#naovaitergolpe – 2

José Horta Manzano

Se alguém espera que parlamentares bolsonaristas recém-eleitos se abalem pra “salvar” o capitão ou pra apoiar um golpe de Estado, pode tirar o cavalinho da chuva. Isso não periga acontecer. Por quê?

A razão é simples. Eles todos, que eram desconhecidos até anteontem, subiram agarrados no elevador bolsonarista. Surfaram a onda e assim foram eleitos. Agora, que estão lá, não querem nem ouvir falar de golpe. Nem por brincadeira.

A primeira consequência de todo golpe que se preza é o fechamento do Congresso. Parlamentares são todos postos de molho por tempo indefinido. Em seguida, vêm as cassações de mandato. “Quem garante que o meu não será cassado?” – é o que se pergunta o deputado ajuizado.

Melhor deixar como está. Deputados estão com cargo, salário, jetons, apartamento funcional, mordomias e principalmente imunidade parlamentar garantidos por quatro anos. No caso dos senadores, são oito anos. Quem vai fomentar golpe e arriscar perder tudo isso? Ninguém é besta.

Parlamentares bolsonaristas estão agindo rápido para reconhecer a derrota de Seu Mestre. Entre os primeiros, estão: Sergio Moro, Carla Zambelli, Zé Trovão, Ricardo Salles, Tereza Cristina, Arthur Lira, Nikolas Ferreira, Damares Alves. Esta última, apesar de residir no DF, pediu que um apartamento funcional seja posto a sua disposição.

Quem é que trocaria essa moleza por um temerário golpe só pra “salvar” um desequilibrado?

Cristofascismo

Fascio Littorio: emblema do fascismo

José Horta Manzano

Em longo artigo, o italiano Corriere della Sera digital discorre sobre a campanha presidencial brasileira deste ano. Sobrevoa as acusações de canibalismo, satanismo e pedofilia. Lembra a sombra de um possível golpe de Estado, a ser dado unicamente em caso de vitória da esquerda.

Menciona ainda: a Venezuela e a Nicarágua, o “pintou um clima”, Janja da Silva, Michelle Bolsonaro, o ditador paraguaio Stroessner, Silas Malafaia, Fernando Collor, confisco de aposentadorias, Neymar, Copa do Mundo, fechamento de igrejas, aborto, satanás, dom Odilo Scherer, o “perigo comunista”. E outros nomes e fatos que nós todos conhecemos.

Fechando o cerco, relata a inacreditável história de tráfico de crianças, que Damares Alves “ouviu na rua” e denunciou à Justiça. Acrescenta a apropriação que “cantanti gospel” (=cantores evangélicos) fizeram da historinha horripilante. E conclui discorrendo sobre o cristofascismo. (Esse conceito fica por conta do Corriere della Sera, não é tema de campanha no Brasil.)

Fascismo cristão ou cristofascismo é expressão cunhada por uma teóloga alemã nos anos 1970. Descreve o ponto de contacto entre o fascismo e o cristianismo, contacto induzido pelas teorias de extrema-direita. O cristofascismo pode ser entendido como uma ampla muleta que dá uma fachada de dignidade cristã aos princípios atrozes e violentos que formam a ossatura da ideologia fascista.

É exatamente o que desabrochou na nação brasileira quando se instalou o governo do capitão. E que continua plantando raízes em nossa sociedade. É um movimento pérfido e insidioso, dado que se instila como veneno na mente de honestos cidadãos que se enxergam como cristãos verdadeiros, ao mesmo tempo que toleram – e até praticam sem se dar conta – comportamentos extremistas.

É desse mal corrosivo que temos de nos desvencilhar domingo agora, enquanto é tempo.

Anauê, cidadãos!(*)

(*) Anauê era a saudação adotada pelos adeptos do integralismo, corrente de pensamento de matriz fascista que chegou a ter certa força no Brasil dos anos 1930.

Deixa que eu pago

José Horta Manzano

Em abril de 2019, com sua costumeira meiguice, o presidente Bolsonaro esbravejou: “O Brasil não pode ser o paraíso do turismo gay. Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade. Agora, não pode ficar conhecido como paraíso do mundo gay aqui dentro.”

Em julho daquele ano, sempre calçando as mesmas luvas de ternura, reincidiu: “O Brasil é uma virgem que todo tarado de fora quer. Desculpem aqui as mulheres aqui tá?”.

Referindo-se a uma jornalista, em fevereiro de 2020, soltou esta finura: “Ela queria um furo. Ela queria dar o furo!”.

Na mesma linha do presidente, seu ministro Guedes aproveitou a plateia que o acompanhava numa palestra de setembro de 2019. Entusiasmado, mandou: “Ah, o Macron falou que estão botando fogo na floresta brasileira. O presidente devolveu, falou que a mulher dele é feia’. Tudo bem, é divertido. Não tem problema nenhum, é tudo verdade, o presidente falou mesmo. E é verdade mesmo, a mulher é feia mesmo.”.

Em abril de 2019, a ministra Damares (que cuida da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos!) foi fiel ao exemplo do chefe. Numa audiência na Câmara Federal, ousou: “A mulher deve ser submissa. Dentro da doutrina cristã, sim. Dentro da doutrina cristã, lá dentro da igreja, nós entendemos que um casamento entre homem e mulher, o homem é o líder do casamento”.

São citações que aparecem, entre outras, numa ação civil em que o MPF (Ministério Público Federal) requereu que a sociedade brasileira seja ressarcida do prejuízo causado pelas falas discriminatórias e preconceituosas de membros da alta hierarquia do governo federal. A 6ª Vara Cível Federal de SP aquiesceu e condenou a União a pagar 5 milhões de reais em reparação dos danos morais coletivos contra a mulher brasileira.

Sem sombra de dúvida, o julgamento parece justo. De fato, não é normal deixar passar em branco um conjunto de insultos e deboches tão abastado que deixa a impressão de ser ataque coordenado – sabe-se lá com que intenções. No entanto, algo me parece fora do lugar. Explico.

A União Federal, em última análise, somos nós, o povo. Assim como o Exército Brasileiro (que o capitão insiste em chamar de “seu”) não pertence a nenhum indivíduo, a União também é instituição coletiva, uma extensão do povo brasileiro. A União é formada por todos nós, não somente pelo governo de passagem. Instituição permanente, ela precede os atuais governantes e lhes sucederá.

Dito isso, fica estranho obrigar a União a pagar a conta das impropriedades cometidas por membros do governo. Cobrar da União isenta os autores das infrações. Em última instância, significa cobrar de todos nós, que, com nossos impostos, sustentamos os cofres federais. O julgamento da ação deixa um quadro estranho, em que a parte lesada é condenada a ressarcir a si mesma.

Na minha opinião, o certo seria cobrar de cada agressor o preço de sua ousadia. Que se condenem os que proferiram impropérios: o capitão, dona Damares, doutor Guedes e quem mais for. Individualmente. Querer castigá-los repassando a conta para todos os contribuintes não está certo. Visto que a conta não vai pesar no bolso dos infratores, hão de sentir-se livres de continuar proferindo impropriedades.

Tirar a carne

José Horta Manzano

As crenças antigas, que hoje costumamos chamar de pagãs, eram bem menos restritivas que as nossas. Penso na multiplicidade de deuses e deusas reverenciados por gregos e romanos. Em meio a tanta divindade, havia os deuses bonzinhos, os severos, os camaradas, os bem-comportados, os excessivos. Cada fiel incensava aqueles que lhe parecessem mais chegados. E tudo bem.

Na Europa, a implantação do cristianismo marcou o fim dessa época de folguedos despreocupados. Uma avalanche de sisudez começou já nos tempos de Santo Agostinho, faz quase dois milênios, para atravessar a Idade Média e aterrissar na modernidade de Trump e doutora Damares. Chegamos a uma civilização na qual tudo o que é bom e agradável é proibido. De sexo a sorvete de chocolate, de álcool a provolone à milanesa. Hoje em dia, se não for proibido por lei, será condenado pela Igreja ou, em última instância, vetado pelo médico. Não há como escapar.

Os romanos festejavam sua Saturnália sem se preocupar com o que viria no dia seguinte. Depois que o cristianismo se tornou fé oficial, a coisa mudou. Carnaval, válvula de escape espremida entre Advento e Páscoa, é curto período de relaxamento consentido. Consentido, sim, mas de olho no dia seguinte. Essa sensação de que ‘a festa vai acabar’ está embutida no próprio nome destes dias de folia. Quer ver?

Se etimólogos não são unânimes em apontar a com segurança a origem do vocábulo Carnaval, grande maioria vê nele uma advertência lançada ao distinto público pra que ninguém se esqueça de que a festa é curta e a punição vem logo em seguida. O aviso é: comam carne agora, porque depois vai ser proibido. De fato, é forte a probabilidade de o moto carnem levare ou carnem levamen (= tirar a carne) estar na origem da palavra Carnaval. Como um desmancha-prazeres, a fórmula já vai avisando que a festa é curta e que depois vem ferro.

É que, depois do Carnaval, entra a Quaresma, quarenta dias coalhados de jejum e de abstinência de carne. A confirmar essa etimologia, está o nome que os alemães dão à festa: Fastnacht/Fasnacht, palavra cujo primeiro elemento vem do verbo fasten (= jejuar). Outra confirmação, incontestável, aparece no nome catalão do Carnaval: carnestoltes (= carnes removidas).

Bom Carnaval!

Sinais trocados?

José Horta Manzano

Quando doutor Bolsonaro assumiu as funções no Planalto, o Brasil entrou em compasso de espera. Foi um breque no samba do crioulo doido(*). De respiração suspensa, ficamos todos presos àquele curto instante que corre entre o clarão do raio e o estampido do trovão. É quando a gente sabe que o barulho virá, mas não dá pra determinar a intensidade. Será trovoada longínqua ou estrondo de assustar cachorro e despertar criança?

Por enquanto, há muita conversa e pouco efeito. As promessas de «eu bato e arrebento» andam meio murchinhas, desenxabidas. Fica a desagradável mas nítida impressão de que mais se fala do que se faz. Dizem muitos que a ideologia dos atuais dirigentes é como a dos anteriores, só que com sinal trocado. Discordo.

É inegável que os atuais ocupantes do andar de cima emitem sinais de adesão ao ideário conservador. Ressalte-se que o brasileiro, de qualquer modo, vê com desconfiança todo sacolejo brusco da sociedade. Mudanças, sim, desde que não sacudam demais o coqueiro. Na oposição entre o statu quo e a revolução, não há dúvida: preferimos conservar o que temos.

Tirando a tendência conservadora, que eu hesitaria em classificar como ‘ideologia’, o atual governo mostra, sim, inclinações ideológicas de caráter místico e messiânico. Doutor Araújo, ministro de Relações Exteriores, e Doutora Damares, ministra dos Direitos Humanos, são a face mais visível da moeda.

Revolução

Já o período anterior, o lulopetismo, carecia de ideologia. Alguns enxergam naqueles tristes anos uma tendência ‘esquerdista’ de trocas Sul-Sul, de alinhamento com países pobres, de políticas de amparo aos deserdados do planeta. Eu não vejo nada disso. Tudo que consigo enxergar é uma política malandra de fazer negócios com governos estrangeiros que aceitassem compartilhar os bilhões com a clique que comandava o Planalto. Construir vias expressas na África não é a melhor maneira de ajudar populações que não têm o que comer. Não é por acaso que países de regime ditatorial foram o alvo preferencial da política de ‘ajuda fraterna’ lulopetista. São os mais abertos a obscuras transações.

Estão aí, de maneira resumida, as razões pelas quais concordo que o atual governo se deixa guiar, até certo ponto, por ideologia. Estão aí também as razões que me levam a refutar toda ideologia no sistema petista de gerir a coisa pública. Organizar rapina do erário não é manifestação ideológica. É pura bandidagem.

(*) Em seu discurso de entronização, doutor Bolsonaro propôs um desafogo na dura lei do politicamente correto. É de supor que a nova orientação já esteja em vigor. Se não estiver, corrija-se: onde se lê crioulo doido, leia-se afrodescendente com deficiência intelectual.