Rondò alla turca

José Horta Manzano

No que tange à adesão da Turquia à União Europeia, faz décadas que os europeus divergem. Parte dos políticos veria com bons olhos a entrada de novo membro enquanto outros ficam horripilados só de ouvir falar. É aquele tipo de assunto que não deixa ninguém indiferente.

Turquia 5As motivações dos que gostariam de admitir a Turquia são variadas. Do ponto de vista comercial, seus quase 80 milhões de habitantes formam um mercado não desprezível. Alguns imaginam que o contacto da Turquia com uma Europa teoricamente mais avançada seria benéfico para o país: agiria como alavanca para o progresso do novo membro. Há ainda quem acredite que uma Turquia ancorada à UE agiria como escudo protetor, expandindo as fronteiras exteriores da União até as portas do Oriente Médio.

Os que não querem nem ouvir falar do assunto também têm seus argumentos. Alegam que um contingente de 80 milhões de muçulmanos desequilibraria uma Europa tradicionalmente cristã. Há os que teimam no fator geográfico: a Turquia simplesmente não faz parte do continente. Muitos temem uma «invasão» de trabalhadores que, abandonando um país menos avançado, se distribuiriam pela UE e causariam «dumping» salarial e desemprego.

Turquia 4Já faz tempo que notei que todo europeu guarda dois pavores ancestrais e irracionais: medo do lobo e medo do turco. Muitos nunca viram um turco e a maioria só conhece lobo de fotografia. São histórias que vêm de longe. O lobo, predador por natureza, foi temido desde sempre. Sua presença ameaçava pastores, rebanhos e vilarejos. Quanto ao turco, a expansão do Império Otomano no fim da Idade Média assustou muita gente. O último cerco de Viena, embora tenha acontecido há 300 anos, deixou marcas ainda sensíveis.

Para ilustrar, vamos lembrar que ainda é corrente, na Itália, a exclamação «Mamma, li turchi!» ‒ «Mãe, os turcos!». A forma dialetal dá ainda mais sabor à expressão. É pedido de socorro proferido em situações de susto, de medo, de estupor, naqueles momentos de apuro em que não se sabe o que fazer. Usa-se às vezes para assustar crianças. A imagem do turco funciona, nesse caso, como nosso bicho-papão.

Turquia 6É cedo demais pra analisar e comentar o golpe de Estado desfechado ontem por segmentos do exército turco. As notícias ainda são desencontradas, confusas, fragmentárias. Uma certeza, no entanto, pode-se ter desde já: uma eventual adesão da Turquia à União Europeia acaba de cair fora da ordem do dia. Não voltará à pauta pelos próximos dez anos. No mínimo.

Diferentemente de nosso folclórico Mercosul, a UE leva a sério a cláusula democrática. Países instáveis e sujeitos a golpes autoritários não têm chance de fazer parte do clube.

Observação
«Rondò alla turca» (Rondó à moda turca), título deste artigo, é o nome original da Marcha Turca, que todo estudante de piano conhece. É o fecho da Sonata em Lá Maior, catálogo Köchel 331, de Wolfgang Amadeus Mozart. Está no youtube ‒ aqui.

O que é bom dura pouco

Interligne vertical 2José Horta Manzano

Por que será que a grande ceifadeira chega tão cedo para levar gente tão promissora? «Bicho ruim não morre», costuma-se dizer. Na verdade, todo bicho, bom ou ruim, acaba morrendo, que não tem jeito de escapar. Mas tem muita gente fina que se vai cedo demais e nos deixa um gosto de quero mais.

Frédéric Chopin foi-se aos 39 anos. Wolfgang Amadeus Mozart nos deixou aos 35. Noel Rosa foi colhido com 27 aninhos. Castro Alves partiu aos 24 e Gonçalves Dias aos 41. Cacilda Becker, Edith Piaf e Lilian Lemmertz não chegaram a completar meio século ― antes disso foram chamadas de volta. Elis Regina, precoce em tudo o que fez, disse adeus antes dos 37.

Se há alguém que fez falta foi o carioca Sergio Porto, conhecido como Stanislaw Ponte Preta. Espírito brilhante, revelou humor fino e cáustico desde que escreveu sua primeira crônica. Tampouco ele chegou a completar meio século. Aos 45, seu coração parou de bater.

Mas a curta carreira foi suficientemente densa para nos deixar pérolas valiosas. Muita gente já deve ter ouvido falar em febeapá, termo que ainda hoje, quase 50 anos depois de seu desaparecimento, ainda é citado aqui e ali. Era o título de sua obra maior: Festival de Besteira que Assola o País. Tornou-se palavra comum. Uma suprema homenagem, espontânea e justa, ao inteligente escritor. Transcrevo abaixo uma de suas crônicas. Dispensa maiores explicações. A simples leitura destas linhas deixa perceber a joia que o Brasil perdeu num triste 30 de setembro de 1968.

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Com a ajuda de Deus
Stanislaw Ponte Preta

Tia Zulmira, pesquisadora do nosso folclore, descobre mais um conto anônimo. Conforme os senhores estão fartos de saber, quando uma coisa não tem dono, passa a ser do tal de folclore. Assim é com este conto muito interessante que a sábia macróbia colheu alhures.

Diz que era um lugar de terra seca e desgraçada, mas um matuto perseverante um dia conseguiu comprar um terreninho e começou a trabalhar nele e, como não existe terra bem tratada que deixe quem a tratou bem na mão, o matuto acabou dono da plantação mais bonita do lugar.

Foi quando chegou o padre. O padre chegou, olhou para aquele verde repousante e perguntou quem conseguira aquilo. O matuto explicou que fora ele, com muita luta e muito suor.

— E a ajuda de Deus — emendou o sacerdote.

O matuto concordou. Disse que no começo era de desanimar, mas deu um duro desgraçado, capinou, arou, adubou e limpou todas as pragas locais.

— E com a ajuda de Deus — frisou o padre.

O matuto fez que sim com a cabeça. Plantou milho, plantou legumes, passou noites inteiras regando tudo com cuidado e a plantação floresceu que era uma beleza. O padre já ia dizer que fora com a ajuda de Deus, quando o matuto acrescentou:

— Mas deu gafanhoto por aqui e comeu tudo.

O matuto ficou esperando que o padre dissesse que deu gafanhoto com a ajuda de Deus, mas o padre ficou calado. Então o matuto prosseguiu. Disse que não esmorecera. Replantara tudo, regara de novo, cuidara da terra como de um filho querido e o resultado estava ali, naquela verdejante plantação.

— Com a ajuda de Deus — voltou a afirmar o padre.

Aí o matuto achou chato e acrescentou:

— Sim, com a ajuda de Deus. Mas antes, quando Ele fazia tudo sozinho, o senhor precisava ver, seu padre. Esta terra não valia nada.Interligne 3aFonte: Ponte Preta, Stanislaw. O melhor de Stanislaw Ponte Preta: crônicas escolhidas; seleção e organização de Valdemar Cavalcanti. Rio de Janeiro: José Olympio, 2004, p. 85.