Sem palavrão

José Horta Manzano

Não é só nas altas esferas da República que a ladroeira come solta. Em esferas mais baixas, o logro, a improbidade e a traição vicejam. Continua tudo como dantes no quartel de Abrantes.

Nestes dias de rebuliço social e de tramas políticas apimentadas com verbo chulo, assaltos menores passam na surdina. Nem por isso, deixam de ser indecentes e revoltantes.

Teatro Municipal, São Paulo

Teatro Municipal, São Paulo

Dois fatos foram revelados esta semana, ambos ocorridos na maior cidade do país. O primeiro escândalo tem a ver com o Teatro Municipal, um dos fortes símbolos culturais da cidade. Um ex-diretor, investigado por desvio de verba pública num total de 18 milhões, negociou acordo de delação premiada com o Ministério Público. A crer na denúncia, até o maestro titular está envolvido. Como é praxe, todos negam.

Livro 7Outro episódio deprimente vem de investigação feita na Biblioteca Municipal, outro símbolo cultural forte. No final de 2015, foi concluído um inventário do acervo de obras raras ‒ o anterior datava de 1969, quase meio século de descaso. Descobriu-se que importante quantidade de obras raríssimas haviam desaparecido. Muitas eram peças únicas, de valor inestimável e, naturalmente, insubstituíveis. O que se perdeu, perdido está. O pouco que temos de memória nacional vai escorrendo pelo ralo.

Como se vê, nem bens culturais escapam à concupiscência que fervilha em nossa terra tropical. Ladrões não são só os que soltam palavrão em conversa caseira. O mal é maior.

O passado atirado ao lixo

José Horta Manzano

Interligne vertical 11«O nosso é um País de pouca cultura, de escassa erudição. Não se tem notícia de que realizações extraordinárias tenham sido deixadas de herança pelos últimos titulares do ministério. A última façanha de dona Marta Suplicy foi amplamente noticiada duas semanas atrás. Ignorando decisão da CNIC ― Comissão Nacional de Incentivo à Cultura ―, a ministra concedeu por volta de 7,5 milhões de reais a três estilistas de moda, para financiamento de seus desfiles no Brasil e no exterior.»

Escrevi o parágrafo acima em meu post As marionetes, de 7 set° 2013. Na época, eu mostrava minha indignação com relação à decisão de nossa ínclita ministra da Cultura de destinar verba de 7,5 milhões de reais a estilistas de moda.

Em seu blog alojado no Estadão, Sonia Racy, num post chamado Cartas que mudam a História, nos informa agora que um lote de 42 cartas manuscritas de Dom Pedro Augusto está à venda num desses sites que proliferam hoje em dia pela internet. E quem seria esse Pedro Augusto? Pois era o neto mais velho ― e predileto ― de Dom Pedro II, último imperador do Brasil.

Dom Pedro Augusto Luís Maria Miguel Gabriel Rafael Gonzaga von Sachsen-Coburg und Gotha e Bragança era seu nome completo. O drama que se abateu sobre sua família, na esteira do golpe militar de 1889 que baniu do Brasil o imperador e toda a família, há de ter perturbado a mente do jovem, com 23 anos à época.

Dom Pedro Augusto von Sachsen-Coburg Gotha e Bragança

Dom Pedro Augusto von Sachsen-Coburg Gotha e Bragança

Já no navio que os conduzia à Europa, Dom Pedro Augusto começou a manifestar os primeiros sinais da loucura que o condenaria a passar internado seus últimos 45 anos de vida.

Pois bem, um precioso lote ― 42 cartas manuscritas, mais dois retratos daqueles que se tiravam no photographo, mais envelopes sigilados com o lacre original ― está lá, anunciado no site comercial, à espera de algum interessado.

Segundo Sonia Racy, o conteúdo das cartas de Dom Pedro Augusto joga luz sobre pormenores desconhecidos e pode enriquecer a memória nacional sobre um período importante e pouco estudado. São escritos pessoais que desvelam até desavenças familiares. Em resumo, são documentos únicos, daqueles que fazem parte da memória da nação.

Estivéssemos num país civilizado, essa venda não poderia ocorrer. O Estado teria direito de preempção ― em outros termos, teria preferência na compra. Documentos desse jaez são considerados patrimônio nacional. Só poderão ser oferecidos ao público caso o país não se interesse em adquiri-los.

Mas não estamos num país civilizado. O lote está lá, oferecido a 50 mil reais. Infelizmente, os quase 8 milhões empatados no custeio de desfiles de moda em Paris e Nova York já devem ter liquidado toda a verba de que dispunha o Ministério da Cultura.

Não tem importância. Que se atire o passado ao lixo. No eterno país do futuro, quem é que se importa com velharias empoeiradas? E vamos que vamos, que amanhã é outro dia!

É tranquilizador saber que, ao menos no Ministério da Cultura, contamos com figurões sempre atentos à preservação de nossa memória. A continuarem nessa linha, logo chegaremos ao Primeiro Mundo!

E viva a Copa!