Bolsonaro carnavalizado

Álvaro Costa e Silva (*)

O presidente teria feito melhor se, como no samba clássico “Camisa Amarela”, de Ary Barroso, tivesse bebido um copo d’água com bicarbonato. Ou mesmo desaparecido no turbilhão da galeria.

Carnaval e poder não dão rima. Meu amigo Luiz Antonio Simas, o historiador das “coisas miudinhas”, costuma lembrar dois episódios. Em 1892 o marechal Floriano decretou a transferência da folia para junho, argumentando que o verão era propício a epidemias; naquele ano, brincou-se duas vezes. Em 1912 o marechal Hermes da Fonseca mandou adiar a festa para que não coincidisse com o luto pela morte do barão do Rio Branco; foi pomposamente ignorado.

Bolsonaro levou uma lavada nas ruas. O bonecão com suas feições, mil vezes alvejado por latas de cerveja e pedras de gelo, teve de contratar segurança para descer as ladeiras de Olinda. Nos blocos, nunca antes na história deste país se viu tanta gente fantasiada de laranja. Ou bebendo água em mamadeiras com formato de pênis (fiquei sabendo que um acadêmico já está preparando a tese “A Carnavalização das Fake News”). Registre-se ainda o coro “Ei, Bolsonaro, VTNC”, cantado de norte a sul.

Com enredo de crítica social e em homenagem à vereadora Marielle Franco, a Mangueira mostrou que o samba não se rebaixa. Uma alegoria, em especial, desagradou o presidente: o livro aberto com a frase “Ditadura assassina” escrita em caixa alta.

Bastou para que a Terça Gorda, para Bolsonaro, se transformasse num dia de fúria. Esqueceu que agora é o presidente, voltou aos tempos em que se contentava em atuar como deputado do baixo clero e correu destrambelhado para as redes sociais. Para atacar o Carnaval, cometeu o tuíte pornô, desviando de novo a discussão para a pauta de costumes. Milhões de brasileiros ainda caem nessa. Resta saber até quando.

Uma tuitada pode derrubar um governo? Aguarde as próximas lambanças.

(*) Álvaro Costa e Silva (1962-) é jornalista e escritor.

Fair play

José Horta Manzano

Tem coisas que, contando, ninguém acredita. Dia destes, um jogador de futebol paulista foi protagonista de episódio inusitado. Num lance controvertido, constatou que o árbitro estava sancionando um jogador do time adversário por uma falta não cometida. Sua consciência falou mais alto. Avisou ao juiz que a verdade não era bem aquela e que a penalidade era injusta. Como resultado, o árbitro anulou a sanção.

Não sou torcedor de time nenhum, muito pelo contrário. Tampouco acompanho evolução de campeonatos. Portanto, sinto-me à vontade para comentar sem paixões. Pelo que li, o gesto do jogador deixou os adversários atônitos e enfureceu os que torciam por seu time. Houve até esportistas que, entrevistados, não ousaram desaprovar abertamente a atitude e torceram o verbo para censurar de mansinho, sem dar muito na vista. É paradoxal.

Rodrigo Caio, o autor do gesto de fair play

O assunto do momento, que nos penetra até à medula, é a corrupção, fruto da desonestidade do pessoal do andar de cima. Faz anos que trambiques vêm sendo revelados, dia a dia, hora a hora. Prenderam este! Ahhhh, já era hora! Soltaram aquele! Ohhhhh, merecia continuar atrás das grades! E aquele lá, quando é que vai pra Curitiba?

Há quem diga que não ficaria triste se uma bomba atirada no Congresso eliminasse, de um golpe, toda a classe dirigente. Todos parecem acreditar que a salvação da lavoura e a redenção do país estão na honestidade de propósitos e de comportamento. No entanto… quando um gesto de lealdade vai contra nosso interesse pessoal, a coisa muda de figura.

Nada nem ninguém pode ser e não ser ao mesmo tempo. Ou ansiamos por viver num país honesto ou não estamos nem aí. Não se pode protestar de manhã ‒ de bandeira e camiseta amarela ‒ e desaprovar à tarde o comportamento honesto de um cidadão. Ainda que contrarie nosso interesse pessoal. É questão de coerência.

No fundo, honestidade está se tornando tão rara no país que, quando surge, choca. Estamos desacostumados.