Contra ou a favor?

José Horta Manzano

Chamada do Diário do Poder, 4 dez° 2015

Chamada do Diário do Poder, 4 dez° 2015 às 9h30

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Chamada de O Globo, 4 dez° 2015

Chamada de O Globo, 4 dez° 2015 às 9h30

4 de dezembro de 2015, 9h30

O Diário do Poder afirma que dona Dilma dispõe de 124 votos a seu favor.

O jornal O Globo afirma que dona Dilma dispõe de 258 votos a seu favor.

Que significa essa diferença? Significa que ninguém sabe de nada. Quem disser que sabe estará mentindo.

A resposta só virá no dia da votação depois de o último parlamentar ter declarado o voto. Antes disso, tudo não passa de especulação.

Melhor que novela

José Horta Manzano

Hoje eu ia contar algumas particularidades curiosas do exército suíço. Atropelado pelos acontecimentos pátrios, deixo para uma próxima vez.

Provando que realmente faz jus ao mais alto cargo da Câmara, senhor Cunha mostrou empatia com o anseio de 90% dos brasileiros e, magnânimo, abriu as portas para o processo de destituição de dona Dilma. Foi gesto louvável de desprendimento.

Aliás, fez-me lembrar o adágio «alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo». Ao dar-se conta de que estava cercado por todos os lados – ilhado em seu universo de mentiras desmascaradas, abandonado pouco a pouco por gente com quem imaginava poder contar, ameaçado de perder o cargo, o mandato e a liberdade, com fortuna confiscada –, o deputado jogou a última ficha.

Dilma 15Doravante, sua única (tênue) esperança é ver a tempestade se transformar em forte furacão, daqueles que carregam tudo. Se não vier o tufão, nosso rancoroso presidente da Câmara tem pouca esperança de sair incólume.

Os mais antigos hão de se lembrar da novela Vale Tudo, exibida 25 anos atrás. O Brasil parou durante os capítulos finais, quando todos queriam saber quem tinha matado Odete Reutemann(*). Curiosamente, o intuito do autor da obra era abrir o debate sobre um problema de sociedade. «Até que ponto vale ser honesto no Brasil?» – era a questão de fundo. A resposta clara não veio até hoje.

Como o distinto leitor há de imaginar, a notícia do iminente processo de destituição da presidente repercutiu na mídia mundial. Dou aqui uma coletânea.

(*) Talvez para evitar erros de pronúncia, os responsáveis decidiram grafar Roitman no lugar do original Reutemann.

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Chamada de The Guardian, Inglaterra

Chamada de The Guardian, Inglaterra

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Chamada de Le Figaro, França

Chamada de Le Figaro, França

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Chamada de Der Spiegel, Alemanha

Chamada de Der Spiegel, Alemanha

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Chamada de La Nación, Argentina

Chamada de La Nación, Argentina

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Chamada de Digi24, Romênia

Chamada de Digi24, Romênia

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Chamada de El Periódico Internacional, Catalunha, Espanha

Chamada de El Periódico Internacional, Catalunha, Espanha

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Chamada de Sveriges Radio, Suécia

Chamada de Sveriges Radio, Suécia

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Chamada de De Volkskrant, Holanda

Chamada de De Volkskrant, Holanda

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Chamada de El País, Espanha

Chamada de El País, Espanha

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Chamada de TVN24, Polônia

Chamada de TVN24, Polônia

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Chamada de Corriere della Sera, Itália

Chamada de Corriere della Sera, Itália

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Chamada de Observador, Portugal

Chamada de Observador, Portugal

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Falam de nós – 15

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Violência em foco
Assalto 1Ao dar a notícia do enésimo tiroteio ocorrido no Rio de Janeiro este ano, a RTBFRadio Televisão Belga de expressão francesa – dá ênfase ao fato de estarmos a menos de um ano da abertura dos Jogos Olímpicos de verão. Que terão lugar, como todos sabem, na cidade de São Sebastião.

O artigo ressalta que nosso país, com média de 29 assassinatos anuais por 100 mil habitantes, é um dos mais violentos do mundo. Pela definição da ONU, taxa superior a 10 homicídios por 100 mil habitantes indica violência endêmica.

O Rio que se prepare. Durante estes meses que nos separam da abertura dos JOs, suas tripas estarão expostas à análise planetária.

Santana é nosso!
Rumores corriam na Argentina de que o ‘mago’ João Santana, marqueteiro titular do Partido dos Trabalhadores, estaria fazendo um bico na campanha de señor Scioli, candidato kirchnerista à presidência da república hermana.

O diário portenho La Nación traz a resposta firme e peremptória vinda do Brasil: «Nem João Santana nem ninguém de sua equipe estão participando da campanha de Daniel Scioli.»

O esclarecimento vem em boa hora. Señor Macri, candidado de oposição, tem boas chances de vencer o pleito. Marqueteiro nenhum deseja carregar no currículo uma eleição perdida.

2015-1103-01 La NacionNunca é tarde pra consertar
A veneranda BBC dá destaque ao pedido de destituição da presidente da República, apresentado por Hélio Bicudo. Como sabem todos, o doutor Bicudo é petista pentito. Pentito é termo italiano usado para designar todo aquele que, tendo feito parte de organização criminosa, se regenerou.

Desigualdade social
O diário Tages Anzeiger, um dos maiores jornais suíços, faz um balanço das perspectivas turísticas do país. Tendo em vista que o câmbio atual sobrevaloriza o franco suíço, uma temporada nas montanhas francesas ou austríacas sai bem mais em conta.

Nada se pode fazer contra a cotação da moeda, é verdade. Mais vale ir buscar categorias de turistas com poder aquisitivo suficiente para enfrentar um passeio pelas neves helvéticas.

Promotores turísticos espicham o olho para essa clientela afortunada. E onde é que vão buscar essas pérolas raras? Especialmente em dois improváveis países: na China e… no Brasil. Quem diria, hein!

Expo 1Brasil leiloado
Fim de semana passado, depois de seis meses, a Exposição Universal de Milão (Itália) fechou as portas. Pouco comentada no Brasil, a feira italiana atingiu o incrível patamar de 20 milhões de visitantes, uma cifra enorme. Cada país montou pavilhão, como é costume. O do Brasil foi um dos mais visitados, tendo recebido 5,3 milhões de pessoas.

O que mais chamava atenção no pavilhão brasileiro era uma rede suspensa sobre a qual o público podia caminhar. Não sei se a intenção dos organizadores terá sido transmitir a sensação de areia movediça e de insegurança que caracteriza nosso país. Será apenas coincidência.

Fato é que, terminada a exposição, os pavilhões foram a leilão. Orgulhoso, o jornal La Provincia di Lecco, da cidade homônima situada a 65km de Milão, informa que o pavilhão brasileiro foi arrebatado por uma empresa local especializada em montagem de eventos. O lance final foi de um milhão e oitocentos mil euros, bem abaixo do custo de construção.

Manif 10Cada qual como lhe convém
A emissora estatal venezuelana de tevê Telesur, também conhecida como «tevê do Chávez», dá em manchete, com visível alívio, a notícia de que o Exército Brasileiro descarta toda possibilidade de golpe de Estado contra dona Dilma.

A tevê destaca que os militares não têm intenção de se alevantar, em que pesem os continuados escândalos de corrupção.

Fiel a sua missão de guardiã do bolivarianismo – mas um tanto esquizofrênica –, a emissora inclui fotos e vídeos de manifestações em que alguns gatos pingados, vestidos de vermelho, protestam contra o ajuste fiscal decidido pelo próprio governo de dona Dilma. Vá entender…

Última chance

Sebastião Nery (*)

É um velho e macabro ritual na história brasileira. Quando o presidente da República está para cair, um jornalão dá o grito em editorial na primeira página. E nenhum tem resistido a essas aves de mau agouro. Foi assim com Getúlio, Jânio, Jango, Collor.

by Wellington Soares da Silva, desenhista pernambucano

by Wellington Soares da Silva, desenhista pernambucano

Domingo, de alto a baixo da primeira página, em letras garrafais, a Folha de São Paulo – tentando disfarçar mas indisfarçadamente –, anunciou a derrubada de Dilma. Não diz como nem quando. Mas ousa:– Última Chance.

(*) Sebastião Nery, jornalista, é editor do site SebastiãoNery.com.

Carta-renúncia

Cláudio Humberto (*)

Apesar de ter declarado que “suporta a pressão”, a presidente Dilma já teria preparado uma carta-renúncia. Fontes do Palácio do Planalto garantem que a redação da carta não foi um ato solitário, como é comum nesses casos. Dilma teria contado com a ajuda de dois de seus ministros mais próximos: Aloizio Mercadante (Casa Civil) e José Eduardo Cardozo (Justiça) – apesar de ambos serem contrários à ideia.

Panelaço 3Confirmada a renúncia de Dilma, o vice-presidente Michel Temer assumiria imediatamente o comando do Executivo.

Além da renúncia, há outras hipóteses para a saída de Dilma: representação da oposição por crime financeiro e ação na Justiça Eleitoral.

Se prosperar a representação da oposição na Procuradoria-Geral da República por crimes financeiros, Dilma poderia ser cassada.

Já a ação eleitoral por financiamento ilegal de campanha pode culminar no cancelamento do registro da chapa. Assim, cairiam Dilma e Temer.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

A semana em revista

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Cuba e o Mais Médicos A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) já recebeu, por meio do Mais Médicos, mais de R$ 4,3 bilhões do governo federal. Alvo de graves denúncias de uso do programa como fachada para financiar a ditadura cubana, a Opas repassava aos médicos apenas 10% dos R$ 11 mil pagos por profissional, levando quase cinquenta cubanos a desertarem e fugirem do Brasil para não correrem risco de deportação.

Claudio Humberto, jornalista.

Comentário deste blogueiro A notícia não menciona crescente suspeita de que boa parte dessa fortuna tenha sido repatriada ao Brasil. Tanto pode ter vindo em malas, como pode ter sido depositada em contas offshore. De toda maneira, que se saiba, o dia a dia do sofrido povo da ilha não melhorou com esses bilhões todos.

Interligne 28aBrasil e ChinaFaçanha diplomática Uma das façanhas da diplomacia inaugurada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003, foi isolar o País das grandes oportunidades de integração comercial, torná-lo dependente em excesso do Mercosul e da vizinhança e condená-lo a uma relação semicolonial com a China. Rolf Kuntz, jornalista.

Interligne 28aDilma nas mãos de Cunha Enrolada nas pedaladas fiscais, Dilma Rousseff reclama com aliados que está nas mãos do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Ela tem razão em se preocupar. Cunha vive às turras com o PT, que o hostiliza, e será ele quem analisará a admissibilidade de eventual pedido de impeachment. E quem o conhece sabe que se ele colocar o caso em votação, no plenário, dificilmente Dilma escapará. É o que a apavora.

Claudio Humberto, jornalista.

Interligne 28aEquador 2Onda de manifestações no Equador Bastou o papa Francisco deixar o território equatoriano para que milhares de pessoas voltassem às ruas, na última quinta-feira, em Quito e Guayaquil, com faixas de «Fora, Correa, fora» e «O Equador não é a Venezuela».

Sylvia Colombo, jornalista.

Comentário deste blogueiro É em momentos como esse que o Brasil, cuja ambição é liderar a região, teria de usar seu peso político e econômico para pressionar o governo equatoriano com vista a repor aquele país nos trilhos. Somos os principais responsáveis pela sobrevivência de governos autocráticos como os do Equador, da Bolívia e da Venezuela – relíquias mumificadas de um tempo que passou.

Interligne 28aBrics 2Patota Na Rússia, a presidente Dilma Rousseff defendeu a cooperação entre os integrantes do Brics – Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul – como reação à crise. Presa ao cacoete, mais uma vez uma autoridade brasileira insiste na fantasia do clubinho alternativo como forma de sobreviver no mundo malvado.

Rolf Kuntz, jornalista.

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Malhação e aleluia

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 abr 2015

Que tenham sido um ou dois milhões nas ruas, dia 15 de março, tanto faz. A conta pouco conta. Que ministros deem as costas e se ponham a renunciar pode surpreender, mas tampouco é capital. Que assessores e porta-vozes se contradigam, que deixem o dito pelo não dito, que troquem os pés pelas mãos também não é o fim do mundo.

Cabo de guerra 1

Cabo de guerra

Que antigo presidente ameace soltar nas ruas exército paralelo, à imagem das milícias de Hitler e de Mussolini que impunham lei particular na valentona, não é plausível. Ainda que o Brasil esteja «esticando a corda», como confessou um ministro recentemente, o cabo de guerra não há de rebentar tão já.

Que o Congresso e a presidente andem às turras, que se mordam reciprocamente as excelsas orelhas, que se assestem mútuas pedradas é coisa de somenos. Que subam o dólar e a inflação, que baixem os reservatórios e a credibilidade do País são coisas da vida. Sobreviveremos.

Milicia 1

Milícia de Mussolini

Nossa presidente tem couraça rija, daquelas que não cedem a pressõezinhas. Forjada no enfrentamento, já passou por outras e não é de se assustar com miudezas.

No entanto, tudo tem limite. Cada um tem seu calcanhar de aquiles. Presidentes podem, peito aberto, dispensar louvor de áulicos, prescindir de ministros e até encarar congressistas. Um único pilar lhes é vital e imperativo: o apoio do povo que os elegeu.

Não há que se diga: o fator maior de desestabilização de Dilma Rousseff é sua vertiginosa queda no barômetro de popularidade, aferida por pesquisa recente. O que era apenas percepção tornou-se fato.

A presidente pode (dizem as más línguas que costuma) oferecer demorados chás de cadeira a assessores e outros visitantes. Pode humilhar publicamente, como de fato já fez, embaixador estrangeiro. Pode desconsiderar, como tem feito, críticas e alertas trombeteados pela mídia daqui e de fora. Existe algo, no entanto, que ela não pode fazer sem correr perigo funesto: passar por cima do descontentamento e da reprovação daqueles que nela depositaram confiança e que ora se sentem defraudados.

Há quem aposte em eventual destituição da mandatária pelo Congresso. Hipotética e traumática, a solução seria sobretudo desastrosa – deixaria sombras e amargor por muitos anos. Quem tem mais de 30 anos já assistiu a esse filme, verdadeiro traumatismo ainda vivo na memória.

ba Claudius Ceccon, desenhista gaúcho

by Claudius Ceccon, desenhista gaúcho

Sejamos objetivos. Dois fatores conjugados foram necessários para alçar Dilma à presidência. Por um lado, ao registrar candidatura, ela mostrou a decisão de dirigir a República. Por outro, ela se submeteu ao voto popular, universal e direto para obter o posto. Por coerência, eventual quebra de mandato tem de ser produto da interação dos mesmos fatores que a içaram ao cargo maior: vontade popular e decisão da interessada.

Nos dias de hoje, destituí-la por decisão de parlamentares pega mal. Ainda que tenham sido eleitos pelo povo, nossos congressistas têm feito tantas artes que são percebidos como descompromissados com o bem comum. Decidido pelo Congresso, eventual impedimento da presidente pode até ser tachado de conluio. Não convém seguir essa via.

Magnânima, a história guarda exemplos de como fazer. Uns casos são mais edificantes que outros. Entre os marcantes, está a despedida de De Gaulle, em 1969. Passada a enxurrada de protestos do ano anterior, o general sentiu-se desprestigiado. Começou a dar-se conta de sua desconexão com a nova realidade.

De Gaulle 1

Charles De Gaulle

Antes que o despedissem, afronta insuportável para velho leão, ele encontrou a parada: convocou um plebiscito – um mero subterfúgio. Na teoria, os cidadãos deveriam referendar uma reforma administrativa. Na prática, De Gaulle queria certificar-se de que o povo ainda o queria como presidente. Foi logo avisando que, caso a reforma fosse rejeitada, renunciaria ao mandato. Dito e feito. Derrotado pelo voto popular, o presidente deixou o cargo no dia seguinte.

Em outras ocasiões, dona Dilma já acariciou a ideia de plebiscito, sem nunca ter chegado aos finalmentes. Pois a hora é agora. Que escolha um pretexto qualquer, que o submeta à decisão popular e que deixe bem claro que, em caso de rejeição, renunciará ao que lhe resta de mandato.

Se for derrotada, sairá de cabeça erguida: terá saído porque quis e não por bilhete azul dado pelo Congresso. Se for respaldada, terá recebido a confirmação de que os brasileiros desejam sua permanência. Seja qual for o resultado, desonra não haverá.

Malhação do judas by Jean-Baptiste Debret (1768-1848), artista francês

Malhação do judas
by Jean-Baptiste Debret (1768-1848), artista francês

Hoje, malha-se o judas. Possa o domingo de Páscoa serenar ânimos e perenizar a aleluia. Ninguém merece este clima por mais quatro anos.

Falam de nós – 6

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

O jornal Gazeta – Brazilian News, publicado no Estado americano da Florida e dirigido à colônia brasileira estabelecida por lá, informa que a contestação ao governo federal brasileiro se alastra e chega até aquela região.

Apesar de não viverem no Brasil, muitos expatriados estão desagradados com o modo pelo qual o País vem sendo governado. Para fazer eco à reação nacional, um protesto está sendo convocado para o dia 15 em Miami.

Gazeta 1Os organizadores ressaltam que, nas últimas eleições, 91% dos brasileiros inscritos no consulado votaram em Aécio, deixando dona Dilma com nada mais que 9%.

Brasileiros do exterior não são nem melhores nem piores que os outros. A brutal diferença de apreciação política se prende a dois fatores:

Interligne vertical 141) Escapam à martelação da propaganda oficial a que são submetidos os que vivem no Brasil.

2) Têm ocasião de assistir ao vivo o desenrolar da vida de todos os dias numa região onde corrupção e sujeira política são menos encorpadas que no Brasil.

Desafio

José Horta Manzano

Duelo 1Fui desafiado! Ainda bem que já vai longe o tempo em que se duelava em defesa da honra. Fiel leitora e amiga de longa data, a escritora Myrthes Suplicy Vieira resolveu chacoalhar o vespeiro. Dou-lhes, aqui abaixo, o pingue-pongue.

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Repto ao editor deste blog

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Meu questionamento é simples: vale realmente a pena salvar a democracia do Brasil?

Conversei demoradamente com minhas cachorras sobre esse tema. Elas demonstraram, assim como eu, um enorme ceticismo quanto à possibilidade de implementação de uma solução realmente eficaz para enfrentar em definitivo os desafios de nossa pátria.

Embora concordemos que a convocação de uma Assembleia Constituinte seja a opção mais sensata neste momento, ainda guardamos fortes resistências quanto à sua formatação. Quem seriam os constituintes? Os mesmos parlamentares que hoje nos enchem de vergonha por sua miopia na defesa dos direitos dos cidadãos? Juristas e pessoas consideradas como de douto saber? Quem especificamente? Novos representantes do povo escolhidos especialmente para a ocasião? Que critérios seriam adotados para identificar os mais aptos ética e politicamente a desempenhar essa missão?

Cachorro 18Vai longe o tempo em que nos deparamos com estadistas, aquele tipo de pessoa que minhas cachorras insistem em chamar de líder de matilha. Não sabemos mais identificar governantes capazes de esconjurar o populismo e que se façam seguir meramente por serem modelos vivos de suas crenças. Que façam na prática o que pregam como estratégia política. Que queiram servir e não servir-se.

Minhas cachorras apontam ainda outra fragilidade em nosso sistema. O país, dizem elas, está hoje dividido entre nós e eles, brancos e negros, ricos e pobres, defensores do impeachment e os que anseiam pela volta dos militares. Quem poderia, perguntam, promover a reconciliação? E vão além. Dizem que a população está numa fase delicada de transição, sem saber ao certo se aposta no próprio poder e descarta as velhas estruturas viciadas ou se quer delegar o poder uma vez mais a um guia forte, centralizador, que jure conhecer todas as saídas. Quem poderá falar aos corações das duas partes e cicatrizar as feridas que o ódio de classes abriu?

Perdoe o avolumado de nossas perguntas. Você sabe como os cães conseguem ser insistentes e como eu busco incessantemente pelo em casca de ovo. Tão logo você consiga metabolizar tantas indagações, por favor registre suas percepções em uma nova postagem. Aguardamos ansiosas suas respostas. Torcemos para que você consiga identificar pessoas ou instituições dispostas a pegar do chão a banana que atiraram contra nós e usá-la como fonte de nutrientes.

Atenciosamente,
Myrthes, Molly e Aisha

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

 

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Querida amiga e fiel leitora,

Como se costuma dizer em países de fala francesa, «la réponse est dans la question» – a resposta está contida na própria pergunta. Você quer saber se vale realmente a pena salvar a democracia do Brasil? Se, por «salvar», você entende segurar e dar sustento ao regime que vivemos atualmente, minha resposta é claramente negativa. Não, não vale a pena manter o que aí está. E não acredito ser o único a pensar assim. Isso posto, que fazemos?

Com a arrogância que só a ignorância lhe permite, nosso guia acaba de conclamar o país a uma guerra civil. Não deixa de ser um caminho, embora não me pareça o mais cômodo. Luta armada não é cenário propício para cidadãos condenados a continuar vivendo juntos depois do armistício. Marcas profundas perigam subsistir por decênios. Melhor escolher outra via.

Nós e elesAs instituições jurídicas de que dispomos têm mostrado sua ineficácia. Por um lado, vemos ladrões de galinha apodrecendo em masmorras por anos inteiros. Por outro, vemos bandoleiros de colarinho e gravata livres e soltos – à custa de batalhões de advogados pagos com nosso dinheiro. Para os poderosos, embargos infringentes, remissões de pena, indultos, perdões e outros habeas corpus. Pros outros, a crueza da lei nua. A manter-se esse baião judiciário de dois tempos – um tempo para os do andar de cima e outro, bem diferente, para a ralé –, o País não voltará aos trilhos tão cedo.

Constituição 5Que senda escolher então? Convocamos os russos? Os americanos? Os chineses talvez? O prazo está-se esgotando. Mais vale agir antes que o clamor nacional – que se avoluma em ritmo frenético – não deixe outra saída senão chamar de volta os brucutus. Daí eu preconizar novo arcabouço legislativo. Um reset e uma reformatação geral. Uma nova república.

A atual, nascida das cinzas de regime autoritário, privilegiou a liberdade. Preocupados em suprimir o «entulho autoritário», descuidados constituintes exageraram na dose. Esqueceram que, a cada direito concedido, tem de se contrapor um dever. Como resultado, vivemos num regime em que o cidadão tem braçadas de direitos e escassos deveres. Naturalmente, o que tinha de acontecer está acontecendo: os direitos de uns se sobrepõem aos direitos de outros. O resultado é bagunça total. Manda quem grita mais alto.

Assembleia 3Para criar novo regime sem guerra civil, sem intervenção estrangeira e sem brucutu nas ruas, não há outro caminho senão uma assembleia constituinte. Como montá-la? Quem serão os componentes? Quais serão suas atribuições? E o Código Penal – fica como está ou deve ser reescrito? Não cabe a mim, sozinho, dar resposta a essas questões. Diferentemente de nosso guia, tenho a humildade de reconhecer não dispor de soluções mágicas na algibeira. Tampouco costumo tirar coelhos do boné.

Não sei por onde começar, mas sinto que a hora é agora. O Brasil tornou-se um pote até aqui de mágoa. Acredito (e espero) que, entre nossos 200 milhões de compatriotas, ainda haja gente de bom senso e de boa vontade, cidadãos dispostos a levar a ideia adiante. Oxalá.

Ou então… resta a opção mais simples: deixar tudo como está pra ver como fica. Na hora H, é até capaz de dar tudo certo. Afinal, Deus é brasileiro, não é mesmo?

Mui cordialmente,
José Horta Manzano

Bode expiatório

José Horta Manzano

Bode 1O homem costuma dar um jeito para que seus pecados sejam pagos por algum outro vivente. Religiões e civilizações trataram de designar seu bode expiatório. Houve quem sacrificasse animais – algumas religiões continuam seguindo a prática. Houve até os que chegaram a sacrificar gente – qualquer um servia, desde que não fosse o comanditário.

Por se faz isso? Porque se supõe (e se espera) que o sacrifício aplaque a ira dos deuses. Já que alguém tem de ir para o abatedouro, que seja um bicho, que é mais simples. Na pior das hipóteses, que vá um ser humano – qualquer um serve, desde que não seja eu.

Dezenas de empresários, políticos, figurões, deputados, senadores – até um governador! – estão atualmente na berlinda, acusados de participação na roubalheira orquestrada contra a petroleira nacional. Não estamos falando do seu Manuel da venda, minha gente, são mandarins graúdos: até o presidente da Câmara e o do Senado aparecem na lista dos réus! Não é coisa pouca.

No entanto, anestesiado por mentes muito mais matreiras do que imagina, o povo anda seguindo, sem se dar conta, o velho padrão. Dado que é difícil pedir a cabeça de tanta gente, o foco cristalizou-se numa figura só: a da presidente da República. É a Geni da vez, para-raios da ira popular.

ba Claudius Ceccon, desenhista gaúcho

by Claudius Ceccon, desenhista gaúcho

Panelaços, críticas, acusações, diatribes e cartuns são lançados contra dona Dilma. Não digo que ela esteja isenta de culpa na deliquescência de nossa sociedade. Culpada certamente é, como são todos os que, tendo como fazê-lo, se desobrigaram de dar contribuição para minorar os males de que sofrem os brasileiros. Dona Dilma, contudo, não é a única, longe disso.

Muitos medalhões merecem tanto quanto ela – talvez até mais – ser alvo de condenamento público. Para essa gente, o panorama atual é bálsamo, um presente do povo brasileiro. Estão esfregando as mãos de satisfação. Enquanto o rebanho se pinta de verde-amarelo e levanta cartazes exigindo o impedimento da presidente, a caravana dos velhacos-mores vai passando. E a poeira vai baixando. Nada como dar tempo ao tempo.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Fica cada dia mais evidente que a República Nova, que emergiu em 1985 das cinzas do regime militar, se esgotou. Populismo, incompetência e corrupção acabaram com ela. O regime nascido em 1946 tinha durado parcos 18 anos. O regime militar não se manteve de pé por muito mais: só 21 aninhos. Estes trinta anos de República Nova já representam, para nossos padrões, duração apreciável.

Dá no mesmo, que Dilma fique ou que Dilma se vá: o regime está carcomido e o fundo do poço está próximo. Chegou o momento de convocar, pelo voto universal, representantes do povo a fim de fabricar nova Constituição. Constituinte, já!

A caixinha mágica

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 7 mar 2015

Caixa 1Minha avó, genuíno produto do século 19, nasceu antes do rádio, do avião e do automóvel. Mal e mal chegou a conhecer a televisão. Costumava contar uma história fantástica que tinha ouvido quando criança. Falava de um rei de conto de fadas que possuía uma caixinha mágica. Aproximando o ouvido do estojinho, o monarca podia escutar tudo o que acontecia no reino, inclusive as conversas de todos os súditos. Um prodígio.

Radio 4«Era o rádio!» – explicava-nos a velhinha, extasiada de ter assistido à transmutação da caixa mágica em objeto real. Até o último suspiro, a velha senhora acreditou firme que, com a radiodifusão, a humanidade tinha atingido o apogeu em matéria de comunicação e de encurtamento de distância.

Estava enganada, como hoje sabemos. Ainda havia muito pela frente. Vieram os satélites artificiais e, com eles, a banalização da telefonia intercontinental. Aviões a jato converteram expedições dificultosas em escapadinhas de fim de semana. Os complicados «cérebros eletrônicos» de antanho evoluíram: onde antes exigiam local vasto e exclusivo, cabem hoje no bolso de qualquer mortal. Calculadora de supermercado tem poder superior ao dos gigantescos ancestrais.

Carro 3Veja só como era. Uma explosão, atribuída a enorme meteoro, sacudiu a Sibéria em 1908. A rebentação destruiu a floresta num raio de 20 quilômetros e danificou aldeias a léguas dali. De trem, a notícia levou alguns dias para chegar aos ouvidos do tsar, na capital do império. Precisou mais algumas semanas para o mundo ficar sabendo. Para arrematar, a primeira expedição de inspeção científica ao local só foi organizada vinte anos mais tarde. Era essa a velocidade com que notícias se alastravam.

O mundo mudou. O andamento se acelerou. A assombrosa rapidez com que zilhões de gigabaites se disseminam a cada segundo tem facilitado a vida de muitos – mas conturbado a existência de outros. Quem pouco ou nada tem a esconder aprecia o ritmo frenético de redes sociais, uotisaps & congêneres. Já pra quem prefere a discrição… todo cuidado é pouco. O ambiente está ficando perigoso.

Qualquer cidadão dotado de bom senso concorda que o Brasil atravessa etapa periclitante. Se a vertiginosa circulação da informação não é causa única, tem contribuído para agravar.

Apito 1Já não se pode mais ter confiança em nada nem em ninguém. Câmeras, grandes e pequenas, estão por toda parte. Você pode estar sendo filmado e gravado pelo próprio cidadão com quem está confabulando – um microaparato pode-se dissimular no nó da gravata ou até no botão do colarinho.

Um magistrado toma emprestado por alguns minutos um carrão apreendido, só pra sentir o gostinho de sentar-se ao volante de um bólido, e pronto: já foi filmado, gravado e denunciado. Um apuro!

Camera 1Um figurão, no inocente intuito de conhecer a cotação do dólar, chama um doleiro amigo, e pronto: já caiu na boca do povo. Uma impropriedade!

Um obscuro funcionário dum banco de Genebra, ao levar no bolso um trivial pendrive carregado com dados financeiros de seleta clientela, incendiou a banca e mandou para o espaço o secular segredo bancário suíço. Uma iconoclastia!

Nossa presidente já disse mais de uma vez que nunca antes neste país se haviam investigado tantos crimes. Tem razão. Primeiro, porque nunca se tinha visto cachoeira de malfeitos tão caudalosa. Segundo, porque a linha que antes apartava os bastidores do picadeiro está cada dia menos nítida. Francamente, já não se pode mais nem delinquir em paz.

Computador 8O que tem salvo figurões, medalhões e magnatas – por enquanto! – é o fato de o cenário andar muito concorrido. Os envolvidos são pletora, e o palco está lotado. Tudo o que é demais cansa. Chegado ao ponto de exaustão, o cidadão, vencido pela apatia, vai-se tornando blasé, indiferente.

Mas deixe estar. Mais dia, menos dia, esse deprimente espetáculo do petrolão, em cartaz já faz um ano, há de chegar ao fim. Alguns comparsas serão irremediavelmente condenados, nem que seja para exemplo. Já os capangas-mores – alguém duvida? – escaparão. Impedimento da presidente? Nem pensar. Não interessa a ninguém, e a emenda pode sair pior que o soneto.

Big Brother 1O petrolão terá sido marco divisório entre o velho Brasil e o novo. Deverá desestimular a corrupção, assim como a Segunda Guerra baniu conflitos globais.

Nepotismo, compadrio e corporativismo sempre existirão, é inelutável. Mas, convenhamos, candidatos à delinquência em escala industrial serão muito cuidadosos da próxima vez. Onde antes não havia risco, hoje há. Big Brother veio pra ficar.

Dois pra lá, dois pra cá

José Horta Manzano

Interligne vertical 11a«Lo que hoy empieza a dar miedo es que algunas fuerzas políticas, tentadas por el demonio de la perpetuación en el poder a cualquier precio, en vez de buscar soluciones para la salida de la crisis, puedan acabar dividiendo al país como sucede ya en Argentina y Venezuela, con tentaciones, como en aquellos países, de amordazar la información libre.»

«O perigo atual é que algumas forças políticas – obsessionadas pela perpetuação no poder a qualquer preço –, em vez de procurar soluções para sair da crise, acabem fraturando o país e tentando amordaçar a livre informação, tal como já acontece na Argentina e na Venezuela.»

Enquanto os brasileiros, temporariamente anestesiados, ‘pulam’ seu carnavalzinho, analistas internacionais externam preocupação quanto ao que está para acontecer logo depois que momo tiver deposto sua coroa.

Dança 2A exemplo, leia-se o interessante artigo do jornalista e escritor Juan Arias Martínez, publicado em 16 fev° 2015 pelo quotidiano espanhol El País. Numa comparação entre o caráter brasileiro e o de seus vizinhos de parede, o articulista conclui que, onde outros povos latino-americanos costumam se dividir em blocos fratricidas, o brasileiro sempre se mostrou unido na adversidade.

Cita o movimento das Diretas Já e as Manifestações de Junho 2013. Ressalta que, na hora do aperto, os brasileiros costumam se agregar em torno de uma só ideia, diferentemente de seus vizinhos. Venezuelanos, argentinos e outros hermanos tendem a se fragmentar em blocos antagônicos.

Manif 13As lentes do analista espanhol temem que o vírus da desagregação social nos esteja contaminando. Cita o crescente clamor pela destituição da presidente, contrabalançado por resistência feroz de grupos que apoiam a mandatária – aqueles que línguas venenosas qualificam como «militância paga».

Do ‘nossas roupas comuns dependuradas’ estamos passando para o ‘dois pra lá, dois pra cá’. Da luta pelo bem comum, vamos lentamente escorregando para o encorajamento a erradicar aqueles que não pensam como nós.

Manif 14Arias menciona a Petrobrás, o juiz Moro, a operação Lava a Jato, a pesquisa Datafolha, a Constituição. Lembra também que manifestações de âmbito nacional estão convocadas para 15 de março. Diz que é difícil saber que «eco popular» poderão ter as passeatas.

Também, pudera. Num país onde se vai dormir sem saber se no dia seguinte a lei não terá mudado, nem bola de cristal ajuda a adivinhar o futuro. Quem viver verá.

Que clique aqui quem quiser ler o artigo na íntegra.

Frase do dia — 221

«O impeachment é o contrário de um golpe. Trata-se de um mecanismo constitucionalmente previsto que pode ser utilizado para sair de certas crises. Embora seja um processo traumático, é certamente preferível a tanques nas ruas.»

Hélio Schwartsman em sua coluna da Folha de São Paulo, 6 fev° 2015.

O coqueiro e a ladeira

José Horta Manzano

A distinta e fiel leitora Michèle fez um comentário muito pertinente no post Falam de nós – 1, publicado em 3 nov°. Achei que a resposta podia interessar outros leitores, eis por que ela está aqui a seguir.

Interligne vertical 16 3KbCompreendo seu desconcerto, Michèle, que é o de tanta gente. Também eu me sinto desarmado. Mas deixe estar, que tudo o que sobe acaba descendo um dia. E, como todos sabem, mais alto é o coqueiro, maior é o tombo.

Coqueiro 1Há duas maneiras de afastar esse cálice amargo de nossa boca e de arredar do andar de cima essa gente que nunca deveria ter lá entrado. Uma das soluções é mais demorada; a outra, bem mais rápida.

O caminho demorado é dar instrução ao povo. É radical, só que, pra chegar lá, precisa primeiro investir e, em seguida, esperar uns vinte anos. Nossa elite governante não tem tempo nem vontade de se dedicar a civilizar os mais carentes. Portanto, essa ruela é sem saída.

Sobra a solução rápida. E ela já está a caminho. Se estivéssemos no século XIX, diríamos que ela «vem a cavalo». Nos anos cinquenta, a expressão era «vem vindo a jacto». Sabe o que é, Michèle? Pois é a economia.

A dor mais doída que se pode impor a um povo é a dor de bolso. Você, que é muito jovem, não conheceu os tempos da hiperinflação. Era um terror. Os preços dobravam a cada mês. Ninguém mais tinha ideia do valor de objeto nenhum. Se lhe cobrassem 10, 15, 20 ou 25 por um produto qualquer, dava no mesmo. A gente sequer sabia qual seria o salário no fim do mês – os reajustes eram mensais. Não dava pra fazer conta, nem previsão. Loucura maior seria comprar a prestação. Era desespero total.

Se o Collor foi despachado de volta pras Alagoas, 20 anos atrás, foi em grande parte por causa do vendaval econômico que varria o País. Somente a estabilidade permitiu que um FHC e um Luiz Inácio governassem com relativa tranquilidade. Para os mais jovens, parece que é ponto pacífico, que sempre foi assim. Não foi, acredite. O Plano Real foi uma conquista histórica e trouxe um bem-estar com que nós, os mais antigos, nem sonhávamos. Esse foi, sim, o grande salto em direção ao Primeiro Mundo.

Crédito: Baixaki

Crédito: Baixaki

Hoje, pelo andar da carruagem, estamos descendo a ladeira, veja só. A inflação de volta, preços subindo, indústrias fechando. A China – nosso principal mercado(!) – andando em marcha reduzida. A Argentina às portas da falência e a Venezuela em perdição. No governo, a roubalheira corroendo o que resta. A dívida pública engordando. A marca Brasil perdendo prestígio e caindo em descrédito perante o resto do mundo. Todos os indicadores estão no vermelho e apontam para baixo.

Não vai demorar muito. O fruto vai cair de podre. Como? Não sei, que não tenho bola de cristal. Aliás, acho que ninguém sabe direito como vai ser. Mas a coisa não pode – e não vai – continuar assim mais muito tempo. A má gestão, quando ataca a economia, afeta a todos, ricos, pobres e remediados.

Abraço a você. E obrigado pela fidelidade.

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Já ensinava o velho Lucius Annæus Seneca, filósofo e estadista romano, em suas Epístolas Morais a Lucílio:

«Multos fortuna liberat pœna, metu neminem»
«A sorte livra muitos do castigo, mas não do medo»

Frase do dia — 45

«Para evitar o impeachment, Lula abriu os braços a oligarcas e representantes do atraso no país. Sarney, Collor, Maluf e Renan são hoje amigos do peito do ex-presidente petista. Eles estão soltos. Dirceu e Genoino estão presos. Faz sentido.»

Vinicius Mota, in Folha de São Paulo, 18 nov° 2013