The show goes on

José Horta Manzano

Mas é sem parar! Quando a gente pensa que vão nos dar dois dias de folga ‒ catapimba! ‒ lá vêm eles com nova baciada de barbaridades. Sabíamos que, pra ver o lulopetismo longe dos «negócios», ia ser preciso pagar preço elevado. Mas acho que ninguém imaginava que fosse tão alto assim. Repito: se o bando que nos assaltava continuar afastado, qualquer preço terá valido a pena, por elevado que seja. Mas que está saindo pelos olhos da cara, ah, isso está, compadre. Valha-nos São Benedito!

Embora recentes, o golden shower e a balela de que ‘a democracia é presente dos militares’ já entraram para a história. Saíram da atualidade e são página virada. Vamos em frente, que atrás vem gente. Há futricas novas, saidinhas do forno.

Não contente de se ter mostrado rancoroso e ameaçador para com a Folha de São Paulo logo depois de ser eleito, doutor Bolsonaro resolveu, este fim de semana, engalfinhar-se com o Estadão. A história é obscura. Nela entram um misterioso jornalista francês de nome árabe, uma repórter do Estadão, uma conversa em inglês (editada, ao que parece), um site bolsonarista, um portal francês com forte simpatia pela esquerda tradicional. Um doce pra quem desenrolar esse novelo.

O que interessa não é tanto quem disse o quê. Nem quem está dizendo a verdade. Nem quem está fantasiando. O que chateia é essa contínua lavagem de roupa suja em público, ao vivo e em cores. A manchete do Estadão, o jornal mais conceituado do país há quase 150 anos, é clara: «Bolsonaro usa declaração falsa para atacar imprensa». Eloquente, não é?

Não bastasse essa enormidade, o Planalto nos brinda com um suplemento dominical. Depois de colher o beneplácito do presidente, doutor Vélez Rodríguez, ministro da Educação, decidiu exonerar um de seus secretários. De novo, a história é cabeluda. Há desentendimento entre doutor Bolsonaro, um senhor tido como seu guru, o ministro mencionado, o secretário demitido e mais a torcida organizada do entorno presidencial, cada ala puxando o coro conforme seu ídolo.

É natural que, em início de governo, ocorra algum ajuste aqui e ali, com troca de figurinhas. O que não é natural nem decente é que isso tenha lugar sob a luz dos holofotes, que seja apregoado a quem quiser escutar. E quer saber de uma coisa? Nada indica que, para o futuro, diminuam ocorrências desse tipo. Doutor Bolsonaro ‒ que deveria ser o pêndulo da balança, o sábio, aquele que modera os ardores da macacada ‒ é justamente quem mais sopra as brasas pra atiçar labaredas. Se ele não consegue botar a bola no chão, quem conseguirá? Todo grupo herda um pouco do temperamento do chefe. Podemos ir nos conformando: a poluição da comunicação palaciana tende a durar até o fim do quadriênio.

Aceita um passaporte?

José Horta Manzano

Se o distinto leitor faz parte dos ingênuos que acreditavam que passaporte diplomático é expedido unicamente para diplomatas em missão no exterior, perca as ilusões. Entre os detentores de passaporte diplomático ou oficial, diplomatas são pequena minoria. Na realidade, toda a casta do andar de cima tem direito garantido a receber um desses dois documentos. São milhares de pessoas, que não necessariamente viajam a serviço do país.

Entre outros cidadãos, podem solicitar passaporte diplomático ou oficial os que se enquadrem nas seguintes categorias:

  • Presidente, vice-presidente e governadores
  • Senadores e deputados federais
  • Ministros do STF, do TSJ e do TCU
  • Servidores da administração direta em missão oficial
  • Servidores de todas as autarquias federais e estaduais, ainda que não estejam em missão oficial

Se, aos servidores, adicionarmos mulher e filhos, são muitos milhares de privilegiados.

Um mortal comum tem de pagar mais de 250 reais pelo passaporte normal. Já o documento diplomático que, pela importância simbólica, deveria custar mais caro, sai de graça para o titular. Pagamos nós.

Em se tratando de funcionário não diplomático, o passaporte deveria ser válido pelo tempo que durará a missão. Se, por exemplo, um grupo de deputados viaja à China por dez dias, cada parlamentar deveria receber passaporte válido para a China e por dez dias. Na prática, no entanto, não funciona assim. Os documentos são expedidos com validade de 2 ou até 4 anos, independentemente da duração da missão. Ora vejam!

Tirando diplomatas de carreira, que deixam o país com a família e partem para longas missões, os demais não levam necessariamente familiares. Se decidem levar a família a tiracolo para um giro turístico, isso deveria ser problema deles. Mas nossa administração é generosa. Passaportes diplomáticos ou oficiais válidos por anos são concedidos a granel: ao titular, à esposa, aos filhos e a eventuais dependentes.

Ah, que perca as ilusões também quem tinha esperança de que a chegada de novos parlamentares estreantes fosse pôr freio a esses desequilíbios dignos de outras eras. O Globo informa que, só durante o mês de fevereiro, atendendo à solicitação de Suas Excelências, a Câmara Federal concedeu 78 passaportes diplomáticos a parlamentares mais 77 aos respectivos cônjuges e filhos.

Antes da eleição, é fácil pregar a moralização de práticas tortas. Na hora agá, a conversa muda. Nas trevas dos velhos vícios, ainda não se enxerga luz no fim do túnel.

PS
Passaporte oficial e diplomático não trazem grande vantagem ao titular. Em princípio, permitem furar fila, só que esse costume de dar carteirada é desconhecido em terras mais civilizadas. O que esses passaportes especiais fazem, no fundo, é afagar o ego do detentor. O bobão se sente importante como um potentado africano.

Bolsonaro carnavalizado

Álvaro Costa e Silva (*)

O presidente teria feito melhor se, como no samba clássico “Camisa Amarela”, de Ary Barroso, tivesse bebido um copo d’água com bicarbonato. Ou mesmo desaparecido no turbilhão da galeria.

Carnaval e poder não dão rima. Meu amigo Luiz Antonio Simas, o historiador das “coisas miudinhas”, costuma lembrar dois episódios. Em 1892 o marechal Floriano decretou a transferência da folia para junho, argumentando que o verão era propício a epidemias; naquele ano, brincou-se duas vezes. Em 1912 o marechal Hermes da Fonseca mandou adiar a festa para que não coincidisse com o luto pela morte do barão do Rio Branco; foi pomposamente ignorado.

Bolsonaro levou uma lavada nas ruas. O bonecão com suas feições, mil vezes alvejado por latas de cerveja e pedras de gelo, teve de contratar segurança para descer as ladeiras de Olinda. Nos blocos, nunca antes na história deste país se viu tanta gente fantasiada de laranja. Ou bebendo água em mamadeiras com formato de pênis (fiquei sabendo que um acadêmico já está preparando a tese “A Carnavalização das Fake News”). Registre-se ainda o coro “Ei, Bolsonaro, VTNC”, cantado de norte a sul.

Com enredo de crítica social e em homenagem à vereadora Marielle Franco, a Mangueira mostrou que o samba não se rebaixa. Uma alegoria, em especial, desagradou o presidente: o livro aberto com a frase “Ditadura assassina” escrita em caixa alta.

Bastou para que a Terça Gorda, para Bolsonaro, se transformasse num dia de fúria. Esqueceu que agora é o presidente, voltou aos tempos em que se contentava em atuar como deputado do baixo clero e correu destrambelhado para as redes sociais. Para atacar o Carnaval, cometeu o tuíte pornô, desviando de novo a discussão para a pauta de costumes. Milhões de brasileiros ainda caem nessa. Resta saber até quando.

Uma tuitada pode derrubar um governo? Aguarde as próximas lambanças.

(*) Álvaro Costa e Silva (1962-) é jornalista e escritor.

As bananas do presidente

José Horta Manzano

Um ano atrás, tomei conhecimento de um curioso acordo feito com o Equador, que liberava importação de bananas daquele país. Na ocasião, escrevi um artigo. Depois disso, foi passando o tempo e nunca mais voltei ao assunto.

Ontem, escoltado por dois ministros, o presidente deu conferência. Ao vivo, diga-se. Desprezando modas antigas, preferiu dirigir-se ao povo por rede social, que ninguém segura o progresso. Há quem não aprecie pronunciamento presidencial por tuitada ou feicebucada. Quanto a mim, acredito que o meio é pouco importante, desde que tudo o que tiver de ser dito seja dito. Lá pelas tantas, quando a palestra estava roçando o fim, o presidente se encarregou de trazer o tema da importação de banana de volta à pauta. Os guineos de Ecuador(*) voltaram às manchetes.

Ah, esse presidente! Com tantos problemas que temos, importantes e cruciais, lá vem ele com essa história de importação de bananas. Concordo que, num país como o nosso, importar banana seja aberrante. Assim mesmo, não é razoável incluir essa pauta numa conferência presidencial de escassos 20 minutos. A insistência em falar de assuntos relativamente pouco importantes, que não combinam com pronunciamento presidencial, é aborrecida. Seria até possível imaginar que doutor Bolsonaro, cioso de manter em banho-maria a parte mais crédula de seu eleitorado, afeiçoe temas populistas. Se assim for, é mal menor. Mimar eleitores é obrigação de todo eleito. Só que…

Só que receio que a realidade seja outra. Gostaria que assim não fosse, mas a cada dia me convenço de que, se nosso presidente bate sempre nas mesmas teclas, não é porque queira adular eleitores, mas porque são esses os temas que aprecia e que lhe parecem ter importância capital.

O homem é monomaníaco. Já perceberam que, quando o assunto é sexo, o presidente costuma sair fazendo ‘pelo sinal’? Pois não faz isso pra agradar a ala pudica do eleitorado. Faz porque sinceramente abomina falar ‘nessas coisas’. Quanto ao acordo bananeiro, se tivesse sido concluído com os EUA, é provável que doutor Bolsonaro passasse por cima. Mas ai! Do outro lado, está o Equador. É aí que a máquina emperra. Fica no ar um cheiro muito forte de acordo Sul-Sul, algo que lhe é insuportável.

Tirando mentes primitivas, ninguém, em sã consciência, acredita que a economia brasileira possa sobreviver comerciando somente com países pobres. Mas isso não deve levar ao outro extremo, ou seja, a banir todo entendimento com os hermanos que estão por aí. Há que guardar a cabeça fria. Este ano, as compras de banana equatoriana estão somando menos de 40 mil dólares por mês. É volume ridiculamente modesto, que não merece entrar na fala presidencial.

Doutor Bolsonaro precisa urgentemente de assessores honestos e capazes de lhe mostrar a impropriedade de determinados assuntos. Oxalá um dia ele se compenetre de que é o presidente de todos nós.

(*) O nome banana é amplamente difundido, presente em muitas línguas. Vários países de fala castelhana, no entanto, utilizam o vocábulo plátano, como é o caso da Espanha, da Argentina e do Uruguai.

No Equador, na Colômbia e em mais três ou quatro países da América Latina, a banana é conhecida como guineo, redução de plátano guineo. A palavra lembra que as variedades de banana que cultivamos por aqui não são originárias da América. Elas foram trazidas, pelo colonizador português, da África equatorial e da Ásia tropical. Como temos a galinha d’Angola, o Equador tem a banana da Guiné.

Polícia do Pensamento Único

José Horta Manzano

Doutor Moro engoliu um enorme sapo estes dias. Vamos resumir o drama. Embora pouco se divulgue sobre essas instâncias, o Executivo está rodeado de quase 50 diferentes grupos de aconselhamento. São conselhos, comitês ou colegiados compostos por figuras da ‘sociedade civil’, como se costuma dizer. Em princípio, a ideia é boa. Trata-se de esforço, iniciado 80 anos atrás e reforçado nas últimas décadas, de trazer a ‘voz do povo’ pra perto do presidente.

Certos conselhos têm poder regulatório – editam normas com força de lei. Outros são meramente consultivos e se limitam a sugerir o bom caminho. Todos eles são compostos de personalidades livremente nomeadas pelo presidente em pessoa ou por seus ministros. Para redesenhar o colegiado do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, órgão que está sob responsabilidade do Ministério da Justiça, doutor Moro reservou um lugar de suplente a uma senhora de nome desconhecido deste blogueiro e, mui provavelmente, também do distinto leitor. Parece que a nomeada nutre simpatia pelas ideias de esquerda. Sempre alerta, a Polícia do Pensamento Único teve conhecimento disso e saltou sobre a ocasião. O primeiro-filho tratou de açular as redes sociais para amplificarem veemente protesto.

Limitado pela costumeira dificuldade de sopesar e avaliar as consequências de seus atos, doutor Bolsonaro cedeu aos apelos filiais e determinou que a nova integrante fosse ‘desconvidada’. Onde é que já se viu incluir num conselho uma voz dissidente? Conselheiro só é bom se der os conselhos que a gente quer ouvir, ora essa! Num surpreendente acesso de humildade, doutor Moro aquiesceu. A moça foi dispensada antes de assumir. Os bolsonarinhos hão de ter entrado em êxtase com o reforço de poder que o pai lhes garantiu. Já o Brasil não tem motivos pra pavonear.

O país saltou da panela pro fogo – é como minha avó descreveria a situação. Cansados de guerra, os brasileiros decidiram mandar pra casa o lulopetismo e sua coorte de trambiques e rapinas. De fato, estava mais que na hora. No entanto, pra pôr no lugar, quem estava à mão é doutor Bolsonaro, desconhecido do grande público. Se não se pode chegar ao extremo de suspirar que o regime antigo era melhor, há que constatar que o atual tem deixado a desejar. Até o mais fanático adepto do bolsonarismo, se intelectualmente honesto for, concordará. Há muito chiado na linha.

Perguntar não ofende: se todos os integrantes de cada grupo de aconselhamento tiverem visão uniforme, seja qual for o fato, pra que serve o grupo? Se todo debate de ideias é vedado, abrindo alas para o pensamento único, melhor será dissolver todos os conselhos e mandar todo esse pessoal pra casa. Economiza-se no pagamento de jetons.

Mas nem tudo é ruim. Felizmente contamos com doutor Hamilton Mourão, o vice-presidente. O homem tem boa formação, cultura acima da média palaciana e, sobretudo, bom senso. Tendo sido eleito pelo povo em dobradinha com o titular, não é ministro. Não deve explicações a ninguém e é indemissível. Em mostra explícita de equilíbrio, declarou à revista Valor Econômico que, com o sapo engolido por doutor Moro, o Brasil é que sai perdendo. Doutor Mourão tem a (rara) qualidade de falar claro. Dá nome aos bois. Disse que esse tipo de política é nefasto para o Brasil. Você perde todas as vezes em que não se puder sentar ao redor da mesa com interlocutor que professe ideia divergente da sua – foi a essência do que declarou.

Ainda bem que temos pelo menos uma voz discordante em palácio. Nem tudo está perdido.

Intolerância religiosa

José Horta Manzano

Num rabicho de Carnaval, à falta de notícia mais importante, a imprensa dá conta da grita que se levantou na Câmara Federal contra os Gaviões da Fiel. Por meio de seus líderes, a bancada evangélica fez saber sua indignação com o tema escolhido por aquela escola para animar o desfile este ano. A letra, com alusões a Jesus e a Satanás, chocou. Não entendi bem o que foi que incomodou, se as referências feitas a Jesus ou as que foram feitas a Satanás. Quem sabe o que arranhou mesmo o pudor de suas excelências foi a convivência dos dois personagens no mesmo ritmo.

Talvez fosse importante recordar aos parlamentares ofendidos que a base da filosofia de toda igreja é exatamente a dualidade entre o bem o mal. Todas as religiões, seitas e outros movimentos espirituais se propõem a propagar a melhor receita para resolver o embate entre esses dois polos. Os Gaviões não inventaram a pólvora. O bem e o mal convivem na vida nossa de cada dia. Ver seus símbolos assim, confrontados, não deveria ser matéria pra chocar ninguém.

O episódio, que ainda pode dar pano pra mangas e gerar até processo, é comprovação eloquente de que vivemos uma época de diluição de valores. A Polícia de Costumes está nas ruas, tesoura em punho, censurando o que entende e principalmente o que não entende. Hoje em dia, dependendo da pinta do galã, um assobio pode ser enquadrado como assédio sexual. Sons de samba-enredo ecoam até no Congresso Nacional – e geram manifestação de iracundos deputados. É um mundo de ponta-cabeça. Não se conhece mais o valor de cada mercadoria. Banana está sendo comprada por preço de caviar.

Que saudades dos tempos em que Carnaval era apenas Carnaval. Que saudades dos tempos em que se dava a cada fato apenas a importância que tem. Ao acusar os foliões de “intolerância religiosa”, a bancada evangélica não se dá conta do papel ridículo. Estão a inverter conceitos. Os intolerantes são justamente os senhores deputados! Os carnavalescos podem ser tratados de levianos, de irreverentes, até de apóstatas, mas não de intolerantes. As acusações estão invertidas.

Saudades dos tempos em que se podia berrar Alá-la-ô sem que ninguém se sentisse incomodado. Saudades dos tempos em que uma marchinha podia explicar à moça casadoira que se havia enganado de endereço, e que seria melhor bater à porta de Santo Antônio. Saudades dos tempos em que irreverência carnavalesca ficava por isso mesmo, e tudo bem. Será que essa página despreocupada foi virada para sempre? Será que o Brasil ingênuo se transformou numa gigantesca seita?

Tsunami de gelo

José Horta Manzano

Maciços montanhosos costumam abrigar lagos de altitude. Alguns são alimentados por curso d’água afluente. Outros, por derretimento de alguma geleira ou das neves invernais. Há ainda os que entram nas duas categorias – é o caso do Lago de Joux. Ele é alimentado pelas neves do inverno rigoroso e pelas águas do Orbe, rio que entra por um lado, atravessa a massa d’água e sai na outra ponta. Com 21m de profundidade, o Lago de Joux fica a uma altitude de 1000 metros. Mede 9km de comprimento por 1km de largura.

Lago de Joux no verão

Ao redor, está um rosário de cidadezinhas que, há séculos, se especializaram em fabricar relógios, escolha explicada pelo sistema de trabalho familiar. Tradicionalmente, cada família era especializada na fabricação de determinados componentes do relógio. Os longos invernos favorecem o trabalho em casa. A fábrica propriamente dita costumava ser mais montadora que fabricadora. Recolhidas as peças talhadas pelas famílias, faziam a montagem final dos relógios. Se a moderna automatização praticamente deu cabo do sistema, certo número de marcas importantes ainda produzem ao redor do lago.

Lago de Joux no inverno

Quando, no inverno rigoroso, a temperatura fica abaixo de zero durante alguns dias, uma camada de gelo se forma na superfície do Lago de Joux. Dependendo da espessura, dá pra passear em cima – calçando patins, que senão escorrega. Em algumas ocasiões, desde que determinados fatores estejam reunidos, esse gelo pode dar origem a um tsunami. Não é todo ano que acontece, mas foi o que se viu neste 2019.

Quando chega março, as travas do inverno começam a afrouxar. Na região, costumava ocorrer em abril, mas o aquecimento global tem encurtado o período frio. À medida que a temperatura se eleva, a camada de gelo vai afinando. Se, nessa altura, vier um dia de vento forte e contínuo, estarão reunidas as condições pra um tsunami gelado. A um dado momento, milhões de plaquinhas de gelo de poucos centímetros de espessura vão se desprender da superfície do lago, sair voando e encalhar na margem, formando montes de gelo.

O fenômeno dura poucos minutos. Nos tempos de antigamente, o espetáculo era reservado pra quem fosse da região. Hoje, que todo o mundo leva uma filmadora no bolso, ficou mais fácil. Faz dois dias, um passante, ao assistir ao tsunami de 2019, sacou rápido do celular e registrou essas impressionantes imagens. Não é perigoso como maremotos, mas é raro, curioso e original.

Tracambistas

José Horta Manzano

Na Suíça, país onde a mão de obra tem custo elevadíssimo, faz tempo que se tende a mecanizar o trabalho humano. A “moça do café” nunca existiu. Quem quiser adoçar a boca, enfia uma moedinha na máquina que fica no corredor, aperta o botão correspondende, e pronto. A profissão de cobrador de ônibus também é desconhecida. No tempo em que se comprava passagem dentro do veículo, quem vendia era o próprio motorista.

Já faz muitos anos, porém, que não se pode mais comprar bilhete dentro de ônibus. Para não viajar de “pendura”, arriscado a ser flagrado e levar multa, há duas opções. Para quem usa transporte coletivo frequente e regularmente, é conveniente comprar assinatura mensal ou anual – paga-se de uma vez e não se pensa mais nisso. Outra possibilidade, preferida pelos que viajam menos, é a compra a varejo. Cada vez mais gente compra pelo smartphone, mas boa parte dos bilhetes ainda é comprada nas máquinas instaladas em cada ponto de ônibus.

Antigamente, eram máquinas simples. Pelo menos, assim me pareciam. Hoje em dia são complicadíssimas, cheias de botões, com guia vocal, luzinhas aqui e ali. Mas o princípio é sempre o mesmo: toca-se aqui e ali pra indicar o trajeto e, em seguida, enfia-se a moeda na fenda. A máquina emite o bilhete e devolve o troco. Até aí, estamos todos de acordo. O complicador vem agora.

A moeda suíça de maior valor é a de 5 francos (= 19 reais). Acontece que a moeda russa de 1 rublo tem diâmetro e peso idênticos. A diferença é que não vale quase nada: 6 centavos de real. As máquinas de vender bilhete – um tanto antigas, é verdade – não conseguem distinguir entre as duas. Pronto, está aberta a porta pra tracambistas. (Tracambistas são fraudadores, só que a palavra me parece bem mais expressiva, especialmente neste caso.)

A boa-nova já se espalhou pelos lados da Rússia, Moldávia e cercanias. Os funcionários que esvaziam a máquina não passam um dia sem encontrar moedas de rublo. A astúcia consiste em comprar um bilhete de 2,40 francos e dar em pagamento moeda de 1 rublo. Entendendo que recebeu 5 francos, a máquina vai devolver 2,60 francos. Não é nenhuma fortuna mas, se o indivíduo repetir a operação vinte vezes por dia, vai amealhar cerca de 200 reais. No mole. É só tomar cuidado pra não dar demais na vista.

A prefeitura de Lausanne manda avisar que, visto que os usuários preferem, cada vez mais, comprar pelo celular, as máquinas atuais não serão substituídas. Vão ser gastas até a lona. Aviso aos amadores.

Tirar a carne

José Horta Manzano

As crenças antigas, que hoje costumamos chamar de pagãs, eram bem menos restritivas que as nossas. Penso na multiplicidade de deuses e deusas reverenciados por gregos e romanos. Em meio a tanta divindade, havia os deuses bonzinhos, os severos, os camaradas, os bem-comportados, os excessivos. Cada fiel incensava aqueles que lhe parecessem mais chegados. E tudo bem.

Na Europa, a implantação do cristianismo marcou o fim dessa época de folguedos despreocupados. Uma avalanche de sisudez começou já nos tempos de Santo Agostinho, faz quase dois milênios, para atravessar a Idade Média e aterrissar na modernidade de Trump e doutora Damares. Chegamos a uma civilização na qual tudo o que é bom e agradável é proibido. De sexo a sorvete de chocolate, de álcool a provolone à milanesa. Hoje em dia, se não for proibido por lei, será condenado pela Igreja ou, em última instância, vetado pelo médico. Não há como escapar.

Os romanos festejavam sua Saturnália sem se preocupar com o que viria no dia seguinte. Depois que o cristianismo se tornou fé oficial, a coisa mudou. Carnaval, válvula de escape espremida entre Advento e Páscoa, é curto período de relaxamento consentido. Consentido, sim, mas de olho no dia seguinte. Essa sensação de que ‘a festa vai acabar’ está embutida no próprio nome destes dias de folia. Quer ver?

Se etimólogos não são unânimes em apontar a com segurança a origem do vocábulo Carnaval, grande maioria vê nele uma advertência lançada ao distinto público pra que ninguém se esqueça de que a festa é curta e a punição vem logo em seguida. O aviso é: comam carne agora, porque depois vai ser proibido. De fato, é forte a probabilidade de o moto carnem levare ou carnem levamen (= tirar a carne) estar na origem da palavra Carnaval. Como um desmancha-prazeres, a fórmula já vai avisando que a festa é curta e que depois vem ferro.

É que, depois do Carnaval, entra a Quaresma, quarenta dias coalhados de jejum e de abstinência de carne. A confirmar essa etimologia, está o nome que os alemães dão à festa: Fastnacht/Fasnacht, palavra cujo primeiro elemento vem do verbo fasten (= jejuar). Outra confirmação, incontestável, aparece no nome catalão do Carnaval: carnestoltes (= carnes removidas).

Bom Carnaval!

Autoproclamado

José Horta Manzano

Está ficando esquisito esse costume de chamar señor Guaidó de «presidente autoproclamado». Ou o homem é presidente ou não é. Dizer que é “autoproclamado” vai bem pra Napoleão de hospício, daqueles que se postam em frente à entrada principal do asilo, batem no peito e berram: “O presidente sou eu!”.

Ora, no caso venezuelano, o drama é mais cabeludo e menos irregular do que parece. A legitimidade de señor Guaidó vem de seu cargo de presidente da Assembleia Nacional do país, eleita pelo povo em votação aceita por todos como livre e democrática. Foi à vista do caos criado pelas intenções ditatoriais de Maduro que a Assembleia decidiu desgarrar-se e seguir rumo próprio. Deixou claro que não aceita imposições ditadas pela força bruta de um candidato a imperador.

Texto de O Globo, 1° março 2019

Engraçado mesmo foi o enroscado texto d’O Globo de hoje. Trata señor Guaidó de presidente autoproclamado pela Assembleia Nacional. Como é que é? O prefixo auto indica sempre um ato reflexivo, isto é, uma ação que o indivíduo pratica contra si mesmo. Nem que fosse composta por loucos de hospício, a Assembleia venezuelana conseguiria a proeza de “autoproclamar” alguém. Os autores, naturalmente queriam dizer que o moço foi proclamado presidente interino.

Foi o que aconteceu e é assim que se diz.

Cavalos alpinos

José Horta Manzano

Você sabia?

Desde que as hordas de invasores mongóis ensinaram à Europa como guerrear a cavalo, a cavalaria passou a constituir peça importante de todo exército. Até cem anos atrás, sempre que estourava uma guerra, cavalos de proprietários privados eram requisitados para serem incorporados ao exército. A mecanização provocada pela invenção do motor a explosão fez que, pouco a pouco, a utilização dos equinos decrescesse.

O exército suíço é um dos últimos da Europa a utilizar cavalos. Até os anos 1950, eles ainda eram 20 mil. Hoje são apenas 350, escolhidos a dedo e mimados como animais de estimação. Todo ano, organiza-se uma espécie de exame vestibular para a aquisição de novos cavalos para o exército. Muitos são os candidatos, poucos os escolhidos. A proporção de aprovados lembra o exame da Ordem dos Advogados no Brasil.

O uso dos animais está longe de ser folclórico. São utilizados exclusivamente para transporte de carga. Há caminhos por onde só se pode passar a pé ou a cavalo. No inverno, pode acontecer de uma avalanche ou um simples excesso de neve bloquear o acesso a algum vilarejo isolado na montanha. Se as condições atmosféricas permitirem, o abastecimento de emergência pode ser levado por helicóptero. Quando o tempo não permite voo, só os cavalos do exército são capazes de cumprir a tarefa.

Esse pequeno estoque equino é mantido também com outro objetivo. Caso um tremendo ataque cibernético venha um dia bloquear todo transporte e toda circulação, os cavalos estarão disponíveis pra remediar a situação. O serviço é todo regulamentado. Trabalham em média 45 dias por ano. Aposentam-se com a idade de 16 anos. Cada animal transporta a carga máxima de 100kg. E não pense que eles trabalham de graça. Afinal, este é o país dos bancos. Como todo militar, recebem um soldo. Atualmente, é de 40 francos (150 reais) por dia, pagos ao proprietário do animal.

Bomba em Paris!

José Horta Manzano

Faz tempo que a cidade de Paris não é bombardeada. A última vez que bombas caíram do céu foi no ano de 1944, três quartos de século atrás. Desde que o último avião bombardeiro se afastou, a cidade sossegou e o solo está bom pra caminhar. Certo?

Não é tão certo assim. As guerras que sacudiram a Europa no século 20 deixaram marcas que se fazem sentir até nossos dias. Entre outras regiões castigadas, o norte da França, a Bélgica, a Holanda, o sul da Inglaterra e a totalidade do território alemão foram alvo de bombardeio pesado e frequente tanto na Primeira quanto na Segunda Guerra.

Estimativas indicam que, na guerra de 1914-1918, um bilhão(!) de obuses (granadas explosivas atiradas por boca de canhão) riscaram o céu da Europa. Sem contar bombas lançadas por avião que, naquela época, não eram muitas. Já durante a guerra de 1939-1945, a quantidade de projéteis foi superior.

Dependendo da fonte, sabe-se que entre 1% e 30% das bombas não explodiram. Artefatos mais leves, que ficaram à flor da terra, foram facilmente encontrados e desativados nos primeiros anos do pós-guerra. Já as bombas pesadas que não explodiram afundaram metros abaixo da superfície e sumiram de vista. Boa parte delas está lá até hoje, bem abaixo dos pés do caminhante distraído. Volta e meia, quando se cava um pouco mais fundo, dá-se de cara com uma delas.

A cidade de Paris nunca recebeu bombardeio pesado, o que faz que seja relativamente raro encontrar bomba não detonada no solo do município. Assim mesmo, às vezes, acontece. Foi o caso em meados de fevereiro deste ano. Ao escavar para implantar os alicerces de nova construção, os operários encontraram uma bomba americana, provavelmente jogada por avião britânico em abril de 1944, quando da batalha pela liberação da cidade.

Num domingo, os habitantes de 600 lares ‒ cerca de 1800 pessoas ‒ foram evacuados para permitir a entrada em ação de especialistas desminadores. Em seguida, segue-se o protocolo padrão previsto para casos similares. O artefato é transportado com o maior cuidado e assentado no fundo dum poço de 4 metros de profundidade. Uma coluna de areia vem tapar o buraco e sacos de areia são dispostos em volta. A bomba é então detonada com segurança, longe de região habitada.

Bomba em Paris impressiona, mas não é frequente. Por seu lado, o território alemão está com o subsolo coalhado de artefatos perigosamente explosivos. A persistir o ritmo em que bombas, minas e outros artefatos não detonados são encontrados em território europeu, estima-se que o terreno só estará totalmente livre de perigo daqui a 700 anos. Se nenhuma guerra sobrevier daqui até lá, naturalmente.

Marquetagem

José Horta Manzano

Os marqueteiros que sustentaram o lulopetismo fizeram um trabalho de lisura discutível. Não se pode afirmar que, ao receber dinheiro sujo em contas no exterior, tenham primado por conduta ética. Assim mesmo, que se tire o chapéu para eles: eram inteligentes e imprimiam orientação segura à comunicação presidencial ‒ firmeza que anda fazendo muita falta atualmente.

Em seu blogue alojado n’O Globo, o jornalista Lauro Jardim anotou o comentário arguto que o publicitário Washington Olivetto deixou escapar dia destes:

«‒ Já reparou que o Lula quando virou presidente passou a se vestir como presidente e o Bolsonaro quando virou presidente passou a se vestir como Lula?»

Irretocável.

Política externa

José Horta Manzano

A prova de fogo que doutor Bolsonaro está sendo obrigado a encarar está entre as mais delicadas, especialmente para um governo inexperiente: a política externa. Nos tempos do petismo, não tivemos problemas com vizinhos. O Lula é que foi ao Oriente Médio buscar sarna pra se coçar. Foi porque quis, que seu ego imenso lhe fazia crer que estava destinado a liderar o planeta. Foi buscar sarna, encontrou, e saiu se coçando. E está se dedetizando até hoje pra se livrar da praga que rogou pra si próprio.

A encrenca que temos hoje na frente externa não é resultado de políticas nossas do passado. A ditadura venezuelana nasceu e se desenvolveu por si, ainda que o petismo lhe tenha dado uma força. A mão forte de Lula & cia., no entanto, não foi fator determinante pra garantir longevidade.

O problema que se nos apresenta é daqueles que nenhum dirigente deseja enfrentar, muito menos em começo de mandato. E até que não estamos nos saindo tão mal. Inteirados da rusticidade e do maniqueísmo primário de nosso ministro de Relações Exteriores, os integrantes da ala militar do governo não têm permitido que ele assuma protagonismo. Nem esse ministro, nem os bolsonarinhos ‒ que, por sinal, andam apagados. Minha avó dizia que criança, quando está quietinha sem dar um pio, é que está fazendo arte. Espero que os juniores não estejam tramando novo golpe.

Estivessem as decisões nas mãos do mandachuva do Itamaraty ou dos belicosos primeiros-filhos, o Brasil já teria declarado guerra ao vizinho, com bombardeio aéreo e envio de tropas de infantaria. Imaginem o desastre! Ainda bem que eles estão eclipsados. O exército bolivariano anda meio mambembe, é verdade. Assim mesmo, não convém provocar.

Señor Maduro, embora não tenha sido militar mas motorista de ônibus, entendeu que sua base de sustentação não está no parlamento, nem nas urnas, nem nas ruas. Sabe que está nas forças armadas. Ao longo dos anos, continuando o trabalho de seu antecessor, distribuiu benesses aos fardados. Os de mais alta patente não vivem num país flagelado pela fome e pela falta de medicamentos. Vivem numa outra Venezuela, um país de fartura onde tudo é possível.

Os agrados garantidos aos militares incluem promoções políticas, que nada têm a ver com ascensão por mérito. De tanto forçar a barra, as forças armadas têm hoje muito cacique pra pouco índio. Há mais de 2000(!) generais para um contingente de 123 mil homens. Isso dá um general pra cada 57 soldados ‒ um despropósito.

Só que essa abundância de graduados transmite falsa sensação de segurança. Na hora do vamos ver, quem combate não são os generais mimados e bem pagos ‒ são os soldados. Oficiais de alta patente, corrompidos e enricados, têm o rabo preso. Soldados rasos, não. E o que é que se viu diante das trapalhadas que tiveram lugar nas fronteiras este fim de semana? Pois vimos soldados desertando, entregando armas e declarando fidelidade ao presidente interino. Foram algumas dezenas. O número só não foi maior porque muitos deles têm família e temem represálias.

O desmoronamento final do regime pode demorar, mas é inevitável. No dia em que todos os soldados tiverem desertado, que vão fazer os dois mil generais? Bailar un merengue?

A agonia de um regime

José Horta Manzano

Não há perigo
Duas vezes por dia, um general brasileiro acalma a população dizendo que «não há risco de guerra» entre Brasil e Venezuela. Tamanha é a insistência, que a gente acaba acreditando que há risco, sim, senhor. E pela frequência dos pronunciamentos pacificadores, o perigo deve ser grande.

Exército desastrado
No sábado 23 fev°, militares venezuelanos estacionados na fronteira de Roraima atiraram bombas lacrimogêneas em compatriotas deles que se encontravam em território brasileiro. Na prática, houve agressão belicosa contra o território nacional.

Em outros tempos, o ato seria objeto de protesto enérgico e indignado por parte de Brasília. Mas isso era em outros tempos. Hoje, há muito blá-blá e pouca ação.

Se soldados venezuelanos atiraram granadas contra solo estrangeiro, é porque foram mal-treinados. Se foram mal-treinados, é porque oficiais não sabem treinar. Se oficiais não sabem treinar, é porque o alto comando é incompetente. Portanto, não há por que temer a Venezuela. Ficou claro que as tropas que defendem o ditador são formadas por trapalhões.

Concerto de arromba
O concerto organizado em território colombiano, na fronteira com a vizinha Venezuela, atraiu 317 mil espectadores. É muita gente! Num desafio tolo e desnecessário, señor Maduro decidiu confrontar o espetáculo. Organizou um concerto paralelo para competir e para agradar aos militantes. Não reuniu mais que 20 mil pessoas. Um fiasco evitável, mas não previsto por uma elite que já perdeu o contacto com a realidade.

Fizeram falta?
Ao concerto de arromba, compareceram artistas de numerosos países da América Latina. Até artistas europeus fizeram questão de responder ‘presente!’. A ausência de astros brasileiros contrastou com o fervor dos colegas hermanos. Os artistas brasileiros engajados, aquelas figurinhas carimbadas que todos conhecem, tampouco deram as caras no concerto organizado pelos chavistas. Preferiram sorver um uisquinho em Ipanema. Pobre só é bom quando visto de longe, não é mesmo?

Sapateando no caixão
Causou escândalo o vídeo em que señor Maduro aparece ‘bailando’ em Caracas, no momento em que conterrâneos seus eram massacrados na fronteira. Por ordem sua, diga-se.

Comida destruída
Sob ordens do governo, as forças armadas atearam fogo a dois caminhões repletos de remédios e gêneros alimentícios. Ambos os veículos haviam logrado atravessar a fronteira e já se encontravam em território venezuelano.

O ato é um escárnio contra o povo sofrido, que morre por falta de alimentos e de remédios. A clique do andar de cima ‒ militares incluídos ‒ não vive essa penúria, donde o desprezo. Não dá mais pra esconder a face feia da repressão que se erigiu como sistema de governo.

Bandeira Venezuela – Cuba

Oito estrelas
Desde a independência do país, alcançada duzentos anos atrás, a bandeira da Venezuela é ornada de 7 estrelas, que representam as regiões do país. Em 2006, um Hugo Chávez no auge do poder mandou que fosse acrescentada uma oitava estrela à bandeira.

No oficial, a razão era integrar a hipotética oitava região, um naco do território da vizinha República da Guyana reivindicado havia já muito tempo. No paralelo, diz-se à boca pequena que a oitava estrela era uma preparação para futura união da Venezuela com Cuba, que se tornariam um só país. Cuba tem uma estrela na bandeira. A Venezuela tem sete. Portanto, sete + uma = oito.

Quanto dura uma paixão?

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 23 fevereiro 2019.

Até o fim do século 20, a extrema-direita francesa se confinava às beiradas do eleitorado. Nas asas da crise econômica e sob a batuta do impagável Le Pen, deixou de ser movimento folclórico. Saiu da margem para inserir-se no tabuleiro político. Como adolescente que desabrocha, o partido espichou. Nas presidenciais de 2002, o timoneiro deu um susto ao guindar-se ao segundo turno. Não foi mais longe, que ainda não era hora. Na reta final, foi esmagado por Chirac. Aliviada, a nação sossegou.

Passados quinze anos, veio nova presidencial. Um Le Pen aposentado confiou as rédeas do partido à filha ‒ numa mostra de que o fantasma da monarquia hereditária de direito divino ainda assombra os palácios de Paris. (Não só de Paris, diga-se.) De novo, cidadãos descontentes viram no discurso extremista o remédio contra todos os males e alçaram Madame Le Pen ao segundo turno. A maioria dos eleitores, porém, não digeria a ideia de ver candidata extremista na Presidência. Assim, o turno final foi acachapante: 66% para Macron x 34% para Le Pen.

Recém-eleito, Monsieur Macron deixou-se embalar pela brisa leve da vitória confortável. Esquecido de ter-se beneficiado do voto antiextremista, acreditou que dois terços dos franceses fossem realmente seus eleitores de raiz. A arrogância custou-lhe caro. O namoro que costuma unir o povo ao presidente recém-chegado tem prazo de validade restrito. No caso Macron, durou pouco. Desabusados, os eleitores que lhe haviam dado voto unicamente para afastar a ameaça extremista constataram que as reformas não estavam saindo como desejavam. Era hora de levantar protesto. Nasceu assim o Movimento dos Coletes Amarelos, que aporrinha o governo há meses. Passou o encanto. Por contaminação, até os próprios apoiadores do presidente ‒ aqueles que votaram nele por convicção ‒ começam a duvidar. Fosse hoje a eleição, é provável que aquele que venceu com 66% dos votos fosse reprovado e despachado à vidinha de cidadão comum.

Fenômeno semelhante ocorreu no Brasil na última presidencial. Beneficiado pela repulsa a um partido identificado com rapina desembestada ao erário, doutor Bolsonaro foi eleito por confortável maioria. Releve-se o fato de ter atravessado período conturbado em decorrência do atentado de que foi vítima durante a campanha. O povo, um tanto esquizofrênico, ao mesmo tempo que se condói do sofrimento do presidente, impõe que ele deixe o leito e acuda o país. Já vamos pra dois meses da diplomação e a realidade é cruel. Apesar de o maestro ter estado de recesso, atos e fatos do andar de cima têm sido, para o bem ou para o mal, a ele tributados. E o que tem ocorrido não é belezura.

Atropelos, quiproquós, indecisões, fofocas, injúrias, traições, cotoveladas ‒ uma constrangedora vitrine da miséria humana vem sendo exposta. Mais exigentes e menos pacientes, os que votaram em Bolsonaro de nariz tapado, no objetivo único de barrar caminho à corrupção, se exasperam: «Então era essa a alternativa ao descalabro petista?» ‒ impacientam-se. A pública lavagem de roupa suja tem sido tão enervante que até mesmo os que votaram no presidente por convicção já se perguntam se fizeram bem em confiar as chaves do Planalto a amadores deslumbrados.

Nestes tempos em que tuitadas preenchem o espaço político e ameaçam encolher prazo de validade de homens de poder, que se cuide o presidente. A paixão do povo, se é que um dia existiu, caminha rápido para o vencimento. Maiorias parlamentares, flutuantes e infiéis, deixaram de ser garantia absoluta. Pra provar, está aí a recente defenestração do inoxidável presidente do Senado, homem cuja reeleição perpétua era tida como garantida até a véspera. Na França, os Coletes Amarelos não vão conseguir derrubar o presidente, que isso não está nos costumes do país. No Brasil, no entanto, presidente corre sempre perigo. É bom que ele trate logo de botar ordem na casa, ou o povo depressa lhe mostrará quanto dura uma paixão.