O limite da informação

José Horta Manzano

Não acredito num direito absoluto à informação. Assim como a liberdade de cada um termina onde esbarra na do próximo, o direito à informação cessa quando ameaça causar dano à sociedade. Difícil ‒ mas não impossível ‒ é determinar o ponto exato em que isso acontece. Há casos em que o risco salta aos olhos, facilitando o reconhecimento do limite.

Na periferia das grandes cidades francesas, bandos de adolescentes vadios têm curioso costume. Em ocasiões especiais, como a noite de ano-novo ou a véspera do maior feriado nacional, divertem-se ateando fogo a veículos escolhidos a esmo. O balanço desses autos de fé surreais é de monta. Através do país, centenas de automóveis são sacrificados.

Até poucos anos atrás, o ministério encarregado da segurança pública costumava divulgar o número de veículos destruídos. E a mídia adorava difundir a informação, aliás muito bem-vinda por cair em dias feriados e um tanto faltos de notícias.

Ao notar que o total de carros queimados não parava de aumentar e que os criminosos se empenhavam em bater o recorde a cada ano, o ministério mudou de tática. Passou a não mais divulgar o número de carros queimados. Embora a mídia continue a noticiar um incêndio aqui, outro ali, o assunto se esvaziou e perdeu a graça. É como transmitir uma corrida e não contar o nome do vencedor ‒ coisa mais sensabor!

No Brasil, tem-se alastrado o medonho costume de atear fogo a ônibus. Por um sim, por um não, meliantes destroem um objeto que vai acabar fazendo falta a usuários que não têm nada com o peixe e que dependem de transporte público pra ir trabalhar. Estes dias, jornais se delectaram: «Sobe para 55 o número de ônibus queimados!», «Passa de 61 o total de veículos incendiados!». Uma verdadeira corrida atrás de novo recorde.

O distinto leitor há de convir que esse tipo de informação, além de não acrescentar nada à bagagem cultural de cada um, acaba incitando malfeitores a «fazer mais e melhor» do que o bando rival. Mais benéfico será a autoridade abster-se de publicar cifras. Não convém dar ideia a criminoso.

Frase do dia — 266

«De acordo com a constatação insuspeita de Frei Betto, nas favelas que se multiplicam por todo o País se encontram hoje barracos devidamente equipados com geladeira, eletrodomésticos, televisores moderníssimos, às vezes até mesmo carros populares e outros objetos de consumo.

Mas, quando saem porta afora, as pessoas não encontram escolas, postos de saúde e hospitais decentes, transporte público eficiente e barato, segurança adequada, enfim, os bens sociais que são muito mais essenciais a um padrão de vida digno do que os bens de consumo que lhes oferecem a ilusória sensação de prosperidade.»

Editorial do Estadão, 20 out° 2015.

Bilhete Único

José Horta Manzano

Você sabia?

Confesso que não sabia o que era Bilhete Único. Já devo ter lido, aqui e ali, essa expressão ― nova para mim ―, mas nunca lhe dei grande atenção.

Ao ler um texto de Elio Gáspari, publicado na Folha de São Paulo, entendi. Na cidade de São Paulo, Bilhete Único é o nome que se dá ao documento que prova que o usuário do transporte público já pagou adiantado o valor devido para um mês inteiro. É o que se poderia chamar assinatura mensal. Escolheram esse nome ― não vamos reclamar.

Ônibus urbano como suporte publicitário

Ônibus urbano como suporte publicitário

Gáspari explica que a assinatura custa 140 reais por mês. Diz também que 65% dos viajantes ganham até 1147 reais. Na falta de outro dado, tomemos esses 1147 como salário médio dos usuários. Portanto, o transporte representa 12,2% do salário de cada um. É uma pedrada!

Vamos ousar comparar com o que acontece na Suíça. A assinatura mensal que permite utilizar todas as linhas de ônibus da cidade de Genebra ― segunda aglomeração do país ― custa 73 francos(1). Para estudantes é mais barato, mas vamos ficar com esse número mesmo.

Segundo as estatísticas disponíveis, o salário mediano(2) ― considerando todas as idades e todas as profissões ― é de 5979 francos. É fácil fazer as contas. A assinatura mensal do transporte público genebrino equivale a 1,2% do salário médio.

Portanto, um usuário paulistano tem de desembolsar proporcionalmente dez vezes mais(!) que um suíço para o transporte urbano.

Alguém vê alguma distorção?

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(1) Ao câmbio atual, equivale a aproximadamente 200 reais.
(2) Significa que 50% dos assalariados ganham mais que isso, enquanto 50% ganham menos.

Falta espaço

José Horta Manzano

Quem já teve ocasião de chegar a Londres de avião deve ter reparado ― se o tempo estava claro e sem névoa, coisa rara por aquelas bandas ― que a metrópole britânica é composta de casinhas baixas, cada uma com seu jardinzinho e muitas com quintal.

Como é possível que uma aglomeração de mais de 12 milhões de almas possa se dar ao luxo de ter aquela multidão de casinhas, cada uma com seu terreno, sua grama e suas flores? É ainda mais intrigante se pensarmos que o Reino Unido, com uma superfície comparável à do Estado de São Paulo, abriga 60 milhões de habitantes.

E a Europa, então, com seus 750 milhões de viventes? Deveria ter a aparência de um formigueiro, mas não tem. Qual é o segredo?

Aglomeração urbana em pouco espaço

Aglomeração urbana em pouco espaço

Uma dispersão populacional lenta, como a Europa conheceu ao longo dos últimos dois milênios, favorece o estabelecimento dos habitantes de maneira pouco concentrada, mais equilibrada. Já o povoamento rápido que caracterizou o Brasil no século XX privilegiou o inchaço de aglomerações.

Entre 1900 e os dias atuais, a população europeia não chegou a dobrar ― seu aumento foi de 76%. No mesmo período, a população do Brasil mais que decuplicou, num aumento superior a 1000%. As cidades oferecem melhores perspectivas que o campo. É compreensível que os numerosos novos habitantes de nosso País, imigrantes ou nascidos na terra, tenham preferido aglomerar-se em meio urbano.

A enorme procura por espaço para morar, aliada à precariedade dos transportes, faz que o preço da terra suba às alturas. O resultado é que os terrenos oferecidos têm superfície ridiculamente exígua. Casas e prédios são construídos praticamente colados uns aos outros, dando esse aspecto apinhado, que lembra vagamente a China ou a Índia.

Nosso País é palco de contrastes difíceis de explicar a olhos estrangeiros. Latifúndios de milhares de hectares se estendem pelo interior das terras, vazios, sem um casebre para contar a história. Pode-se percorrer quilômetros sem encontrar vivalma. Os brasileiros se amontoam em aglomerações ultradensas, dentro de perímetros minguados, fato que contribui para estimular comportamentos agressivos e suas nefastas consequências.

Não só as pessoas vivem empilhadas, mas também as plantas, como nos mostra artigo publicado no Correio Braziliense.

Plantas em pirâmide Crédito: Correio Braziliense

Plantas em pirâmide
Crédito: Correio Braziliense

Alguns até podem encontrar uma certa beleza plástica nesse estado de coisas, mas não passa de estética. No fundo, o bom mesmo é viver em sua casinha, com seu jardinzinho, sem vizinho em cima, sem vizinho embaixo, com espaço para abrir os braços.

Infelizmente, a persistir o estado calamitoso do transporte público nas aglomerações brasileiras, a casinha com terreno generoso ainda é um sonho longínquo.