Prova amarela

José Horta Manzano

A passagem dos anos é implacável. Francamente, este blogueiro está começando a se sentir defasado com relação ao mundo atual. Vai longe o dia em que me sentei numa carteira pra enfrentar um exame de seleção. Faz tempo, mas ainda me lembro de como era. Anos atrás, não havia Enem. Cada faculdade promovia o próprio exame de seleção, conhecido como vestibular. Para o aluno, era um quebra-cabeça. Tinha de se inscrever em cada uma das faculdades onde eventualmente poderia ingressar. Na hora dos exames, precisava viajar de um canto a outro ‒ uma mão de obra danada.

Acho o Enem uma excelente solução. Fui dar uma espiada na ‘prova amarela’, que engloba questões de Ciências Humanas e Linguagens. Foi aí que me dei conta de que algo mudou na realidade brasileira. Perpassando as perguntas, me dou conta de que a finalidade do ensino médio está desvirtuada. Em vez de ensinar a pensar, a escola está ensinando como pensar. O caminho que leva à verdade única está ladrilhado. Com pedrinhas de brilhante.

De cada duas perguntas, uma transpira ideologia. Até quando o enunciado está em língua estrangeira, a fim de testar a compreensão do aluno, os temas giram sempre em torno do mesmo eixo, um eixo monomaníaco. Fervilham expressões de carteirinha, tais como: moradores de rua, cidadãos socialmente vulneráveis, movimento popular, inclusão de palavrão, grupos populares, descolonização estética, imaginário racista, mito do sexo frágil, assédio, exploração sexual, crimes contra mulheres, censura, opressão, gays, travestis. Não estou exagerando. Garanto que essa enxurrada está presente nos enunciados ou nas correções propostas.

Dá saudade do tempo em que eram mencionados Camilo Castello Branco, Eça de Queirós, Machado de Assis, Olavo Bilac, em vez de citações colhidas na internet, como fazem hoje. Dá tristeza constatar que, em vez de expor caminhos a tomar pra clarear o futuro da nação, as questões insistem em martelar desgraças do passado e remoer misérias do presente. Espremendo as folhas da ‘prova amarela’, sai um caldo negativo, desesperançado. Dá pena dos vestibulandos de hoje. Ao fim e ao cabo, fica uma grande preocupação com o Brasil de amanhã. Do jeito que vai, boa coisa não sai.

O defunto

José Horta Manzano

Não recebi procuração de Nelson Mandela nem de seus herdeiros. Não sou advogado de nenhum deles. Mas certas coisas que se leem aqui e ali têm alto poder irritante.

É do ser humano endeusar os que morreram. E não deixa de ser compreensível. Para os que gostavam do falecido, a perda exalta o sentimento de dor. Para os que detestavam o defunto, o sentimento só pode ser de alívio ― até que enfim, foi-se!

Estes últimos dias tenho visto circular textos carregados de rancor contra o antigo presidente da África do Sul. Há quem aponte sua proximidade com dirigentes autoritários, há quem mostre fotos dele ao lado de Fidel Castro, há quem diga que o homem, quando jovem, era mais violento que a peste.

Pode até ser. O fato de Mandela ter começado mal e terminado bem confere ao personagem mérito maior. Dizem que, de jovem, Buda tinha todos os defeitos que se possam encontrar num ser humano. O mesmo aconteceu com figuras às quais estamos mais acostumados, como alguns santos católicos ― Francisco de Assis, Paulo Apóstolo entre outros. Todos eles começaram mal e aprenderam com as próprias experiências.

Não há que esquecer que Mandela foi apartado dos viventes no começo dos anos 60, numa época em que o planeta vivia um momento muito especial. Guerra Fria, descolonização, revolução de iluminados cubanos ― foi esse o mundo que ele deixou. Passou quase 30 anos afastado, sem televisão, sem jornal, sem internet, sem telefone, com direito a escrever uma carta a cada 6 meses(!).

Seu grande mérito foi ter visão, qualidade infelizmente rara no mundo e praticamente inexistente na política brasileira. Sua inteligência política e seu senso do dever permitiram-lhe passar por cima de rancores e engolir o ódio. Encarnou a vitória da não vingança.

Nelson Mandela by Dimas Restivo, desenhista paulista

Nelson Mandela
by Dimaz Restivo, desenhista paulista

Esse, sim, foi um salvador da pátria. Dos países colonizados do continente africano, o seu é praticamente o único que evitou uma descolonização violenta. Até os anos 80, a expectativa era de que, no dia em que aquilo explodisse, correria um rio de sangue. Os pretos eram muitos, mas os brancos detinham as armas. A briga seria muito muito feia.

Pois Mandela ― sozinho! ― evitou tudo isso. Pouco importa que tenha cometido erros em sua longa vida. Quem não os cometeu? O que a História vai guardar é que ele é o responsável por ter conferido a seu país a viabilidade que ninguém imaginava ser possível. E é isso que conta.

Quiçá todos os falsos visionários que pululam por aí, especialmente em países mais atrasados como o nosso, tivessem realmente a inteligência e o desprendimento que Mandela mostrou.

Madiba tornou possível a impensável coabitação entre as diferentes etnias que compõem a colcha de retalhos implantada na extremidade sul do continente africano. Enquanto isso, no Brasil, nossos luminares estão fazendo o que podem e o que não devem para compartimentar a população dentro de cercadinhos artificiais.

Que falta nos faz a inteligência e a sensibilidade de um líder desse naipe!