Paralimpismo ‒ 3

José Horta Manzano

Os Jogos Paraolímpicos estão aí na esquina, começam semana que entra. Muitos repetem, como papagaio, que os embates são «paralímpicos». Nossos ouvidos repelem essa formação. Não é comum amputar final de prefixo. Vai contra o espírito da língua.

Na mídia nacional, praticamente todos sucumbiram à novidade. Honrosa exceção será feita à Folha de São Paulo. Contra ventos e marés, mantêm a grafia «paraolímpico», tão mais agradável de ouvir.

Já quatro anos atrás, quando se começou a mencionar esse termo, escrevi um artigo sobre o assunto. Aliás, foi publicado pelo Correio Braziliense. Se alguém estiver interessado, que clique aqui.

Frase do dia — 314

«O sectário atribui significados transcendentais a seus caprichos – e, se puder, impõe obediência geral a eles. A circular com que Dilma obrigava seus subordinados a usar a palavra “presidenta” jamais serviu à causa dos direitos das mulheres, mas criou uma fronteira de linguagem entre a militância petista e os demais cidadãos.»

(*) Demétrio Magnoli, geógrafo, em coluna publicada em 27 ago 2016.

Erro de cálculo

José Horta Manzano

Faz um mês, o Partido dos Trabalhadores publicou longo arrazoado em defesa de nosso guia. A manobra tem explicação. Em 36 anos de existência, o partido ‒ que começou representando industriários e terminou no banco dos réus ‒ só conseguiu fabricar um líder. Unzinho só. Em união visceral, Lula da Silva é o PT e o PT é Lula da Silva. É composição com dois elementos. Na falta de um, o outro fenece.

Lula cartilha 4Dotado de ego gigantesco, o Lula cuidou que nenhum personagem lhe fizesse sombra. Botou pra correr os que representassem perigo e barrou a ascensão dos que sobraram. O ápice do culto à própria personalidade foi a designação do «poste» que lhe sucedeu na presidência do país. Acostumado a conviver com vaquinhas de presépio, o Lula foi incapaz de pressentir o desastre que estava por vir. Jamais imaginou que a criatura ousasse se desgarrar do criador. Não se lembrou de que todo passarinho acaba, um dia, abandonando o ninho para voar com as próprias asas.

Semana passada, no intuito de difundir ao redor do planeta a fábula do golpe que está por apeá-lo do poder, o partido houve por bem mandar traduzir o arrazoado em três línguas estrangeiras: inglês, francês e o infalível espanhol. Deu ao libelo o apelido de cartilha. São perto de três mil palavras para tentar convencer que o Brasil vive momento de arbítrio, como uma Venezuela qualquer.

Lula cartilha 2No estrangeiro, o texto não suscitou efeito visível além de convencer os que convencidos já estavam. Nenhum veículo, a meu conhecimento, mencionou o documento. Não se sabe se por coincidência ou para contrabalançar a «cartilha», a Justiça brasileira acaba de indiciar o casal da Silva por corrupção e outros crimes dos quais já estamos cansados de ouvir falar.

Não acredito em mera coincidência. Já fazia meses que se falava do apartamento sem dono e do sítio sem proprietário. Por que abrir o processo justamente agora? No meu entender, é a resposta do Brasil decente ao desespero lulopetista que, ao enviar seu libelo à mídia internacional, emporcalhou a imagem do país.

Lula cartilha 3A consequência veio a cavalo. Enquanto a «cartilha» tinha passado totalmente em branco na mídia europeia, a inculpação da famiglia Lula da Silva recebeu destaque na manhã deste sábado. Os europeus não tinham dado grande atenção ao fato de o Brasil, no entender do PT, ser republiqueta de bananas. Em compensação, milhões sabem agora que o demiurgo escorregou do pedestal e vai se haver com a Justiça. Bem haja!

Presidente distraído

José Horta Manzano

Chefes de Estado, quando se visitam, levam presentes. Mortais comuns como você e eu podemos até saltar esse capítulo, mas altos dirigentes seguem o ritual como manda a tradição. Quando digo presentes, não falo de «lembrancinhas» compradas às pressas na barraquinha da esquina. Presidente, rei e todo mandatário que se preza costuma oferecer aos confrades presentes valiosos, impressionantes, marcantes, inconfundíveis e inesquecíveis.

Trecho da revista Isto É, 12 ago 2016

Trecho da revista Isto É, 12 ago 2016

A revista Isto É desta semana traz um extrato de um relatório de fiscalização levado a cabo pelo TCU ‒ Tribunal de Contas da União. O documento de 40 páginas analisa, no detalhe, os presentes que o Lula e dona Dilma receberam de dirigentes estrangeiros, quando ainda estavam no poder.

A lei estipula que todo presente cujo valor supere cem dólares deverá ser incorporado ao patrimônio da União. Há lógica no dispositivo legal. Assim como quem presenteia o faz em nome de um Estado, o presenteado aceita o mimo em nome do País. Não é um mimo pessoal do ditador X ao Lula ou do caudilho Y a Dilma. É presente do povo do Kabrovistão ao povo brasileiro.

Trecho da revista Isto É, 12 ago 2016

Trecho da revista Isto É, 12 ago 2016

Medalhões não costumam chegar de mãos abanando. Muito menos trarão uma caneta esferográfica ou uma caixinha de bombons. Os objetos são importantes e, às vezes, de valor pra lá de elevado. A TCU apresenta a relação dos mimos recebidos pelos dois mais recentes presidentes do Brasil.

De 2003 a 2010, o Lula recebeu 568 presentes, dos quais apenas nove foram incorporados ao patrimônio público do país. Doutora Dilma foi presenteada, de 2011 a 2016, com 163 objetos, apenas seis dos quais foram declarados e transferidos ao patrimônio da União. Passando por cima da lei, os dois passaram a perna em nós todos e se apoderaram do que é nosso de direito.

Trecho da revista Isto É, 12 ago 2016

Trecho da revista Isto É, 12 ago 2016

Desconheço o valor total desses mimos. Assim mesmo, algo me diz que o conjunto dos 559 presentes que o Lula «esqueceu» de declarar e mandou embarcar nos 11 caminhões que carregaram suas tralhas quando deixou o Alvorada perigam valer mais que o triplex do Guarujá, o sítio de Atibaia e os pedalinhos de lata juntos. O MP tem de acrescentar essa «distração presidencial» ao processo.

Interligne 18h

É de lata
O trabalho do Tribunal de Contas é notável. O semanário que o publicou também merece aplauso. No entanto, ninguém é perfeito. A revista escorregou num galicismo ‒ sintaxe importada diretamente do francês sem passar pela alfândega.

Mencionou uma «bandeja em vidro» e um «elefante em ouro». Errou. Em português, para indicar a matéria de que um objeto é feito, usa-se a preposição de. Coroa de lata, doce de goiaba, urso de pelúcia, telhado de vidro. E, claro, elefante de ouro e bandeja de vidro.

Ignorância

José Horta Manzano

Cabeçalho 14

Em nossa língua, a palavra ignorante tem dois sentidos e pode-se referir a duas situações bastantes distintas. No sentido próprio, ignorar é simplesmente ‘não conhecer’. O termo é membro de extensa família e está presente em numerosas línguas. Conhecer, ignorar, agnóstico, reconhecer, diagnóstico, desconhecer, prognóstico, cognitivo são palavras nossas, todas aparentadas.

O verbo inglês know, o francês connaître, o alemão kennen, o italiano conoscere, o sueco känna, o espanhol conocer são também filhotes do mesmo antepassado. Todos eles guardam o sentido de saber, conhecer.

Esporte 4Quanto a nós, pelo menos no Brasil, costumamos usar o termo ignorante numa segunda acepção, bem mais popular. Dependendo de como for pronunciado, pode servir de xingamento. Não tem muito que ver com conhecimento. Conforme a gravidade do caso, pode ser substituído por grosseiro, impolido, descortês, imbecil, selvagem, rude, chucro, bronco, impolido, boçal.

Leio hoje duas notícias em que o protagonista se encaixa nessa segunda acepção. A primeira relata uma inacreditável cena ocorrida ontem, em plena Olimpíada carioca, por ocasião de um combate entre dois judocas. Um dos atletas era israelense e o outro, egípcio. Como todo esporte, o judô tem suas regras. De sua origem nipônica, guarda rituais rígidos. Os contendores devem cumprimentar-se antes da luta e, de novo, ao final.

Numa atitude inaceitável, o egípcio recusou-se a cumprimentar o oponente. Voltou-lhe as costas e se retirou ‒ sob uma chuva de vaias. Personificou a imagem do igorantão.

Metro Rio 2A segunda notícia ‒ cuja veracidade posso supor mas não garantir ‒ conta o diálogo entre uma garota e um turista estrangeiro. Estavam no Rio de Janeiro, e o turista procurava a entrada do metrô. A moça, embora conhecesse algumas palavras básicas de inglês, recusou-se a usá-las. Insistiu em responder ao infeliz visitante usando um português rasteiro. O coitado não entendeu nada.

Mais tarde, pelas redes sociais, a autora vangloriou-se da façanha. Argumentou que todo estrangeiro de passagem tem obrigação de conhecer a língua local. Mostrou encaixar-se nas duas acepções de ignorância: além de não saber, foi boçal.

Interligne 18c

Os protagonistas dessas histórias, ambos de pouca idade, deram prova viva da influência que políticas de Estado podem ter sobre mentes jovens, frágeis e dúcteis. Cada um mostrou ter aprendido a lição que a sociedade lhe ensinou. O brutamontes egípcio deixa escorrer, pelo canto da boca, um filete verde do ódio que lhe incutiram. A brasileira selvagem espelha o desprezo à civilidade que a paisagem política deletéria dos últimos 13 anos vem inculcando à juventude brasileira.

Cada um mostrou, à sua maneira, a imbecilidade que se aninha em seus jovens miolos. Foram ambos ignorantões.

Meu mascote? ‒ 2

José Horta Manzano

Chamada da Folha de São Paulo, 12 ago 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 12 ago 2016

Nada feito. Como já disse em outras ocasiões, está errado. Por mais que o bichinho seja macho, será sempre SUA mascote. Mascote é substantivo do gênero feminino.

O mesmo vale, naturalmente, para seu gatinho, seu papagaio, seu hamster. Vale até para seu elefante, bichinho de estimação para quem dispõe de casa espaçosa. Igualdade de «gênero» não vigora neste caso.

Meu artigo Meu mascote? explica a origem da palavra.

Curso superior

José Horta Manzano

Um jovem deputado federal pelo Estado de Tocantins apresentou uma PEC ‒ Proposta de Emenda à Constituição. O moço, cuja mãe foi ministra de dona Dilma, propõe que cidadãos sem diploma universitário sejam proibidos de se candidatar a cargo político eletivo. Dito assim, o anseio soa exótico e dá que pensar. Como sói acontecer, a proposta tem um lado positivo e outro menos. Vamos analisar.

Em teoria, o novo dispositivo eliminaria candidaturas extravagantes de gente que, embora popular, pode não dispor da instrução mínima que cargo público requer. Palhaços, estilistas, bispos e outros perfis incomuns seriam eliminados da vida política. O próprio Lula nunca teria abandonado o ofício de orador profissional de porta de fábrica. Nesse particular, talvez até tivesse sido bom para o país. Infelizmente, não se refaz a História.

Estudante 3Por seu lado, a exigência de diploma de curso superior traria de volta relentos de um passado que temos procurado modificar. Nos tempos do império, só podiam votar e ser eleitos cidadãos que atingissem determinado nível de renda. Era o que se chamava voto censitário. Barreira entre universitários e os demais se aparenta perigosamente com o ultrapassado antagonismo entre endinheirados e remediados. Não passa de atualização da oposição «nós & eles», negação gritante do espírito republicano.

A meu ver, a PEC do deputado enfrenta o estigma da ignorância com armas inadequadas. Investir em Instrução Pública de qualidade é o caminho mais apropriado. O cidadão instruído e bem formado terá melhores condições de discernir entre os bons e os maus candidatos. Diploma não é garantia de probidade, de inteligência, de cultura nem de boas intenções.

Proibir candidaturas por critério de escolaridade é aplicar emplastro em perna de pau. Quem vota são os cidadãos, portanto, mais vale trabalhar para elevar o nível de discernimento dos que elegem.

Interligne 18c

Estudante 1Observação
Como é costume, o deputado junta à proposta de emenda um arrazoado com as justificativas do projeto. Engana-se quem imagina que o nível universitário do parlamentar seja garantia de boa escrita. Veja este trecho:

«Hoje, verificamos que muitos membros do Poder Legislativo possuem(1), inclusive(2), dificuldade de leitura, o que impede que os membros(3) atuem de modo efetivo nas(4) suas funções constitucionais, na medida em que(5) o exercício de tais funções(6) torna-se cada vez mais complexo e dependente de conhecimentos específicos.»

(1) O verbo possuir não é intercambiável com o verbo ter em todos os casos. Pode-se possuir um bem ou um objeto, mas não se pode «possuir dificuldade». Tem-se dificuldade.

(2) O inclusive sobra. Sem essa palavra, a frase fica mais leve e dá a mesma mensagem.

(3) Recomenda-se evitar a repetição de termos na mesma frase. Essa segunda menção a os membros é inútil e supérflua.

(4) Atuar de modo efetivo é volteio longo e desnecessário. O verbo cumprir substitui com vantagem.

(5) A locução é na medida que, sem o em.

(6) De novo, uma repetição desnecessária. De tais funções sobra.

Beca 1Reescrevendo, fica assim:
«Hoje, verificamos que muitos membros do Poder Legislativo têm dificuldade de leitura, o que impede que cumpram suas funções constitucionais, visto que o exercício se torna cada vez mais complexo e dependente de conhecimentos específicos.»

Como dizem os franceses, «il faut d’abord balayer devant sa porte» ‒ precisa primeiro varrer a própria calçada. Temos um ditado equivalente: quem tem telhado de vidro não atira pedra no do vizinho

Brasileiros poliglotas

José Horta Manzano

Nos anos 1930, a Biblioteca Pública Municipal da cidade de São Paulo funcionava num casarão da rua Sete de Abril, no centro da cidade. Àquela altura, a sede era suficientemente grande para conter o acervo de 110 mil livros, mapas, manuscritos e outros volumes. Os mais de 3 milhões de objetos abrigados hoje não caberiam no velho casarão.

Oitenta anos atrás, a língua inglesa ainda estava longe da posição preeminente que ocupa hoje. Em 1935, na primeira metade do mês de abril, 6.575 obras foram consultadas. A relação de livros, revistas, jornais e mapas, ordenada por língua, é autoexplicativa.

Correio Paulistano, 18 abril 1935

Correio Paulistano, 18 abril 1935

De cada três publicações consultadas, duas eram em português. Não espanta ninguém que nossa língua fosse mais lida que as demais. Assim mesmo, é interessante notar que ⅓ dos visitantes procurava obras escritas em língua estrangeira. É proporção elevada.

Entre as línguas estrangeiras, o francês era, de longe, o mais popular. Mais de metade das obras forasteiras consultadas estava escrita nessa língua. Bem atrás, vinham o espanhol e o italiano, procurados respectivamente por 20% e por 12% dos consulentes. O fato sugere duas explicações que se superpõem.

Por um lado, ainda era importante o número de imigrantes, que buscavam ler em sua língua materna. Por outro, espanhol e italiano são línguas bastante próximas da nossa. Com um pouco de esforço e prática, o estudante aplicado consegue encontrar seu caminho em publicações científicas escritas nessas línguas.

Indio 3Livros em inglês eram bem menos solicitados naquele tempo. Na ordem de procura, só apareciam em quinto lugar. Menos de 9% das publicações estrangeiras consultadas eram escritas nessa língua. De lá pra cá, é impressionante o avanço da popularidade do inglês entre nós. A propagação corresponde à difusão mundial dessa língua, ocorrida principalmente depois da Segunda Guerra.

Como última curiosidade, vale notar que um punhado de leitores daquele longínquo 1935 se debruçou sobre obras em grego, latim e até tupi-guarani. Gostaria muito de comparar com as estatísticas atuais mas não disponho de informações. Se encontrar um dia, volto ao assunto. Mas é bom lembrar que, nestes tempos de internet, ficou mais complicado.

Metade mais um

José Horta Manzano

«Para a pronúncia ser aprovada hoje, é necessária a maioria simples dos votos – metade mais um dos senadores presentes – o que significa 41 votos na hipótese da presença de todos os 81, ou 21 votos, no caso da presença mínima exigida, que é de 41 parlamentares.»

Interligne 18f

Essa frase saiu hoje num editorial do Estadão. Gramaticalmente, não há que botar reparo. Mas a lógica está meio capenga. Maioria simples não é necessariamente sinônimo de “metade mais um”. Se o número total de senadores fosse par, de fato, a maioria simples só seria alcançada com metade mais um voto.

Estudante 2Acontece que o Senado é composto de 81 membros, número ímpar. Metade de 81 dá 40½. Meio voto não é admitido naquela Casa: ou vota-se a favor ou vota-se contra. Portanto, na hipótese de estarem todos presentes, basta que 41 excelências digam sim para que a maioria simples seja alcançada. E 41 não é «metade mais um».

A frase do editorial está mal formulada. O preciosismo «metade mais um» pode ser eliminado sem prejudicar a compreensão. No fundo, qualquer número inteiro que ultrapasse a metade aritmética já configura maioria.

Vale a pena ler de novo ‒ 1

Post publicado originalmente em jan° 2013

Interligne 28a

Trinta e uma dicas de Português

José Horta Manzano

Enluminure A 11. Vc. deve evitar ao máx. a utiliz. de abrev., etc.

2. O escritor deve prescindir de recorrer ao uso de estilo de escrita em demasia rebuscado. Tal prática costuma advir do excessivo esmero com que exibicionistas ― nem sempre ínclitos ―, cuja autoincensação decorre justamente do parco conhecimento linguístico de que dispõem, chegam a raiar o paroxismo narcisístico, sem contar, para tanto, com supedâneo sólido no que tange à formação escolástica no campo da língua pátria.

3. Anule aliterações antipáticas altamente abusivas.

4. não esqueça as maiúsculas no início das frases.

Ortografia 45. Fuja de lugares-comuns como o diabo foge da cruz.

6. O uso de parênteses (mesmo quando parecer relevante) é geralmente desnecessário.

7. Estrangeirismos estão out; palavras de origem vernácula são o top.

8. Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça nice, sacou?… Então, valeu!

9. Palavras de baixo calão, porra, podem transformar o seu texto numa merda.

10. Nunca generalize: generalizar é erro fatal em todas as circunstâncias.

11. Evite repetir a mesma palavra pois essa palavra vai-se tornar palavra repetitiva. A repetição da palavra pode até fazer que a palavra repetida desqualifique o texto onde tal palavra for constantemente repetida.

Enluminure B 112. Não abuse das citações. Como costuma dizer um amigo meu: “― Quem cita os outros não tem idéias próprias”.

13. Frases incompletas podem causar

14. Não seja redundante, isto é, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes, ou seja, basta mencionar cada argumento uma só vez. Por outras palavras: evite repetir a mesma idéia várias vezes.

15. Seja mais ou menos específico.

16. Frases com apenas uma palavra? Jamais!

17. A voz passiva deve ser evitada.

18. Utilize a pontuação corretamente o ponto e a vírgula pois a frase poderá ficar sem sentido especialmente será que ninguém mais sabe utilizar o ponto de interrogação

19. Quem precisa de perguntas retóricas?

20. Conforme recomenda a A.G.O.P., nunca use siglas desconhecidas.

21. Exagerar é cem milhões de vezes pior do que usar a moderação.

Ortografia 322. Evite mesóclises. Repita comigo: “Mesóclises: evitá-las-ei!”

23. De regra importante esquecer não nunca: crucial a das palavras é ordem!

24. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.

25. Não abuse das exclamações!!! Nunca!!! O seu texto fica horrível!!! Acaba parecendo uma tuitada!!!

26. Evite frases exageradamente longas pois estas dificultam a compreensão da idéia por elas abarcada e, por compreenderem mais que uma idéia central, o que nem sempre torna seu conteúdo accessível, forçam, destarte, o infeliz leitor a dissecá-las nos seus diversos componentes, de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.

27. Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língoa portu-guêza.

28. Seja incisivo e coerente. Ou não.

Alfabeto 329. Não vá estar escrevendo (nem vá estar falando) no gerúndio. Você vai estar deixando seu texto pobre e vai estar causando ambiguidade. Com certeza, você vai estar deixando o conteúdo esquisito, vai estar ficando com a sensação de que as coisas ainda vão estar acontecendo. E como você vai estar lendo este texto, tenho certeza de que você vai estar prestando atenção e vai estar repassando aos seus amigos, que vão estar entendendo e vão estar pensando em abandonar esta maneira irritante de estar falando.

30. Venha cá, meu rei! Outra barbaridade que deves evitar, tchê, é usar expressões que denunciem a região de onde vens, ô meu! Uai…esquece esse trem! Vixi… entendeu, bichinho?

31. Não permita que seu texto acabe por rimar, porque senão ninguém vai aguentar, já que é insuportável o mesmo final escutar, o tempo todo sem parar.

Ai, meu nome!

José Horta Manzano

Você sabia?

Chamada da Folha, 22 jul° 2016

Chamada da Folha, 22 jul° 2016

Admito que é tarde demais. Mas foi pena ninguém ter avisado ao astro do Barça que Lucca não é nome de gente. É nome de uma belíssima cidade da Toscana (Itália).

Melhor teria feito o neomilionário se tivesse nomeado o filho Luca. Esse, sim, é nome palatável, que aparece na Bíblia e é nome de santo. É muito usado na Itália, na Romênia e, em certa medida, na Alemanha.

Lucca, Toscana, Itália

Lucca, Toscana, Itália

É nome amplamente difundido em numerosas línguas. Veja só:

Indonésio = Lukas
Eslovaco  = Lukáš
Finlandês = Luukas
Húngaro   = Lukács
Japonês   = Rukasu
Armênio   = Ghukas
Francês   = Luc
Polonês   = Łukasz
Russo     = Лука (Luka)
Inglês    = Luke
Tcheco    = Lukáš

Como se vê, o “c” (ou o k) não é dobrado em nenhuma língua. O duplo “c” do nome do menininho, além de parecer esquisito, é de gosto duvidoso.

Amok

José Horta Manzano

Você sabia?

Sabe aquela plantinha à toa, sem graça, que você recebe de presente? Falo daquela que não te agrada, que lhe parece inútil, que chega numa hora em que você não tem vasinho disponível. O que é que você faz? Pois acaba passando adiante. Dá àquela vizinha que adora planta. Em seguida, vira a página e esquece o assunto.

Um dia, muitos anos depois, você percebe que a vizinhança toda exibe, bem na frente da varanda, um vaso enorme, com uma planta linda, viçosa, verdinha, que dá até flor. Observando bem, algo lhe parece familiar. Mas sim! É aquela plantinha à toa que lhe tinham dado um dia e que você tinha desprezado!

Planta 1Como é possível que todo o mundo tenha a mesma? Pergunta daqui, pergunta dali, você descobre que todas são descendentes daquela que um dia foi sua. É que ela pega de galho, vai daí, foi passando de vizinho em vizinho sem você se dar conta.

No finzinho dos anos 1400, o navegador português Bartolomeu Dias dobrou um cabo que marcava a ponta sul do continente africano. Estava se cumprindo a esperança de encontrar caminho marítimo para o Oriente. O primeiro nome ‒ Cabo Tormentoso ‒ foi logo alterado para Cabo da Boa Esperança, dada a boa perspectiva que anunciava.

De fato, a rota se abriu e os lusitanos foram os primeiros a visitar lugares onde nenhum europeu havia jamais botado os pés. Goa, Damão, Malaca, Diu, Baticaloa, Macau são lugares em que os visitantes estabeleceram postos comerciais. Do contacto com os nativos, muito se aprendeu, inclusive palavras e expressões novas.

Cabo da Boa Esperança, África do Sul

Cabo da Boa Esperança, África do Sul

Nas regiões onde predominam línguas do grupo malaio-polinesiano ‒ que vão de Madagascar até o Pacífico, passando por Malásia, Indonésia e Filipinas ‒ os portugueses observaram estranho fenômeno. Durante certas cerimônias, os celebrantes pareciam tomados de loucura furiosa. Queimavam os mortos, matavam os vivos, devoravam crianças, voltavam-se contra si mesmo, rodopiavam sem parar até cair extenuados. A isso chamavam amok. Com o passar dos séculos, o costume felizmente se perdeu, ao menos por aquelas bandas. Mas o nome ficou.

Como plantinha à toa, os portugueses trouxeram a palavra pra casa mas, não vendo utilidade, cederam aos vizinhos e nunca mais pensaram nisso. Acontece que ela pega de galho. Praticamente em desuso entre nós, o termo permaneceu vivo no resto das línguas europeias. Tem-se revelado utilíssimo nestes tempos de repetidas carnificinas.

Estes dias, todos os jornais alemães fazem referência ao Amok ‒ matança em grande escala ‒ que ocorreu num centro comercial de Munique. Russos, poloneses, italianos, franceses, suecos, espanhóis e numerosos outros guardam a grafia original. Os ingleses hesitam entre amok e amuck. Nós temos a escolha entre amoque e amouco. Mas não adianta nem usar: ninguém vai entender. A palavra está em coma, falta ressuscitar. Há uma alternativa muito na moda: reimportar do inglês sem tirar nem pôr. Quem sabe?

Livro 8 AmokO escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942) publicou, em 1922, o livro Amok, que relançou o termo em alemão. Discorre sobre o Amokläufer ‒ indivíduo tomado de brusca loucura assassina. O termo é adequado para descrever os atos de alguns dos que temos chamado ‘lobos solitários’.

Para encerrar o assunto, fica a pergunta: por que é que toda essa matança acontece de repente, em repetidas ações sem nexo aparente entre elas? Uma emulação me parece evidente, um efeito de imitação. Já quanto às motivações, é melhor consultar doutor Freud.

Ocultação de crime

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 22 jul° 2016

Chamada do Estadão, 22 jul° 2016

Na máfia, essa atitude é conhecida como omertà(*). Criminoso apanhado pela Justiça mente para cobrir e proteger um superior. Faz parte dos códigos da bandidagem.

Em terras civilizadas, isso se chama não denunciação de crime (ou ocultação de crime ou ainda obstrução de Justiça), ato que costuma ser reprimido e punido pela lei. Na hipótese mais benigna, será considerado fator agravante de outros crimes. Como reagirão os juízes de Curitiba?

(*) Nota linguística
Omertà é palavra presente em dialetos do sul da Itália, especialmente em napolitano. É a maneira local de dizer umiltà (= humildade). A Lei da Humildade é outro nome da Lei do Silêncio. Segundo ela, bandido não tem o direito, em nenhuma hipótese, de denunciar comparsa. É obrigado a calar-se, evitando, assim, que o companheiro seja apanhado pela Justiça.

Na mafia siciliana, na camorra napolitana e na ‘ndrangheta calabresa, quem entregar companheiro tem o destino selado: mais cedo ou mais tarde, será despachado desta para melhor.

Na organização criminosa que se apoderou de nosso andar de cima, porém, as regras são mais flexíveis: a Lei do Silêncio transformou-se na Lei do Salve-se Quem Puder. Afinal, o brasileiro é, antes de tudo, cordial. Ou não?

Rondò alla turca

José Horta Manzano

No que tange à adesão da Turquia à União Europeia, faz décadas que os europeus divergem. Parte dos políticos veria com bons olhos a entrada de novo membro enquanto outros ficam horripilados só de ouvir falar. É aquele tipo de assunto que não deixa ninguém indiferente.

Turquia 5As motivações dos que gostariam de admitir a Turquia são variadas. Do ponto de vista comercial, seus quase 80 milhões de habitantes formam um mercado não desprezível. Alguns imaginam que o contacto da Turquia com uma Europa teoricamente mais avançada seria benéfico para o país: agiria como alavanca para o progresso do novo membro. Há ainda quem acredite que uma Turquia ancorada à UE agiria como escudo protetor, expandindo as fronteiras exteriores da União até as portas do Oriente Médio.

Os que não querem nem ouvir falar do assunto também têm seus argumentos. Alegam que um contingente de 80 milhões de muçulmanos desequilibraria uma Europa tradicionalmente cristã. Há os que teimam no fator geográfico: a Turquia simplesmente não faz parte do continente. Muitos temem uma «invasão» de trabalhadores que, abandonando um país menos avançado, se distribuiriam pela UE e causariam «dumping» salarial e desemprego.

Turquia 4Já faz tempo que notei que todo europeu guarda dois pavores ancestrais e irracionais: medo do lobo e medo do turco. Muitos nunca viram um turco e a maioria só conhece lobo de fotografia. São histórias que vêm de longe. O lobo, predador por natureza, foi temido desde sempre. Sua presença ameaçava pastores, rebanhos e vilarejos. Quanto ao turco, a expansão do Império Otomano no fim da Idade Média assustou muita gente. O último cerco de Viena, embora tenha acontecido há 300 anos, deixou marcas ainda sensíveis.

Para ilustrar, vamos lembrar que ainda é corrente, na Itália, a exclamação «Mamma, li turchi!» ‒ «Mãe, os turcos!». A forma dialetal dá ainda mais sabor à expressão. É pedido de socorro proferido em situações de susto, de medo, de estupor, naqueles momentos de apuro em que não se sabe o que fazer. Usa-se às vezes para assustar crianças. A imagem do turco funciona, nesse caso, como nosso bicho-papão.

Turquia 6É cedo demais pra analisar e comentar o golpe de Estado desfechado ontem por segmentos do exército turco. As notícias ainda são desencontradas, confusas, fragmentárias. Uma certeza, no entanto, pode-se ter desde já: uma eventual adesão da Turquia à União Europeia acaba de cair fora da ordem do dia. Não voltará à pauta pelos próximos dez anos. No mínimo.

Diferentemente de nosso folclórico Mercosul, a UE leva a sério a cláusula democrática. Países instáveis e sujeitos a golpes autoritários não têm chance de fazer parte do clube.

Observação
«Rondò alla turca» (Rondó à moda turca), título deste artigo, é o nome original da Marcha Turca, que todo estudante de piano conhece. É o fecho da Sonata em Lá Maior, catálogo Köchel 331, de Wolfgang Amadeus Mozart. Está no youtube ‒ aqui.

De fininho

José Horta Manzano

O século e meio que vai da coroação de Luís XIV (1654) até a queda definitiva de Napoleão (1815) marca o apogeu da França. Naquela época, o país dominava grande parte da África e possuía vastos territórios nas Américas. Seus braços se estendiam até o Extremo-Oriente e a arquipélagos do Pacífico.

A influência francesa sobre os demais países europeus era esmagadora. Marcas desse tempo subsistem até nossos dias em numerosas línguas, especialmente em inglês. Está aqui uma lista não exaustiva. Ela também inclui expressões adotadas mais tardiamente.

French pastry = tortinha doce recheada de chantilly ou de frutas

French dressing = molho vinagrete para salada

French chalk - Giz de alfaiate

French chalk – Giz de alfaiate

French telephone = telefone que combina, numa peça só, a recepção e a transmissão da voz. (Em contraposição ao modelos anteriores, em que fone de ouvido e microfone eram peças separadas)

French bread = pão francês, baguette

French chalk = giz de alfaiate

French doors = porta-janela

French fries = batata frita

French horn = trompa (instrumento musical)

French seam = costura em que duas peças de tecido são superpostas

French letter = (vulgar) preservativo

French heel - Salto estilo anos 2910

French heel – Salto estilo anos 1920

French cricket = (esporte) críquete modificado e adaptado ao gosto francês

French loaf = pão francês comprido

French pancake = panqueca fina, crepe

French polish = laca

French kiss = beijo de língua

French skipping = brincadeira infantil para três crianças e uma corda circular contínua

French disease = (antiquado) sífilis

French cuff = manchette (de camisa)

French knitting - tricô tubular

French knitting – tricô tubular

French beans = vagem

French knickers = faca curta usada por caçadores

French marigold = (flor) tagetes, cravo-amarelo, cravo-de-defunto

French plait (braid) = trança (de cabelo)

French roll = espécie de penteado feminino, chignon

French toast = espécie de pão tostado de um lado só; ou ainda: pudim de pão

French knitting = tipo de tricô de aspecto tubular

French boxing = boxe francês, semelhante ao boxe tailandês

French pastries - doces com creme ou frutas

French pastries – doces com creme ou frutas

French manicure = estilo sofisticado de corte de unha

French harp = (EUA) gaita

French cap = gorro

French chop = (culinaria) tipo de corte de carne

French maid = auxiliar doméstica

French custard ice cream = sorvete cuja receita leva ovos

French dip sandwich = sanduíche de carne com pão embebido no caldo

French endive = endívia, chicória de Bruxelas

French roof - Telhado vertical

French roof – Telhado vertical

French twist = coque (de cabelo)

French cleaners = lavagem a seco

French curve = régua de desenho curva (hoje suplantada por aplicações de computador)

French eye needle = agulha de dois buracos

French fly pants = (vestuário) braguilha com dois botões

French heel = salto curvo de sapato feminino, estilo anos 1920

French knot = técnica especial de bordado em que se enrola a linha na agulha antes de dar o ponto

French curtains = cortina pesada, trabalhada, de brocado ou tecido espesso

French skipping - Brincadeira infantil com corda

French skipping – Brincadeira infantil com corda

French onion rings = rodelas de cebola à milanesa

French poodle = poodle (cão)

French casement = janela de dois batentes

French press = cafeteira, usada amplamente na França, com êmbolo para extrair o café

French drain = dreno construído sem uso de cimento

French roof = telhado inclinado, quase vertical, que permite a construção de cômodos de estilo mansardé

French silk pie = espécie de torta recheada de mousse de chocolate

Pardon my French = desculpe-me pelo que vou dizer. Costuma-se usar a expressão antes de pronunciar palavra(s) vulgar(es). Corresponde a nosso “com o perdão da palavra”, já caído em desuso.

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A recíproca, no entanto, não é verdadeira. Em francês, fatos e gestos ingleses são pouco usados em expressões. Em compensação, para dizer «sair de fininho», os ingleses dizem «take a French leave» (sair à francesa), enquanto os franceses preferem «filer à l’anglaise» (escapar à inglesa). Cada cabeça, uma sentença.

Observação
Algumas expressões são usadas exclusivamente no Reino Unido. Outras são conhecidas unicamente nos EUA. Uma poucas são coloquiais, no limite do tabuísmo.

Carcereiro suíço

José Horta Manzano

A ocasião faz o ladrão ‒ segundo a sabedoria popular. Fico com um pé atrás. Acho que ladrão já vem feito independentemente de ocasião. E ocasião, minha gente, é que não falta, nem cá nem lá. Se a sabedoria popular estivesse mesmo correta, viveríamos num mundo de ladrões. Enfim, melhor não enveredar por esse assunto, que os tempos andam meio sensíveis.

Prisioneiro 3Cerca de um mês atrás, a polícia suíça prendeu preventivamente um carcereiro. Contra ele, pesa acusação de corrupção passiva por ter vendido celulares e maconha a dezenas de prisioneiros.

Como em filme americano, prisioneiro passa frequentemente por acareação com cúmplices e confrontação com testemunhas. É também instado a dar esclarecimentos complementares. Nosso carcereiro não escapou à rotina. E não é que apareceu algo mais?

Fato surpreendente surgiu. Descobriu-se que, além dos já confessados, o homem cometeu crime de lavagem de dinheiro, «malfeito» pouco habitual em prontuário de carcereiro. O homem teria deixado corromper-se por um dos inquilinos da prisão ‒ por acaso, um brasileiro.

Dinheiro lavagemLogo no começo da história, o guardião e o brasileiro preso tornaram-se amigos, o que facilitou as coisas. Na sequência, o guarda forneceu vários telefones celulares ao preso para permitir-lhe comunicar-se com família, amigos e comparsas. Mas o mais importante vem agora.

O prisioneiro estava na cadeia por ter assaltado boa quantidade de caixas eletrônicos na região de Genebra. Apesar da prisão do criminoso, o dinheiro nunca foi encontrado.

Dinheiro voadorA amizade com o guardião foi preciosa. O preso deu a dica completa ao carcereiro amigo. Enquanto o brasileiro continuava na cadeia ‒ ainda está lá ‒, o guarda se encarregou de recolher o fruto dos assaltos (30 mil francos suíços = 100 mil reais) e de remeter a dinheirama ao Brasil. Não foi divulgada a propina cobrada pelo guardião.

O advogado do carcereiro garante que o cliente desconhecia a origem dos fundos transferidos ao Brasil. Ah, bom.

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Nota etimológica
Cárcere serve para guardar criminosos e delinquentes. Arca serve para guardar dinheiro e preciosidades. Não é espantoso que as duas palavras tenham parentesco longínquo.

Cárcere vem de raiz antiquíssima, já encontrada no sânscrito. No grego antigo, evoluiu para a voz arkeô, fruto da mesma árvore, com sentido de trancar, impedir a passagem, reter. Daí vem nossa moderna arca.

Em latim, a mesma raiz evoluiu para carcer, com o significado de recinto rechado, prisão. Alguns linguistas enxergam parentesco entre cárcere e coerção. Nesse ponto, não estão todos de acordo.

Brexit ‒ 3

Cabeçalho 11

José Horta Manzano

Britânicos expatriados
Por volta de 1,3 milhão de britânicos vivem longe da pátria mas dentro da União Europeia. Em matéria de acolhida a cidadãos do Reino Unido, a Espanha é campeã absoluta. Juntando ingleses, galeses, escoceses e norte-irlandeses, perto de 400 mil residem em terras do rei Felipe VI.

Não só na Espanha
Há britânicos espalhados por toda a Europa. Na França, são 172 mil. Na Alemanha, quase 100 mil. A Itália abriga mais de 70 mil originários do Reino Unido. Até Portugal, não obstante o território pouco extenso, conta com quase 20 mil súditos de Elizabeth II.

A especificidade belga
A Bélgica é um caso à parte. As estatísticas informam que 28 mil britânicos residem no país. Embora o número não seja impressionante, há que ter em mente que boa parte desse contingente é constituído por funcionários das instituições europeias.

Bandeira UE UKPorta fechada
O regulamento da UE estipula que, para ser admitido, o funcionário tem de ser cidadão de um dos países-membros. Assim que o Reino Unido deixar oficialmente a UE, todos os britânicos se tornarão estrangeiros da noite pro dia. E os funcionários, que será deles?

Não tenho nada com isso
Naturalmente, há funcionários cuja função está rigorosamente ligada ao fato de o Reino Unido ser membro da União. Para esses ‒ deputados e assessores ‒ não há esperança: vão perder o emprego. Mas há outros, a maioria. São tradutores, intérpretes, técnicos especializados em diferentes áreas. A partir do momento em que seu país deixar de ser membro, vão se tornar tão estrangeiros como um vietnamita ou um mongol. Que fazer?

Quero ficar
Coisas nunca antes vistas estão acontecendo. Grande número de cidadãos britânicos residentes na Bélgica estão apresentando pedido de naturalização. Felizmente, a legislação belga não é rigorosa na hora de conceder cidadania a estrangeiros. Exige que o candidato tenha morado ‒ legalmente ‒ e trabalhado no país por cinco anos. Pede ainda que fale uma das línguas oficiais: francês, holandês ou alemão.

Passaporte 4A língua fica
Com a saída do Reino Unido, sobram na União Europeia apenas dois países nos quais o inglês é língua oficial: Irlanda e Malta. Mas que ninguém se engane. Dado que o bloco tem 24 línguas oficiais, as falas e, principalmente, os documentos têm de ser traduzidos para todos esses idiomas. Funcionários capazes de traduzir diretamente do estoniano para o búlgaro ou do tcheco para o finlandês são raros. Para contornar o problema, costuma-se traduzir em duas etapas, passando pelo inglês. Daí a absoluta necessidade desta última língua, que continuará importante com ou sem o Reino Unido.

Degradação
Com a queda da libra esterlina, o Reino Unido deixou de ser a quinta economia do planeta. Desceu um degrau e cedeu o lugar à França.

Vaquinha virtual

José Horta Manzano

Proponho a organização de uma «vaquinha virtual» ‒ a expressão está na crista da onda! ‒ para financiar meia dúzia de dicionários. Destinam-se aos fazedores de manchetes e chamadas na grande mídia.

Investir em Instrução Pública dá mais futuro que chamar de volta presidentes de passado tenebroso.

Chamada do Estadão, 3 jul° 2016

Chamada do Estadão, 3 jul° 2016

Não é «nonogenário». Aquele (ou aquilo) que já passou dos noventa anos é nonagenário. Qualquer dicionário confirma.

Perdão da pena

José Horta Manzano

Faz já uns dias que o Procurador-Geral da República pediu a soltura de senhor José Dirceu, conhecido «guerreiro do povo brasileiro», atualmente na cadeia. O procurador-geral há de estar entre os que acham que idade avançada dilui a culpa do criminoso.

Não sou da mesma opinião. Não acho que velhice seja doença nem defeito. É uma fase da vida como qualquer outra, com suas regalias e suas deficiências, suas vantagens e seus problemas. E olhe lá, que falo de cátedra. Criminoso é criminoso, pouco importa a idade.

Chamada G1, 28 jun 2016

Chamada G1, 28 jun 2016

Concordo que se dê tratamento especial a doentes, inválidos e a todos os que têm capacidade diminuída por obra do acaso, por fatores independentes de sua vontade. Condoer-se da sorte de criminosos unicamente porque chegaram aos setenta é rematado exagero.

Fico pensando em Bernard Madoff, aquele estelionatário americano. Muitos hão de lembrar do personagem que fez muitas dezenas de vítimas. Aquele criminoso foi para trás das grades quando tinha 70 anos, exatamente a mesma idade que José Dirceu tem hoje. Condenado a 150 anos de prisão em regime fechado, o espertalhão só tem uma esperança de sair um dia: viver até os 220. Vai ser difícil.

Chamada Estadão, 28 jun 2016

Chamada Estadão, 28 jun 2016

Analisando bem, os «malfeitos» de Madoff, no fundo, prejudicaram um pequeno círculo de instituições financeiras e de pessoas físicas. Grandes ou pequenos, eram investidores. Todo investimento comporta riscos. Assim funciona o capitalismo.

Já os «malfeitos» de Dirceu são de outra natureza, bem mais abrangentes e infinitamente mais cruéis. Foram perniciosos ao atingir justamente os mais frágeis. Quanta gente terá morrido por falta de assistência em hospitais onde não havia dinheiro nem pra comprar esparadrapo?

Toda a mídia anunciou que o procurador-geral era favorável ao «perdão da pena» do antigo chefão caído em desgraça. Perdão da pena? Achei esquisito. Vamos por partes.

Chamada Agência Brasil, 28 jun 2016

Chamada Agência Brasil, 28 jun 2016

Depois de julgado e condenado, todo criminoso cumpre a pena que lhe tiver sido imposta. Se perdão houver, será concedido ao condenado, não à pena. Em outros termos, perdoado será o condenado, aquele que cometeu o crime.

O termo perdão costuma carregar ideia de julgamento moral, religioso, divino. Para bem separar alhos de bugalhos, melhor será recorrer ao verbo indultar ou ao verbo comutar. Indulta-se o indivíduo, comuta-se a pena.

Corrigindo, fica assim: o procurador-geral é favorável à comutação da pena imposta ao figurão caído. Ou ainda: o procurador-geral é favorável à concessão de indulto ao condenado. Agora, está perfeito.

Pet

José Horta Manzano

Tudo o que vem de fora desperta curiosidade. No Brasil, esse fenômeno é levado ao paroxismo. Tudo o que for estrangeiro não só chama a atenção, mas também é tido como melhor, superior, mais eficaz, mais chique.

Estes últimos anos, a importação maciça de produtos chineses de segunda linha tem abalado um pouco essa característica nacional. A tendência a cair na real é positiva, mas ainda tímida.

Anúncio 5Nos tempos de antigamente, chique mesmo é o que vinha da França: modas, objetos, palavras. Bastava dizer que era de Paris, e pronto: o sucesso da novidade estava garantido. Lingerie, buffet, petit-pois são remanescentes, entre milhares. De uns anos pra cá, os ventos mudaram de quadrante.

Hoje em dia, palavras francesas perderam prestígio. A língua inglesa está por cima da carne seca. Liquidação, palavra chué, deu lugar a sale. É coisa fina.

Tenho recebido, de um dos grandes jornais brasileiros, convites repetidos para tornar-me assinante. Em três anos, já me mandaram 255 mails, numa média de um a cada quatro dias. As mensagens não me incomodam. Já o texto, sim. Propõem assinatura. Não com desconto, que isso é coisa de pobre. Oferecem 50% off. Supimpa!

Tem uma palavra que me faz sempre sorrir. Os tradicionais e simpáticos bichinhos de estimação não são mais bichos nem animais. Nem o melhor amigo do homem escapou. Agora o termo pet serve para todos. Até lojas onde se vendem animais de companhia chamam-se agora pet-shops.

É a vingança do francês. A origem mais apontada para o inglês pet é petty, que vem direto do francês petit (= pequeno). O mundo dá voltas mas é… pequeno.

Masque 1Na França, a novidade jamais será adotada, é certeza. A palavra pet é parente e tem o mesmo significado do italiano peto e do espanhol pedo. Pra poupar ouvidos sensíveis, dou tradução alternativa: flatulência. Essa é a realidade, não há como escapar.

Uma loja parisiense que ousasse escrever na fachada «pet-shop» dificilmente teria sucesso. Para ouvidos de lá, o produto oferecido costuma ser fabricado em casa mesmo.

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Curiosidade
Nossa palavra petardo (peça explosiva), frequentemente usada em jargão futebolístico, pertence à mesma família.