Caçar arroz na prateleira

José Horta Manzano

Jovens brasileiros caçam arroz na prateleira como seus pais caçaram boi no pasto em 1986, na época do pranteado Sarney.

A capa do Estadão de ontem traz foto de um supermercado. À frente de uma montanha de sacos de arroz, um cartaz previne:

«Todos arroz está limitado a 03 unidades».

O confuso recado combina com os tempos estranhos que vivemos. Assim como o país, o texto não tem rumo, não sabe a que veio, nem como sair desta.

É irônico ver no mesmo jornal, lado a lado, a notícia do perdão da dívida de ‘igrejas’ – leia-se bilionárias multinacionais da fé. As notícias estão na mesma página, o que faz sentido: são duas faces da mesma moeda.

Capa do Estadão – 10 set° 2020

Do lado cara, temos um presidente que apelou aos supermercados para que renunciem ao lucro. O pedido é um rematado absurdo, considerando-se que estabelecimentos comerciais não são obras de benevolência. O lucro é o objetivo final de toda empresa.

Do lado coroa, está sobre a escrivaninha desse mesmo presidente, para sanção, uma lei recém-votada por nosso desvairado Parlamento, referente à pesada dívida que certas denominações neopentecostais têm com a Receita(*). A nova lei isenta de vez igrejas e ‘igrejas’ de todo e qualquer tributo; além disso, concede perdão fiscal a elas por todos os débitos pendurados. Isso quer dizer: sonegaram, mas está tudo bem, a conta será dividida entre todos os brasileiros. É a socialização da safadeza.

No Brasil atual, sob a orientação do clã que nos dirige, a orientação é tirar dinheiro de empresas normais, que compram e vendem, para entregá-lo a ‘bispos’ auto-ordenados e trambiqueiros, que se tornaram bilionários à custa da ingenuidade alheia. Pode?

Bem voltemos a todos arroz. O cartaz tem poucas palavras, mas alguns grãos de areia incomodam.

1. Dado que o sujeito está no plural, o verbo deve acompanhar. “Estão limitados” ficaria melhor. Como o “está limitado” já vinha pré-impresso, vamos deixar barato.

2. “03 unidades”. Ah, esse zero inútil antes dos números é praga. Este blogueiro é do tempo em que dígito se chamava algarismo e valia por si, sem precisar da inútil companhia de um zero à esquerda.

3. Ainda “03 unidades”. Por que “unidades”? A palavra saco tornou-se politicamente incorreta? Pois acho que “3 sacos” fica melhor; são 3 sacos de arroz.

4. “Todos arroz”. Em duas palavras, dois escorregões. Primeiro, falta o artigo. Segundo, muita gente não sabe, mas arroz tem plural. É arrozes. Não é usual, mas no cartaz do supermercado caberia perfeitamente. Portanto: “Todos os arrozes”.

Arrozes num restaurante espanhol

(*) Caso o distinto leitor queira, por curiosidade, saber se seu deputado foi cúmplice da aprovação dessa velhacaria, consulte a lista que a Câmara publicou com o voto de cada um. Pode-se ordenar por unidade da Federação, por partido ou por deputado. Clique aqui.

Cotas raciais no comércio exterior

Percival Puggina (*)

Se existe uma parte do planeta onde bate com mais vigor o generoso coração de Lula e Dilma, esse lugar é a África Negra. Imagino ser por isso que existam cotas raciais para o comércio exterior brasileiro. Volta e meia – às vezes nem meia volta se completa – e lá estão nossos presidentes petistas na África Subsaariana, cada um a seu turno, perdoando dívidas milionárias que aqueles países têm para com o Brasil. A conta já passa de US$ 2 bilhões. Não por acaso são, em parte, débitos de governos ditatoriais, sanguinários, genocidas, que lidam com as finanças locais em regime de partilha. Vai um pouco para o interesse público e o restante para contas familiares em bancos estrangeiros.

Um deles, o senhor Omar al-Bashir, já leva 24 anos no cargo de presidente do Sudão. Tem dois mandados internacionais de prisão e, segundo um promotor do Tribunal Penal Internacional, acumula US$ 9 bilhões de recursos próprios em paraísos fiscais. Outro, o senhor Teodoro Obiang, que comanda a Guiné-Equatorial, adquiriu em 2010 um apartamento na Av. Vieira Souto, no Rio de Janeiro, naquela que foi até então a maior transação da história da cidade envolvendo um imóvel residencial. O pequeno refúgio carioca do ditador é um tríplex com 2 mil metros quadrados. O patrimônio pessoal do bilionário ditador do Congo-Brazaville, Denis Sassou Nguesco, proprietário de algumas dezenas de imóveis na França é superior à dívida do país perdoada pelo Brasil (US$ 352 milhões). E por aí vai. Em maio deste ano, numa única tacada, a presidente Dilma anunciou perdões, abatimentos e novos parcelamentos para dívidas de uma dúzia redonda de nações africanas.

Brasil e África Crédito: Cebráfrica, UFRGS

Brasil e África
Crédito: Cebráfrica, UFRGS

Alega o governo que esse procedimento está alinhado com as orientações do Clube de Paris, que o recomendam como forma de estimular a contratação de novos financiamentos e promover o desenvolvimento daqueles povos. Faria sentido se não estivéssemos tratando, em alguns casos, de povos cuja miséria aumenta na proporção direta em que a elite governante amplia sua riqueza pessoal. Faria sentido se não houvesse, na lista de beneficiados, governos ditatoriais que só perdem em longevidade e truculência para a dinastia cubana dos Castro Ruz.

É uma pena que a benevolência dos governos petistas em relação aos seus cotistas raciais no comércio exterior não encontre simetria de tratamento com as dívidas dos produtores rurais brasileiros quando suas lavouras são assoladas por estiagens e secas.

É uma pena que essa mesma prontidão não apareça na hora de atender os brasileiros vítimas de cheias, cujos bens são arrastados pelas águas.

É uma pena, também, que não se respeite o preceito bíblico de que a mão esquerda não saiba o que a esquerda faz em favor do próximo. De fato, enquanto a generosidade nacional é proporcionada pela dadivosa mão direita, a esquerda encaminha novos recursos para obras de empreiteiras brasileiras nesses países. Quem garante que a virtude da probidade e a adimplência tenham desabrochado em meio aos maus pagadores e prevaricadores de ontem? Continuaremos financiando empreiteiras e cancelando os débitos?

E é uma pena, por fim, que, junto com a bonomia das cotas raciais de nosso comércio exterior, não venha junto uma transparência maior sobre as comissões pagas pelos novos negócios que estão sendo contratados lá com as empreiteiras daqui. Tenho um palpite, mero palpite, de que iríamos encontrar, beneficiado por tais valores, um conhecido lobista que mantém relação de intimidade paternal com as decisões de governo.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org