Intolerância religiosa

José Horta Manzano

Num rabicho de Carnaval, à falta de notícia mais importante, a imprensa dá conta da grita que se levantou na Câmara Federal contra os Gaviões da Fiel. Por meio de seus líderes, a bancada evangélica fez saber sua indignação com o tema escolhido por aquela escola para animar o desfile este ano. A letra, com alusões a Jesus e a Satanás, chocou. Não entendi bem o que foi que incomodou, se as referências feitas a Jesus ou as que foram feitas a Satanás. Quem sabe o que arranhou mesmo o pudor de suas excelências foi a convivência dos dois personagens no mesmo ritmo.

Talvez fosse importante recordar aos parlamentares ofendidos que a base da filosofia de toda igreja é exatamente a dualidade entre o bem o mal. Todas as religiões, seitas e outros movimentos espirituais se propõem a propagar a melhor receita para resolver o embate entre esses dois polos. Os Gaviões não inventaram a pólvora. O bem e o mal convivem na vida nossa de cada dia. Ver seus símbolos assim, confrontados, não deveria ser matéria pra chocar ninguém.

O episódio, que ainda pode dar pano pra mangas e gerar até processo, é comprovação eloquente de que vivemos uma época de diluição de valores. A Polícia de Costumes está nas ruas, tesoura em punho, censurando o que entende e principalmente o que não entende. Hoje em dia, dependendo da pinta do galã, um assobio pode ser enquadrado como assédio sexual. Sons de samba-enredo ecoam até no Congresso Nacional – e geram manifestação de iracundos deputados. É um mundo de ponta-cabeça. Não se conhece mais o valor de cada mercadoria. Banana está sendo comprada por preço de caviar.

Que saudades dos tempos em que Carnaval era apenas Carnaval. Que saudades dos tempos em que se dava a cada fato apenas a importância que tem. Ao acusar os foliões de “intolerância religiosa”, a bancada evangélica não se dá conta do papel ridículo. Estão a inverter conceitos. Os intolerantes são justamente os senhores deputados! Os carnavalescos podem ser tratados de levianos, de irreverentes, até de apóstatas, mas não de intolerantes. As acusações estão invertidas.

Saudades dos tempos em que se podia berrar Alá-la-ô sem que ninguém se sentisse incomodado. Saudades dos tempos em que uma marchinha podia explicar à moça casadoira que se havia enganado de endereço, e que seria melhor bater à porta de Santo Antônio. Saudades dos tempos em que irreverência carnavalesca ficava por isso mesmo, e tudo bem. Será que essa página despreocupada foi virada para sempre? Será que o Brasil ingênuo se transformou numa gigantesca seita?

Nunca antes

Priscila Ferraz (*)

Recordo-me muito bem de quando ainda estava criando meus filhos, tendo em mente um mundo ideal. Fazia questão de preencher aquele pequeno milagre que é o cérebro das crianças – um infinito de possibilidades – com aquilo que eu considerava correto e ético.

by Doru Axinte, desenhista romeno

by Doru Axinte, desenhista romeno

Quantas vezes os ouvi dizer: “Mamãe, mas todo mundo faz”, ou “sempre foi assim”.

Eu vinha com aquela célebre frase das mães: “Isso não é motivo para fazer errado. Se um amigo seu se atirar da ponte, você vai atrás?”

Gostaria de passar esse mesmo sermão àqueles que hoje, em sua defesa, nada mais têm senão algo como: “Não somos os únicos. Não somos os primeiros, antes de nós outros faziam.”

E daí? Só porque crucificaram Jesus, vamos crucificar alguém? Só porque se caçavam negros na África para escravizá-los, vamos fazer o mesmo? Só porque um louco resolveu exterminar toda uma raça, alegando que não eram satisfatórios, vamos encaminhar nossos irmãos para incineração?

Irmãos Metralha 1O que está em pauta é o que está acontecendo agora. Se ainda houver chances de punir malfeitos antigos, que se faça, mas com certeza temos de punir os crimes que estão sendo cometidos agora, se não, com que cara enfrento meus filhos? O que direi para meus netos? Com certeza, farei o mesmo sermão que fiz há tempos para minha prole, pois sou responsável por mim mesma. Não permitirei que façam de mim uma pessoa pior, tentando me igualar a eles.

by Dereck Bruno Lopes Teixeira, desenhista piauiense

by Dereck Bruno Lopes Teixeira, desenhista piauiense

Só podemos constatar que, isso sim, nunca antes na história deste país, quiçá do mundo, houve tanta corrupção dentro de um governo. Nunca antes teve tanta gente envolvida em crimes contra a população que um dia resolveu sufragar os políticos que hoje dirigem(?) nosso país.

Corrupção mata quando não destina verbas para a segurança e a saúde; leva à ignorância quando desviada da educação. O dinheiro que hoje enriquece os políticos e seus partidos, na intenção de perpetuá-los no poder, é do povo brasileiro.

Os corruptores já estão começando a ser julgados. Entretanto, os corruptos ou subornados – pois é isso que são, já que, sem propina, não se trabalha para o governo – são os que eu mais desejo ver no xilindró.

Algemas 1Dentre nossas instituições, hoje vejo a Policia Federal funcionando como nunca antes. Estão fazendo seu trabalho. Tenho esperança de que a justiça também faça o seu, pois serão lembrados por seus atos. Observe-se que notas de pesar nas redes sociais a respeito da morte de determinado ex-ministro receberam inúmeros comentários de ódio e raiva por ter ele liberado tantos criminosos das grades. Terá que trilhar um árduo caminho em busca de paz e descanso.

Nunca antes em minha vida desejei tanto ver a justiça triunfar.

(*) Priscila Ferraz é escritora
www.kbrdigital.com.br/blog/category/priscila-ferraz/