Novo aeroporto

José Horta Manzano

Como é bom ser grande empresário num país de gente apática! Nossa falta de noção de pertencimento a uma comunidade faz que cada um de nós reaja com um simples dar de ombros a qualquer notícia, seja ela boa ou má.

O máximo que se vê é algum protestozinho mole aqui ou ali ― alguma manifestação que acaba se desmanchando em vandalismo. De estudar, que é bom, não gostamos. De aprender, que é bom, não gostamos. De nos esforçar, que é bom, não gostamos. De dar o melhor de nós mesmos, que é bom, não gostamos. Passamos a vida à espera de que alguém faça alguma coisa. Costumamos ter a nítida impressão de que o problema não é conosco.

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

Alguns poucos se apercebem dessa generalizada tendência ao descaso, ao «tô-nem-aí». Para desgraça nossa, nem sempre são os mais bem-intencionados. Vai daí, nossas portas estão abertas a aventureiros, predadores, espertalhões, inescrupolosos, aproveitadores. A conjunção deletéria do descaso da população com o oportunismo de uma meia dúzia trava o país. E perpetua o insuportável contraste entre a riqueza indecente de uns contra a miséria negra de outros.

Em seu blogue alojado no Estadão, Marina Gazzoni nos contava, semana passada, que está prevista a construção de novo aeroporto (mais um!) para servir a cidade de São Paulo. O projeto foi apresentado por um consórcio de grandes empreiteiras. A certeza de que seja aprovado sem reticências é tão grande, que as construtoras já compraram até o terreno. Afinal, convencer autoridades públicas é especialidade de grandes empresários…

Reinventando o avião by Glen Baxter, desenhista inglês

Reinventando o avião
by Glen Baxter, desenhista inglês

O adjetivo absurdo, de tão usado, já gastou. Dizer que a ideia é absurda soa banal. Contraditória? Incoerente? Insensata? Disparatada? Que cada qual escolha o termo que melhor lhe convier. Estamos diante de uma estupidez sem nome.

O aeroporto de Guarulhos, que há 30 anos serve a capital do Estado, viu passar 32 milhões de passageiros em 2012. No mesmo ano, o movimento de viajantes registrado nos dez aeroportos mais movimentados do planeta foi o seguinte:

    Dubai       = 58 milhões
    Djacarta    = 58 milhões
    Dallas      = 59 milhões
    Paris       = 62 milhões
    Los Angeles = 64 milhões
    Chicago     = 67 milhões
    Tóquio      = 68 milhões
    Londres     = 70 milhões
    Pequim      = 82 milhões
    Atlanta     = 95 milhões (!)

Guarulhos não aparece nem entre os 30 aeroportos mais movimentados do mundo. Como qualquer um pode deduzir, se outros conseguem acolher o triplo dos viajantes atendidos em Cumbica, por que, raios, não seríamos nós capazes de fazer o mesmo? Há maneiras mais práticas, mais baratas, mais eficazes e mais lógicas de melhorar o desempenho da estrutura existente.

Foi um erro ter construído o aeroporto onde se encontra? Muitos dizem que sim. Mas não tem mais jeito: feito está, feito ficará. O que não convém é repetir a asneira.

Visita curta ― saguão de aeroporto desnecessário by Ross Thomson, desenhista inglês

Visita curta ― saguão de aeroporto desnecessário
by Ross Thomson, desenhista inglês

Caieiras, o município «escolhido» pelos empreiteiros, é localidade encarapitada na Serra da Mantiqueira, a quase 800m de altitude, num dos raros pulmões verdes que ainda sobram à roda de São Paulo. Para coroar o desatino, aquela serra é considerada zona de mananciais. Uma parte do abastecimento de água da megalópole depende da preservação e dos bons cuidados que se dediquem à região. E tem mais: como localidade serrana, Caieiras é tão sujeita a nevoeiros como Guarulhos.

Antes de pensar em novo aeroporto, ainda há muito que fazer no velho. Ligação ferroviária rápida, aumento da capacidade dos estacionamentos, construção de novos terminais, desapropriação de terrenos circunvizinhos, melhora na logística de movimento de carga, aprimoramento da formação de pessoal, reforço da segurança. Tudo isso é mais lógico e sai mais barato do que construir mais uma estação aérea.

Não tem cabimento termos estádios padrão Fifa e continuarmos com aeroportos padrão Uagadugu.

Frase do dia — 61

«Na famosa Reserva Extrativista Chico Mendes, a principal atividade atualmente não é o extrativismo, mas a pecuária de corte, de fato proibida pelas normas do Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Nem por isso, no entanto, muitos deixam de receber a Bolsa Verde.

Aliás, por essa razão, em outra reserva, no Alto Juruá, o líder da comunidade afirma: “O que mais se produz aqui é menino, pois é o que rende mais” – em referência ao recebimento da Bolsa Família e de outros benefícios, como a bolsa que a mãe poderá pleitear do Programa Brasil Carinhoso.»

Zander Navarro, sociólogo. In Estadão, 25 dez° 2013.

Conto de Natal para o ano todo

Osvaldo Molles (*)

Era uma avenida na paisagem dos Evangelhos, bem na esquina do Novo Testamento.

E apareceu um camelo cor de avelã, servindo coquetel nas tâmaras dos olhos. Na obstinada giba, uma triste cópia da pirâmide. E, o focinho crestado pela iluminação da ribalta sem aplausos do deserto, começou a movimentar-se. E disse:
― Nada de meu tinha para dar ao Menino nascido em Belém. Então transportei os Magos que seguiam o caminho da Estrela. Dei meu fôlego ao Menino.

Veio um boi. Um boi que, segundo o Dicionário de Caldas Aulete, «serve principalmente para trabalhos de campo e para alimentação do homem». Depois disso, que dizer sobre aquele boi que se casou com a escravidão e que trazia, no focinho, a aliança do melancólico conúbio? E o boi disse:
― O frio da Noite Santa era tão áspero que entrei na manjedoura para me aquecer. Mas vi lá um Menino com frio e sua mãe e seu pai… e não pensei mais em mim. Aqueci-O com o que tinha de meu: meu pobre alento.

Veio uma cabra-montesa, rústica como uma mulher livre do campo. Vinha mascando liberdade entre os queixos bravios. E falou pouco:
― Eu Lhe dei o leite de meu filho.

Veio, depois, uma ovelha, macia como reza de criança. No perfil trácio, trazia o desenho da educação sem humildade. Sua cabeça baixa tinha a altivez dos que meditam. E disse :
― Nada Lhe podia dar e me deitei aconchegada ao Menino, para aquecê-lo na noite álgida. Dei-Lhe muito pouco: apenas meu calor.

Veio um jumento sisudo e muito percorrido, desses que já viram quase tudo e que já não querem ver mais nada. Um jumento muito velho e usado que conhece muito bem a História. Disse:
― Quando o rei Herodes mandou decapitar crianças, eu O levei na fuga para o Egito.

Veio o peixe e disse:
― Eu saltei para o barco de Pedro. Eu Lhe dei a fé.

Veio o grão de trigo e falou:
― Eu me multipliquei quando Ele mo pediu. Dei-Lhe a ceia.

Veio a água ingênua e disse:
― Eu me transformei em vinho. Dei-Lhe meu sangue.

E veio o homem. O homem sábio ― o único entre os animais que possui o segredo da Eternidade. O homem que é o rei da Criação e proprietário do livre arbítrio. E o homem disse:
― Eu Lhe dei a cruz.

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(*) Osvaldo Molles (1913-1967) era paulista de Santos. Seu percurso foi eclético. Deixou rastro como escritor, romancista, contista, cronista, jornalista, radialista, compositor, letrista, roteirista. Soube captar, com olhar lírico, a alma da gente simples de seu tempo. Foi parceiro e amigo de Adoniran Barbosa, com quem compartilha a autoria de Tiro ao Álvaro (1960), gravada pelos Demônios da Garoa e por Elis Regina.

O conto aqui transcrito foi publicado no livro Piquenique Classe C ― Crônicas e flagrantes de São Paulo, lançado em 1962 pela Boa Leitura Editora. A obra, com 63 crônicas, traz ilustrações de Clóvis Graciano e prefácio de Hermínio Sacchetta. Reúne textos esparsos que o autor havia publicado em meia dúzia de periódicos, entre eles a Folha de São Paulo, a revista Manchete, o jornal Diário da Noite.

Àqueles que quiserem conhecer um pouco mais sobre Osvaldo Molles, recomendo uma visitinha ao site Cifrantiga. Aqui.

Saraivada de Cabral

Todos os desenhos deste post são de autoria de Ivan Cabral, desenhista, caricaturista, chargista e cartunista potiguar.

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by Ivan Cabral, desenhista potiguar

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by Ivan Cabral, desenhista potiguar

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by Ivan Cabral, desenhista potiguar

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by Ivan Cabral, desenhista potiguar

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by Ivan Cabral, desenhista potiguar

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by Ivan Cabral, desenhista potiguar

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by Ivan Cabral, desenhista potiguar

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by Ivan Cabral, desenhista potiguar

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by Ivan Cabral, desenhista potiguar

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by Ivan Cabral, desenhista potiguar

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by Ivan Cabral, desenhista potiguar

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by Ivan Cabral, desenhista potiguar

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by Ivan Cabral, desenhista potiguar

by Ivan Cabral, desenhista potiguar

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Muitas outras obras estão no endereço do artista:
www.ivancabral.com

Frase do dia — 59

«Dentre os destinos possíveis para o americano desterrado, o Brasil desponta como ecossistema promissor. Afinal, é um portento entre os emergentes, democrático e dono de uma diplomacia independente. Respeita a liberdade de expressão e nutre um certo dissabor frente ao poderio americano. Tanto que o Palácio do Planalto parece até teleguiado por Snowden, que se manifesta pela caneta do jornalista Glenn Greenwald.»

Mac Margolis, colunista dominical do Estadão e editor do site Brasilinfocus.com, discorrendo sobre Mr. Snowden e a sinuca em que se meteu. In Estadão, 22 dez° 2013.

Observação natalina: neste começo de estação, a temperatura em Moscou anda anormalmente clemente: estacionou no zero grau faz alguns dias. Mas a previsão é de que, nas próximas semanas, volte ao costumeiro e desça uns 10 ou 15 graus. O inverno moscovita pode tardar, mas não falha nunca, que diabos!

De coração

José Horta Manzano

Semana passada, o Hospital Georges Pompidou, de Paris, realizou uma façanha sem precendentes. Implantou, num paciente com insuficiência cardíaca terminal, um coração artificial permanente.

Já houve casos de enxerto de coração artificial. Mas todos eles eram provisórios, solução de curta duração, à espera do órgão de um doador falecido. Esta foi a primeira vez que um coração artificialmente fabricado foi introduzido em caráter permanente em lugar do órgão doente. A mídia francesa tocou todos os sinos e todas as buzinas do país. No Brasil, curiosamente, a notícia não foi divulgada pelos grandes jornais. No entanto, se der certo, terá sido um grande passo no campo da cirurgia torácica.

Milhares de pessoas morrem a cada ano à espera de um transplante de coração. Ficam na fila, mas sua vez não chega a tempo. Doadores são raros, a compatibilidade não é automática, a distância e as condições de transporte entre a retirada do órgão e a inserção no doente podem representar uma barreira. Um feito como o da semana passada não dá voto a ninguém, mas representa uma esperança de sobrevida para muita gente.

Coração artificial - Crédito: Société Carmat

Coração artificial
Crédito: Société Carmat

Este coração artificial é recoberto por uma membrana ― o pericárdio ― que «tapeia» o organismo e reduz o risco de rejeição. O órgão é inteiramente controlado por computador capaz de detectar momentos em que o ritmo das pulsações deve ser acelerado e, ao contrário, períodos em que a frequência precisa ser diminuída ― durante o sono, por exemplo.

Há ainda um lado psicológico importante. Ao carregar prótese feita de material artificial, o transplantado não sofre o peso emocional de abrigar um pedaço do cadáver de um falecido. Não é difícil imaginar que isso possa ser, para certas pessoas, um fardo dificil de arrastar.

O mundo ficou boquiaberto quando, em dezembro de 1967, ficou sabendo que um certo doutor Christiaan Barnard (1922-2001), médico sul-africano, havia feito o primeiro transplante cardíaco. Foi um abalo equivalente ao pouso de um astronauta na Lua ― fato que só se daria um ano e meio mais tarde.

Para apurar remédios imunuodepressores, foram necessários muitos anos. Hoje, embora sejam bem mais eficazes que 45 anos atrás, ainda representam um peso para todo transplantado. Limitar seu uso é uma vantagem considerável.

Resta esperar que as pesquisas continuem e que, dentro de breve tempo, doentes não precisem mais passar anos à espera do falecimento de um doador compatível.

Artigo do jornal Le Monde (em francês)
Artigo de Radio France Internationale (em português do Brasil)

Igualdade, pero no mucho

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Outro dia andava ele muito pensativo. Veio me contar o problema que o estava atormentando. O pobre Sigismeno acha que eu tenho resposta pra tudo. Enfim…

Ele me confiou seu pensamento ― que, no fundo, tem certa lógica. Ele lembrou que, até não muitos anos atrás, era impensável que o titular do Ministério da Defesa fosse um civil. Inimaginável, fora de cogitação. Aliás, algumas décadas atrás, o nome da instituição era explícito: Ministério da Guerra. Como tantas outras expressões, essa denominação tornou-se politicamente sensível depois da hecatombe 1939-1945. Pouco a pouco, todos os países adaptaram o nome do ministério aos novos tempos.

Em 2003, o presidente de nossa República editou, de afogadilho, a Medida Provisória número 111, que instituía a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Alterada, adaptada e burilada, a medida foi mais tarde tranformada em lei. Seu titular é equiparado a um ministro de Estado e goza das mesmas prerrogativas que seus pares. Responde diretamente ao presidente da República.

Nestes quase onze anos de existência, o Ministério da Igualdade Racial teve três titulares, Sigismeno os contou. Primeiro foi a paulista Matilde Ribeiro, seguida pelo fluminense Elói Ferreira Araújo. A ministra atual é a gaúcha Luiza Helena de Bairros. Pra dizer a verdade, eu nem sabia. Há que reconhecer que não são os nomes mais conhecidos do pletórico gabinete de dona Dilma.

Sigismeno me contou sua grande descoberta: todos os três são afro-brasileiros. Eu perguntei onde estava o problema. E ele: «Será que é condição obrigatória para ocupar esse elevado posto? Quando veremos um asiático-brasileiro, um euro-brasileiro ou mesmo um brasileiro ab origine (*) na chefia desse ministério?»

Fiquei meio embasbacado. E não é que Sigismeno tem razão? É de crer que a cartilha do partido (atualmente) dominante permite que centenas de milhares de militares de carreira sejam encabeçados por um civil, mas não admite que um não africano dirija o Ministério da Igualdade. Será possível que não exista nenhum índio, nipo-brasileiro, euro-brasileiro, médio-oriental-brasileiro à altura da tarefa?

Resolvi brincar com Sigismeno. Disse a ele que talvez esse ministério tenha sido criado só para acalmar a galeria. Seria como se dissessem: «Estão vendo? Tem até ministro preto. Que mais vocês querem?».

Pela cara que ele fez, tive a forte impressão de que Sigismeno ― que não brinca em serviço ― não apreciou a gracinha. Virou as costas e foi-se embora abanando a cabeça.

(*) Ab origine é expressão latina que designa aquele ou aquilo que está ali desde o início. No texto acima, faz referência, naturalmente, aos habitantes primitivos de Pindorama: os índios.

Frase do dia — 58

«Negros que usam o chicote para bater em outros negros não são meus irmãos. O Joaquim Barbosa não é meu irmão.»

Edson Santos, deputado federal, ministro da Igualdade Racial do governo do Lula, em pronunciamento feito durante festa no Presídio da Papuda. O deputado deixou claro que até igualdade racial tem seus limites. Só vale para companheiros. In Folha de São Paulo, 20 dez° 2013.

Delito e emenda

José Horta Manzano

Crédito: Ricardo Duarte, RBS

Crédito: Ricardo Duarte, RBS

A estas alturas, o Brasil inteiro já deve estar sabendo que dona Dilma cometeu uma infração de tráfego. Viajou de automóvel carregando criança no colo. Houve tempos em que era permitido, hoje não é mais. A lei exige que criança seja afivelada em cadeirinha especial. Não é questão de gostar ou não ― é assim, ponto e basta.

Aconteceu o que não tinha de acontecer: foi flagrada por um repórter. Pois é, hoje em dia está cada vez mais difícil evitar deixar rastro. O inquilino do Palácio do Planalto deveria ter isso na mente a cada instante. Já estamos acostumados a que seja displiscente com o País. Mas é surpreendente que desconsidere a segurança do próprio neto.

Crédito: Ricardo Duarte, RBS

Crédito: Ricardo Duarte, RBS

Há comportamentos que não se costumam recomendar: tomar leite com manga, comer salada de pepino à meia-noite, mergulhar numa piscina depois de uma boa feijoada. Assim mesmo, são atos conscientes que não põem em risco senão o adulto que os comete. Embora não sejam incentivados, maus-tratos infligidos a si mesmo não costumam ser proibidos por lei. Pôr em risco a integridade física de incapaz é outra coisa.

Os assessores de dona Dilma, à vista do auê que se alevantou nas redes sociais, se precipitaram a estancar a sangria. Postaram mensagens em nome da presidente com reconhecimento de erro e pedido de desculpa. Não basta. Faltam duas coisas.

Uma asneira cometida por mim ou por você, distinto leitor, não tem a mesma repercussão que a mesma besteira protagonizada pela mandatária-mor. Em primeiro lugar, falta a presidente prometer publicamente que não repetirá o erro. Para completar, falta ressarcir os cofres do Serviço de Tráfego pagando a respectiva multa. Foi-se o tempo em que a gente se safava com um «desculpe, foi sem querer».

Dilma e os tuítes em seu nome

Dilma e os tuítes em seu nome

Desconheço os preceitos nesse particular. Se houver sanção pecuniária prevista, que dona Dilma pague. Se não houver, que seja esperta e mate dois coelhos de uma cajadada só. Seus marqueteiros estão aí para isso. Basta mandar preparar um vídeo institucional bem-humorado com reconhecimento do erro e advertência a todos os brasileiros para que nunca façam a mesma coisa. Pelo bem de suas crianças.

De toda maneira, o Brasil inteiro já está a par do que aconteceu. Não há como se esconder atrás de um «eu não sabia» ou um «eu não tenho nada com isso». Há momentos propícios para tirar dividendos de um acontecimento incômodo. O caso de Porto Alegre é um deles.

Serrando o galho

José Horta Manzano

Demonstrar descontentamento é uma coisa. Destruir objetos úteis, que ainda podem servir, é outra coisa.

Deu no jornal. Na cidade de São Paulo, vendedores ambulantes tiveram um enfrentamento com policiais. Não fica claro qual terá sido o estopim da escaramuça, pouco importa. Destemperados, os camelôs atearam fogo a dois ônibus, que ficaram irremediavelmente destruídos.

Posso entender um descontentamento ― aborrecimentos, todos temos a toda hora. Posso entender uma demonstração ― todos manifestamos, de um jeito ou de outro, nosso acordo ou nosso desacordo com determinada situação.

O que tenho dificuldade em entender é a lógica de brigar com Chico e, para demonstrar grande desagrado, destruir o bem de Francisco. Arruinar um bem pertencente a gente que ― em princípio ― nada tinha que ver com o peixe foi ataque vândalo, burro e contraproducente.

Ônibus destruído by Eduardo Anizelli, Folhapress

Ônibus destruído
by Eduardo Anizelli, Folhapress

Foi vândalo por gratuito. Destroçar pelo mero prazer de destroçar é vandalismo, ato primitivo digno de hordas de bárbaros.

Foi burro porque prejudicou toda uma população que, a partir de hoje, terá dois coletivos a menos a seu serviço. Como a vida costuma pregar peças, não é impossível que autores da selvageria cheguem atrasados ao trabalho ― se é que trabalham ― por falta de ônibus. Será o caso de dizer que serraram o próprio galho onde estavam sentados.

Foi contraproducente porque o ato espetaculoso constituiu um evento em si. Explico. A mídia deu maior enfoque à destruição dos coletivos do que propriamente ao protesto. Todos viram as imagens dos ônibus arruinados, mas… qual era mesmo a razão da batalha?

Frase do dia — 57

«Na celebração do Natal com os catadores de lixo e os moradores de rua, Dilma foi chamada de “presidenta Lula” por engano pelo apresentador da cerimônia. E o deputado federal Paulo Maluf (PP-SP), também presente, recebeu vaias da plateia.»

Do Radar Político, sobre churrasco oferecido pelo Instituto Lula a seletos convidados. In Estadão, 19 dez° 2013.

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«Não sei o porquê da vaia. São parceiros!»

Comentário de uma leitora, postado ao pé do artigo.

Decisão salomônica

José Horta Manzano

Não há que dizer, tem gente esperta entre nossos dirigentes da alta cúpula. Não estou brincando nem ironizando. Não serão muitos, mas há gente de respeitável eficiência. Ontem recebemos uma demonstração.

É verdade que os da linha de frente, aqueles que aparecem na tevê e na mídia dia sim, outro também, costumam se enfiar em saias justas, chegando até a arruinar estratégias bem construídas pelos homens da sombra. Felizmente, há casos que dão certo.Avião 4

Faz quase 20 anos que as Forças Aéreas alertaram o governo sobre o iminente sucateamento dos caças supersônicos em serviço. Tomada de preços foi organizada na época. A partir daí, o assunto foi posto em banho-maria até que, com a chegada do Lula, foi definitivamente engavetado. Não se sabe bem por que. Talvez tenha sido por mera pirraça. Ou falta de visão. Afinal, bolsa família e palanque permanente saem mais barato e dão mais voto que compra de avião a jato.

Mas há novelas que têm final feliz. O próprio presidente que havia ordenado o congelamento do programa despertou, de repente, em 2009. Naquele ano, o presidente da França foi o convidado de honra para as festividades do 7 de setembro, nossa data maior. Na ocasião, um Lula eufórico e falante ― talvez em razão de um café da manhã mais abundante que de costume ― deu a entender ao visitante que o Brasil se preparava a bater o martelo na questão dos caças: o Rafale francês seria o escolhido. Só faltou ser carregado nas costas pela comitiva de empresários que acompanhava o presidente visitante.

No dia seguinte, a imprensa francesa festejou. Milhares de empregos seriam garantidos por vários anos, a população ficaria grata a Sarkozy. A simpatia granjearia votos preciosos para sua reeleição. Os infelizes não conheciam o percurso em zigue-zague que nosso antigo presidente costuma seguir. Conversa vai, conversa vem, o governo brasileiro pôs de novo o assunto em banho-maria.

Sem ser especialista em aeronáutica militar, entendi que as principais características político-militaro-financeiras entre os três concorrentes finais empurravam a decisão de Brasília para um beco sem saída.Avião 5

O avião americano era tecnicamente superior aos outros, apresentava a melhor relação entre qualidade e preço. Mas tinha o defeito de ser americano, pecado original intragável para a ala xiita do partido dominante.

O avião francês apresentava uma vantagem não negligenciável: vinha sem pecado original. Não era americano, muito pelo contrário. A França, desde sempre, distinguiu-se por uma política de independência com relação às outras potências. No entanto, o aparelho sofria de um mal incurável: era o mais caro. Além do que, não havia sido ― e ainda não foi ― escolhido por nenhum exército, excetuado o francês.

O avião sueco apresentava mais vantagens que os outros. A alta cúpula da Aeronáutica havia recomendado que fosse ele o escolhido. Era o mais barato. Ainda não está totalmente desenvolvido, o que deixa margem a que se anuncie um «projeto sueco-brasileiro», ainda que seja só pra inglês ver. E, mais que tudo, o Gripen tem uma vantagem oculta: é equipado justamente com motorização americana, como a do modelo rejeitado pelos integristas. Não é, nem deixa de ser. As aparências estão salvas.

Foi agora que se teve a prova de que ainda há cabeças pensantes no andar de cima. Escolheu-se o avião sueco. As vantagens são muitas.

Interligne vertical 81) Traz tecnologia americana de primeira, ainda que embrulhada com papel sueco. A ala xiita pode dormir tranquila sem a impressão de ter sido traída.

2) A FAB sente-se prestigiada, dado que esse é justamente o modelo que lhe tinha parecido mais conveniente.

3) As finanças brasileiras, um tanto alquebradas estes últimos tempos, vão ser menos solicitadas, dado que o custo desse modelo é menor que o dos outros.

4) Na Escandinávia em geral ― e na Suécia, em particular ― uma aura de simpatia se inscreve sobre o nome de nosso País. O Brasil passa a ser visto como nação amiga, simpática. Isso só pode trazer vantagens. Os suecos são grandes investidores no cenário mundial.

5) Os EUA estão satisfeitos, pois a fabricação de peças essenciais será feita, de qualquer maneira, por lá. Os empregos estão salvaguardados.

A única sombra no quadro radioso foi o fato de Brasília ter anunciado a decisão menos de uma semana depois da visita de François Hollande. Ficou uma desagradável impressão de que o presidente e a “presidenta” não chegaram a um acordo sobre eventuais ― digamos assim ― efeitos colaterais… Ficou esquisito, né?

Quanto à tão falada «transferência de tecnologia», que me perdoem os espíritos crédulos, mas devo decepcioná-los. Conhece aquela do pulo do gato? Pois é, em venda de material sensível, funciona da mesma maneira. Ensina-se algum procedimento básico, distribuem-se algumas migalhas, só para constar. Mas o grosso mesmo, o cerne da questão, o coração do problema fica muito bem preservado.

Aviãozinho da alegria

É uma questão de bom-senso. Tecnologia de altíssimo padrão, conquistada a custo de dezenas de anos de pesquisa e de bilhões e bilhões de dólares (ou euros) de investimento, não será jamais dada assim, de mão beijada, só porque um cliente encomendou 36 aparelhos.

Você sabia?
O parlamento da pequena Suíça está em via de aprovar a compra de 22 caças Gripen de modelo equivalente. Não li nenhum reclamo sobre «transferência de tecnologia».Interligne 23

Se alguém quiser dar uma olhada na reação eufórica dos suecos e no muxoxo decepcionado dos franceses, clique aqui abaixo.

Aftonbladet, Suécia

Televisão sueca

SVD Näringsliv, Suécia

Le Monde, França

Les Echos, França

La Tribune, França

The last one?

José Horta Manzano

Com uma ponta de admiração e um pinguinho de inveja, o mundo todo tomou conhecimento do falecimento de Ron Biggs, talvez o último assaltante romântico, no puro estilo hollywoodiano.

Ele jura que não ficou com um centavo do produto do roubo, mas há controvérsia.

Resta esperar que, com o desaparecimento desse último moicano, as portas de nosso país se fechem definitivamente para assaltantes, assassinos, baderneiros, inconfidentes e outros criminosos estrangeiros. Já bastam os nacionais.

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by Elias Ramires Monteiro, desenhista gaúcho

by Elias Ramires Monteiro, desenhista gaúcho

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by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

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Inadequação vocabular ― 5

José Horta Manzano

Como ontem, um novo artigo do Estadão voltou a me surpreender hoje. É assinado por Ricardo Brito, da sucursal em Brasília. O texto gira em torno do lugar que a homofobia deve ocupar no Código Penal Brasileiro. Mas não só. O jornalista discorre também sobre endurecimento da pena mínima para condenados por homicídio. Vamos nos concentrar na inadequação vocabular.

A expressão «criminalização da homofobia» é mencionada duas vezes, o que exclui toda eventualidade de deslize involuntário. Considero a expressão inadequada. E vou-lhes dizer por quê.

2013-1218-01 Estadão

Chamada do Estadão
18 dez° 2013

A Constituição Federal em vigor, promulgada em 1988, é estranhamente apelidada de «cidadã», o que deixa subentendido que nenhuma das anteriores o tenha sido. Não é bem assim. Mas vamos deixar esse assunto para outra ocasião. Pois bem, o Inciso IV do Art° 5 da Carta atual prevê a livre manifestação do pensamento. O Inciso VI do mesmo artigo reforça a posição do legislador. Reafirma a inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença.

Homofobia é nome composto de duas raízes gregas: homo (=igual) e phobos (=medo, aversão). Etimologicamente, deveria significar o medo daquilo que é igual, mas a língua se encarregou de restringir esse helenismo ao campo sexual. Todos entendemos que homofobia é o medo de tudo o que diz respeito à homossexualidade. Aversão, horror, repulsa ― o distinto leitor pode escolher o termo de sua preferência.

Acontece que essa palavra está sendo usada inadequadamente por uma comissão especial do Senado. O artigo nos informa que o assunto em pauta é a criminalização da homofobia. Se assim for, é melhor sustar os trabalhos imediatamente, porque a Constituição garante, pelos artigos que mencionei, a liberdade de consciência e a manifestação do pensamento.

A homofobia é um sentimento, um estado de espírito, um olhar que diz respeito unicamente ao foro íntimo de cada cidadão. Cerceá-la será inconstitucional. Nem mesmo a exteriorização desse pensamento é passível de punição, dado que é expressamente permitida pela Lei Maior. Cada um é livre de cultivar sentimento homofóbico. Pode até, na medida do decoro enquadrado pela lei, manifestar seu pensamento.

A repulsa é sentimento rigorosamente pessoal. Situações, ambientes e pessoas tanto podem parecer atraentes como repulsivos, dependendo da personalidade do observador. Uma coxa de rã, uma tourada em Sevilha, uma execução pública em Teerã, um gafanhoto grelhado com molho de chocolate, uma parada gay são comidas e espetáculos que, se atraem uns, causam horror a outros. Mas estão todos dentro da lei e dos bons costumes ― de seus respectivos países, evidentemente.

Nossa Constituição não admite que o simples fato de sentir aversão por algo ou por alguém possa ser criminalizado. Portanto, inadequado será falar em criminalização da homofobia. Que se corrija. Que se fale em criminalização de atos homofóbicos.

Em termos caseiros, fica assim: pode até pensar mal, mas não vale maltratar. Pode até rogar praga, mas nunca jogue pedra na Geni.

Foto di famiglia

Todos já viram a (rara) foto di famiglia em que nossos mais recentes mandatários-mores aparecem juntos, unidos, sorridentes, descontraídos. Um retrato para emoldurar e afixar em lugar de honra na sala de visitas de todo lar brasileiro.

Presidentes

Crédito provável: Roberto Stuckert F°, fotógrafo oficial da Presidência.

Reparem no gesto cheio de atenção e de carinho com que nosso guia ampara um de seus predecessores, o bom velhinho Sarney, homem simples, que tanto bem tem espalhado à sua volta. Dizem que os dois são como unha e carne desde criancinhas. Está aí a prova incontestável de que a fraterna amizade perdura. Comovente.

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Bem no centro do retrato, pairando acima da cabeça de todos, aparece, destacada sobre fundo vermelho, a palavra SAÍDA. Lembra a insígnia que ornava o pórtico do inferno de Dante. Pode ser entendida como uma advertência: “Vós, que aqui entrais, perdei toda esperança de permanecer ― um dia, queirais ou não, abrir-se-vos-á a porta de saída”

Inadequação vocabular ― 4

José Horta Manzano

Esta chamada do Estadão deste 17 dez° 2013 me inspira duas observações. Uma tem a ver com a forma e a outra, com o fundo.

Formulação inadequada Estadão, 17 dez° 2013

Formulação inadequada
Estadão, 17 dez° 2013

A forma
Suponho que todos entendam quando o jornal apregoa que Haddad «diminui idade». Mas, convenhamos, a formulação é tortuosa. Há maneiras mais convenientes de descrever o fato. No fundo da lógica, por mais poderes que tenha, o prefeito da megalópole jamais logrará «diminuir» a idade de ninguém. Nem aumentá-la, evidentemente.

Todos dirão que «a nova estrada diminui o percurso». É forma legítima, dado que a distância entre o ponto de partida e o de chegada realmente diminuiu. Diremos também que, devido à queda de uma barreira, o percurso aumentou, ou seja, encompridou, alongou-se, obriga os viajantes a percorrer maior número de quilômetros. A forma respeita o fundo.

Já quando nos referimos a um ponto determinado do dia, do mês, do ano ou da vida de alguém, os verbos diminuir e aumentar caem mal. Veja só. Se, por uma razão qualquer, o avião que devia decolar à 8 horas tiver de decolar às 7 horas, ninguém dirá que o horário foi «diminuído». O vice-versa também vale. Se o avião das 7h sair às 8h, não vale dizer que o horário foi «aumentado».

No caso do primeiro avião, diremos que o horário foi adiantado, antecipado, avançado. No segundo caso, melhor será dizer que o voo foi atrasado, recuado, protelado. A língua oferece oportunidades múltiplas de escolher um verbo adequado.

Pois o caso da idade «diminuída» pelo prefeito segue a mesma lógica. Ao estender a cidadãos de 60 anos o benefício que já era concedido aos mais maduros, o mimo estará sendo adiantado, antecipado, avançado.

A chamada estará mais bem escrita assim: «Idade para viagem gratuita de idoso será antecipada». Todos entenderão, e a lógica agradecerá.

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O fundo
Esquecendo minúcias estilísticas, tenho, como cada um, minha opinião pessoal quanto a esse benefício. É possível que não seja compartilhada por muita gente, que cada um enxerga com seus próprios óculos.

A velhice, ainda que um marketing desjeitoso lhe tasque o horripilante e hipócrita epíteto de «melhor idade», não costuma ser o período mais agradável da vida. Longe disso.

Sensível diminuição da capacidade física, aumento da fragilidade, sentimento de insegurança são atributos ligados ao passar dos anos. Não precisava juntar mais um «benefício» que soa mais como estigma. Em princípio, o sujeito não empobrece pelo simples fato de ter envelhecido.

Que se concedam benefícios pecuniários aos necessitados, acho certo. O que me perturba é que se associe velhice a pobreza. Deve-se conceder desconto nas passagens ― até gratuidade, se esse for o desejo dos cidadãos ― a quem demonstre estar vivendo em condições financeiras precárias. Aos velhos, já lhes bastam os inconvenientes da idade. Chega a ser ofensivo pespegar-lhes automaticamente a etiqueta de necessitados.

No fundo, o ideal mesmo é que cada um possa prover dignamente a seu próprio sustento, sem depender de favores especiais da comunidade. Mas ainda temos um bom caminho pela frente até chegar lá. Não dá para antecipar, nem adiantar, nem avançar.

O fim do ano se aproxima

A aproximação do fim do ano excita a imaginação de todos. Uns manifestam, outros comem, outros enchem a cara. Há quem prefira um retiro espiritual ou um banho de loja em Ciudad del Este.

Quanto a nossos artistas do desenho (caricaturistas, chargistas, cartunistas), cada um tem sua visão da atualidade brasileira. Aqui está um punhadinho deles:

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by Clayton Rabelo, desenhista paulista

by Clayton Rabelo, desenhista paulista

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by Alpino (Alberto Correa de Alpino F°), desenhista capixaba

by Alpino (Alberto Correa de Alpino F°), desenhista capixaba

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by João Bosco, desenhista paraense

by João Bosco, desenhista paraense

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by Marco Jacobsen, desenhista paulista

by Marco Jacobsen, desenhista paulista

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by Duke (Eduardo dos S. Reis Evangelista), desenhista mineiro

by Duke (Eduardo dos S. Reis Evangelista), desenhista mineiro

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As duas faces da moeda

José Horta Manzano

Quem vive muito tempo num palácio cercado de mordomias acaba por desconectar-se da vida real. É mal de que sofrem ditadores, imperadores e todos os mandatários que permanecem por muito tempo no poder. A parede de cristal que os cerca permite-lhes ver as gentes, mas não os deixa ouvir suas reivindicações.

De pobre, ninguém quer saber ― a  sina deles é a solidão. O todo-poderoso, ao contrário, é cercado por uma legião de áulicos que se desdobram para tornar mais doce a vida do capo. Ao redor do chefe formam-se círculos filtrantes destinados a reter tudo o que puder azedar o humor do personagem central ou perturbar-lhe, seja de que modo for, a existência.

Aquele que passa anos sem ter de fazer esforço nem mesmo para abrir uma simples porta precisa de muita força e inteligência para continuar a se dar conta de que existe mundo além de suas paredes de cristal. Precisa de mais força ainda para se dar conta de que seus desejos não se transformam automaticamente em realidade.

Quando nosso antigo presidente, o Lula, fez o que podia e o que não devia para assegurar que o Brasil se tornasse sede do Campeonato de Futebol de 2014, certamente enxergou as vantagens, o lado bom. Mas, apesar dos dotes de inteligência política que lhe emprestam, foi incapaz de se dar conta de que, se um lado é bom, há sempre outro menos brilhante. Sua corte, se anteviu algum risco, há-de ter preferido calar-se.

Nosso guia viu oportunidade de bons ganhos para empreiteiros ― grandes financiadores de suas campanhas. Há-de ter vislumbrado ganho político certeiro. Talvez tenha até acreditado quando cortesãos e assessores lhe garantiram que tudo estaria pronto a tempo e a hora, que as obras seriam todas edificadas com um pé nas costas.

Mais que tudo, intuiu que seu nome ficaria gravado para todo o sempre como o benfeitor-mor da nação, aquele ser excepcional que teria permitido a nosso país atingir a glória maior do planeta: sediar uma Copa do Mundo de Futebol! Uma nova declinação do nunca antes nessepaiz. Afinal, 1950 já vai tão longe.

Toda moeda tem duas faces. O fato de o presidente taumaturgo só enxergar o lado que lhe convém não exclui a existência do lado mais sombrio da realidade nacional. Apesar de bolsas várias, a distância entre os mais abonados e os mais desafortunados não para de aumentar. A criminalidade, a incivilidade, a insegurança, a ignorância se alastram a cada dia.

Algumas excelências fazem de conta que essa face B do País simplesmente não existe. A população, quanto a ela, vive tão mergulhada na geleia geral que já não se dá mais conta do surrealismo da situação. No entanto…

by Guillermo Mordillo Menéndez, desenhista argentino

by Guillermo Mordillo Menéndez, desenhista argentino

… no entanto, uma Copa do Mundo, como seu nome indica, é do mundo, um evento planetário. Atrai atenção de gregos, troianos, persas e mongóis. A 6 meses do pontapé inicial, os holofotes do mundo começam a focalizar nosso País. Turistas e jornalistas estrangeiros, por viverem em meio diverso, têm, da realidade brasileira, visão diferente da nossa. Coisas que nem mais enxergamos saltam aos olhos de não habitués.

Semana passada, a rádio francesa de informação contínua France-Info dedicou uma série de reportagens ― uma por dia ― ao Brasil, em vista da Copa do ano que vem. Não se falou de tática futebolística, prognósticos nem sorteio de chaves. A série de programas procurou responder à pergunta: que país é aquele?

Falou-se justamente de tudo aquilo que a gente gostaria que fosse esquecido: arrastões, violência, estádios transformados em arena de gladiadores, número anual assustador de homicídios, tentativa de pacificação de favelas. A palavra arrastão não tem tradução em francês ― talvez não tenha em nenhuma outra língua. Assim, a reportagem gastou um minuto inteiro para explicar o que é e como funciona.

Na minha opinião pessoal, nosso guia ― bem-intencionado, mas mal informado e mal assessorado ― precipitou-se ao permitir que a Copa se realizasse no Brasil. Mais teria valido deixar esse evento para o futuro e investir essa dinheirama toda em infraestutura material (= estradas, pontes, viadutos, portos, metrôs, comunicações) e, principalmente, em infraestutura imaterial (= instrução pública, saúde, tecnologia).

Não seria garantia de glória imediata a nosso benfeitor. Pouco importa. A glória imediata é efêmera, enquanto a glória bem alicerçada é indelével.