Frase do dia — 57

«Na celebração do Natal com os catadores de lixo e os moradores de rua, Dilma foi chamada de “presidenta Lula” por engano pelo apresentador da cerimônia. E o deputado federal Paulo Maluf (PP-SP), também presente, recebeu vaias da plateia.»

Do Radar Político, sobre churrasco oferecido pelo Instituto Lula a seletos convidados. In Estadão, 19 dez° 2013.

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«Não sei o porquê da vaia. São parceiros!»

Comentário de uma leitora, postado ao pé do artigo.

Decisão salomônica

José Horta Manzano

Não há que dizer, tem gente esperta entre nossos dirigentes da alta cúpula. Não estou brincando nem ironizando. Não serão muitos, mas há gente de respeitável eficiência. Ontem recebemos uma demonstração.

É verdade que os da linha de frente, aqueles que aparecem na tevê e na mídia dia sim, outro também, costumam se enfiar em saias justas, chegando até a arruinar estratégias bem construídas pelos homens da sombra. Felizmente, há casos que dão certo.Avião 4

Faz quase 20 anos que as Forças Aéreas alertaram o governo sobre o iminente sucateamento dos caças supersônicos em serviço. Tomada de preços foi organizada na época. A partir daí, o assunto foi posto em banho-maria até que, com a chegada do Lula, foi definitivamente engavetado. Não se sabe bem por que. Talvez tenha sido por mera pirraça. Ou falta de visão. Afinal, bolsa família e palanque permanente saem mais barato e dão mais voto que compra de avião a jato.

Mas há novelas que têm final feliz. O próprio presidente que havia ordenado o congelamento do programa despertou, de repente, em 2009. Naquele ano, o presidente da França foi o convidado de honra para as festividades do 7 de setembro, nossa data maior. Na ocasião, um Lula eufórico e falante ― talvez em razão de um café da manhã mais abundante que de costume ― deu a entender ao visitante que o Brasil se preparava a bater o martelo na questão dos caças: o Rafale francês seria o escolhido. Só faltou ser carregado nas costas pela comitiva de empresários que acompanhava o presidente visitante.

No dia seguinte, a imprensa francesa festejou. Milhares de empregos seriam garantidos por vários anos, a população ficaria grata a Sarkozy. A simpatia granjearia votos preciosos para sua reeleição. Os infelizes não conheciam o percurso em zigue-zague que nosso antigo presidente costuma seguir. Conversa vai, conversa vem, o governo brasileiro pôs de novo o assunto em banho-maria.

Sem ser especialista em aeronáutica militar, entendi que as principais características político-militaro-financeiras entre os três concorrentes finais empurravam a decisão de Brasília para um beco sem saída.Avião 5

O avião americano era tecnicamente superior aos outros, apresentava a melhor relação entre qualidade e preço. Mas tinha o defeito de ser americano, pecado original intragável para a ala xiita do partido dominante.

O avião francês apresentava uma vantagem não negligenciável: vinha sem pecado original. Não era americano, muito pelo contrário. A França, desde sempre, distinguiu-se por uma política de independência com relação às outras potências. No entanto, o aparelho sofria de um mal incurável: era o mais caro. Além do que, não havia sido ― e ainda não foi ― escolhido por nenhum exército, excetuado o francês.

O avião sueco apresentava mais vantagens que os outros. A alta cúpula da Aeronáutica havia recomendado que fosse ele o escolhido. Era o mais barato. Ainda não está totalmente desenvolvido, o que deixa margem a que se anuncie um «projeto sueco-brasileiro», ainda que seja só pra inglês ver. E, mais que tudo, o Gripen tem uma vantagem oculta: é equipado justamente com motorização americana, como a do modelo rejeitado pelos integristas. Não é, nem deixa de ser. As aparências estão salvas.

Foi agora que se teve a prova de que ainda há cabeças pensantes no andar de cima. Escolheu-se o avião sueco. As vantagens são muitas.

Interligne vertical 81) Traz tecnologia americana de primeira, ainda que embrulhada com papel sueco. A ala xiita pode dormir tranquila sem a impressão de ter sido traída.

2) A FAB sente-se prestigiada, dado que esse é justamente o modelo que lhe tinha parecido mais conveniente.

3) As finanças brasileiras, um tanto alquebradas estes últimos tempos, vão ser menos solicitadas, dado que o custo desse modelo é menor que o dos outros.

4) Na Escandinávia em geral ― e na Suécia, em particular ― uma aura de simpatia se inscreve sobre o nome de nosso País. O Brasil passa a ser visto como nação amiga, simpática. Isso só pode trazer vantagens. Os suecos são grandes investidores no cenário mundial.

5) Os EUA estão satisfeitos, pois a fabricação de peças essenciais será feita, de qualquer maneira, por lá. Os empregos estão salvaguardados.

A única sombra no quadro radioso foi o fato de Brasília ter anunciado a decisão menos de uma semana depois da visita de François Hollande. Ficou uma desagradável impressão de que o presidente e a “presidenta” não chegaram a um acordo sobre eventuais ― digamos assim ― efeitos colaterais… Ficou esquisito, né?

Quanto à tão falada «transferência de tecnologia», que me perdoem os espíritos crédulos, mas devo decepcioná-los. Conhece aquela do pulo do gato? Pois é, em venda de material sensível, funciona da mesma maneira. Ensina-se algum procedimento básico, distribuem-se algumas migalhas, só para constar. Mas o grosso mesmo, o cerne da questão, o coração do problema fica muito bem preservado.

Aviãozinho da alegria

É uma questão de bom-senso. Tecnologia de altíssimo padrão, conquistada a custo de dezenas de anos de pesquisa e de bilhões e bilhões de dólares (ou euros) de investimento, não será jamais dada assim, de mão beijada, só porque um cliente encomendou 36 aparelhos.

Você sabia?
O parlamento da pequena Suíça está em via de aprovar a compra de 22 caças Gripen de modelo equivalente. Não li nenhum reclamo sobre «transferência de tecnologia».Interligne 23

Se alguém quiser dar uma olhada na reação eufórica dos suecos e no muxoxo decepcionado dos franceses, clique aqui abaixo.

Aftonbladet, Suécia

Televisão sueca

SVD Näringsliv, Suécia

Le Monde, França

Les Echos, França

La Tribune, França

As duas faces da moeda

José Horta Manzano

Quem vive muito tempo num palácio cercado de mordomias acaba por desconectar-se da vida real. É mal de que sofrem ditadores, imperadores e todos os mandatários que permanecem por muito tempo no poder. A parede de cristal que os cerca permite-lhes ver as gentes, mas não os deixa ouvir suas reivindicações.

De pobre, ninguém quer saber ― a  sina deles é a solidão. O todo-poderoso, ao contrário, é cercado por uma legião de áulicos que se desdobram para tornar mais doce a vida do capo. Ao redor do chefe formam-se círculos filtrantes destinados a reter tudo o que puder azedar o humor do personagem central ou perturbar-lhe, seja de que modo for, a existência.

Aquele que passa anos sem ter de fazer esforço nem mesmo para abrir uma simples porta precisa de muita força e inteligência para continuar a se dar conta de que existe mundo além de suas paredes de cristal. Precisa de mais força ainda para se dar conta de que seus desejos não se transformam automaticamente em realidade.

Quando nosso antigo presidente, o Lula, fez o que podia e o que não devia para assegurar que o Brasil se tornasse sede do Campeonato de Futebol de 2014, certamente enxergou as vantagens, o lado bom. Mas, apesar dos dotes de inteligência política que lhe emprestam, foi incapaz de se dar conta de que, se um lado é bom, há sempre outro menos brilhante. Sua corte, se anteviu algum risco, há-de ter preferido calar-se.

Nosso guia viu oportunidade de bons ganhos para empreiteiros ― grandes financiadores de suas campanhas. Há-de ter vislumbrado ganho político certeiro. Talvez tenha até acreditado quando cortesãos e assessores lhe garantiram que tudo estaria pronto a tempo e a hora, que as obras seriam todas edificadas com um pé nas costas.

Mais que tudo, intuiu que seu nome ficaria gravado para todo o sempre como o benfeitor-mor da nação, aquele ser excepcional que teria permitido a nosso país atingir a glória maior do planeta: sediar uma Copa do Mundo de Futebol! Uma nova declinação do nunca antes nessepaiz. Afinal, 1950 já vai tão longe.

Toda moeda tem duas faces. O fato de o presidente taumaturgo só enxergar o lado que lhe convém não exclui a existência do lado mais sombrio da realidade nacional. Apesar de bolsas várias, a distância entre os mais abonados e os mais desafortunados não para de aumentar. A criminalidade, a incivilidade, a insegurança, a ignorância se alastram a cada dia.

Algumas excelências fazem de conta que essa face B do País simplesmente não existe. A população, quanto a ela, vive tão mergulhada na geleia geral que já não se dá mais conta do surrealismo da situação. No entanto…

by Guillermo Mordillo Menéndez, desenhista argentino

by Guillermo Mordillo Menéndez, desenhista argentino

… no entanto, uma Copa do Mundo, como seu nome indica, é do mundo, um evento planetário. Atrai atenção de gregos, troianos, persas e mongóis. A 6 meses do pontapé inicial, os holofotes do mundo começam a focalizar nosso País. Turistas e jornalistas estrangeiros, por viverem em meio diverso, têm, da realidade brasileira, visão diferente da nossa. Coisas que nem mais enxergamos saltam aos olhos de não habitués.

Semana passada, a rádio francesa de informação contínua France-Info dedicou uma série de reportagens ― uma por dia ― ao Brasil, em vista da Copa do ano que vem. Não se falou de tática futebolística, prognósticos nem sorteio de chaves. A série de programas procurou responder à pergunta: que país é aquele?

Falou-se justamente de tudo aquilo que a gente gostaria que fosse esquecido: arrastões, violência, estádios transformados em arena de gladiadores, número anual assustador de homicídios, tentativa de pacificação de favelas. A palavra arrastão não tem tradução em francês ― talvez não tenha em nenhuma outra língua. Assim, a reportagem gastou um minuto inteiro para explicar o que é e como funciona.

Na minha opinião pessoal, nosso guia ― bem-intencionado, mas mal informado e mal assessorado ― precipitou-se ao permitir que a Copa se realizasse no Brasil. Mais teria valido deixar esse evento para o futuro e investir essa dinheirama toda em infraestutura material (= estradas, pontes, viadutos, portos, metrôs, comunicações) e, principalmente, em infraestutura imaterial (= instrução pública, saúde, tecnologia).

Não seria garantia de glória imediata a nosso benfeitor. Pouco importa. A glória imediata é efêmera, enquanto a glória bem alicerçada é indelével.

Do Brasil para o mundo!

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil e da maioria dos países americanos, o papel da rádio-televisão estatal é secundário. No Brasil, especialmente, a radiodifusão pública resume-se a meia dúzia de estações de cunho eminentemente local.

Assim ficou definido desde que surgiram as primeiras emissões de rádio, pelo final dos anos 20. Na Europa, o Estado assumiu essa responsabilidade e, durante meio século, guardou o privilégio exclusivamente para si. Até os anos 70, praticamente não havia estações comerciais no continente. Nem de rádio, nem de televisão.

De uns 30 ou 40 anos para cá, a situação se afrouxou. Centenas de estações surgiram. Mas uma prática subsiste: a cobrança da taxa de rádio e tevê. De cada possuidor de aparelho de rádio ou de televisão é cobrada uma taxa anual. Na origem, esses recursos serviam para financiar os programas da rádio e da televisão públicas, dado que nenhuma publicidade era difundida.

Os tempos foram mudando, a publicidade foi-se insinuando aos poucos, mas a taxa continua de pé. Por quanto tempo ainda, não se sabe. Na verdade, o celular é hoje capaz de captar, via internet, programas de rádio e de tevê. No entanto, seus possuidores não são sujeitos à taxa de difusão. Como é que vai ficar no futuro? Quem viver verá.

Televisão ― o começo

Televisão ― o começo

Na Europa, o fato de as transmissões radiofônicas terem sido asseguradas durante meio século pelo Estado trouxe uma consequência desconhecida no Brasil. O Estado tornou-se responsável pelo alcance, pela qualidade e pela diversidade de suas emissões. A não necessidade de buscar recursos publicitários deu ensejo a uma diversificação de programas desconhecida na Terra de Santa Cruz. Alguns canais da televisão pública podem se permitir levar ao ar rodas literárias, debates filosóficos ou documentários científicos em horário nobre.

Outra consequência de a rádio e a televisão terem sido confiadas ao Estado foi a criação de canais especificamente voltados para projetar a imagem nacional além-fronteiras. Desde os tempos pré-históricos das ondas curtas, grandes países se esforçaram de propagar sua voz. Era o caso do Reino Unido, da antiga União Soviética, da França.

Hoje em dia, com uma simples parabólica ― às vezes até sem ela ― qualquer um pode acompanhar programas de rádio e televisão emitidos pelas empresas públicas dos grandes países e também de países médios e pequenos, como Portugal, Espanha, Suíça, Bulgária, Dinamarca, Itália, Áustria. Até países exóticos têm emissoras ― em diversas línguas ― que dão ao país uma importância que ele nem sempre tem. O exemplo maior é Al-Jazeera, do Catar.

O Brasil conta hoje com muitos cidadãos vivendo fora de suas fronteiras. Embora ninguém conheça o número exato de indivíduos, estimativas chegam a falar em 3 milhões. É um bocado de gente. Se uma organização estatal e forte antes não fazia falta, agora faz. Não há quem garanta aos expatriados a ligação rádio-televisiva com a terra natal.

Na Europa Central, nenhuma emissora de rádio brasileira está disponível por satélite. Quanto à televisão, apenas duas emissoras comerciais podem ser captadas. O pacote básico da tevê a cabo inclui uma estação brasileira de cunho religioso, daquelas que transmitem novelas entremeadas de proselitismo neopentecostal. A maior emissora de televisão brasileira também está disponível, mas… só para quem estiver disposto a pagar. Na Suíça, a assinatura sai por 42 dólares mensais, mais de 500 por ano (pra lá de 1100 reais). Precisa ser fanático por novela. Quanto ao rádio, nada ― nem de graça, nem pagando.

Organizações estatais de rádio e televisão

Organizações estatais de rádio e televisão

É pena que assim seja. Quem sabe um dia destes, lá em Brasília, alguém acorda. Acho difícil. Os brasileiros são pouco voltados para o exterior. Muitos imaginam que o mundo começa e termina dentro das fronteiras nacionais.

O Brasil conta com uma esquálida organização estatal de comunicação, é verdade. Mas toda tentativa de vitaminá-la tem esbarrado na confusão entre Estado e governo. Os brasileiros do exterior gostariam de sentir a presença da terra de origem. Dispensam autolouvação do governo de turno. Muito obrigado.

O defunto

José Horta Manzano

Não recebi procuração de Nelson Mandela nem de seus herdeiros. Não sou advogado de nenhum deles. Mas certas coisas que se leem aqui e ali têm alto poder irritante.

É do ser humano endeusar os que morreram. E não deixa de ser compreensível. Para os que gostavam do falecido, a perda exalta o sentimento de dor. Para os que detestavam o defunto, o sentimento só pode ser de alívio ― até que enfim, foi-se!

Estes últimos dias tenho visto circular textos carregados de rancor contra o antigo presidente da África do Sul. Há quem aponte sua proximidade com dirigentes autoritários, há quem mostre fotos dele ao lado de Fidel Castro, há quem diga que o homem, quando jovem, era mais violento que a peste.

Pode até ser. O fato de Mandela ter começado mal e terminado bem confere ao personagem mérito maior. Dizem que, de jovem, Buda tinha todos os defeitos que se possam encontrar num ser humano. O mesmo aconteceu com figuras às quais estamos mais acostumados, como alguns santos católicos ― Francisco de Assis, Paulo Apóstolo entre outros. Todos eles começaram mal e aprenderam com as próprias experiências.

Não há que esquecer que Mandela foi apartado dos viventes no começo dos anos 60, numa época em que o planeta vivia um momento muito especial. Guerra Fria, descolonização, revolução de iluminados cubanos ― foi esse o mundo que ele deixou. Passou quase 30 anos afastado, sem televisão, sem jornal, sem internet, sem telefone, com direito a escrever uma carta a cada 6 meses(!).

Seu grande mérito foi ter visão, qualidade infelizmente rara no mundo e praticamente inexistente na política brasileira. Sua inteligência política e seu senso do dever permitiram-lhe passar por cima de rancores e engolir o ódio. Encarnou a vitória da não vingança.

Nelson Mandela by Dimas Restivo, desenhista paulista

Nelson Mandela
by Dimaz Restivo, desenhista paulista

Esse, sim, foi um salvador da pátria. Dos países colonizados do continente africano, o seu é praticamente o único que evitou uma descolonização violenta. Até os anos 80, a expectativa era de que, no dia em que aquilo explodisse, correria um rio de sangue. Os pretos eram muitos, mas os brancos detinham as armas. A briga seria muito muito feia.

Pois Mandela ― sozinho! ― evitou tudo isso. Pouco importa que tenha cometido erros em sua longa vida. Quem não os cometeu? O que a História vai guardar é que ele é o responsável por ter conferido a seu país a viabilidade que ninguém imaginava ser possível. E é isso que conta.

Quiçá todos os falsos visionários que pululam por aí, especialmente em países mais atrasados como o nosso, tivessem realmente a inteligência e o desprendimento que Mandela mostrou.

Madiba tornou possível a impensável coabitação entre as diferentes etnias que compõem a colcha de retalhos implantada na extremidade sul do continente africano. Enquanto isso, no Brasil, nossos luminares estão fazendo o que podem e o que não devem para compartimentar a população dentro de cercadinhos artificiais.

Que falta nos faz a inteligência e a sensibilidade de um líder desse naipe!

Frase do dia — 56

«Os aeroportos brasileiros estão sendo “remendados” para lidar com o fluxo de torcedores na Copa do Mundo. Mas não darão conta da expansão do mercado doméstico brasileiro. As medidas não atendem às necessidades a longo prazo.»

Jamil Chade, ao citar apreciação feita pela IATA(*), in Estadão 12 dez° 2013

(*) IATA = International Air Transport Association, entidade formada por cerca de 240 companhias aéreas, que respondem por 84% do tráfego aéreo planetário.

Em estado de dúvida

José Horta Manzano

Estádio é estádio. Arena é arena. Picadeiro é picadeiro. Palco é palco. Palanque é palanque. Não viria à ideia de ninguém dizer que a peça de teatro será apresentada no picadeiro do teatro. Não seria concebível relatar que, para pronunciar seu discurso, o candidato subiu à arena. Ficaria ridículo contar que o jogo de vôlei teve lugar no palanque.

Picadeiro é termo ligado ao circo. Palco traz à mente o teatro. Palanque lembra imediatamente um comício político. Arena é expressão intimamente conectada a tourada, corrida de bigas, luta de gladiadores. Estádio é construção ― geralmente de grandes dimensões ― onde se praticam esportes atuais, entre os quais o futebol.

O povo brasileiro, sabe-se lá por que, sempre foi bastante permeável a modismos vindos do estrangeiro. Cem anos atrás, a linguagem era recheada de palavras e expressões francesas, a língua de cultura da época. Hoje é vez do inglês. Amanhã, só Deus sabe o que virá.

Há neologismos bem-vindos. Quando falta uma palavra em nosso vocabulário, por que não adotar aquela que já nos vem prontinha do exterior? Comprar feito é tããão mais fácil que inventar um similar nacional, não é mesmo? No entanto, há modismos que perturbam. Um deles, muito em voga atualmente, é o surpreendente e repentino abandono do tradicional termo estádio, substituído pelo bizarro arena.

Será que os brasileiros logo estarão dizendo que, domingo que vem, vão à arena assistir a um jogo? Pode ser, melhor não botar a mão no fogo. Os franceses são mais duros na queda. Naquele país, ninguém jamais em tempo algum conseguiria impor uma novidade desse calibre. Stade continua significando estádio. Arènes (que é normalmente usada no plural) é a palavra empregada para designar um campo de touradas.

Le Monde ― o jornal mais prestigioso da França, traz, em sua edição datada de 12 dez° 2013, artigo de Nicolas Bourcier sob o título Le Brésil au stade du doute. A expressão contém um jogo de palavras. Stade tanto significa estádio como estado (=situação). Portanto, tanto se pode traduzir por O Brasil em estado de dúvida, como por O Brasil no estádio da dúvida. Trocadilhos e brincadeiras com palavras são comuns na imprensa francesa.

O texto, naturalmente, tece considerações sobre a próxima Copa do Mundo e sua organização. Menciona o espetáculo horripilante que se viu recentemente num estádio de Joinville. Fala também do acidente que dizimou uma parte do estádio dito Itaquerão. Relata atraso na construção dos estádios de Curitiba, Manaus e Cuiabá. Para coroar, conta que a previsão de custo das construções esportivas teve aumento de um bilhão de reais de um ano para cá. Diz ainda que o total de investimentos em infraestrutura deve ultrapassar os 25 bilhões de reais. No finalzinho do escrito, fica no ar uma dúvida maliciosa sobre a serenidade do clima no qual ocorrerá o megaevento do ano que vem.

O artigo de página inteira está engalanado por vários desenhos humorísticos. Estão aqui abaixo.

Le Monde ― 12 dez° 2013 página inteira

Le Monde ― 12 dez° 2013
Artigo completo

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Le Monde ― 12 dez° 2013 O texto

Le Monde ― 12 dez° 2013
O texto

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Le Monde ― 12 dez° 2013 "Ainda bem que estão todos em frente à tevê!" by Mix & Remix, desenhista suíço

Le Monde ― 12 dez° 2013
“Não vejo a hora em que eles se sentem todos em frente à tevê!”
by Mix & Remix, desenhista suíço

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Le Monde ― 12 dez° 2013 by Payam Borumand, desenhista iraniano

Le Monde ― 12 dez° 2013
by Payam Borumand, desenhista iraniano

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by Boligan, desenhista mexicano

by Boligan, desenhista mexicano

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by Nicolas Vadot, desenhista franco-britânico

O custo da Copa 2014  –  by Nicolas Vadot, desenhista franco-britânico

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by Marcelo de Andrade, cartunista da Folha de São Paulo

by Marcelo de Andrade, cartunista da Folha de São Paulo

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Unidos venceremos!

José Horta Manzano

Hoje teve lugar, no imenso estádio de Johannesburg, cerimônia de adeus a Nelson Mandela. Viram-se e ouviram-se acontecimentos espantosos.

Obama e Castro (o segundo) roubaram a cena com seu histórico aperto de mãos. Obama recebeu uma ovação da assistência ― dezenas de milhares de pessoas. Não passaram despercebidas as vaias com que essas mesmas pessoas receberam Jacob Zuma, atual presidente do país. Visita de presidente a estádio anda se tornando um exercício arriscado…

Cinco presidentes Foto: Roberto Stuckert F°

Cinco presidentes
Foto: Roberto Stuckert F°

Alguns notaram a falta de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel. Ele disse que não iria para não gastar dinheiro do país. Como pretexto, soou meio capenga. Dizem os analistas que, na verdade, o homem estava com receio de ser acolhido por uma salva de apupos. Muitos hão de se lembrar que, nos tempos duros em que vigorava o apartheid na África do Sul, Israel foi um dos raros e constantes parceiros econômicos do país.

Dona Dilma e sua corte tiveram a excelente ideia de convidar os quatro antigos presidentes do Brasil para acompanhá-los na viagem. E, naturalmente, deram-lhes carona no Airbus presidencial. A equipe de Obama procedeu de maneira análoga. Levaram todos os que ainda estão em condições de viajar ― faltou Bush pai que, aos 89 anos, talvez tenha dificuldade em se locomover. As imagens da chegada do avião a Johannesburg mostraram Obama e Bush filho descendo do mesmo aparelho. É de crer que todos tenham viajado juntos.

by Alberto Alpino F°, desenhista capixaba

by Alberto Alpino F°, desenhista capixaba

Quem acompanhou a transmissão ao vivo talvez tenha percebido Monsieur Hollande e Monsieur Sarkozy, o atual presidente da França e seu predecessor, sentados lado a lado na tribuna reservada às autoridades.

O que pouca gente fora da França ficou sabendo é que o presidente atual convidou, sim, seu antecessor. Mas com uma condição: que viajassem em aviões separados. É voz corrente que os dois se odeiam. Resultado: os mandachuvas franceses precisaram de três aviões ― um para o presidente, mais um para o ex-presidente e um terceiro sobressalente, aquele estepe que se costuma levar.

Quando a imprensa francesa botou a boca no trombone para anunciar ao povo esse desperdício de dinheiro público, chegou a explicação. É que, na volta, o presidente atual tinha previsto uma parada na República Centro-Africana, onde o pau anda comendo tão feio que tropas francesas estão lá para acalmar os ânimos.

Sarkozy e Hollande em Johannesburg

Sarkozy e Hollande em Johannesburg

O pretexto pareceu mal costurado. Poderiam ter viajado juntos e dado ao distinto público uma imagem mais civilizada. Para organizar a volta, sempre se encontraria um jeito.

É raro, mas acontece: as altas personagens brasileiras, desta vez, se comportaram mais civilizadamente que as francesas. Que fique aqui consignada minha admiração.

Conheceu, papudo?

José Horta Manzano

Foguete chinês

Foguete chinês

Herton Escobar nos anuncia, em seu blogue alojado no Estadão, que um lançamento de satélite brasileiro fracassou. Tratava-se de projeto desenvolvido em conjunto com a China. O veículo espacial foi lançado esta segunda-feira do Centro Espacial de Taiyuan, naquele país. Diferentemente dos fogos Caramuru, o lançamento deu chabu. Tudo indica que o tempo, o esforço, o dinheiro foram desperdiçados. E a credibilidade levou um golpe.

Mais quelle idée! ― diriam os franceses. Que ideia mais maluca essa de se associar a chineses para esse tipo de aventura. Ideologia pode ter sua utilidade num palanque, mas, na hora de gastar nosso dinheiro, nossos mandachuvas deveriam ser mais escrupulosos. Duzentos e setenta milhões de reais! Como é bom ser irresponsável com o dinheiro alheio…

Até os parafusos que mantêm unidas as placas da fuselagem de qualquer nave espacial sabem que os chineses não são detentores de tecnologia de ponta em matéria de exploração espacial. Nem os indianos, nem os brasileiros, nem os sudaneses. Os três grandes são os EUA, a Rússia e a França. Países importantes como Alemanha, Itália, Canadá, quando têm de lançar seus satélites, recorrem a um dos grandes. Não vão arriscar seu dinheiro com principiantes.

Por que essa reticência brasileira em recorrer a quem tem conhecimento no ramo? Se foi por economia, aprenderam ― com nosso dinheiro! ― que o barato sai caro. (Nossos avós já sabiam disso.)

Foguete chinês

Foguete chinês

Talvez tenha sido por medo de que americanos, russos ou franceses pudessem inserir no satélite um cavalo de troia para coletar informações sensíveis. E quem é que garante que os chineses não terão feito igualzinho?

Quem quer serviço benfeito procura o melhor fornecedor. Considerando que o atual governo brasileiro está a anos-luz de qualquer afinidade ideológica com o governo chinês, a razão para terem escolhido um fornecedor de segunda categoria terá sido demonstrar uma certa soberba. Foi para mostrar aos loiros de olhos azuis que não precisamos deles, dado que os de zoinhos puxados nos dão uma força. Conheceu, papudo?

Não deu certo.

O castelhano ― uma língua multipolar

Alberto José Miyara (*)

«O castelhano é a única língua multipolar do mundo. Idiomas como francês e alemão são monopolares: sabe-se que seus destinos se determinam na França e na Alemanha. A Suíça, a Bélgica, a Áustria ou o Québec são bem-vindos para engordar o número de falantes, mas, na hora das definições, têm direito a uma atenção meramente protocolar.

O inglês e o português são bipolares. A Inglaterra e Portugal, por serem o berço de cada uma dessas línguas, exercem, na hora das decisões, peso bem maior do que poderia sugerir a relativa importância de suas economias diante dos Estados Unidos e do Brasil. (O Canadá ou a Austrália ficam fora de toda negociação, assim como Angola e Moçambique.) O resultado é que os países que constituem essa bipolaridade nem sempre chegam a um acordo, o que se reflete nas ortografias irritantemente distintas entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos e entre Portugal e o Brasil.

Mas em castelhano as coisas são diferentes. (…)»

Para ler o texto integral (em espanhol), clique aqui.

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(*) Alberto José Miyara é poeta, escritor e engenheiro argentino. O excerto reproduzido acima aparece na introdução de seu interessantíssimo Diccionario Argentino-Español.
Sua obra poderia ser comparada, por exemplo, a um glossário do falar brasileiro destinado a leitores portugueses.

Bilhete Único

José Horta Manzano

Você sabia?

Confesso que não sabia o que era Bilhete Único. Já devo ter lido, aqui e ali, essa expressão ― nova para mim ―, mas nunca lhe dei grande atenção.

Ao ler um texto de Elio Gáspari, publicado na Folha de São Paulo, entendi. Na cidade de São Paulo, Bilhete Único é o nome que se dá ao documento que prova que o usuário do transporte público já pagou adiantado o valor devido para um mês inteiro. É o que se poderia chamar assinatura mensal. Escolheram esse nome ― não vamos reclamar.

Ônibus urbano como suporte publicitário

Ônibus urbano como suporte publicitário

Gáspari explica que a assinatura custa 140 reais por mês. Diz também que 65% dos viajantes ganham até 1147 reais. Na falta de outro dado, tomemos esses 1147 como salário médio dos usuários. Portanto, o transporte representa 12,2% do salário de cada um. É uma pedrada!

Vamos ousar comparar com o que acontece na Suíça. A assinatura mensal que permite utilizar todas as linhas de ônibus da cidade de Genebra ― segunda aglomeração do país ― custa 73 francos(1). Para estudantes é mais barato, mas vamos ficar com esse número mesmo.

Segundo as estatísticas disponíveis, o salário mediano(2) ― considerando todas as idades e todas as profissões ― é de 5979 francos. É fácil fazer as contas. A assinatura mensal do transporte público genebrino equivale a 1,2% do salário médio.

Portanto, um usuário paulistano tem de desembolsar proporcionalmente dez vezes mais(!) que um suíço para o transporte urbano.

Alguém vê alguma distorção?

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(1) Ao câmbio atual, equivale a aproximadamente 200 reais.
(2) Significa que 50% dos assalariados ganham mais que isso, enquanto 50% ganham menos.

Grande homem

José Horta Manzano

Grandes personalidades têm sua nota de falecimento preparada com antecedência. Pode parecer tétrico, mas assim é. Com mais razão ainda quando o personagem vai atingindo idade avançada.

Já em 2007, Bill Keller, do New York Times, começou a escrever o elogio fúnebre de Nelson Mandela, cujo vigor físico declinava.

Em entrevista com o ancião, o jornalista perguntou como era possível, depois de atravessar uma vida de sofrimento tão brutal, que ele conseguisse reprimir seu ódio. A resposta do velho sábio foi desconcertante:

«O ódio obscurece a mente. Atravanca a estratégia. É um sentimento pelo qual os líderes não podem se deixar dominar.»

Coincidência

José Horta Manzano

No mesmo dia em que nosso inoxidável ex-presidente recebia, pela enésima vez, um «diploma» honoris causa, saiu a classificação das universidades dos chamados países emergentes.

O discurso pronunciado pelo antigo presidente na ocasião da outorga da honraria põe, como de costume, a ênfase na quantidade de estabelecimentos de ensino. São relatos estatísticos do tipo «meu governo fez mais que o seu» ou «nunca antes nessepaiz alguém tinha inaugurado tantas escolas como eu». Sobre a qualidade desses estabelecimentos ― tanto dos existentes, quanto dos recentemente criados ― nem um pio.

O "doutor" Crédito: Jorge Araújo, Folhapress

O “doutor”
Crédito: Jorge Araújo, Folhapress

Pois o grupo THE (Times Higher Education) cuidou de ir mais longe. Comparou a excelência dos melhores estabelecimentos de ensino superior dos maiores países do Terceiro Mundo. São 21 países no total, entre os quais, naturalmente, o nosso. O resultado demonstra que a quantidade não substitui a qualidade.

A USP, de longe a melhor universidade brasileira, aparece em 11° lugar, atrás de estabelecimentos chineses, turcos, sul-africanos e russos. Diga-se, en passant, que a Universidade de São Paulo foi criada nos anos 30, quase cinquenta anos antes da fundação do partido ao qual pertence nosso ex-presidente taumaturgo. Falsa será, portanto, toda veleidade de algum vivente de declarar-se pai da criança.

Para resumir, entre as 100 melhores universidades dos 21 países mais adiantados do Terceiro Mundo, somente 4 (quatro!) são brasileiras. A China sozinha (continental + Taiwan) abriga 44 das 100 melhores. Até a Tailândia e a Turquia têm mais estabelecimentos que o Brasil na lista dos 100 melhores.

by Diego Novaes, desenhista carioca

by Diego Novaes, desenhista carioca

Assim como a enxurrada de «diplomas» honoris causa não engorda a erudição de nosso guia, as escolas ditas superiores criadas recentemente exibem qualidade inferior à média dos países comparáveis. Quanto às melhores do mundo, nenhuma comparação é possível. Melhor esquecer.

Escolas medíocres não contribuem para a erudição do estudante brasileiro. Ele quer e merece mais que isso.

Mas que calô, ô ô ô!

José Horta Manzano

Como a maioria dos esportes, o futebol foi inventado pelos ingleses. Mesmo na Inglaterra, correr uma hora e meia atrás de uma bola não é para qualquer um. Precisa ser jovem e estar bem-disposto.

É esporte feito sob medida para o clima britânico, sempre fresquinho. Campo nevado impede que se jogue. Calor acima dos 25 graus começa a representar empecilho para quem tem de despender tanto esforço. As Ilhas Britânicas, assim como grande parte da Europa, passam 300 dias por ano sem neve e com temperaturas abaixo dos 25 graus. Ideal.

Desde fins do século XIX, o futebol foi transplantado para terras tropicais. Não é seu habitat natural. Aliás, se prestarmos bastante atenção, constataremos que o Brasil é o único país situado na faixa intertropical onde esse esporte é popular. Em nossa faixa climática, nenhum outro país ou território se destaca na prática do futebol. Nem na África, nem na Ásia, nem na Oceânia.

Esporte basicamente europeu, é surpreendente que ele se tenha popularizado tanto em terras tupiniquins. É quase um milagre que essa prática esportiva tenha plantado raízes em nosso solo. Para usar expressão em voga atualmente, deve ser um ponto fora da curva.

Futebol

Futebol

Pois bem, o próximo campeonato mundial de futebol vai-se realizar no Brasil. Deixemos de lado toda consideração política ou econômica. Vamos levar em conta unicamente o fator climático. A coisa está esquentando ― no sentido próprio e no figurado.

Equipes estrangeiras, principalmente as que já experimentaram o bafo equatorial de algumas sedes, mostram-se preocupadas. Argumentam que, se é impossível mudar o clima do País, que se busque pelo menos marcar as disputas para horas em que o termômetro seja mais camarada.

A Fifa, no entanto, baté pé firme. Insiste em manter certos encontros sob sol meridiano em lugares como Fortaleza, Recife, Salvador. Uma crueldade. E por que essa recusa de adaptar horários ao clima? Pelas mesmas razões pelas quais, faz anos, o governo brasileiro cometeu o desatino de eliminar um dos fusos horários do País: a pressão do lobby televisivo.

O grosso dos telespectadores está na Europa. No mês de junho, quando em Brasília são 20h ou 21h, na Europa já é madrugada. Muita gente já foi dormir, há menos espectadores, a receita publicitária míngua, o interesse se desmilíngue. Está aí a razão. A Fifa, como sabemos todos, é uma organização estranha, secreta, altamente suspeita de corrupção, riquíssima e poderosíssima. Portanto, abandonem qualquer esperança de mudança. Os jogos previstos para a uma da tarde não serão desmarcados.

Isso não é nada perto do que espera os astros da pelota em 2022, quando a Copa terá lugar no Catar. No mês de junho, aprazíveis 48° à sombra. Alguém se habilita?

Casa própria

José Horta Manzano

Você sabia?

Dos países europeus, a Suíça é aquele que conta, proporcionalmente, com o maior número de inquilinos. Em outras palavras, de cada três habitantes, apenas um mora em casa própria.

Isso vem de longe. A exiguidade do território e o preço relativamente elevado dos terrenos explicam em parte o problema. O fato de os aluguéis serem aqui rigidamente enquadrados e controlados completa a explicação. Morar de aluguel é considerado financeiramente vantajoso.

Neste país, os inquilinos têm muitos direitos. Limitado por regras rígidas, todo aumento de aluguel é problemático. O proprietário não cobra o que quer, mas apenas o que lhe for permitido. As associações de defesa dos locatários são poderosas.

O quadro abaixo compara a situação suíça com a de alguns países da região. É interessante notar as enormes disparidades.

Interligne 23

País            % de proprietários        financiamento quitado

Suiça                36.8%                       0%

Itália                76%                       63%

França                58%                       34%

Áustria               52%                       31%

Alemanha              45%                       27%

Europa oriental       80% aprox.             de 0% a 9%

Europa do Sul       de 68% a 78%                65%

A trilha dos toblerones

José Horta Manzano

Você sabia?

Bunker disfarçado de chalé de madeira

Bunker disfarçado de chalé de madeira

Os suíços sentem muito orgulho por não terem tido o país invadido por tropas alemãs nem italianas na Segunda Guerra Mundial. É realmente surpreendente que a pequena Suíça ― cercada por Alemanha, Itália, Áustria (anexada pela Alemanha) e França (ocupada por tropas de Berlim) ― não tenha sido engolida, com casca e tudo, pelos exércitos do Eixo. A maioria do povo atribui essa não intervenção à força de dissuasão representada pelo poderio militar suíço.

Toblerone de verdade

Toblerone de verdade

Há quem sorria ao ouvir essa explicação. Seja como for, tanto Berlim quanto Roma sabiam que seria bastante complicado dominar e ocupar um território montanhoso como este. Sabiam também que os suíços estavam muito bem armados e equipados, além de serem conhecidos como combatentes aguerridos.

Hitler e Mussolini devem ter feito a conta duas vezes. Chegaram à conclusão de que não valia a pena perder tempo, dinheiro, esforço e vidas humanas para conquistar um território pouco industrializado e totalmente desprovido de riqueza mineral. De qualquer maneira, não saberemos nunca o que realmente passou pela cabeça dos dois ditadores.

Linha dos toblerones

Linha dos toblerones

Eu acrescentaria mais uma razão. Numa Europa conflagrada, interessava a todos respeitar a neutralidade de um pequeno território, situado bem no centro geográfico do conflito. Era um lugar seguro, de onde não se imaginava poder vir nenhuma ameaça. Mais que isso, era um lugar onde todos podiam guardar, na confiança, seus dinheiros, suas obras de arte, seus objetos de valor. Mais ainda: um lugar onde se podiam organizar eventuais encontros secretos e manter conversações discretas e confidenciais. Todas essas razões hão de ter contribuído para que o país fosse poupado.

Isso hoje é História. Como diz o outro, «depois do fato consumado, é fácil ser profeta». Difícil mesmo é adivinhar o que está por ocorrer. No final dos anos 30, um bafo de guerra soprava no continente, mas ninguém sabia de que lado nem com que força chegaria a tempestade. As autoridades suíças não podiam cruzar os braços e apenas torcer para que o país não fosse invadido. Todos tinham de estar prontos para repelir tropas inimigas.

Linha dos toblerones

Linha dos toblerones – hoje utilizada como trilha para caminhada a pé

A inteligência militar planejou um sistema de defesa. A referência mais próxima era a Primeira Guerra, durante a qual os ataques se faziam por via terrestre, com tanques e blindados. Foi pensando nisso que bolaram o sistema defensivo suíço, basicamente terrestre àquela época. Incluía numerosos pontos, alguns dos quais são hoje conhecidos do grande público, enquanto outros ficarão secretos para sempre. Talvez seja melhor assim.

Todas as pontes do país estavam minadas. Ao menor sinal, as vias de comunicação seriam interrompidas, o que dificultaria tremendamente o avanço de tropas inimigas. A região de Genebra, fronteiriça com a França, trazia um problema espinhoso para os militares. Por ser constituída de terrenos planos e pela ausência de rios, foi considerada indefensável. Tomou-se a decisão tática de dar a cidade como perdida e implantar o sistema de defesa uns 30km mais para o interior do país.

Villa Rose Fortaleza disfarçada de casa de campo

Villa Rose
Fortaleza disfarçada de casa de campo

Construíram-se fortalezas com aparência de casas de campo. Foram levantados bunkers com aspecto externo de inofensivos chalés de madeira. Instalaram-se discretos postos de observação em pontos mais elevados ― naqueles tempos não havia street view nem espionagem por satélite. Para completar, uma verdadeira obra de arte defensiva foi construída, uma versão helvética da muralha da China. Ficou conhecida popularmente como Ligne des toblerones, a linha dos toblerones.

O que era e por que lhe deram esse nome?
Era ― e ainda é ― uma linha de 10km de blocos de concreto para barrar a passagem de tanques de guerra. São quase 3000 monstros de 9 toneladas cada um. Têm forma peculiar de tetraedro que lembra um pedaço de chocolate Toblerone, daí o apelido.

Não se tem notícia de que nenhum tanque tenha jamais tentado superar o obstáculo. Mas os toblerones continuam lá até hoje. Viraram atração turística. Trilhas próprias para caminhadas a pé serpenteiam por quilômetros ao longo da barreira de concreto. É hoje o Sentier des Toblerones, a Trilha dos Toblerones.

Villa Rose Janela com cortina falsa

Detalhe da Villa Rose
Janela com cortina falsa

Taí uma obra militar que soube envelhecer. Em escrupuloso respeito ao espírito atual, não foi atirada a um lixão mas acabou reciclada.

Sinal de importância

José Horta Manzano

Ai, ai, ai, dona Dilma deve estar morrendo de inveja. Segundo o site alemão de notícias Focus online, Angela Merkel teve seu telefone celular grampeado pelos serviços secretos de pelo menos 5 países. A informação foi repercutida por numerosos sites informativos, entre os quais Market Watch, braço de The Wall Street Journal.

Cinco países! Isso é que é prestígio(*). Pelas informações que o site publicou em 24 de novembro, os EUA, a Rússia, a China, o Reino Unido e até a enigmática Coreia do Norte andaram bisbilhotando as conversas da Bundeskanzlerin, a chefe do governo alemão.

Frau Angela Merkel

Frau Angela Merkel

Nossa presidente deve estar-se sentindo desconsiderada. Um único e solitário país apareceu no radar da contraespionagem tupiniquim. E, assim mesmo, porque um certo senhor Snowden andou delatando. Se assim não fosse, nosso radar estaria mostrando céu sereno.

Se o esperneio, o dinheiro e o esforço que nosso governo costuma despender para forjar uma imagem de Brasil-potência fossem utilizados de maneira mais judiciosa, nosso país estaria no bom caminho para escapar de sua condição de nação periférica.

Infelizmente, nossos mandachuvas ainda não entenderam que a construção de uma casa tem de começar pelos alicerces, não pelo telhado. Saco vazio não para em pé. Investir em infraestrutura e instrução pública é o único caminho. Fora daí, não há salvação, gostem ou não gostem.

(*) Compreendo mal o porquê de a imprensa, ao fazer esses anúncios, conjugar o verbo no passado. «Foi espionado», «espionaram» e que tais. Como assim? Acabou? Espionagem internacional é página virada? Como diz o outro: «me engana, que eu gosto».

A Questão Jurassiana: o enterro

José Horta Manzano

Para entender este artigo, convém dar antes uma espiadela no texto que publiquei duas semanas atrás. Está aqui. O de hoje é continuação e epílogo.

As urnas falaram. E a fala foi clara. Cerca de oitenta porcento dos eleitores compareceram para votar ― porcentagem gigantesca para os padrões helvéticos. Gritaram alto e bom som que estão felizes com o statu quo.

Os distritos jurassianos que já haviam dito não em 1974 persistem. Preferem continuar sendo minoria de língua francesa mergulhada num oceano germanofônico. E não passou raspando, não. Por ampla maioria de 72% dos votos, o povo confirmou seu desejo de continuar pertencendo ao Cantão de Berna. Três cidadão em cada quatro!

Montes Jura Crédito: Fond-ecran-image.com

Paisagem de outono nas margens de um lago dos Montes Jura
Crédito: Fond-ecran-image.com

Pensando bem, não estão assim tão errados. A situação daquela minoria está longe de ser desagradável. Mantêm o princípio dito da «territorialidade linguística». Trocado em miúdos, quer dizer que, na região onde reside a minoria francofônica, o francês é língua oficial. A escola pública dá aulas em francês, a sinalização pública também é escrita nessa língua. Papéis oficiais são escritos nas duas línguas, e todo cidadão que se queira dirigir a uma instância qualquer da administração pública poderá fazê-lo indiferentemente em alemão ou em francês.

E tem mais: apesar de representarem apenas 8% da população do cantão de Berna, os francófonos preenchem atualmente 10% das vagas no parlamento cantonal. No executivo ― que é colegial, constituído por um grupo de 7 pessoas ― os distritos francófonos têm a garantia de disporem sempre de pelo menos um representante. Não há por que sentir-se abandonado nem oprimido. Muito pelo contrário.

O voto deste 24 de novembro enterrou a Questão Jurassiana. Imagino que, por uns 20 anos, não se volte ao assunto.

A quem beneficiou o crime?

José Horta Manzano

Interligne vertical 10.

«Kennedy est un livre ouvert où l’on peut mettre ce qu’on veut»

Kennedy é um livro aberto onde cada um pode pôr o que quiser

Thomas Snegaroff, historiador francês

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Assassinado aos 46 anos, John F. Kennedy deixou de herança a aura de charme que circunda os que morrem na flor da idade. São aqueles que ninguém jamais verá envelhecer. Pertence à casta que inclui Noel Rosa, Che Guevara, Elis Regina, Marilyn Monroe, Eva Perón, James Dean. São gente que pagou com a vida o preço da preservação da eterna juventude na memória coletiva.

Passados cinquenta anos daquele ensolarado e trágico meio-dia texano, muitas perguntas ainda vagam sem resposta. Essas dúvidas não serão provavelmente jamais esclarecidas. Faz parte do fascínio do sorridente presidente.

Centenas de livros já foram escritos sobre o assunto. Dezenas de teorias ― umas plausíveis, outras fantasistas ― têm sido propostas. Há quem garanta que foi obra da máfia. Outros juram que só pode ter sido o FBI do temido Edgar Hoover. Outros ainda enxergam o dedo de Fidel Castro e de seus amigos soviéticos. Até extraterrestres já foram cogitados. Há até mesmo quem acredite ― não são muitos ― na tese oficial, que aponta um assassino individual.

Dallas, 22 nov° 1963

Dallas, 22 nov° 1963

Valéry Giscard d’Estaing foi presidente da França há quase 40 anos, na época em que Gerald Ford era inquilino da Casa Branca, em Washington. Durante uma visita que fez aos EUA, Giscard aproveitou um dos raros momentos em que os dois estiveram a sós para pedir ao presidente americano detalhes sobre as conclusões da Comissão Warren.

A Comissão Warren foi criada por decreto do presidente Lyndon Johnson, sucessor de Kennedy, uma semana depois do assassinato. Sua finalidade era justamente lançar luz sobre os comos e os porquês do evento dramático. Os componentes da comissão eram seis: dois deputados (um democrata e um republicano), dois senadores (um democrata e um republicano), um antigo diretor da CIA, um diplomata e antigo presidente do Banco Mundial. Eram assessorados por um jurista. John Ford, deputado republicano em novembro de 1963, era um dos seis integrantes. Daí a pergunta do presidente francês.

Em entrevista concedida ontem, um Giscard ainda lúcido e vivaz ― aos 87 anos de idade ― confiou que, segundo o relato que ouviu de Ford 40 anos atrás, as conclusões a que chegaram os membros da Comissão Warren não foram satisfatórias. Na realidade, as investigações indicavam que, longe de ser isolado, o crime era o resultado de um complô bem organizado. Cada um dos investigadores guardou a íntima convicção de que o atentado havia sido planejado e executado por alguma entidade. Mas… qual? Na ausência de provas, a comissão resignou-se a encampar a tese de um desequilibrado atirador solitário. Todos assinaram embaixo. Tentaram tranquilizar a opinião pública e pôr um ponto final naquele trauma.

Desde o dia em que ouviu as confidências de Gerald Ford, Valéry Giscard d’Estaing guarda a certeza de que John Kennedy foi vítima de um complô. Os mandantes já hão de estar todos mortos. Quem sabe um dia saberemos quem eram. Ou não.

Lá também, quem diria, como cá

José Horta Manzano

Em dezembro do ano passado, publiquei uma postagem sobre o autoexílio do astro de teatro e cinema Gérard Depardieu. A intenção era dar-lhes uma ideia da voracidade do fisco francês. O nível de imposição na França está atingindo píncaros. O povo se sente espoliado, exatamente como em terras tupiniquins. Não se passa um mês sem que surja um novo imposto.

Não é à toa que a popularidade de Monsieur Hollande, o presidente da República, desceu a 20%, o nível mais baixo já registrado desde que esse índice é aferido. Tanto no caso francês quanto no brasileiro, essas coisas não acontecem da noite pro dia. Anos de má governança levaram a essa situação.

Há também um problema filosófico por detrás. Dependendo da cultura e das tradições de cada país, o olhar que se lança sobre o enriquecimento individual pode variar. Em países de cultura anglo-saxônica, a riqueza pessoal é valorizada. O cidadão que «chegou lá» se orgulha disso e faz questão de que todos saibam. Já no universo latino, fortunas pessoais são vistas com certa desconfiança. Melhor esconder, que não é de bom-tom alardear seu próprio sucesso.

De onde virá essa tendência? Decorrerá do protestantismo de uns oposto ao catolicismo de outros? Se assim fosse, como explicar que no mundo árabe, na China e no Extremo Oriente não exista esse pudor cercando o enriquecimento pessoal? É uma vasta questão. Convém deixar o debate para especialistas.

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Estes dias circula na internet uma frase de Gerard Depardieu, aquele que se mudou para a Bélgica para fugir aos impostos confiscatórios franceses. Ela vai logo aqui abaixo. Não estivesse assinada pelo conhecido ator, bem que poderia aplicar-se a um país muito conhecido nosso. Você deve imaginar qual é.

Gérard Depardieu 3

A frase é de Depardieu. A tradução fica por minha conta.

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Interligne vertical 12«Aqueles que, como os senhores Hollande, Ayrault, Sapin(1) e tantos outros, são sustentados pelo dinheiro público do nascimento até a morte,

aqueles que são praticamente dispensados de pagar encargos sociais,

aqueles que gozam de um sistema de aposentadoria reservado à sua categoria,

aqueles que têm direito de fazer investimentos financeiros sem pagar imposto,

aqueles que jamais investiram um centavo numa empresa, mas aplicaram tudo em residências de férias

devem, no mínimo, ter a honestidade de jamais pronunciar a palavra Igualdade(2).

Tampouco devem exigir dos outros, ainda que esses outros tenham enriquecido, solidariedade maior do que a que se impõem a si mesmos.»

(1) Respectivamente: presidente da República Francesa, Primeiro-Ministro e Ministro do Trabalho.
(2) Igualdade é a segunda palavra da divisa nacional: Liberté, Égalité, Fraternité