Ressaca ‒ 2

José Horta Manzano

Apesar da queda da seleção brasileira, a Copa do Mundo não acabou. Ainda falta uma semana. O número de atores diminuiu, mas a festa continua assim mesmo.

Embarcada a equipe brasileira, começam a escapar algumas verdades pouco comentadas antes. Li estes dias que a obesa delegação de nosso país era composta por nada menos que 150 pessoas. Uma coisa que eu não sabia: jogadores da seleção têm direito a trazer amigos e familiares ‒ a viúva é rica e generosa. Os cartolas-mores se encarregam da logística, compreendendo alojamento e transporte.

Tempos atrás, meu trabalho incluiu viagens com longa permanência no exterior. Como é natural, nunca foi permitido levar parentes nem amigos, que não era hora de farra. O bom senso indica que trabalho é trabalho, e férias são férias. Não se deve confundir.

É provável que a leviandade com que os dirigentes futebolísticos brasileiros encaram competições internacionais explique a negligência dos jogadores quando atuam no gramado. Os jovens se amoldam ao espírito da casa. Além disso, a carga afetiva causada pela presença da família há de contribuir para a instabilidade emocional da meninada. Pode até estar na raiz dos ataques de choro convulso a cada derrota.

Como contraponto, tenho um exemplo edificante. Herr Andreas Granqvist, 33 aninhos, é o capitão da seleção sueca de futebol. Entre dois jogos desta Copa de 2018, tornou-se papai. Diante de fato tão importante, a direção da seleção concedeu-lhe o direito a um bate-volta até a Suécia pra conhecer o rebento. Pois imaginem que a recém-parida esposa foi taxativa: «Nem pensar numa coisa dessas! Faça seu trabalho até o fim, depois você volta». Obediente, o capitão continuou na Rússia até seu time ser despachado pra casa.

Assombroso, não é mesmo?

Tá no bolso!

José Horta Manzano

A carreira do meia francês Emmanuel Petit como jogador de futebol profissional se estende de 1989 a 2004. Foi uma das revelações da Copa do Mundo de 1998, a única que seu país venceu.

Emmanuel Petit (1970-), antigo meia francês

Quando da final daquela Copa, Petit marcou o terceiro gol da vitória da França sobre o Brasil por 3 a 0. Foi um gol simbólico: a estatística assinala que era o milésimo do país em partidas internacionais.

Hoje longe do gramado, Monsieur Petit reconverteu-se em consultor e comentarista esportivo para a tevê. Também publicou, em 2008, um livro de memórias intitulado À fleur de peau ‒ À flor da pele. No texto incisivo, o jogador acerta contas antigas.

Emmanuel Petit não se furtou a dar a público seus prognósticos para a Copa da Rússia. Na final, ele vê o Brasil enfrentar… a Bélgica! Surpreendente, não? Enfim, quem batalhou como profissional em campo foi ele, não nós.

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Segundo as previsões, o Brasil bate o México nas oitavas para, em seguida, mandar a Inglaterra de volta pra casa nas quartas de final. Na semifinal, encontra Portugal e vence por 1 a 0. Na final, dá de cara com a Bélgica e, com vitória por 2 a 0, leva a taça.

São profecias de Monsieur Petit. O homem deve saber o que está dizendo.

Lewandowski

José Horta Manzano

Eu estava muito animado pra ver toda a equipe atuando, especialmente o Lewandowski, sempre excelente e certeiro em sua função.

No começo dos embates, o conjunto até que desempenhava bem. Parecia que o resultado da peleja ia ser satisfatório.

No entanto, à medida que o tempo foi passando, o trabalho de cada um se arrastou, diminuiu de intensidade. Lewandowski, pouco a pouco, murchou e decepcionou. No final, não deu outra: sua turma perdeu por 2 x 1.

Para que fique bem claro: falo aqui de Robert Lewandowski, futebolista de origem polonesa, que atua no Bayern Munique. Referi-me ao encontro entre Bayern e Real Madrid ocorrido ontem.

Não é, portanto, o Lewandowski nosso, mas o deles. O nosso não decepciona nunca, não falha nunca. Sua atuação é totalmente previsível.

Todos na rua

José Horta Manzano

Há quem tenha espírito jogador. É gente que acredita firme que vai tirar a sorte grande. Os meios de chegar à fortuna variam conforme o gosto de cada um: jogo do bicho, corrida de cavalos, carteado, loteria, roleta. A característica comum a todo jogador é a certeza obstinada de que vai ganhar um dia destes. Se não for hoje, será amanhã. Garantido.

by Miguel Abreu Falcão (1963-), desenhista pernambucano

by Miguel Abreu Falcão (1963-), desenhista pernambucano

Respeito esse traço de personalidade, mas não comungo com ele. Não me parece aconselhável entregar as rédeas do destino, sem mais nem menos, a mãos alheias. Convém segurá-las com firmeza enquanto for possível.

Para este 13 de março, estão marcadas manifestações de protesto em todo o país. As reivindicações, embora cubram amplo espectro, concordam em um ponto: basta de corrupção e de incompetência. A expectativa de ver multidões pelas ruas vem sendo acirrada por redes sociais e pela mídia. Como prova, o principal editorial do Estadão de hoje leva o título Chegou a hora de dizer: basta! ‒ exatamente assim, com ponto de exclamação. Lembra chamamento revolucionário.

Acho uma temeridade pôr tanta ênfase num acontecimento sujeito a tantos tropeços e a tantos imprevistos. Pode chover. Pode fazer friozinho. Pode não vir tanta gente quanto se espera. O medo de confronto com baderneiros pode fazer que muitos hesitem. Podem certos «institutos» desonestos contabilizar o número de participantes com erro a menor. Em resumo: o resultado das passeatas está à mercê de fatos aleatórios.

Bandeira olho 2Fazer demonstração em praça pública ‒ pacifica e civilizadamente ‒ para exprimir anseios é atitude positiva. Exibe a maturidade do povo e dá prova das liberdades que a democracia lhe concede. Já o fato de atribuir tamanha importância a uma determinada passeata é arriscado. Pode falhar, e aí, como é que fica?

De qualquer modo, alea jacta est ‒ a sorte está lançada. Vou parando por aqui, que é pra não carregar na consciência o peso de ter atrasado algum distinto leitor já paramentado de verde-amarelo. Tomara que não chova.

Interligne 18h

Coincidência
Manif 2Observe-se que o Comício da Central do Brasil, protagonizado pelo presidente Jango Goulart, soou o dobre fúnebre do regime. O presidente cairia 18 dias mais tarde. O comício teve lugar num 13 de março, faz hoje exatamente 52 anos.

La culotte

bra01393José Horta Manzano

A culotte, peça do vestuário masculino já varrida pelo tempo, era uma espécie de calça curta de tecido de valor, um calção que descia até o joelho. Daí pra baixo, a vestimenta era completada por meias.

Até a Revolução Francesa e a queda das monarquias absolutistas que veio em seguida, a culotte era apanágio de gente do andar de cima ― nobres, militares e amigos do rei. Os homens do povão se vestiam com calção inteiriço, largão, de pano grosseiro, verdadeiro ancestral do pijama atual. Eram os sans-culotte, os sem-culotte.

A culotte saiu de moda, mas o termo permaneceu e foi, digamos assim, reciclado. Hoje é usado para designar roupa íntima feminina. Pode também servir para dar nome a calças bufantes ― daquelas que os gaúchos chamariam de bombachas. Usa-se ainda essa palavra para nomear calça de montar a cavalo, calção de golfe.

Numerosas expressões familiares ou irônicas fazem uso da palavra. «Porter la culotte» ― usar culotte ― se diz de mulher que manda no marido. Em linguagem futebolística, se costuma dizer, de um jogador que sofre marcação cerrada, que ele está sendo «marqué à la culotte» ― marcado na culotte.

Culotte 1Sob o título «Neymar, marqué à la culotte», o site Courrier International (do grupo parisiense Le Monde), comentou a última façanha do jogador Neymar. Explicou a seus leitores que o futebolista, em pleno jogo, tinha arregaçado várias vezes seu calção para fazer propaganda de uma determinada marca de cuecas. O título do artigo é frase de duplo sentido, arte na qual os franceses são afiados.

Para que conste, informo que a palavra culotte é derivada de cul, a extremidade inferior do tubo digestivo.

Surpreso? Ora, distinto leitor, que não seja por isso. Mesmo sem nos dar conta, também nós usamos frequentemente derivados semelhantes. Senão vejamos: cueca, cueiro, culatra, acuar, recuar. Todas elas fazem alusão ao referido orifício.

Rapidinha 16

José Horta Manzano

Gente fina pela metade

Saiu no jornal que Romário, o jogador de futebol, foi apanhado numa batida policial. Não consentiu em soprar no bafômetro. Esse tipo de atitude equivale a confissão de culpa. Quem cala, consente. Amargou multa de quase 2 mil reais e está proibido de dirigir veículo automóvel por um ano.

Romário

Romário

Concordo que ninguém é perfeito, todos temos um lado sombrio. Mas esses eleitos deviam tomar mais cuidado que um zé qualquer. Todos aplaudiram quando o antigo profissional do gramado ousou desancar cartolas da Fifa e do comitê que organiza a «Copa das copas».

Desvios de conduta podem até ser tolerados em não-famosos. No entanto, aqueles que chegam aos píncaros da simpatia popular têm de ser mais zelosos. Um escorregão desses pode destruir uma reputação. Eleitor consciente não aprecia ser traído. Memento Demóstenes! ― falo do político goiano, não do estadista ateniense.

Gente fina tem de ser fina por inteiro e o tempo todo.