O imaginário europeu

Luiz F. Zanin Oricchio (*)

De certa forma, o Brasil repete a mitologia e a nega. O imaginário europeu consagrou o País como uma espécie de paraíso na Terra. “Em se plantando tudo dá”, garantiu o primeiro cronista, Pero Vaz de Caminha, encantado com a fertilidade do solo e com a beleza sem pudor dos habitantes originários.

Praia 3A fama se firmou ao longo dos séculos. Aquele era um país pobre, cheio de problemas, mas também povoado por gente feliz e acolhedora, praias maravilhosas, florestas a perder de vista, rios imensos de água pura. Livre do frio e de calores extremos, sem terremotos, sem vulcões, sem grandes conflitos. Um país de povo criativo, músicos geniais, e que celebram a festa coletiva do Carnaval como nenhum outro.

Alguns estrangeiros ainda pensam assim. Nós não pensamos mais. Já fazia algum tempo, aliás. Mas 2016 foi o ano da queda definitiva do mito do Homo Brasilis.

(*) Luiz F. Zanin Oricchio é jornalista. O texto reproduzido é trecho de artigo publicado no Estadão, 31 dez° 2016.

Com olhos estrangeiros

José Horta Manzano

A cidade de São Paulo, um dos primeiros núcleos de povoamento estabelecidos pelos portugueses no Brasil, completou 460 anos este 25 de janeiro.

A Folha de São Paulo teve a boa ideia de entrevistar nove estrangeiros que lá vivem e de pedir-lhes suas impressões sobre a cidade. É interessante notar que olhos forasteiros enxergam o que autóctones já não notam mais.

Aqui vai um florilégio de fragmentos das entrevistas. Vale para todo o Brasil.

Bandeira chorando

Do lado negativo:

1) As pessoas falam muito alto, ouvem música alta e buzinam em túneis.

2) As crianças fazem o que querem aqui. Parece que os pais brasileiros têm problema em dizer não a seus filhos.

3) Quando recebo tailandeses, aviso que eles têm de tirar suas joias. Eles não entendem como é realmente perigoso.

4) A burocracia do meu país é bem louca, mas o Brasil fica em primeiro lugar. Tenho a impressão de ser o Asterix realizando um dos seus 12 trabalhos quando preciso de qualquer serviço administrativo.

5) Comer de maneira saudável é coisa de rico aqui.

6) O fato de as crianças fazerem bagunça me choca. Nos ônibus, é comum ver as mães em pé e as crianças sentadas nos lugares preferenciais.

7) Não é possível sobreviver no Brasil sem um CPF. Não dá para ter nem um número de celular sem isso.

8) Em São Paulo existem muitas invasões de prédios. Nunca tinha visto isso.

9) A educação nas escolas é ruim e os brasileiros não sabem dos direitos que têm.

10) No meu país, há uma guerra declarada. Aqui ela parece que acontece escondida.

11) Aqui as pessoas não respeitam fila. É normal ver alguém passando à frente e ninguém falar nada.

Bandeira sorrindo

Como toda moeda tem dois lados, aqui vai o positivo:

1) Aqui as pessoas se ajudam. Dão informações na rua ou no metrô, seguram sua bolsa no vagão e ajudam a carregar a mala.

2) O serviço nos restaurantes de São Paulo é excelente. Nunca vi tantos garçons gentis e sorridentes.

3) Os brasileiros adoram tomar banho.

4) Qualquer lugar no Brasil tem uma fila preferencial. As pessoas são muito atentas e educadas, sempre deixando passar à frente ou oferecendo um assento no metrô para quem está com um bebê no colo.

5) Aqui há muitas oportunidades de trabalho e de crescer na vida.

6) No futebol, as pessoas não se importam só com o seu time. Se há um jogo, elas sentam e assistem à partida inteira.

7) Dá para pagar com cartão de crédito ou de débito até em uma ilha.

8) Aqui existem sobremesas. Na África, comemos frutas.

9) O Brasil é mais bonito do que nos documentários, que só mostram a parte ruim do país.

10) No Brasil, a mulher participa das decisões da família. Na África, ela tem de ser só bonita e calada.

11) Aqui você aprende a respeitar as diferenças.

As duas faces da moeda

José Horta Manzano

Quem vive muito tempo num palácio cercado de mordomias acaba por desconectar-se da vida real. É mal de que sofrem ditadores, imperadores e todos os mandatários que permanecem por muito tempo no poder. A parede de cristal que os cerca permite-lhes ver as gentes, mas não os deixa ouvir suas reivindicações.

De pobre, ninguém quer saber ― a  sina deles é a solidão. O todo-poderoso, ao contrário, é cercado por uma legião de áulicos que se desdobram para tornar mais doce a vida do capo. Ao redor do chefe formam-se círculos filtrantes destinados a reter tudo o que puder azedar o humor do personagem central ou perturbar-lhe, seja de que modo for, a existência.

Aquele que passa anos sem ter de fazer esforço nem mesmo para abrir uma simples porta precisa de muita força e inteligência para continuar a se dar conta de que existe mundo além de suas paredes de cristal. Precisa de mais força ainda para se dar conta de que seus desejos não se transformam automaticamente em realidade.

Quando nosso antigo presidente, o Lula, fez o que podia e o que não devia para assegurar que o Brasil se tornasse sede do Campeonato de Futebol de 2014, certamente enxergou as vantagens, o lado bom. Mas, apesar dos dotes de inteligência política que lhe emprestam, foi incapaz de se dar conta de que, se um lado é bom, há sempre outro menos brilhante. Sua corte, se anteviu algum risco, há-de ter preferido calar-se.

Nosso guia viu oportunidade de bons ganhos para empreiteiros ― grandes financiadores de suas campanhas. Há-de ter vislumbrado ganho político certeiro. Talvez tenha até acreditado quando cortesãos e assessores lhe garantiram que tudo estaria pronto a tempo e a hora, que as obras seriam todas edificadas com um pé nas costas.

Mais que tudo, intuiu que seu nome ficaria gravado para todo o sempre como o benfeitor-mor da nação, aquele ser excepcional que teria permitido a nosso país atingir a glória maior do planeta: sediar uma Copa do Mundo de Futebol! Uma nova declinação do nunca antes nessepaiz. Afinal, 1950 já vai tão longe.

Toda moeda tem duas faces. O fato de o presidente taumaturgo só enxergar o lado que lhe convém não exclui a existência do lado mais sombrio da realidade nacional. Apesar de bolsas várias, a distância entre os mais abonados e os mais desafortunados não para de aumentar. A criminalidade, a incivilidade, a insegurança, a ignorância se alastram a cada dia.

Algumas excelências fazem de conta que essa face B do País simplesmente não existe. A população, quanto a ela, vive tão mergulhada na geleia geral que já não se dá mais conta do surrealismo da situação. No entanto…

by Guillermo Mordillo Menéndez, desenhista argentino

by Guillermo Mordillo Menéndez, desenhista argentino

… no entanto, uma Copa do Mundo, como seu nome indica, é do mundo, um evento planetário. Atrai atenção de gregos, troianos, persas e mongóis. A 6 meses do pontapé inicial, os holofotes do mundo começam a focalizar nosso País. Turistas e jornalistas estrangeiros, por viverem em meio diverso, têm, da realidade brasileira, visão diferente da nossa. Coisas que nem mais enxergamos saltam aos olhos de não habitués.

Semana passada, a rádio francesa de informação contínua France-Info dedicou uma série de reportagens ― uma por dia ― ao Brasil, em vista da Copa do ano que vem. Não se falou de tática futebolística, prognósticos nem sorteio de chaves. A série de programas procurou responder à pergunta: que país é aquele?

Falou-se justamente de tudo aquilo que a gente gostaria que fosse esquecido: arrastões, violência, estádios transformados em arena de gladiadores, número anual assustador de homicídios, tentativa de pacificação de favelas. A palavra arrastão não tem tradução em francês ― talvez não tenha em nenhuma outra língua. Assim, a reportagem gastou um minuto inteiro para explicar o que é e como funciona.

Na minha opinião pessoal, nosso guia ― bem-intencionado, mas mal informado e mal assessorado ― precipitou-se ao permitir que a Copa se realizasse no Brasil. Mais teria valido deixar esse evento para o futuro e investir essa dinheirama toda em infraestutura material (= estradas, pontes, viadutos, portos, metrôs, comunicações) e, principalmente, em infraestutura imaterial (= instrução pública, saúde, tecnologia).

Não seria garantia de glória imediata a nosso benfeitor. Pouco importa. A glória imediata é efêmera, enquanto a glória bem alicerçada é indelével.