, na hora das decisões, peso bem maior do que poderia sugerir a relativa importância de suas economias diante dos Estados Unidos e do Brasil. (O Canadá ou a Austrália ficam fora de toda negociação, assim como Angola e Moçambique.) O resultado é que os países que constituem essa bipolaridade nem sempre chegam a um acordo, o que se reflete nas ortografias irritantemente distintas entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos e entre Portugal e o Brasil.

Mas em castelhano as coisas são diferentes. (…)»

Para ler o texto integral (em espanhol), clique aqui.

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(*) Alberto José Miyara é poeta, escritor e engenheiro argentino. O excerto reproduzido acima aparece na introdução de seu interessantíssimo Diccionario Argentino-Español.
Sua obra poderia ser comparada, por exemplo, a um glossário do falar brasileiro destinado a leitores portugueses.

Bilhete Único

José Horta Manzano

Você sabia?

Confesso que não sabia o que era Bilhete Único. Já devo ter lido, aqui e ali, essa expressão ― nova para mim ―, mas nunca lhe dei grande atenção.

Ao ler um texto de Elio Gáspari, publicado na Folha de São Paulo, entendi. Na cidade de São Paulo, Bilhete Único é o nome que se dá ao documento que prova que o usuário do transporte público já pagou adiantado o valor devido para um mês inteiro. É o que se poderia chamar assinatura mensal. Escolheram esse nome ― não vamos reclamar.

Ônibus urbano como suporte publicitário

Ônibus urbano como suporte publicitário

Gáspari explica que a assinatura custa 140 reais por mês. Diz também que 65% dos viajantes ganham até 1147 reais. Na falta de outro dado, tomemos esses 1147 como salário médio dos usuários. Portanto, o transporte representa 12,2% do salário de cada um. É uma pedrada!

Vamos ousar comparar com o que acontece na Suíça. A assinatura mensal que permite utilizar todas as linhas de ônibus da cidade de Genebra ― segunda aglomeração do país ― custa 73 francos(1). Para estudantes é mais barato, mas vamos ficar com esse número mesmo.

Segundo as estatísticas disponíveis, o salário mediano(2) ― considerando todas as idades e todas as profissões ― é de 5979 francos. É fácil fazer as contas. A assinatura mensal do transporte público genebrino equivale a 1,2% do salário médio.

Portanto, um usuário paulistano tem de desembolsar proporcionalmente dez vezes mais(!) que um suíço para o transporte urbano.

Alguém vê alguma distorção?

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(1) Ao câmbio atual, equivale a aproximadamente 200 reais.
(2) Significa que 50% dos assalariados ganham mais que isso, enquanto 50% ganham menos.

Cotas raciais no comércio exterior

Percival Puggina (*)

Se existe uma parte do planeta onde bate com mais vigor o generoso coração de Lula e Dilma, esse lugar é a África Negra. Imagino ser por isso que existam cotas raciais para o comércio exterior brasileiro. Volta e meia – às vezes nem meia volta se completa – e lá estão nossos presidentes petistas na África Subsaariana, cada um a seu turno, perdoando dívidas milionárias que aqueles países têm para com o Brasil. A conta já passa de US$ 2 bilhões. Não por acaso são, em parte, débitos de governos ditatoriais, sanguinários, genocidas, que lidam com as finanças locais em regime de partilha. Vai um pouco para o interesse público e o restante para contas familiares em bancos estrangeiros.

Um deles, o senhor Omar al-Bashir, já leva 24 anos no cargo de presidente do Sudão. Tem dois mandados internacionais de prisão e, segundo um promotor do Tribunal Penal Internacional, acumula US$ 9 bilhões de recursos próprios em paraísos fiscais. Outro, o senhor Teodoro Obiang, que comanda a Guiné-Equatorial, adquiriu em 2010 um apartamento na Av. Vieira Souto, no Rio de Janeiro, naquela que foi até então a maior transação da história da cidade envolvendo um imóvel residencial. O pequeno refúgio carioca do ditador é um tríplex com 2 mil metros quadrados. O patrimônio pessoal do bilionário ditador do Congo-Brazaville, Denis Sassou Nguesco, proprietário de algumas dezenas de imóveis na França é superior à dívida do país perdoada pelo Brasil (US$ 352 milhões). E por aí vai. Em maio deste ano, numa única tacada, a presidente Dilma anunciou perdões, abatimentos e novos parcelamentos para dívidas de uma dúzia redonda de nações africanas.

Brasil e África Crédito: Cebráfrica, UFRGS

Brasil e África
Crédito: Cebráfrica, UFRGS

Alega o governo que esse procedimento está alinhado com as orientações do Clube de Paris, que o recomendam como forma de estimular a contratação de novos financiamentos e promover o desenvolvimento daqueles povos. Faria sentido se não estivéssemos tratando, em alguns casos, de povos cuja miséria aumenta na proporção direta em que a elite governante amplia sua riqueza pessoal. Faria sentido se não houvesse, na lista de beneficiados, governos ditatoriais que só perdem em longevidade e truculência para a dinastia cubana dos Castro Ruz.

É uma pena que a benevolência dos governos petistas em relação aos seus cotistas raciais no comércio exterior não encontre simetria de tratamento com as dívidas dos produtores rurais brasileiros quando suas lavouras são assoladas por estiagens e secas.

É uma pena que essa mesma prontidão não apareça na hora de atender os brasileiros vítimas de cheias, cujos bens são arrastados pelas águas.

É uma pena, também, que não se respeite o preceito bíblico de que a mão esquerda não saiba o que a esquerda faz em favor do próximo. De fato, enquanto a generosidade nacional é proporcionada pela dadivosa mão direita, a esquerda encaminha novos recursos para obras de empreiteiras brasileiras nesses países. Quem garante que a virtude da probidade e a adimplência tenham desabrochado em meio aos maus pagadores e prevaricadores de ontem? Continuaremos financiando empreiteiras e cancelando os débitos?

E é uma pena, por fim, que, junto com a bonomia das cotas raciais de nosso comércio exterior, não venha junto uma transparência maior sobre as comissões pagas pelos novos negócios que estão sendo contratados lá com as empreiteiras daqui. Tenho um palpite, mero palpite, de que iríamos encontrar, beneficiado por tais valores, um conhecido lobista que mantém relação de intimidade paternal com as decisões de governo.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

Vivo ou morto

José Horta Manzano

Mais do que regrinhas de acentuação ou de hifenização ― que mudam da noite pro dia e cuja lógica nem sempre é evidente ― dou grande valor à adequação vocabular. Encontrar o termo mais adaptado a cada contexto demanda um pouco de esforço. Na oralidade, não tem jeito: como não há tempo para pensar, cada um usa a palavra que lhe vem à cabeça. Na escrita, é outra coisa.

Em artigo deste 7 de dez°, o Estadão nos brinda com este período um tanto claudicante(*):

«A presidente Dilma Rousseff decidiu convidar os ex-presidentes brasileiros vivos para acompanhá-la em viagem a Johannesburgo, onde será celebrada uma missa em homenagem ao líder sul-africano Nelson Mandela, morto quinta-feira após uma infecção pulmonar.»

Tenho 4 reparos a fazer:

1) Vivos
Ex-presidentes vivos? A formulação não é das mais felizes. Não estamos na Venezuela, onde presidentes mortos continuam a se manifestar sob forma de pajaritos. O que é evidente dispensa ser explicitado. Dona Dilma só poderia convidar o vivos. Podia até ter-se limitado a levar seu padrinho a tiracolo, mas ia pegar mal. Para não fazer feio, estendeu a carona aos outros. Excluiu os mortos, naturalmente.

2) Homenagem
Dizer que uma missa será rezada «em homenagem» a um defunto soa estranho. Salva de palmas, bandeira a meio pau, minuto de silêncio são homenagens. Missa, não. Tradicionalmente, missas são ditas (ou rezadas) em intenção de um falecido ou pelo sufrágio de sua alma. Se se fizer questão de manter o termo “homenagem”, melhor será dizer que os presentes assistirão a uma missa incluída no programa de homenagens ao defunto.

3) Morto
O artigo diz : «(…) Nelson Mandela, morto quinta-feira (…)». Sem dúvida, o homem morreu. Tecnicamente, a frase está perfeita. Mas ― convenhamos ― para um ancião que morreu de velhice, a palavra é um tanto crua. Melhor substituir morto por uma expressão mais suave, como falecido, desaparecido, que se extinguiu, que nos deixou, que expirou, que se foi.

4) Após
«Morto após uma infecção pulmonar» ― diz o texto. Não tive acesso ao boletim médico, muito menos ao atestado de óbito. Mas é permitido supor que a causa mortis tenha sido exatamente a infecção pulmonar. Portanto, Mandela não morreu após a doença. Morreu de ou por causa dela.

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Reescrito com mais apuro, o período fica assim:

A presidente Dilma Rousseff decidiu convidar os ex-presidentes brasileiros para acompanhá-la a Johannesburgo, onde será celebrada missa em intenção do líder sul-africano Nelson Mandela, falecido quinta-feira de infecção pulmonar.

Fica mais arejado, não acham?

(*) Claudicante é a forma politicamente correta para manquitola, coxo, manco.

Frase do dia — 55

«O problema, naturalmente, é que muitos homens de sucesso se dobram a algumas formas de vaidade. Chega um momento de suas vidas em que consideram aceitável serem egoístas e vangloriam-se de suas realizações diante do público em geral como se fossem únicas.»

Nelson Mandela, citado em artigo de FHC publicado n’O Globo de 6 dez° 2013.
Qualquer semelhança com alguma situação real pode ser mais que mera coincidência.

Frase do dia — 54

«José Dirceu atravessa seus primeiros dias de cárcere como se fosse um personagem de desenho animado — desses que, quando acaba o chão, continuam caminhando no vazio e só caem quando se dão conta de que pisam em nada. Desde a decretação de sua prisão, em 15 de novembro, o ex-número 2 do PT ainda não olhou para baixo.»

Do Blog do Josias, em 5 dez° 2013

Nem malandragem, nem vadiagem

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 7 dez° 2013

A Síntese de Indicadores Sociais 2013, publicada estes dias pelo IBGE, desnuda uma realidade de assustar qualquer governo civilizado.

Mostra que, de cada cinco jovens entre 15 e 29 anos, apenas quatro trabalham ou estudam. Está ali atestada, preto no branco, a ociosidade de 20% de nossos jovens (um em cada cinco!). Não trabalham nem estudam. É a juventude jocosamente chamada de «nem-nem». Não ria, que é bem mais sério que parece.

É uma minoria? Sem dúvida. Assim mesmo, falamos de 10 milhões de brasileiros. Gente na flor da idade, no ápice da capacidade de aprender. Têm vigor físico e boa acuidade sensorial. Mas… como pérolas esquecidas num baú em vez de luzir num colar majestoso, vão perder o viço.

No Brasil, muito se fala em Educação, mas pouco se faz. Os holofotes estão voltados para os dois extremos: de um lado, a escola básica; de outro, a instrução de nível dito superior. No meio, nada. Pior: vale a quantidade, não a qualidade.

Prefeitos se gabam de haver aberto não sei quantas escolas, pouco importa o nível de ensino que oferecerão. Presidentes se vangloriam de haver fundado não sei quantas faculdades, pouco importa que lhes falte estrutura básica para funcionar decentemente.

Percebe-se, no discurso oficial, a obsessão marqueteira de se ater àquilo que dá voto. A alfabetização ― ainda que mal-ajambrada ― aparece nas estatísticas. O número de faculdades ― ainda que inoperantes ― também se põe na vitrine. Já o ensino técnico é invisível.

A ditadura Vargas deixou lembrança amarga para muitos. Mas há que se lhe reconhecer um grande mérito: dignificou o trabalho. Chegou a censurar sambas que exaltavam a malandragem. (À época, malandro era «aquele que não trabalha». Hoje diríamos vadio.) Até os anos 50, respeitava-se o trabalho. Ofícios humildes não eram desconsiderados. De uns 30 anos para cá, o quadro mudou.

Todo filho de boa família se vê compelido a seguir estudos superiores. É impensável que um jovem de classe média ouse caminhar à margem da estreita paleta de opções que as faculdades oferecem. Com isso, todo ofício artesanal ― vasta e sólida base que sustenta a prosperidade de sociedades mais adiantadas ― tem sido relegado a segundo plano, mal ensinado, mal pago, malvisto.

Em países avançados da Europa, um pedreiro ou um pintor de paredes diplomado terá facilidade para encontrar emprego e remuneração justa. O sistema de aprendizado por aquelas bandas cobre toda a gama de atividades não universitárias. Futuros cabeleireiros, balconistas, azulejistas, eletricistas, funileiros, cozinheiros, jardineiros, cuidadores, padeiros, floristas, relojoeiros, lenhadores, oculistas, vinhadeiros, horticultores, sommeliers, açougueiros, desenhistas, marceneiros passam por um período de dois ou três anos de formação.

Nos últimos anos da escolaridade obrigatória, cada aluno já tem ideia de sua capacidade e de seus anseios. Numa sociedade que não desdenha o trabalho manual, o adolescente europeu tem uma paleta de escolha profissional bem mais ampla que o jovem brasileiro. Quem sentir atração por carreira intelectual vai postular vaga na universidade de seu agrado. Quem não levar muito jeito para estudo vai escolher, entre centenas de profissões técnicas, a que mais o atrai. E começará como aprendiz, o que já lhe renderá pequeno salário. Durante os dois ou três anos de aprendizado, alternará o trabalho com aulas teóricas uma ou duas vezes por semana. Ao final, enfrentará uma banca examinadora. Se aprovado, receberá o diploma de capacidade, um abre-te sésamo infalível. Pelo resto da vida, dificilmente lhe faltará emprego. Quem é que rejeita um funcionário formado e diplomado como manda o figurino?

Pois as autoridades brasileiras, tão ágeis a institucionalizar artificiais diferenças raciais, parecem não se dar conta de que a natureza dotou cada humano de aptidões e anseios diferentes. O objetivo supremo do jovem brasileiro não é necessariamente conquistar um canudo.

Ofícios técnicos e artesanais têm de ser valorizados. Não há razão para que um pedreiro se sinta inferior a um doutor. Sem aquele, este não teria casa para morar. A relação entre cidadãos não deve ser encarada como se alguns fossem mais especiais que outros. Que se consagre uma parte da agigantada verba de publicidade institucional para valorizar ofícios não universitários.

No dia em que nossos mandachuvas se derem conta do desperdício que é todos esses talentos escorrerem pelo ralo, o Brasil terá dado um passo à frente. Não vai dar muito voto? Não, não vai. Mas vai dar futuro.