A língua falada por cada um

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Gosto muito das lições vernáculas que recebo lendo os primorosos e divertidos textos da Dad Squarisi. O de ontem não constitui exceção de modo algum, mas não posso deixar de confessar que ele me deixou um tantinho angustiada.

A bem da verdade, admito que, quando estou na dúvida sobre a forma gramatical correta, muitas vezes recorro ao estratagema usado pela secretária que, por desconhecer a grafia correta de sexta-feira, reagendou a reunião para a quinta. Além disso, tenho certeza de que se eu estivesse na pele da segunda, sem saber ao certo se o correto seria dizer “conosco mesmos” ou “com nós mesmos”, optaria por uma solução de compromisso mais tranquilizadora do ponto de vista psicológico: aconselharia meu chefe a trocar ‘nós’ por ‘a gente’.

Na sequência, refletindo um pouco mais, acabei descartando minha própria sugestão. Novas dúvidas se enraizaram de imediato em minha cabeça: se a troca fosse aceita, como ficaria o reforço ‘mesmos’? Seria correto dizer “com a gente mesma” ou, neste caso, ‘mesmo’ agiria como reforçador neutro de ‘queremos’? Se a frase começa com o plural ‘nós’, pode terminar no singular? Pensando bem, talvez fosse melhor sugerir algo como “Queremos estar de bem com aquilo que somos”. Pode ser mais longo e não tão preciso, mas pode eliminar a angústia mais rapidamente.

É curioso como, ao longo da vida, aprendi a demonstrar tolerância zero com erros de grafia e de concordância verbal, mas descuidei do aprendizado da norma culta. Escolho intuitivamente as construções de frase que me geram total confiança e fujo como o diabo da cruz de outras que experimentei um dia e que, por sua impropriedade, me encheram de vergonha.

O que não perdoo em mim mesma, perdoo menos ainda nos outros. A reprovação mais rápida da história universal da Seleção de Pessoal aconteceu com um colega que iniciou uma entrevista com um estudante universitário perguntando: “Quando você se forma? ”. A resposta veio de pronto: “Eu se formo agora no meio do ano”.

Por seu lado, sempre achei melhor que cada pessoa se exprima verbalmente da forma como aprendeu com os pais ou com a comunidade à sua volta, mesmo que contrarie o rigor da norma culta. Soa mais natural e preserva todo o sabor do jeito particular com que cada agrupamento humano diz o mundo. Um dia, se lhe interessar, a pessoa poderá aprender com mais facilidade como articular sua fala da maneira correta para provocar o impacto que deseja.

Sei por experiência própria que, quando a pessoa finge dominar as regras da semântica com o intuito de passar boa impressão a seu interlocutor, o resultado é inevitavelmente cômico e constrangedor. Foi o que aconteceu quando eu entrevistava um candidato para uma posição de gerência.

Ele havia enviado um curriculum grandiloquente, autoelogioso e volumoso e eu estava curiosa para descobrir o quanto suas experiências profissionais anteriores retratavam a verdade dos fatos. Comecei pedindo que ele resumisse suas atribuições no último posto de trabalho. O rapaz respirou fundo enquanto tentava organizar o pensamento e, de repente, seu olhar se iluminou, como se houvesse descoberto a fórmula certa de me impressionar logo de saída com seu douto saber. Cheio de confiança, ele nem pestanejou ao lançar as seguintes pérolas:

“Permita-me fazer um prêmbulo…

Mesmo fortemente impactada, não me foi difícil compreender que o ele pretendia de fato era dizer “preâmbulo”. Segurei o riso e respondi com serenidade: “Faça quantos achar necessário”.

Estimulado, ele prosseguiu: “É que eu sou uma pessoa muito detalhista. Adoro bolinar ideias”.

by Martin Singer (1969-), desenhista francês

Mais uma vez, bastou uma rápida reflexão para entender que, na verdade, ele queria dizer “burilar”. Só que, dessa vez, algo se agitou em mim. A impropriedade linguística do candidato começou a fazer uma outra lógica, que eu só poderia descrever como um enquadramento psicológico criativo, ainda que alucinado.

É que, mesmo me parecendo surreal a comparação, eu havia chegado à conclusão de que as duas palavras guardam semelhança, ao menos no que diz respeito à intenção. Se você parar para pensar, vai descobrir que aquele que burila alguma coisa, seja pensamento ou algo concreto, está na verdade mudando seguidamente de posição, avançando e recuando, experimentando novos ângulos e aparando arestas. Talvez até mesmo se deixando excitar com as possibilidades que se abrem diante de seus olhos ao manipular com competência profissional ou atabalhoadamente a ideia ou o objeto.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Vale a pena ler de novo ‒ 1

Post publicado originalmente em jan° 2013

Interligne 28a

Trinta e uma dicas de Português

José Horta Manzano

Enluminure A 11. Vc. deve evitar ao máx. a utiliz. de abrev., etc.

2. O escritor deve prescindir de recorrer ao uso de estilo de escrita em demasia rebuscado. Tal prática costuma advir do excessivo esmero com que exibicionistas ― nem sempre ínclitos ―, cuja autoincensação decorre justamente do parco conhecimento linguístico de que dispõem, chegam a raiar o paroxismo narcisístico, sem contar, para tanto, com supedâneo sólido no que tange à formação escolástica no campo da língua pátria.

3. Anule aliterações antipáticas altamente abusivas.

4. não esqueça as maiúsculas no início das frases.

Ortografia 45. Fuja de lugares-comuns como o diabo foge da cruz.

6. O uso de parênteses (mesmo quando parecer relevante) é geralmente desnecessário.

7. Estrangeirismos estão out; palavras de origem vernácula são o top.

8. Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça nice, sacou?… Então, valeu!

9. Palavras de baixo calão, porra, podem transformar o seu texto numa merda.

10. Nunca generalize: generalizar é erro fatal em todas as circunstâncias.

11. Evite repetir a mesma palavra pois essa palavra vai-se tornar palavra repetitiva. A repetição da palavra pode até fazer que a palavra repetida desqualifique o texto onde tal palavra for constantemente repetida.

Enluminure B 112. Não abuse das citações. Como costuma dizer um amigo meu: “― Quem cita os outros não tem idéias próprias”.

13. Frases incompletas podem causar

14. Não seja redundante, isto é, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes, ou seja, basta mencionar cada argumento uma só vez. Por outras palavras: evite repetir a mesma idéia várias vezes.

15. Seja mais ou menos específico.

16. Frases com apenas uma palavra? Jamais!

17. A voz passiva deve ser evitada.

18. Utilize a pontuação corretamente o ponto e a vírgula pois a frase poderá ficar sem sentido especialmente será que ninguém mais sabe utilizar o ponto de interrogação

19. Quem precisa de perguntas retóricas?

20. Conforme recomenda a A.G.O.P., nunca use siglas desconhecidas.

21. Exagerar é cem milhões de vezes pior do que usar a moderação.

Ortografia 322. Evite mesóclises. Repita comigo: “Mesóclises: evitá-las-ei!”

23. De regra importante esquecer não nunca: crucial a das palavras é ordem!

24. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.

25. Não abuse das exclamações!!! Nunca!!! O seu texto fica horrível!!! Acaba parecendo uma tuitada!!!

26. Evite frases exageradamente longas pois estas dificultam a compreensão da idéia por elas abarcada e, por compreenderem mais que uma idéia central, o que nem sempre torna seu conteúdo accessível, forçam, destarte, o infeliz leitor a dissecá-las nos seus diversos componentes, de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.

27. Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língoa portu-guêza.

28. Seja incisivo e coerente. Ou não.

Alfabeto 329. Não vá estar escrevendo (nem vá estar falando) no gerúndio. Você vai estar deixando seu texto pobre e vai estar causando ambiguidade. Com certeza, você vai estar deixando o conteúdo esquisito, vai estar ficando com a sensação de que as coisas ainda vão estar acontecendo. E como você vai estar lendo este texto, tenho certeza de que você vai estar prestando atenção e vai estar repassando aos seus amigos, que vão estar entendendo e vão estar pensando em abandonar esta maneira irritante de estar falando.

30. Venha cá, meu rei! Outra barbaridade que deves evitar, tchê, é usar expressões que denunciem a região de onde vens, ô meu! Uai…esquece esse trem! Vixi… entendeu, bichinho?

31. Não permita que seu texto acabe por rimar, porque senão ninguém vai aguentar, já que é insuportável o mesmo final escutar, o tempo todo sem parar.

Trinta dicas de Português

José Horta Manzano

1. Vc. deve evitar ao máx. a utiliz. de abrev., etc.

2. O escritor deve prescindir de recorrer ao uso de um estilo de escrita em demasia rebuscado. Tal prática costuma advir do excessivo esmero com que exibicionistas ― nem sempre ínclitos ―, cuja auto-incensação decorre justamente dos parcos conhecimentos linguísticos de que dispõem, chegam a raiar o paroxismo narcisístico, sem contar, para tanto, com supedâneo sólido no que tange à formação escolástica no campo da língua pátria.

3. Anule aliterações altamente abusivas.

4. não esqueça as maiúsculas no início das frases.Alfabeto

5. Fuja de lugares-comuns como o diabo foge da cruz.

6. O uso de parênteses (mesmo quando parecer relevante) é geralmente desnecessário.

7. Estrangeirismos estão out; palavras de origem vernácula são o top.

8. Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça nice, sacou?… Então, valeu!

9. Palavras de baixo calão, porra, podem transformar o seu texto numa merda.

10. Nunca generalize: generalizar é um erro fatal em todas as circunstâncias.

11. Evite repetir a mesma palavra pois essa palavra vai tornar-se uma palavra repetitiva. A repetição da palavra pode até fazer com que a palavra repetida desqualifique qualquer texto onde tal palavra se encontrar assim repetida.

12. Não abuse das citações. Como costuma dizer um amigo meu: “― Quem cita os outros não tem idéias próprias”.

13. Frases incompletas podem causar

14. Não seja redundante, isto é, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes, ou seja, basta mencionar cada argumento uma só vez. Por outras palavras: evite repetir a mesma idéia várias vezes.

15. Seja mais ou menos específico.

16. Frases com apenas uma palavra? Jamais!

17. A voz passiva deve ser evitada.

18. Utilize a pontuação corretamente o ponto e a vírgula pois a frase poderá ficar sem sentido especialmente será que ninguém mais sabe utilizar o ponto de interrogação

19. Quem precisa de perguntas retóricas?

20. Conforme recomenda a A.G.O.P., nunca use siglas desconhecidas.

21. Exagerar é cem milhões de vezes pior do que usar a moderação.

22. Evite mesóclises. Repita comigo: “mesóclises: evitá-las-ei!”

23. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.

24. Não abuse das exclamações!!! Nunca!!! O seu texto fica horrível!!!

25. Evite frases exageradamente longas pois estas dificultam a compreensão da idéia por elas abarcada e, por compreenderem mais que uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo accessível, forçam, destarte, o infeliz leitor a dissecá-las nos seus diversos componentes, de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.

26. Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língoa portu-guêza.

Alfabeto 227. Seja incisivo e coerente. Ou não.

28. Não vá estar escrevendo (nem vá estar falando) no gerúndio. Você vai estar deixando seu texto pobre e vai estar causando ambiguidade, com certeza você vai estar deixando o conteúdo esquisito, vai estar ficando com a sensação de que as coisas ainda vão estar acontecendo. E como você vai estar lendo este texto, tenho certeza de que você vai estar prestando atenção e vai estar repassando aos seus amigos, que vão estar entendendo e vão estar pensando em não estar falando desta maneira irritante.

29. Outra barbaridade que tu deves evitar, tchê, é usar muitas expressões que acabem por denunciar a região de onde vens, ô meu! Uai…nada de mandar esse trem… vixi… entendeu, bichinho?

30. Não permita que seu texto acabe por rimar, porque senão ninguém vai aguentar, já que é insuportável o mesmo final escutar, o tempo todo sem parar.