Mañana

José Horta Manzano

O Brasil enxergado pelos estrangeiros se encaixa num clichê imutável. Na composição do quadro, entram: praias, fio dental, caipirinha (ou caipiriña, como se vê em botecos da Europa), clima quente, carnaval, uma certa lentidão nos gestos e na fala, simpatia, bela música, baixa afeição pelo batente e uma grande simpatia por mañana – a arte de postergar. Que nos agrade ou não, é assim que somos vistos.

Entra presidente, sai presidente, o clichê não muda; é inabalável. Por mais que o lulopetismo tenha alçado a corrupção ao patamar de filosofia de governo, o brasileiro não passou a ser visto como indivíduo especialmente corrupto ou corrompível. Não mais do que já era no século passado, antes do Lula. Quanto a doutor Bolsonaro, por mais que arreganhe os dentes e insulte chefes de Estado a mancheias, como fez na ONU, os brasileiros não são passaram a ser vistos como especialmente agressivos ou provocadores.

No duro mesmo, o que o mundo sente é dó do povo brasileiro – assim como nós sentimos pena dos infelizes norte-coreanos, obrigados a sobreviver sob a bota de ditadura cruel. Todo o mundo faz a distinção entre o povo e os dirigentes de turno. Um exemplo? Aqui adiante.

Não deixes para mañana o que puderes fazer hoje. Deixa pra depois de amanhã e assim terás hoje e mañana livres.

Faz poucas semanas, caiu Matteo Salvini, uma das duas cabeças do então bicéfalo governo da Itália. Salvini era aquele que insistia num discurso de ódio e de intolerância, com relentos mussolinianos, num estilo aparentado ao de Bolsonaro. Agora que ele saiu, será que alguém mudou seu conceito com relação aos italianos? Certamente não. Com Salvini no governo ou sem ele, o povo peninsular seguirá sendo visto como sempre foi.

Outro exemplo são os EUA de Trump. Depois que ele tiver pendurado as chuteiras, o povo americano continuará sendo visto como sempre foi. Um governo de turno não tem o poder de distorcer o modo como o mundo enxerga a população do país.

Portanto, fique frio. O Lula e Dilma nos envergonhavam. Na mesma linha, doutor Bolsonaro continua a nos açoitar com um vexame atrás do outro. No entanto, felizmente, o mundo sabe fazer a distinção entre o mandatário-mor e a população. Continuam e vão continuar a nos ver na praia, de fio dental, caipiriña na mão, sempre deixando as coisas sérias para mañana.

Para o bem o para o mal, as coisas são desse jeito. E, pelo momento, a situação continua sem conserto. Mañana, quem sabe?

É irritante constatar a que ponto, no exterior, nossa língua é ignorada em favor do espanhol. Um exemplo está na ordem do dia. Desde que o futuro acordo Mercosul-União Europeia foi anunciado, o nome de nosso claudicante mercado comum tem sido frequentemente citado. Curiosamente, não aparece nunca como Mercosul, mas sempre Mercosur, à espanhola. Vai ver que é pra fazer companhia à caipiriña.

Alinhamento automático

José Horta Manzano

Em novembro passado, quando o pai ainda nem havia ainda vestido a faixa, doutor Bolsonaro júnior, em visita a Washington, enfiou na cabeça um boné marcado «Trump 2022». Pela mesma ocasião, encontrou-se com o genro do presidente americano e atirou-lhe flores ao descrevê-lo como ‘um dos mais importantes conselheiros da Casa Branca e grande empresário’.

De lá pra cá, vivemos um não oficial alinhamento automático com a maior potência do planeta. Embora a expressão pareça fácil de entender, não sei exatamente o que significa um país alinhar-se automaticamente com outro. Acho que ninguém sabe direito. Que haja convergência em diversos temas, posso entender. Daí a colar feito sanguessuga me parece complicado. Colônias, protetorados e satélites podem agir assim. País soberano, não.

Não convém que o Brasil grude em outro país, como se sombra fosse. Pouco importa que os EUA sejam a potência dominante. O problema é o mesmo. Com a mudança de dirigentes, a orientação do país que serve de modelo pode se alterar. Quando isso ocorre, como é que fica? Caso apareça novo presidente com ideias semelhantes às de Mr. Obama, um pouco menos America first e um pouco mais globalizantes, que fazemos? Desgrudamos? E se, em seguida, vier outro Trump? Grudamos de novo?

Banquete medieval

Ajustar a política externa é exercício pra lá de delicado. A própria União Europeia ‒ fechado clube de menos de 30 sócios relativamente bem de vida, com níveis de desenvolvimento não muito díspares ‒ tem de fazer exercícios de contorcionismo nesse campo. É virtualmente impossível encontrar solução unificada que contemple o interesse individual de cada membro. Haverá sempre os descontentes, que se recusarão a sentar-se à mesa do banquete.

Tomemos o caso do repúdio ao ditador venezuelano. O apoio explícito a señor Guaidó, presidente autodeclarado, só foi subscrito, até o momento presente, por 19 dos 28 países membros da UE. Os demais, cada um por um motivo que lhe diz respeito, preferem manter distância do conflito e não declarar apoio nem a um nem ao outro. A Grécia nem tenta disfarçar: dá apoio integral ao regime de señor Maduro. E ressalte-se que são todos sócios do mesmo clube.

Enquanto um Brasil entusiasmado apoiou Guaidó desde o primeiro dia, a Itália, apesar de contar com um Salvini tão chegado aos Bolsonaros, difere da maioria dos europeus. Recusa-se a manifestar apoio ao autoproclamado presidente venezuelano. Isso tende a demonstrar que o caminho do alinhamento automático ‒ com quem quer que seja ‒ não nos convém. É insustentável. Atritos e divergências aparecem rapidinho.