Dedo de honra

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, para se apresentar, o cidadão estendia seu cartão de visita. Estava ali o básico: nome, sobrenome, profissão, endereço e telefone (se houvesse). Quem recebia o cartão tinha ainda a possibilidade de examinar as características: tamanho, espessura e qualidade do papel, cor da tinta, impressão em relevo ou não. De posse dessas informações, já era possível saber muita coisa sobre o titular.

Nestes tempos em que o “Oi!” substituiu o cartão, para saber a que veio cada um, é preciso observar seu tom de voz, seu sotaque, seu comportamento, seu gestual. Ah, o gestual! Esse é ponto importante. Dispensa palavras. É feito exatamente pra ser visto de longe.

Me impressionou muito aquele gesto elegante que nosso ministro da Saúde fez em Nova York, logo depois de comer pizza na calçada. O distinto leitor há de se lembrar que, apupado por manifestantes quando já se encontrava dentro do ônibus, o doutor espichou o braço e mostrou o dedo do meio à multidão.

No arsenal obsceno da minha juventude, não constava o gesto do ministro. Deve ter sido popularizado mais tarde. O gesto equivalente era “dar uma banana”, com os punhos cerrados e os braços cruzados, sendo um na vertical. O significado era o mesmo. Esse gesto de mostrar o dedo do meio, aliás, nem nome tinha. Se hoje tiver, desconheço. Agradeço a quem puder mandar uma cartinha para a Redação desvelando o mistério.

Só que tem uma coisa. O que pode ser tolerável num adolescente – irrequieto e ainda pouco familiarizado com os códigos de comportamento da sociedade – é absolutamente inaceitável de parte de um ministro da República. Um ministro? Impensável!

Outro dia já falei do candidato surpresa nas presidenciais francesas que terão lugar daqui a 4 meses. Trata-se de Monsieur Eric Zemmour, jornalista e escritor, que professa ideias da direita extrema, entre as quais um ódio feroz contra imigrantes em geral e árabes em particular.

O extremista ainda não oficializou sua candidatura. Por enquanto, percorre o país fazendo publicidade para seu novo livro e testando a receptividade da população a sua presença. Sábado esteve em Marselha. Como de costume, foi acolhido tanto por admiradores como por oponentes. A um dado momento, não se conteve e mostrou o dedo a uma mulher (veja a imagem).

Ficou-se sabendo que ele estava apenas reagindo. A distinta senhora também lhe havia feito o mesmo elegante gesto. Pouco importa. O candidato é ele, não ela. Assim como é inaceitável o que fez o ministro brasileiro, é intolerável ver o mesmo gesto vindo de um candidato à presidência da França. Um homem público não tem o direito de reagir como um homem comum em todas as ocasiões.

Dois casos isolados de figuras públicas que se permitem esse tipo de baixaria em público, como os que mencionei, são pouca coisa; não dão amostragem suficiente para um estudo científico. Mas o fato de os dois pertencerem à mesma família política (extrema direita) deixa no ar uma interrogação. Serão todos assim? O palavreado e o gestual rasteiro fazem parte da cartilha de todo aprendiz fascistoide?

Ao se dar conta da onda de indignação que rugiu nas redes por causa de seu gesto, Monsieur Zemmour tuitou uma pirueta: “Madame, naquele momento hão havia tempo para um debate como eu aprecio. É por isso que usei a única linguagem que a senhora e seus camaradas ‘antifascistas’ compreendem imediatamente: a de vocês!”.

A vulgaridade agressiva é a arma dos que não têm argumentos. Assim como Trump e Bolsonaro não tinham, tampouco esse candidato tem programa para seu país. Taí a origem do comportamento rasteiro de todos eles.

Título
Em francês, o gesto de mostrar o dedo do meio se diz “doigt d’honneur”, dedo de honra. A expressão é calcada sobre “bras d’honneur”, braço de honra, que é nossa “banana”.

Ômicron x oméga

José Horta Manzano

Uma das características dos vírus é ter mutações frequentes, até em ritmo diário. O corona, causador da atual epidemia, não escapa a essa realidade. Cientistas do mundo inteiro transmitem à OMS as informações sobre as novas cepas de covid-19. Elas são então catalogadas e recebem um nome. A denominação é geralmente um código complicado, difícil de memorizar, composto de letras e números, não apropriado para difusão entre o grande público.

Toda cepa de periculosidade maior, que representa ameaça importante para o homem, tem direito a receber um nome especial. No caso do vírus que causa a covid-19, ficou decidido dar, a essas cepas perigosas, nome seguindo o alfabeto grego. Isso evitou dar-lhes o nome do país onde haviam surgido, o que podia ser estigmatizante.

A variante B.1.1.7, que foi primeiro identificada na Grã-Bretanha e que estava sendo chamada de “variante britânica” tornou-se Alfa. A cepa B.1.351, que apareceu na África do Sul, virou Beta. A variante P.1, chamada no princípio de “variante de Manaus” ou “variante brasileira”, tornou-se Gama. E assim por diante.

A série de cepas preocupantes, que começou em Alpha, já correu boa parte do alfabeto (Épsilon, Zeta, Eta, Theta, iota, Kappa, Lambda, Mu, Nu, Xi) e acaba de chegar ao Ômicron, que é a 15ª letra.

É curioso notar que o alfabeto grego tem as letras Ômicron e Oméga (que é, aliás, a última da lista). Ambas são de origem antiquíssima: provêm do alfabeto dos fenícios e, procurando mais longe, desconfia-se que derivem de certos hieróglifos egípcios.

Ômicron, “o pequeno” ou “micro o”, é composto de o + micron. Oméga, “o grande” ou “mega o”, é composto de o + mega. Essas partículas gregas são usadas frequentemente em nossa língua com o mesmo sentido de “grande” ou “pequeno”: megaevento, megaestrutura, microempresário, microfibra.

Esperemos que Ômicron faça jus a sua partícula e não nos cause senão “microperigos”. Em matéria de “megaproblemas”, já temos um híper, incrustado lá no Planalto. Já basta.

A grande derrota de Bolsonaro

José Horta Manzano

Desde que a pandemia tomou conta do mundo, Bolsonaro não perdeu ocasião de desdenhar. Chamou-a de gripezinha. Assegurou que, com dois ou três comprimidos de cloroquina, a questão se resolvia. Zombou do povo que o elegeu ao nos tratar de maricas. Mandou que todos se juntassem e se esfregassem, que era pra pegarem a doença, eliminando, ao final, os mais frágeis – todo o mundo tem de morrer mesmo, não é? Antivax desde o primeiro momento, segurou quanto pôde a compra das vacinas. Tentou frear a produção do Butantan porque, politicamente, não lhe convinha.

Mas há uma justiça. O preço da vitória – 600 mil mortos – foi elevado, mas o Brasil acabou vencendo. Bolsonaro perdeu. Ele queria chegar à imunidade coletiva (ou “de rebanho”, expressão que ele prefere) sem aplicação de vacina. Na sua cabecinha tosca, a doença eliminaria os fracos e deixaria os robustos, num arremedo de eugenismo tropical.

Sua estratégia não deu certo. Na sua biografia, estarão para sempre gravados os mortos e o epíteto de genocida. E a vacina foi aplicada. Graças ao trabalho de governadores menos obtusos que o capitão e graças ao empenho de todo o pessoal da área de saúde, o Brasil já vacinou integralmente mais da metade de seus habitantes. Apesar da inépcia de um Pazuello, aquele que, em matéria de saúde pública, entrou sem saber e saiu sabendo menos ainda.

Segundo a contabilidade global de vacinação contra a covid-19, atualizada em 25 de novembro, o Brasil aparece em honrosa posição, com 60,4% da população completamente vacinada. Está até melhor que os EUA, que só vacinaram 59,1% dos habitantes. Estamos muito à frente de grandes países produtores de vacina como Rússia (38,1%) e Índia (30,6%).

À nossa frente, só aparecem uns poucos microestados e alguns países europeus. Portugal, com espantosos 86,6%, é o país europeu que mais vacinou. Bem à frente de potências como a Alemanha (68.2%), França (69,5%) e Reino Unido (68,8%).

Estes dias, foi anunciada a descoberta de uma nova variante, batizada de Ômicron, que surgiu na África do Sul. É cepa perigosíssima, altamente contagiosa, bem mais assustadora do que todas as que tinham aparecido até agora. Bolsas caíram, aeroportos se fecharam, a covid voltou a frequentar as manchetes.

Mas por que razão essas novas cepas surgem sempre em países populosos e pouco desenvolvidos? Tivemos a variante indiana Beta, a brasileira Gama, as sul-africanas Delta e, agora, Ômicron. A razão é simples: o vírus gosta de gente. Quanto mais gente houver, maior a possibilidade de ajuntamentos, de promiscuidade, de extenso contágio. O atraso na vacinação e o descaso na observação das medidas de contenção – álcool em gel, máscara, distanciação social – são fatores agravantes.

Dado que a taxa de vacinação completa ainda está baixa em alguns países populosos, a ameaça não desapareceu. Alguém já disse, com razão, que o planeta só estará protegido quando todos os cidadãos estiverem protegidos. Não adianta um país atingir 100% de plano vacinal, se os demais ainda estiverem gerando cepas resistentes às vacinas disponíveis. Com essas variantes agressivas, o mundo não está livre de voltar ao ponto de partida e ter de esperar por novas vacinas. E a começar a contar de novo os mortos.

Índia (30,6%), África do Sul (23,8%), Rússia (38,1%), Nigéria (1,7% !), Indonésia (34,0%), Paquistão (22,5%), Bangladesh (21,7%) são países populosíssimos, com plano vacinal em atraso. Constituem terreno fértil para a epidemia. Vamos torcer para que nenhuma cepa resistente se desenvolva lá enquanto o vírus ainda circula redondo.

Enquanto seu lobo não vem, alegremo-nos, irmãos! O Brasil venceu Bolsonaro. Apesar do atraso e da má-fé do capitão, a competência nacional em matéria de vacinação forçou a porteira e mostrou que o povo brasileiro é maior que a ignorância do presidente e que o oportunismo irresponsável do grupelho que o cerca.

Bahrein

José Horta Manzano

O Bahrein, reino insular do Oriente Médio, é um país muito pequeno, mas muito rico. Pelas contas do FMI, seu PIB em 2017 foi de US$ 52.000 por habitante. Para efeito de comparação, no mesmo ano o Brasil cravou US$ 15.500 por habitante. Uma senhora diferença de 1 pra 3,5.

A economia do país é inteiramente baseada na extração de petróleo. Antes da descoberta do óleo negro, a ilha era habitada por tribos que comerciavam com outros povos da região. Não sei bem o que vendiam nem o que compravam, mas esse detalhe pouco interessa à nossa história.

O fato é que, como todo o mundo sabe, as reservas de petróleo não são infinitas. É difícil dizer quanto tempo vão durar, porque vai depender do ritmo de extração. Mas, do jeito que vão as coisas, com o mundo buscando (e encontrando!) fontes renováveis de energia, não vai demorar muito pra que o petróleo perca boa parte de seu interesse e os preços despenquem.

Os dirigentes do pequeno país não são bobos nem vivem dentro de uma bolha. Sabem perfeitamente que, se nada fizerem, dentro de poucas décadas voltarão a andar de camelo nas areias de seu desértico país. Com chance, poderão vender alguns quilos de tâmaras a alguma caravana de passagem.

A fim de não sofrer esse triste fim, já faz anos que vêm investindo para transformar o reino em um polo de “soft power”, um moderno centro de tecnologia, de telecomunicações e de turismo. Só assim escaparão de um retorno a condições medievais.

Bolsonaro esteve lá estes dias, pra inaugurar a embaixada do Brasil em Manama, a capital, e pra saudar o soberano. Na véspera de ser recebido pelo rei, nosso presidente estava ainda em Dubai. Foi lá que, imaginando que o auditório fosse integrado por um bando de ignorantes, contou a grande mentira que marcou seu passeio médio-oriental: que a Amazônia ainda estava “do mesmo jeitinho e do mesmo tamanho que tinha quando chegaram os portugueses 500 anos atrás”. A enormidade coincidiu com a publicação dos números de desmatamento do mês passado: 876,5 km2. Tem ideia do que isso signifique?

Faz dois dias, escrevi sobre o assunto. Volto a bater na mesma tecla porque acabo de me dar conta de que a superfície do Reino do Bahrein – com tudo incluído: a ilha principal, ilhas costeiras, camelos, o rei, os ouros e os mármores – atinge 785,0 km2. Resultado do páreo: só no mês de outubro, apesar do negacionismo crônico de Bolsonaro, o Brasil destruiu uma área de cobertura vegetal maior que a superfície do Bahrein inteiro!

Fico aqui calculando quantos barris de ouro negro o rei do desértico país não daria pra ter uma parte, uma pequena parte, um tiquinho desse verde todo que o Brasil vai destruindo a cada dia que passa. Nem que fosse meia dúzia de árvores.

A floresta intocada

Bolsonaro mergulhado nos ouros e nos mármores do Oriente Médio.

José Horta Manzano

Bolsonaro, o indesejado das gentes, não é bem-vindo em nenhum país civilizado. Não recebe convite para visitar nenhum deles. Sem ter o que fazer, perambula pela periferia do mundo. E leva junto os bolsonarinhos, que também parecem não ter nada mais importante pra fazer na vida.

Estes dias, está fazendo turismo nos palácios de ouro e mármore que ditaduras hereditárias levantaram, com o dinheiro do petróleo, sobre as areias do desértico Oriente Médio.

Nenhum jornalista ousou fazer-lhe a pergunta fatal: “Então, presidente, aquela promessa de campanha de transferir a embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém, como é que fica?”. Não convém reavivar memória de ofensas passadas, justamente quando se está de visita à casa dos ofendidos.

Em discurso pronunciado neste 15 de novembro, Bolsonaro garantiu, alto e bom som, que a Amazônia continua virgem e intocada, exatamente como a encontraram os primeiros exploradores portugueses chegados em 1500.

Distorcida pelo linguajar peculiar do capitão, a frase saiu picadinha. Mas o fundo de seu pensamento era esse. Garantiu, sem corar, que as queimadas são um mito. Em seu raciocínio, a floresta, sendo úmida, não pode arder. (Me fez lembrar aquele impagável discurso em que o Lula ensinava que só havia poluição no Brasil porque a Terra gira; não girasse, não haveria poluição.)

Por coincidência, no mesmo 15 de novembro, o Instituto de Pesquisas Espaciais anunciou a triste verdade: diferentemente do que anuncia o capitão, a floresta amazônica continua encolhendo. Só no mês passado (outubro), 876,5 km2 viraram pó.

No Brasil, país acostumado a cifras gigantescas – de população, superfície, assaltos e mortes por covid –, esse número não impressiona. Em outras partes do mundo, não é bem assim.

A Suíça, por exemplo, abriga 8 milhões de habitantes espalhados por 26 cantões. Pois saiba o distinto leitor que a superfície de floresta amazônica brasileira destruída no mês de outubro é exatamente a mediana da área dos cantões suíços. Isso quer dizer que metade dos cantões tem superfície menor que 876,5 km2, enquanto a outra metade tem superfície maior que a zona desmatada. “Ah, mas a Suíça é país pequeno!” – dirá um desmancha-prazeres. Ah, é? Então leia o que vem a seguir.

A superfície que foi desmatada só no mês de outubro pode não impressionar no Brasil, mas deixa de queixo caído em outras partes do mundo. É mais que 8 vezes a superfície do município de Paris, número que impressiona qualquer francês. É mais que 7 vezes a área do município de Milão, vastidão de deixar abobado qualquer italiano. Para todos eles, é aterrorizante imaginar que o Brasil destrói, a cada 3 dias, a cobertura vegetal de uma área do tamanho de uma grande metrópole.

Ao fim e ao cabo, a mentira presidencial tem perna curta. Doutor Jair Messias não é o único canal de informação da plateia que acompanhou seu palavrório nas Arábias. Como pessoas bem formadas e bem informadas que são, todos eles, a estas alturas, já devem estar a par dos números do Inpe. Já conhecem a verdade. Eles, sim, dispõem de canais que lhes dão informações eficazes.

Não faço ideia de quem prepara os discursos do capitão. Há de ser gente que nunca sai da bolha. Eles parecem acreditar que o mundo é composto de devotos que bebem unicamente as “verdades” espalhadas pelos canais bolsonaristas.

Enganam-se, fazem o presidente dar vexame. De tabela, envergonham a todos nós.

O Lula e a Nicarágua

Lula e Daniel Ortega, o tiranete nicaraguense

José Horta Manzano

A Nicarágua é um pequeno país da América Central, um pouco maior que Portugal e um pouco menor que o Amapá. Abriga cerca de 6 milhões de habitantes.

Pobre e vampirizado por uma classe dominante acostumada a revezar-se no poder há séculos, o país não consegue deslanchar. Vive da extração de algum minério e da agricultura. Está entre os quinze maiores produtores de café.

A família Somoza mandou e desmandou no país durante meio século, a começar dos anos 1930, instalando um desavergonhado regime dinástico, com um ditador sucedendo ao outro.

No limiar dos anos 1980, levantou-se uma revolução nacional “para acabar com tudo isso que está aí”. É estado de espírito tristemente conhecido entre nós. Quando surge um líder com esse tipo de conversa, pode apostar: vai haver muita movimentação, mas, no final, nada vai mudar. Já vimos esse filme com o Collor, com o Lula, com o Bolsonaro. Deu no que deu.

De fato, foi o que aconteceu. Um jovem Daniel Ortega era o líder daquela que ficou conhecida como Revolução Sandinista, uma guerra de guerrilha. Muita gente morreu, os EUA se meteram na confusão, mas, no final, a dinastia dos Somoza foi interrompida. O quadro guarda semelhanças com a “revolución” dos bondosos irmãos Castro, na ilha de Cuba.

Os sandinistas nicaraguenses não conseguiram tomar o poder imediatamente. Instalou-se um governo civil, não revolucionário. Mas Daniel Ortega manteve-se nas cercanias do poder, esperando sua hora. Já não tão jovem como nos tempos da revolução, conseguiu finalmente chegar à presidência pelo voto em 2006.

Eleito, tomou gosto pelo poder. Agindo como um Putin tropical, ajeitou regras e leis em causa própria, e acabou instalando um regime que não fica nada a dever à ditadura que tinha jurado combater – veja como são as coisas.

Tendo sido eleito em 2006 com mandato de 5 anos, deu um jeito de se reelejer em 2011 e de novo em 2016. Faz alguns dias, venceu sua quarta eleição seguida, para novo mandato de 5 anos. Frise-se que a vice-presidente é Rosario Murillo, esposa do tiranete, a confirmar o total domínio do clã. Considerando que ele já completou 76 aninhos, terá 81 ao término do mandato. Se chegar até lá.

Para alcançar seu objetivo eleitoral, o velho líder não hesitou em instalar o terror nos partidos de oposição. Começou seis meses atrás. Ditadorzinho descarado, mandou prender os sete adversários que poderiam representar risco para sua reeleição. Só deixou livres os cinco nanicos, que não lhe traziam perigo e que lhe eram, de certo modo, subservientes. Proibiu que observadores estrangeiros viessem conferir a lisura do voto e da apuração. Sem surpresa, venceu com 75% dos votos. Foi na semana que passou.

O mundo civilizado denunciou a farsa, mas o PT, partido do qual o Lula é presidente de honra, entrou na contramão. Soltou nota qualificando a re-re-re-reeleição de Ortega como “grande manifestação popular e democrática”. O texto ainda menciona o trabalho do ditador na “construção de um país socialmente justo e igualitário”.

Passados dois dias, diante da onda de indignação que se alevantou na imprensa brasileira, a direção do PT decidiu improvisar uma retratação. Doutora Gleisi Hoffmann jura de pés juntos que o primeiro texto não tinha sido submetido à apreciação da diretoria. Portanto, ficava o dito pelo não dito. O quê? Que uma nota daquele teor tenha saído sem o aval do comitê central? Acredite quem quiser.

O ocorrido dá margem a interpretação. Na minha opinião, foi o próprio Lula, que é falto de instrução mas cheio de esperteza, quem mandou os companheiros desdizerem aquele palavrório padronizado e carimbado anos 1970. Em plena campanha eleitoral, tudo o que nosso guia não quer é reavivar, na lembrança do eleitorado, o radicalismo e as amizades perigosas que seu partido tem alimentado durante décadas: Chaves, Maduro, os bondosos irmãos Castro, os ditadores africanos.

Mas ninguém é bobo. A primeira nota – solta, livre, espontânea e sem amarras – foi o reflexo do verdadeiro ADN (=DNA) do Lula e dos seus. O resto é lantejoula para enfeitar campanha e enganar trouxa.

Entre a permanência de um desonesto Bolsonaro e a volta de um desonesto Lula… ai, meu São Benedito! Ajude-nos a encontrar uma terceira via decente! Mas não demore muito!

Pesquisa demais faz mal?

José Horta Manzano


“Para quê consultar os cidadãos, se é tão mais simples aguardar as pesquisas? Por que quebrar a cabeça bolando um programa político, se, em troca de pequeno investimento, as pesquisas vão lhe dizer o que a população espera? Por que se aborrecer com debates entre militantes e primárias para designar um candidato, se as pesquisas podem se encarregar disso?”


É com essas palavras que o jornalista François-Xavier Lefranc, redator-chefe do Ouest France (3° maior quotidiano francês), abriu o editorial do jornal faz alguns dias. É que, exatamente como ocorre entre nós, o país de Monsieur Lefranc anda “viciado” em pesquisas na área política.

Imagino que seja fenômeno mundial. Não sei se é impressão minha, mas, no lugar do velho Ibope, que era um e único, temos hoje numerosos institutos de pesquisa. Alguns já se tornaram referência, como o Datafolha ou o Ipsos, mas outros aparecem sem que a gente saiba de onde saíram. Todos analisam uma eleição 11 meses antes do dia de votar. Já estão todos no segundo turno, num momento em que o eleitorado sequer sabe quem serão os candidatos.

Nas eleições, a população está cada vez mais acostumada a conhecer o resultado antes mesmo de ir votar. Pesquisadores lembram sempre que seu trabalho apenas reflete uma imagem do momento, com margem de erro e todas as precauções de hábito. Mas não adianta: o eleitor vê o resultado da pesquisa como se fosse cash, dinheiro na mão. E sabemos que dinheiro na mão é vendaval.

O editorialista francês acredita que, em vez de esclarecer o eleitorado, as pesquisas ultrafrequentes tendem a confundir. Na melhor das hipóteses, têm efeito nulo, não interferindo no voto de eleitores cujo propósito é firme e inabalável. Na hipótese mais tóxica, tendem a distorcer o pensamento dos hesitantes e dos indecisos, e a incitá-los a votar no candidato A em vez do candidato B pelo simples fato de aparecer melhor nas pesquisas. O chamado “voto útil“, aquele que se dá a um para evitar a vitória de outro, entra nessa categoria. Se não fossem as pesquisas, essa modalidade distorcida de voto praticamente desapareceria.

Por meu lado, acredito que, as pesquisas contribuíram fortemente para a eleição do capitão. Foi efeito bola de neve. Cada nova pesquisa que mostrasse um avanço de seu nome era seguida de novas adesões, o que acabava fazendo o candidato subir nas pesquisas. Foi essa espiral ascendente que o elegeu e não uma base ideológica – que era minúscula e assim continua até hoje.

Fechando o editorial, o Ouest France informa aos leitores sua nova (e drástica) política para as eleições presidenciais francesas, marcadas para daqui a 6 meses: diferentemente de como costumavam proceder no passado, nenhuma pesquisa será encomendada pelo jornal desta vez.

Confesso que a atitude tem seus atrativos. A população tem, sim, o direito de ser informada. Mas até que ponto a informação “do que poderia ser” – entendida como “o que certamente vai ser” – não atrapalha mais do que ajuda? Propaganda, debates, discussões, mesas redondas, análises, sim. Mas números, às vezes até com decimais(!), podem representar aquele excesso de democracia que resulta em desserviço a ela.

A arte de redigir nota de falecimento

José Horta Manzano

Com o falecimento de Nélson Freire, ocorrido semana passada, o Brasil perdeu seu mais importante intérprete de música erudita, o único conhecido e reconhecido universalmente. Muitos anos hão de se passar até que outro filho desta terra entre no rol dos maiores do mundo.

Em horas assim, quando falece um grande nome da música nacional, é praxe haver manifestação imediata da Secretaria da Cultura, da Presidência da República e do Ministério das Relações Exteriores.

Como já mencionei alguns dias atrás, doutor Frias, secretário nacional de Cultura não deu um pio. Por certo, nunca tinha ouvido falar de um dos maiores pianistas do mundo. Mais inquietante ainda é ver que falta, no staff, um encarregado de seguir o que acontece fora da bolha em que todos eles vivem.

O presidente Bolsonaro, grosseiro como de costume, nem falou nem disse nada. Silêncio absoluto. Não sabia, não sabe e nunca saberá quem foi Nélson Freire. Talvez achasse que, como todo artista, “esse daí” também era comunista. Vai ver até que votou no PT. “Pô.”

O Itamaraty, que ainda guarda algum resquício do que costumava ser a diplomacia brasileira, manifestou-se. Soltou um comunicado formal, protocolar, que não chega a 1000 toques, com 155 palavras. Descrever em 155 palavras a carreira de um artista maior é complicado. Não dá.

Apesar da exiguidade do comunicado, o Itamaraty ainda encontrou jeito de encaixar a seguinte frase: “Muitas de suas apresentações internacionais contaram com apoio do Itamaraty”. Jogar flores em si mesmo pode cair bem em outras ocasiões; em nota de falecimento, pega mal pra caramba. Além de prepotente, é o cúmulo da deselegância. Nélson Freire não dependou do “apoio” do Itamaraty para correr mundo e firmar seu renome em 70 anos de carreira.

No dia seguinte ao do anúncio da morte do artista, o Palácio do Eliseu soltou nota de falecimento, assinada pelo presidente Emmanuel Macron. Como todos sabem, o palácio presidencial francês não é agência funerária. Comunicados da Presidência francesa são poucos, caem a conta-gotas.

A nota de falecimento francesa traz uma minibiografia do homenageado, com 437 palavras espalhadas por 2800 toques (quase três vezes a extensão do bilhetinho do Itamaraty). Vê-se que foi escrita por quem é do ramo. Dá um apanhado preciso da obra do artista, cita sua discografia, relembra seus compositores favoritos, menciona as peculiaridades de seu toque e da sonoridade que conseguia extrair do instrumento.

Não esquece a velha amizade que unia o brasileiro a Martha Argerich, considerada a maior pianista viva. E termina declarando: “o presidente da República e esposa saúdam o excepcional intérprete de Debussy, que nos brindou frequentemente com sua presença, e dirigem suas condolências sinceras aos que lhe eram próximos, assim como a todos os que se emocionavam com a poesia de seu toque”.

Se Bolsonaro, logo no início do mandato, não tivesse insultado a primeira-dama francesa, até que podia mandar um ou dois emissários para um estágio no Eliseu, a fim de serem iniciados nas artes de redigir um elogio fúnebre digno de país civilizado.

O encargo fica para o sucessor do capitão.

Para saber mais:

O original da nota do Itamaraty

O original da nota do Palácio do Eliseu

Bolsonaro na Itália – benvenuto?

José Horta Manzano

Saudades do tempo em que visita de chefe de Estado estrangeiro era um acontecimento. Tanto cá quanto além-fronteiras, era a mesma festa. Algumas visitas chegaram a marcar a história.

Em 1961, finzinho de maio e começo de junho, John F. Kennedy, então presidente dos EUA, esteve de visita à França, presidida pelo general De Gaulle. Durante a estada, Jacqueline Kennedy, a esposa do visitante, chamou a atenção de todos. Era bela, tinha uma graça especial e, qualidade maior: falava francês. O velho general se derreteu.

Foi engraçado o dia em que a senhora Kennedy, orgulhosa das origens de sua família, contou a De Gaulle: “O senhor sabe, eu tenho ascendência francesa!”. E o general, de bate-pronto: “Pois imagine a senhora que eu também!”.

Pouco antes de embarcar de volta para os EUA, o presidente americano deu uma entrevista coletiva. Logo na abertura, o homem mais poderoso do planeta mostrou que tinha forte senso de humor. Fez cara dramática e declarou, sério: “I do not think it altogether inappropriate to introduce myself to this audience. I am the man who accompanied Jacqueline Kennedy to Paris. And I have enjoyed it.” Trocando em miúdos, fica mais ou menos assim: “Pensando bem, não acho inapropriado me apresentar a esta plateia. Sou o homem que acompanhou Jacqueline Kennedy em Paris. E gostei muito.

A tradição de visitas de dirigentes brasileiros a países estrangeiros é antiga. Começou já nos tempos do imperador, quando viagens eram vagarosas e podiam demorar semanas. Das menos antigas, lembro de JK nos EUA, de FHC na França, de Lula passeando de carruagem com a rainha da Inglaterra. Todos sempre foram bem recebidos. Aliás, todos os dirigentes brasileiros sempre foram recebidos com simpatia aonde quer que se dirigissem. Correligionário ou não do presidente, todo brasileiro sentia uma pontinha de orgulho.

Agora que terminou a vilegiatura que nosso capitão fez em terras italianas, a gente sente muita tristeza. Não me lembro de ter jamais visto, no exterior, manifestações de protesto contra a visita de presidente nosso. Essas viagens costumam ser instantes de confraternização, aqueles momentos em se põem (temporariamente) as querelas de molho. Com Bolsonaro, não foi possível. Como dizem por aqui, “sua fama o precede” – antes mesmo de ele apontar na esquina, todos já sabem de que barro é feito o personagem.

Falando do capitão, Elio Gaspari resumiu com maestria: “Pisou no pé da chanceler alemã Angela Merkel, teve uma conversa desconexa com o presidente turco, conversou com garçons e, por não usar máscara nem tomar vacina, ficou sem o aperto de mão do primeiro-ministro Mário Draghi.”. Foi um vexame atrás do outro.

O capítulo mais impressionante ocorreu justamente no deslocamento sentimental ao vilarejo de origem da família. Era pra ser um momento apolítico, que não se prestava a manifestações. Mas deu chabu. A proverbial belicosidade do capitão suscita sentimentos pouco pacíficos. Aconteceu o contrário do esperado.

Em Pádua, os manifestantes estavam tão exaltados, que a polícia teve de intervir com canhões de água. A visita à basílica de Santo Antônio teve de ser cancelada. O bispo da diocese negou-se a receber Bolsonaro. Disse que, se o presidente desejasse, podia vir como um fiel comum, mas que não seria recebido com honras de visitante especial. O capitão desistiu.

Em Anguillara Veneta, a cidadezinha de origem da família, estava prevista uma recepção na prefeitura, para entrega do diploma de cidadão honorário. A intensidade das manifestações de rua não permitiram. De última hora, mudou-se o programa. O almoço e a entrega do canudo foram feitos num restaurante situado fora da cidade, instalado num casarão do século 19. Para não fomentar uma revolta entre os moradores, a prefeita resolveu pagar do próprio bolso. Pelo jeitão sofisticado do restaurante (e pelo volume da comitiva presidencial), imagino que a prefeita se  arrependeu da hora em que teve a ideia de conferir o título de cidadão a Bolsonaro.

 

 

E assim continuamos. Se já era malvisto, o capitão confirmou a fama e virou empestiado, daqueles que todos querem ver pelas costas. Nenhum dirigente estrangeiro quer ser visto em sua companhia, que é pra não perder popularidade nem votos no país natal.

Na COP26, Ninguém acreditou nas boas intenções do Brasil; a ausência do chefe dá dois recados. Primeiro, de que ele não esta ligando a mínima para aquele circo; segundo, de que o compromisso brasileiro não passa de encenação pra inglês ver – perdão! – pra escocês ver (a conferência é na Escócia).

Se a Lega (partido da extrema-direita italiana) já era vista com desconfiança, as honras oferecidas a Bolsonaro hão de ter tido o efeito contrário. Fortaleceram a convicção de que se trata de um agrupamento de gente pouco recomendável. Quem é amigo de Bolsonaro bom sujeito não é.

Resumo da ópera
Eles, que estão longe, ainda podem dar-se ao luxo de se esquivar do capitão, de ignorá-lo, de dar-lhe as costas, de fingir que não viram. Os que estão no Brasil e são obrigados a sobreviver com os sustos diários aplicados no país por aquele estropício, ah!, isso já é uma outra história. Deve fazer parte de nosso carma coletivo.

Disclaimer
No título, usei a palavra italiana benvenuto, que se traduz por bem-vindo. É ironia.

A verdade torturada

Salvini: “Agradeço a Bolsonaro pela extradição de Battisti”

José Horta Manzano

A distorção da verdade é matéria prima indispensável ao trabalho de populistas e extremistas. A mais recente pérola foi cometida neste 2 de novembro.

Nesta terça-feira, nosso capitão presidente esteve de visita ao cemitério militar brasileiro de Pistoia, erguido em memória dos pracinhas da FEB caídos nos campos de batalha italianos durante a Segunda Guerra.

Surgido não se sabe de onde, apareceu Matteo Salvini, líder da extrema-direita italiana, cujo percurso já o levou a ser vice-primeiro-ministro, cargo de que foi apeado dois anos atrás. Hoje, em Pistoia, alegou ter sido convidado “pela embaixada do Brasil”. Admitamos.

Em seu discurso, agradeceu a Bolsonaro “pela extradição de Cesare Battisti”. Para impressionar na retórica, espichou a mentira e acrescentou que, se dependesse “de presidentes de esquerda”, alguns terroristas estariam ainda livres no Brasil. Não se sabe bem a que “outros terroristas” ele se refere. O que se sabe é que um perigoso miliciano ocupa a Presidência de nosso país, mas essa já é uma outra história.

Salvini não é tão ignorante quanto Bolsonaro. Era ministro de Assuntos Internos da Itália em janeiro de 2019 e sabe perfeitamente como terminou a aventura de Battisti em terras sul-americanas. Mas está apostando na memória curta de seus compatriotas. Nós, que acompanhamos o caso passo a passo durante anos, sabemos bem como ocorreu.

Assim que Bolsonaro foi eleito e declarou que tinha intenção de extraditar o condenado Battisti, este escafedeu-se e refugiou-se clandestinamente na vizinha Bolívia. A polícia italiana, que acompanhava à distância, seguiu os passos do fugitivo.

Não se sabe que tipo de tratativas ocorreu entre Roma e La Paz. O fato é que, um belo dia, policiais bolivianos (acompanhados por policiais italianos) deram voz de prisão a Battisti. Em poucas horas, o homem foi oficialmente expulso do país e entregue aos policiais italianos. Que o conduziram diretamente a Roma. Nem fizeram escala em território brasileiro, que é pra não arriscar expedição de um habeas corpus – num país judiciarizado como o nosso, toda prudência é pouca.

Naquele momento, Bolsonaro ainda nem tinha vestido a faixa. Era presidente eleito, não empossado. Portanto, não tem nada a ver com o que aconteceu. Que Salvini lhe tenha agradecido “pela extradição de Cesare Battisti” é desonestidade pura.

A verdade torturada é sempre a melhor arma de quem não tem realizações a mostrar. Uma mentira bem apresentada é sempre melhor que nada.

Bolsonaro e Salvini
Pistoia, 2 nov° 2021

Ironia
Para o espírito dos pracinhas que tombaram na Itália para liberar o mundo de nazistas e fascistas, deve ter sido uma tortura ver dois aprendizes fascistoides rindo em cima das tumbas.

Bolsonaro cabulou

G20 em Roma
O isolamento do negacionista Bolsonaro: os outros líderes o evitam e o brasileiro se comporta como turista.
Il Messaggero, Roma

José Horta Manzano

Na escola, quando alguém fugia pra não assistir a alguma aula, a gente dizia que “fulano cabulou a aula”. Muito tempo depois, quando a escola tinha ficado no passado, aprendi que cabular é verbo intransitivo. Segundo o dicionário, não se deve dizer que “fulano cabulou a aula”, mas simplesmente que “fulano cabulou”.

Soa esquisito, concordo com o distinto leitor. Mas dado que são os falantes que fazem a língua, acho que já passou da hora de o dicionário registrar essa maneira nossa de falar.

Dito isso, chegamos aonde eu queria: Bolsonaro cabulou. Cabulou o quê, minha gente? Cabulou o miolo do G20, a cúpula que reúne os dirigentes dos países que respondem por 80% do PIB mundial. Não é coisa pouca.

Mas ele foi a Roma!, dirão vocês. É verdade, foi, mas não participou de todas as palestras. Tirando o encontro com o presidente da Itália – que, por ser o anfitrião, recebeu protocolarmente todos os dirigentes estrangeiros –, não aproveitou a proximidade física dos grandes do planeta para nenhum colóquio bilateral. Nenhum. Cabulou boa parte do encontro.

E o que é que o capitão foi fazer em Roma? Turismo. Aproveitando o bom tempo e o clima ameno destes dias de outono, visitou a Fontana di Trevi – aquela onde se joga uma moedinha. Mas evitou ir lá com os demais dirigentes, que foram todos juntos. Foi numa “excursão privada”, cercado por seus 20 ou 30 cães de guarda. Sentindo-se protegido, passeou por ruas e ruelas, comeu de balcão, fez o que todo turista faz. Vê-se que o G20 não passou de pretexto para a vilegiatura.

Il Messaggero, tradicional jornal romano com história de quase século e meio, reparou na solidão do negacionista Bolsonaro: “os outros líderes do G20 o evitam, e o brasileiro vai de turista”. Sublinha a “boa ação” da alemã Merkel que, condoída do isolamento a que o capitão estava sendo submetido, deu com ele algumas palavrinhas de cortesia. Me pergunto em que língua ele terá respondido à boa ação. Se é que respondeu.

O jornal lembra a seus leitores o pesadíssimo relatório da comissão do Senado brasileiro (CPI), um ato de acusação de mais de 1.200 páginas no qual 9 crimes e delitos lhe são atribuídos, entre os quais, crime contra a humanidade. Menciona ainda os mais de 600 mil mortos de covid no Brasil.

Il Messaggero ressalta ainda que, se Bolsonaro se mostrou inerte nos trabalhos do G20, esteve ativíssimo nos giros turísticos pela capital. É verdade que ninguém imaginava que, da noite para o dia, ele se transformasse em soldado engajado na luta contra o aquecimento global, mas é incompreensível que, ao não organizar nenhum encontro bilateral, tenha deixado escapar todas as ocasiões de se entreter com os colegas.

Mas Bolsonaro está em boa companhia. Dois grandes poluidores globais também esnobaram o G20: o chinês Xi Jinping e o russo Vladimir Putin. Só que os dois tiveram a decência de manter-se à distância de Roma, enquanto nosso capitão não resistiu a levar sua avantajada comitiva de dezenas de participantes para um alegre passeio turístico pela capital italiana, enquanto líderes mais civilizados discutiam o futuro da humanidade. Ir a Roma e não ver o papa, pode?

Diferentemente dos demais dirigentes, Bolsonaro negou-se a conceder entrevista coletiva à imprensa. Mas deixe estar, já está previsto um encontro dele com Matteo Salvini, o líder da extrema-direita italiana. Será esta terça-feira em Pistoia, cidade toscana que abriga o cemitério militar brasileiro. O capitão participará de cerimônia em memória dos quase 500 pracinhas da Força Expedicionária Brasileira caídos na Segunda Guerra.

O trágico da história é que os soldados brasileiros foram enviados à Itália em 1944 justamente para combater o nazi-fascismo, doutrina admirada por Bolsonaro, Salvini e respectivos devotos. Os gestos, os atos e as falas dos dois tendem a confirmar que teriam preferido que nazistas e fascistas tivessem vencido a guerra.

Como se vê, cá como lá, a hipocrisia não tem limites.

Pra que serviu a CPI?

Excursão à Europa
Depois de deixar a embaixada pela porta dos fundos, Bolsonaro dá seu passeio turístico pelas ruas de Roma, sempre rodeado por pequena multidão de apoiadores descontraídos e sorridentes.
30 out° 2021

José Horta Manzano

Faz quase 3 anos que nos acostumamos a ter na Presidência um sujeito de poucas qualidades e muitos defeitos. Fanfarrão, boca-suja, despreparado, desfocado, misantropo, debochado, ignorante, covarde, egoísta, mentiroso – são seus desarranjos mais amenos. Os mais pesados teriam de ser descritos com palavrões impublicáveis.

É impressionante como a gente acaba se habituando a uma realidade trágica. E isso tinha de acontecer logo no Brasil, país tão carente de um personagem esclarecido, bem-intencionado e de mão firme para dirigir a República. E tinha de acontecer justo durante o maior desastre sanitário desde a Gripe Espanhola, de 1918.

Que remédio? É nossa sina. Desde que o velho FHC desceu a rampa, já lá se vão 20 anos, nossos presidentes têm sido assim: uns mais empacados, outros menos, mas todos desligados do Brasil real, distantes das necessidades verdadeiras da população. Tem sido um desfile de indivíduos indignos de ocupar a Presidência de um país cuja Constituição concentra tamanho poder nas mãos de um indivíduo só.

A gente sempre espera que o próximo será melhor. “Desta vez, vai!” – é a torcida de todos. No entanto, ai de nós todos, tirando a devoção cega que uma minoria de eleitores possa ter por este ou aquele, há que constatar: é um pior que o outro.

Só que, desta vez, com Bolsonaro, atingimos o ápice, o cúmulo, o topo, o nec plus ultra – impossível ir mais longe. (Pelo menos, é o que se espera; há gente pior, mas vamos torcer para que nunca sejam eleitos para a Presidência.)

Há quem acredite que a CPI da Covid não serviu pra nada. Não é minha opinião. Ela serviu para reafirmar – de papel passado e com firma reconhecida –, o que todo o mundo já sabia sobre o governo do capitão. Pra reforçar, ainda apareceram mais podres, como o Ministério da Saúde envolvido em negociata com vacinas, um episódio de corrupção explícita do governo Bolsonaro. A corrupção à la Bolsonaro, que antes era apenas suposição, tornou-se realidade fáctica.

A notícia atravessou as fronteiras. O mundo inteiro agora conhece a verdadeira face da sinistra farsa que se desenrola nos palácios de Brasília. De passeio em Roma para ouvir o discurso dos grandes dirigentes mundiais na reunião do G20, o popular capitão teve de deixar a embaixada do Brasil pela porta dos fundos. Na entrada principal, estavam jornalistas e manifestantes contrários à sua presença. Nem Dilma, nos piores momentos de seu desastrado governo, teve de passar por esse tipo de vexame. O homem só sai à rua cercado por uma vintena de seguranças tipo dois por dois.

Aos olhos do mundo, o Brasil, como nação, continua firme e forte. O mundo compreende que, ao eleger Bolsonaro, os brasileiros deram um pulo no escuro. Se o eleitorado soubesse, na época, o que se sabe hoje, o capitão jamais teria sido eleito. Este blogueiro, que acompanha diariamente o que se diz no exterior sobre o Brasil, tem se dado conta de que a imagem do presidente se descola cada dia mais do povo brasileiro. A opinião pública mundial aprendeu a fazer a diferença entre o desvairado dirigente e o povo, que é obrigado a suportá-lo. Guardando as devidas proporções, a situação é comparável ao que ocorre atualmente no Afeganistão: o povo é visto como vítima dos talibãs, não como cúmplice.

Há potentados pouco recomendáveis no mundo. Eu não poria a mão no fogo por gente como Putin (Rússia), Lukachenko (Bielo-Rússia), Kim Jung-il (Coreia do Norte), os bondosos irmãos Castro (Cuba), Maduro (Venezuela), Erdoğan (Turquia) & outros. Mas, no fundo, o que é que o mundo sabe deles? Pouco, muito pouco. Quase nada.

No caso de Bolsonaro, depois do relatório final da CPI, é diferente. Afinal, o inquérito não foi instruído por revolucionários juvenis, mas por senadores da República, eleitos pelo povo. Durante meses, as manchetes da imprensa mundial fizeram eco aos depoimentos e às acusações da CPI. Ninguém mais pode dizer que não sabia. Agora, terminados os trabalhos, o Brasil não será mais o mesmo. Todos nós sabemos. E o mundo também.

O polemista francês

Eric Zemmour

José Horta Manzano

Monsieur Eric Zemmour é um francês pra lá de especial. Apesar da aparência física pouco graciosa, faz anos que surge aqui e ali, nalgum programa televisivo, sempre com a mesma obsessão. Para ele, os imigrantes são a causa de todos os males da França.

Mas, atenção! Quando fala em imigrantes, leia-se: os árabes originários da Argélia, da Tunísia e do Marrocos, antigas colônias e/ou protetorados franceses). Estrangeiros provindos da Alemanha, da Espanha, da Lituânia ou da Quirguízia não entram na mira do polemista.

Polemista – é essa a palavra. Se são figuras um tanto raras no Brasil, os polemistas existem aos montes na França. Não sei se a origem desse fenômeno é a própria lingua, que se presta a debates metafísicos. Talvez seja simplesmente a tradição, a educação que cada um recebe. Os jovens já entram na adolescência ensaiando os primeiros passos no mundo da polêmica.

Discute-se por um sim ou por um não. Cada um faz questão de dar sua opinião. Atenção: as discussões são animadas, mas a agressividade costuma limitar-se às palavras, sem consequências físicas.

Monsieur Zemmour, jornalista e escritor, fez da troca de ideias sua marca de fábrica. Seja qual for o tema da conversa, não tem jeito: ele sempre acaba acusando seus “imigrantes” de todos os males. É o que alguns chamam de monomania, um defeito que incomoda.

Ele tem dado sinais de que será candidato à Presidência do país, nas eleições de abril do ano que vem. Por enquanto, não confirma, deixa que as especulações borbulhem. Mas é bem provável que, qualquer hora, se declare candidato oficial.

Entrevistado pela Folha de São Paulo(*), mandou respostas por escrito. Naturalmente, foi instado a dizer o que pensa de Bolsonaro, Trump, Marine Le Pen, Macron – uma armadilha atrás da outra. Não deixou nenhuma pergunta sem resposta. No entanto, escorreguento feito peixe ensaboado, limitou-se ao politicamente correto, sem jamais se comprometer.

Segundo Zemmour, o Brasil é exemplo de multiculturalismo que deu certo. Ele parece achar que o simples fato de todos falarem a mesma língua é fator suficiente para atestar que a noção de bem comum está arraigada na alma do brasileiro.

Se vê que o Monsieur não conhece bem nosso país. Os brasileiros têm uma baciada de qualidades, mas a noção de bem comum não está entre elas. E faz uma falta danada. A noção de bem comum anda de mãos dadas com o sentimento de pertencimento, o grande ausente da alma nacional.

Pertencimento não se resume a enrolar-se na bandeira e cantar o Hino. Vai bem mais longe que isso. Começa no respeito ao vilarejo (ou à cidade, ou à metrópole) onde se vive. Continua no comportamento civilizado, em que cada cidadão respeita o próximo e paga seu “dízimo” – sob forma de imposto –, como contribuição para o funcionamento da sociedade.

Estamos a anos-luz da noção de bem comum mencionada pelo polemista francês. No fundo, o país dele, apesar dos mal-amados “imigrantes”, está bem mais próximo da meta do que nós.

(*) Se alguém estiver interessado em ler a longa entrevista concedida por Monsieur Zemmour à Folha, faça-me saber por email.

Quem inventou a baguete?

José Horta Manzano

Você sabia?

Aquele pão comprido, crocante e de pouco miolo, que os franceses chamam “baguette” (baguete), está tão ligado ao patrimônio cultural da França, que a gente imagina que deva ser tradição antiga, velha de muitos séculos. Engano. A baguete é criação relativamente recente. As primeiras foram assadas faz 100 anos.

A baguete nasceu com o inchaço das cidades, que se verificou a partir do fim do século 19. A multiplicação das indústrias, geralmente localizadas na periferia das cidades maiores, fez surgir uma nova casta de cidadãos enriquecidos: os donos das fábricas.

Essa classe de novos-ricos já não se satisfazia com o pão tal como era feito tradicionalmente, em formato redondo, denso, cada bolota pesando de um quilo e meio a dois quilos. Durava uma semana, mas perdia o viço, amolecia por fora e secava por dentro. Já que tinham dinheiro e podiam pagar, os membros das classes urbanas enricadas queriam pão fresco e crocante no almoço e, de novo, no jantar.(*)

Uma lei de 1919, querendo proteger os padeiros, proibiu o trabalho noturno na profissão. Ora, o pão sempre foi amassado durante a noite e assado de madrugada para ser posto à venda de manhã logo cedo. Além disso, a panificação era tradicionalmente feita com fermento natural – que dá sabor especial ao pão, mas demanda trabalho e muita paciência.

Para resolver o problema, os padeiros parisienses decidiram abandonar o fermento natural e substitui-lo pelo fermento que conhecemos como biológico (ou Fleischmann), aquele de tabletinho que se guarda na geladeira, ou que também se encontra granulado, em sachê. O gosto e a textura do produto final mudavam bastante; em compensação a crosta ficava mais crocante, e o principal: a preparação era bem mais rápida e dispensava o trabalho noturno.

Para diminuir ainda mais o tempo de cozimento, a forma (ó) redonda foi abandonada e deu lugar ao formato comprido que conhecemos. O sucesso foi imediato.

Só que os tempos eram duros. Não é qualquer francês que podia se dar ao luxo de comprar pão duas vezes por dia. As classes menos favorecidas continuaram privilegiando o tradicional pão redondo, pesadão e de tamanho familiar.

Foi preciso esperar que o tempo passasse. Em 1945, terminada a guerra, a produção foi se regularizando e o racionamento de gêneros alimentícios foi pouco a pouco desaparecendo. Só então a baguete ganhou impulso, se popularizou e se espalhou pela França inteira.

No Brasil da minha infância, não se usava o termo baguete – isso é novidade das últimas décadas. A gente dizia “um filão” para designar um pão comprido, porém de diâmetro mais gordo. E “uma bengala” pra indicar aquele mais fininho. Não sei se alguém ainda fala assim.

(*) Até hoje, boa parte das famílias francesas não come, no jantar, o pão do almoço. Compram duas vezes por dia. Quem vive em cidade, vai até a padaria. Quem vive em vilarejo, compra do padeiro itinerante, que passa duas vezes por dia. Famílias pequenas compram meia baguete ao meio-dia e, de novo, meia baguette ao entardecer. Curioso costume, não?

Bolsa combustível

José Horta Manzano

Por razões que não cabe aqui analisar, o preço dos derivados de petróleo tem aumentado sensivelmente estes últimos meses. O fenômeno é mundial. No final das contas, a população toda sente os efeitos desagradáveis, visto que o preço de todos os bens aumenta.

Os profissionais do volante – taxistas, caminhoneiros, motoboys – estão na linha de frente: sentem o impacto diáriamente no posto de gasolina. São os primeiros a reclamar, e seu grito pode ecoar num país inteiro.

Anos atrás, quando ainda não detinha as rédeas do poder, Bolsonaro, por razões eleitorais ou por propensão inata à rebeldia, pôs-se ao lado dos caminhoneiros e apoiou uma greve que durou dias e paralisou o país.

Agora a grita dos estradeiros se alevanta de novo, só que, desta vez, o capitão está do outro lado do balcão. Tudo o que ele não quer é um país parado, estradas bloqueadas, fome e inflação piorando. Receia ser acusado de mais uma marretada.

Ofereceu 400 reais aos caminhoneiros, que cuspiram em cima da oferta e a qualificaram de “esmola”. O preaviso de greve continua de pé. A não ser que caia do céu uma solução, o movimento será no começo de novembro.

Na França, o governo está enfrentando problema parecido. Não se pode dizer que seja idêntico, porque o povo de lá não vive nas mesmas condições do povo de cá. Assim mesmo, aumento constante no preço do combustível dói no bolso de quem precisa usar o carro diariamente.

Nem todos os franceses vivem em Paris, com metrô na esquina de casa; grande parte da população mora em vilarejos espalhados pelo país, onde ônibus não passa e trem não chega. Para essa gente, o carro é essencial; sem ele, não teriam como se dirigir ao trabalho.

Antes que os coletes amarelos despertem do torpor em que se encontram e decidam retomar passeatas e manifestações, o governo francês acaba de anunciar que, daqui para o fim do ano, um bônus de 100 euros (660 reais) será distribuído aos cidadãos de menor poder aquisitivo.

Quem são? São aqueles cujos rendimentos se situam abaixo de determinado valor, e que são as maiores vítimas da subida de preço dos combustíveis. Mas atenção: não é uma bolsa mensal; trata-se de um valor único, igual para todos, dado uma vez só.

Para chegar a esse montante, tomaram o aumento de preço dos combustíveis este ano e multiplicaram pela média anual de quilômetros percorridos pelos automobilistas franceses.

Estima-se que 38 milhões de pessoas terão direito ao vale combustível. Quase € 4 bi serão assim distribuídos (R$ 26 bi), uma bela quantia. É bom ter em mente que 2022 é ano eleitoral tanto na França quanto no Brasil, o que explica essa generosidade nos dois países.

É permitido acreditar que os motoristas franceses não se contentarão com o “bônus combustível”. É igualmente provável que os caminhoneiros brasileiros não se satisfarão com a “esmola” bolsonárica. Vamos ver o que acontece.

O espinho do estagiário

José Horta Manzano

A popularização da internet, estas últimas décadas, tem atrapalhado um bocado a vida de estagiário de jornal. Nos tempos antigos, ele cumpria horário igual ao dos jornalistas e seu trabalho podia contar sempre com a supervisão de um profissional experiente. Hoje mudou.

Se antes o jornal era atualizado uma vez por dia, a atual publicação online exige atualização contínua. Cabe frequentemente ao estagiário ficar de plantão à noite, visto que a vida não pára só porque o sol se pôs. As agências internacionais continuam inundando a redação com seus despachos.

No caso de hoje, a tarefa era bolar título para notícia um tanto complexa. Como se sabe, na imprensa, título bom é título que cabe [no espaço concedido]. Só que às vezes fica difícil resumir uma história em poucas palavras.

Trata-se da história de um conterrâneo condenado nos EUA por ter participado daquela espantosa invasão do Capitólio de Washington. Além de dar esse informe, era bom que o título desse uma pista sobre a pena imposta ao condenado: multa de 100 dólares acrescida de 100 horas de prestação de serviços comunitários – tudo isso submetido a um período probatório de um ano. Em outros termos, o brasileiro vai ter de pagar a multa, prestar o serviço comunitário e, sobretudo, andar na linha por um ano inteirinho. Durante esse período, qualquer escorregão é sinônimo de prisão imediata. E aí, só Deus sabe quando é que ele vai deixar o cárcere.

Como resumir tudo isso em algumas palavras? Na certa sem ter um colega mais experiente por perto, nosso estagiário se virou como pôde. Saiu assim:

Chamada da Folha de São Paulo

Agora diga-me, distinto leitor: por acaso já se viu alguém ser condenado a liberdade, fosse ela condicional? Condenado a liberdade? Ficou pra lá de esquisito.

O que está feito está feito. Cada cabeça pensa diferente. Dependesse de mim, não teria mencionado a liberdade, mas a pena, que me parece a informação mais importante. Teria dito, em linguagem telegráfica, que o infeliz foi condenado a pagar multa e a prestar 100h de serviços comunitários.

Curioso, fui ler a reportagem. Achei esquisita a história do condenado. Imaginei que se tratasse de um jovem idealista. Qual nada! O brasileiro é um senhor de 53 anos que está nos EUA há apenas 5 anos, desde 2016. No ano de 2018, dois anos depois de chegar, recebeu o status de… asilado político(!). Alegou ser perseguido quando trabalhava na Prefeitura de Curitiba.

Fazendo as contas, infere-se que a alegada perseguição se deu nos tempos do lulopetismo. Em 2018, quando o aceitaram como asilado, o governo já havia mudado. Se perseguição tinha realmente havido antes, não havia mais. Tudo indica que as autoridades que cuidam da concessão de asilo nos EUA não checaram bem a evolução da situação política no país do requerente. Isso sem contar que, se tivesse realmente sido perseguido em Curitiba, podia ter simplesmente mudado de cidade.

Não conheço a lei americana, mas sei que, nos países que conheço (no Brasil inclusive), cidadão estrangeiro está proibido de participar de manifestação política. No caso de um asilado, pior ainda. Esse imbróglio está complicadíssimo e difícil de entender.

Bem, que ninguém atire pedra no estagiário do jornal. Uma história assim rocambolesca não caberia no título, evidentemente.

Eolianas

José Horta Manzano

Em 1898, quando um certo senhor Hand Hansen, cidadão dinamarquês, adquiriu um pequeno estabelecimento familiar de fundição, sua intenção era apenas continuar a usar a forja para fabricar pregos e ferraduras. De fato, numa época em que a eletricidade era novidade, ele não tinha como imaginar que, 120 anos mais tarde, sua minúscula empresa teria evoluído tanto, e justamente nesse novo e misterioso ramo.

Passando pela construção de guindastes, já em meados do século 20, o negócio foi crescendo até assumir as gigantescas proporções atuais. A empresa, que hoje se chama Vestas, é a campeã mundial no ramo de construção de turbinas eólicas, com faturamento anual que supera os 12 bilhões de euros.

Aqui cabe uma digressão linguística. A turbina eólica é conhecida como “wind turbine” (=turbina de vento) em inglês. Em italiano, recebe o nome de “pala eolica” (=pá eólica). Windkraftanlage (=instalação [que explora] a força do vento) é o nome alemão. Os franceses escolheram um nome simples e poético: “éolienne” (=eoliana).

A palavra eolina não serve porque já está ocupada. No campo musical, dá nome a um pouco conhecido instrumento de sopro, que lembra um pequeno acordeom, mas é acionado pela força dos pulmões. É raro, mas existe.

Com tanto vento à disposição (e com o petróleo cada dia mais caro), o Brasil está despertando para a urgência de instalar parques eólicos, tanto em terra firme, quanto ao largo da costa. Espero e acredito que essas decisões não dependam da sanção do capitão, se não, estamos perdidos. Ignorante, é capaz de não entender a ameaça que pesa sobre a dependência de combustível fóssil.

Esta semana, a Enel – antiga estatal italiana de eletricidade, hoje privatizada – anunciou a inauguração da primeira parte de um projeto eólico realizado no Rio Grande do Norte. São 50 turbinas que geram 206 megawatts, energia suficiente para suprir as necessidades de meio milhão de habitantes.

Por seu lado, a dinamarquesa Vesta, herdeira da pequena forja que Senhor Hansen comprou 120 anos atrás, anunciou estar projetando a maior turbina eólica jamais construída. O protótipo leva o pouco poético nome de V236-15MW.

Suas dimensões são impressionantes: culmina a 300 metros de altura, com 3 pás de 100m de comprimento cada uma (mais que um gramado de futebol padrão Fifa). A capacidade da instalação será de 15 megawatts/hora, quase cinco vezes superior ao de uma turbina comum.

Uma única dessas gigantescas “eolianas” será capaz de suprir o consumo de 20 mil lares (60 a 100 mil habitantes) e deixar de lançar na atmosfera 38 mil toneladas de carbono por ano, que resultariam da queima de combustível fóssil. A primeira já foi encomendada para funcionar ao largo da costa dinamarquesa.

O perigo
O distinto leitor certamente já ouviu falar em Madame Marine Le Pen, filha de Jean-Marie Le Pen. A família domina a paisagem da extrema-direita  francesa há 40 anos. O pai já foi, mais de uma vez, candidato à Presidência. Numa das vezes, chegou ao segundo turno. A filha idem: nas últimas eleições, disputou o segundo turno e acabou perdendo para Emmanuel Macron.

Como todo extremista, tanto de esquerda como de direita, Madame tem certas deficiências de raciocínio. É curioso, mas é assim: nenhum extremista consegue alcançar um patamar razoável de bom senso. Ficam todos na vociferação improdutiva.

Desde os anos 1960, a França decidiu apostar na energia nuclear para a produção de energia. É um sistema eficiente, porém arriscado. Mais e mais vozes se levantam para pedir reorientação da filosofia nacional, a fim de que o nuclear seja pouco a pouco abandonado e o país dê preferência a energias renováveis.

Pois acredite quem quiser: Madame Le Pen já propôs que todas as turbinas eólicas francesas sejam desativadas e desmontadas. Só não explicou como fazer para substituir a energia que deixará de ser gerada. O vento vai acabar varrendo suas ilusões – é o que esperam os franceses de bom senso.

O Brasil está sendo governado por um capitão extremista, dono de tantos defeitos que seria cansativo repeti-los aqui. Já pensou se, amanhã, um desses gurus que o cercam inventa de convencer o bobão de que turbina eólica não serve, e que bom mesmo é usina térmica movida a lenha?

Bye bye, Amazônia!

Alitalia defuncta est

José Horta Manzano

Em 14 de outubro, o último voo da companhia Alitalia levou 177 passageiros da Sardenha a Roma. Se digo “último voo”, é porque foi o último mesmo. A companhia deixou de existir, entregou o balanço, baixou a porta da garagem e enfiou as chaves por baixo.

Até certo porto, a história faz lembrar o drama vivido pela Varig três décadas atrás. Quem não é do ramo chega a se perguntar como é possível uma empresa desse porte ir à falência. Acredito que a resposta seja sempre a mesma: erros de estratégia e de gestão.

Alguns dirão que, no caso da Varig, a crise do petróleo dos anos 1970-1980 representou papel importante. Sem dúvida. Mas a crise não atingiu só a empresa brasileira. Ao redor do mundo, dezenas de outras companhias sofreram o mesmo impacto. No entanto, nem todas foram a nocaute.

O mesmo se pode dizer agora da Alitalia. A catastrófica situação criada pela pandemia de covid atravancou a vida da empresa. Mas, de novo: a pandemia não veio só para a firma italiana, mas para todas as outras. Muitas já estão retornando a uma situação próxima do normal. A Alitalia caiu antes.

Faz uma década, quando as aéreas se deram conta de que, quanto mais fortes fossem, melhor resistiriam aos ventos contrários, a Alitalia desdenhou da perspectiva de uma fusão com a Air France. Não quis arriscar ver sua “italianidade” se dissolver num casamento arranjado. Diante disso, a Air France juntou os trapos com a KLM e deixou a Alitalia falando sozinha.

O resultado foi essa catástrofe. Não adiantou o Estado italiano injetar um bilhão e 300 mil euros na empresa – quantia considerada ilegal pelas regras da União Europeia. O fim do filme está aí: a sociedade Air France/KLM vai bem, ao que tudo indica. Quanto à Alitalia, não resistiu.

Mas que não seja por isso. No dia seguinte, nova empresa surgiu do nada para tomar o lugar da falecida companhia nacional. Chama-se Ita – reparem só na originalidade. O nome completo é Ita Airways. Começa modestamente. Só vai utilizar uma parte dos aparelhos da empresa que deixou de existir. Vamos ver se, sozinha, consegue resistir contra a concorrência das grandes empresas de baixo custo (em português: low cost companies), como RyanAir e EasyJet, já bem implantadas no continente.

Tanti auguri!

O nome das estradas

A velha “Rota Azul”, de Paris à Costa Azul.

José Horta Manzano

Na Europa, as estradas de rodagem são conhecidas por um número ou por uma sigla. A6, BAB 84, A1, E4 – são alguns exemplos. As mais importantes, por serem mais longas ou por ligarem centros importantes, recebem às vezes um “apelido”, que coabita com a sigla oficial.

Assim, a A6 francesa tem o apelido de Autoroute du Soleil (Autoestrada do Sol), por correr dos grandes centros em direção às praias do Mediterrâneo. Na Alemanha, há a Schwarzwaldautobahn (Autoestrada da Floresta Negra), que serpenteia por colinas cobertas por densos bosques, no sudoeste do país. A Espanha, além da sigla, dá apelido a todas as vias expressas: Autovía del Mediterráneo, Autopista del Sur, Autovía del Duero, etc. Na Itália, diversas rodovias têm nomes atraentes: Autostrada dei Laghi (dos lagos), dei Fiori (das flores), dei Vini (dos vinhos), e por aí vai.

Nunca vi, no entanto, estrada com nome de gente. Dos países que conheço, o Brasil é o único onde rodovias tem prenome, sobrenome e, se for o caso, título ou profissão do homenageado, o que às vezes dá nomes quilométricos. O pior é que, além de levar nome de gente, rodovias mudam de nome! Perdem o nome antigo para ganhar um novo, ao sabor da conveniência do momento. E olhe que esse troca-troca não tem a ver com o politicamente correto, que manda desaparafusar certas estátuas pra pôr outras no lugar. As mudanças são resultado da simpatia pessoal de algum parlamentar combinada com a apatia dos demais.

No Brasil dos tempos de antigamente, quando se viajava de trem, havia poucas estradas de rodagem. Estradas de ferro, que eu me lembre, não levavam nome de gente. Eram chamadas com o nome da companhia a que pertenciam ou indicavam a região ou as cidades servidas: Mogiana, Central do Brasil, Vitória a Minas, Sorocabana, Noroeste do Brasil, Santos-Jundiaí.

A partir dos anos 1950, quando lobistas automotivos e petroleiros atacaram firme, não se investiu mais em ferrovias. Como resultado, o número de rodovias cresceu. Esse crescimento foi acompanhado pelo estranho costume de dar nome e sobrenome a estradas. Algumas ganharam nome de personalidades conhecidas; outras, menos sortudas, não homenageiam figuras nacionais, mas indivíduos perfeitamente desconhecidos do grande público.

Uma ou outra estrada escapou. Uma delas era a Belém-Brasília, marco de uma era em que derrubar árvores e dizimar florestas era símbolo de civilização. Além da sigla oficial, conservou seu apelido por mais de meio século. Já no início, tentaram empurrar-lhe o nome de um dos engenheiros que participaram da criação do traçado, mas a iniciativa nunca pegou. Foi sempre conhecida como BR-153 ou Belém-Brasília ou ainda Rodovia Transbrasiliana – belo nome, por sinal.

Esta autoestrada espanhola de 500km de extensão ganhou o poético nome de ‘Rota da Prata’.

Isso foi até que, em 2011, num rasgo visionário, o então senador Aloysio Nunes Ferreira teve a curiosa ideia de dar nome de gente à mais longa estrada do Brasil. “Como é possível que uma estrada não faça homenagem a alguém?” – deve ter pensado o nobre parlamentar. Escolheu dar-lhe o nome de João Goulart, elaborou o projeto de lei e mandou brasa. Eu me pergunto se um senador da República, regiamente sustentado com nosso dinheiro, não tem nada mais importante que fazer além de trocar nome de estrada.

Collor de Mello e Dilma Rousseff foram destituídos. Goulart também, só que manu militari – pela força das armas. Tirando os fanáticos, todos concordarão que nenhum dos três figura entre os grandes presidentes que este país já teve. É possível que o fato de o senador Nunes ter sido militante comunista perseguido pelo regime militar tenha influído na proposta de aposentar a Transbrasiliana e transformá-la em João Goulart.

Depois de longos dez anos de tramitação, o projeto foi aprovado outro dia pelo senado. Transformado em lei, o documento foi levado ao capitão, que vetou integralmente. Sejamos claros: aprecio muito mais o senador Nunes do que o capitão Bolsonaro. Mas não sou devoto de nenhum deles. Não engulo tudo o que diz o primeiro, nem rejeito sistematicamente o que vocifera o segundo.

Fico aliviado com a decisão do capitão. Ele vetou a mudança por razões ideológicas. Eu também teria vetado, ainda que não pelas mesmas razões. Se desaprovo a mudança, é porque me desagrada profundamente ver estrada “batizada” com nome de gente. É batismo que pode cair bem em país atrasado. Num Brasil que tenta, há décadas, se safar de crônicos padrões africanos, parece-me fora de esquadro.

Romaria

A basílica de Santiago de Compostela

José Horta Manzano

Na tradição cristã, São Tiago Maior foi um dos doze apóstolos de Jesus, um dos mais chegados ao Mestre. Nasceu nas terras áridas da Palestina, região onde viria a ser martirizado com pouco mais de quarenta anos de idade. Conta a lenda que teria vivido alguns anos espalhando a nova fé na Hispania – a atual Espanha, então província romana. Morto o apóstolo, seguidores dedicados teriam carregado seus despojos para enterrá-los na região onde ele havia passado grande parte da vida e onde posteriormente se formou uma cidade que leva seu nome: Santiago de Compostela (Galiza, Espanha).

No centro da cidade, ergue-se monumental catedral onde estão custodiadas relíquias do santo. Faz mais de um milênio que a devoção por São Tiago é forte entre os cristãos europeus. Já na época de Carlos Magno, no século 9°, havia gente que se abalava de muito longe numa peregrinação que podia levar meses, para chegar à Galiza e recolher-se junto às relíquias do santo. Dirigentes europeus incentivavam essa devoção, principalmente numa época em que a expansão islâmica ameaçava o continente. Um povo coeso e aglutinado em torno da fé é poderosa arma para enfrentar invasões – já conjecturavam os antigos.

A tradição da visita ritual a Santiago de Compostela nunca esmoreceu. Até hoje, no século materialista em que vivemos, muitos e muitos romeiros(*) fazem a peregrinação. Há quem faça uma vez na vida, há quem aprecie refazer o percurso várias vezes. As estatísticas indicam a chegada de mais de 300 mil peregrinos todos os anos, metade deles vindos do estrangeiro. São espanhóis, portugueses, franceses, alemães, suíços, belgas. Pode-se cruzar até com algum inglês ou irlandês ou até com um polonês ou lituano.

Nem todos fazem o percurso inteirinho a pé, como manda a tradição medieval. Esse exercício de milhares de quilômetros na força das pernas não é pra qualquer um. Muitos, seja por falta de tempo, seja por impossibilidade física, percorrem a maior parte do caminho de carro. Em seguida, deixam o veículo e terminam o percurso com uma caminhada de 5km ou 10km, dependendo da disposição, do tempo e dos calos de cada um. Há também quem faça o percurso inteiro de bicicleta. Os romeiros são, na maioria, jovens – gente que está pelos vinte e poucos ou trinta e poucos anos.

Caminhos, há muitos, todos balizados. Há rotas que partem de longe – Alemanha, Áustria, Suíça, Inglaterra – mas todas atravessam necessariamente a França e, naturalmente, boa parte da Espanha. As estradinhas são caminhos vicinais, estreitos, por onde se consegue circular a pé ou de bicicleta. Pode-se ver, aqui e ali, algum veículo agrícola em seu trabalho habitual. Nada de automóveis, muito menos caminhões. As rotas são sinalizadas por placas que portam o símbolo dos Caminhos de Santiago.

Ao longo do percurso, há albergues simples, especializados no atendimento de peregrinos. Dotados de beliches, oferecem pousada em amplos dormitórios concebidos para várias pessoas. A refeição da noite é servida em mesas comunitárias. Tudo isso é proposto a preços módicos. As romarias se espalham pelo ano todo, com especial concentração de abril a outubro, os meses em que a temperatura não é tão baixa.

Para os que têm a intenção de caminhar somente os 5km ou 10km finais, há grandes áreas em que o automóvel pode ser estacionado durante vários dias gratuitamente. É a maneira que as autoridades encontraram para desafogar o tráfego na cidade de Santiago, que, não fosse isso, seria infernal.

Com espanto e tristeza, leio a notícia do atropelamento mortal de quase meia dúzia de romeiros que se dirigiam a Aparecida na semana que precedeu o 12 de outubro. Tirando os jornais regionais, o assunto mereceu duas linhas na imprensa. Tenho dificuldade em entender o descaso. Eram gente! Estavam viajando do jeito que podiam, uns a pé, outros de bicicleta, uns pra pagar promessa, outros por pura devoção. Nenhum deles estava ali pra exigir fechamento do Congresso nem do STF. Eram brasileiros – pobres, como a grande maioria.

Por que foram atropelados? Porque circulavam por uma via expressa, em dia de chuva e pouca visibilidade. E por que faziam essa loucura? Porque não tinham outra opção. Ou iam por ali, ou desistiam de pagar a promessa.

Desde que uma imagem de N. Sra. da Conceição, enegrecida por longo período de imersão, foi pescada no Rio Paraíba do Sul, 300 anos atrás, a devoção popular foi crescendo, ao ponto de a Igreja fazer dela a Padroeira do país. Formado nas cercanias, o arraial cresceu e hoje se chama Aparecida. Abriga atualmente a maior basílica do Brasil, uma das mais amplas do mundo, que há de ter custado verdadeira fortuna.

Só que os peregrinos que preferem (ou que são obrigados a) se locomover à antiga foram esquecidos. Talvez eu esteja desatualizado, mas nunca ouvi falar dos Caminhos de Aparecida, assim como todo católico europeu conhece os Caminhos de Santiago. Pela complexidade – concepção, obtenção de autorizações, revestimento de caminhos – somente o poder público é capaz de encampar essa obra. Devia haver não um, mas vários caminhos que levassem romeiros a Aparecida. Tinham de partir do Rio, de São Paulo, do sul de Minas, de Campinas.

Somos um país de poucas tradições. A Igreja e os governos estaduais da região deveriam se unir para fomentar e dar corpo a esse costume popular. Se essas peregrinações não se tornam mais concorridas é justamente porque não é qualquer um que está disposto a arriscar a vida de bicicleta na Via Dutra.

Viajar de ônibus e fazer o caminho a pé não são a mesma coisa. Uma via pedregosa leva mais rápido ao céu.

(*) Romeiro, em princípio, é palavra que designa o peregrino que vai a Roma. Mas é costume estender seu sentido para todos os que vêm de longe para uma visita ritual a um lugar santificado.