A África do Sul e nós

José Horta Manzano

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Esse é trecho da nota emitida pelo movimento Save SA ‒ Salve a África do Sul, que, há tempos, vem manifestando oposição ao governo do ora caído presidente Jacob Zuma. Declaram-se absolutamente radiantes de ver pelas costas o «pior presidente que o país teve até hoje».

Quando Nelson Mandela conseguiu a inimaginável façanha de evitar um banho de sangue ‒ por ocasião da transição do país do regime de apartheid à democracia universal ‒, o mundo passou a enxergar a África do Sul com outros olhos. De terra fadada ao fracasso e à guerra civil, o país passou a ser visto como emergente e promissor.

A África do Sul é república parlamentar. Sua Constituição, diferentemente da de outros regimes parlamentaristas, prevê que o presidente seja, ao mesmo tempo, chefe do governo e chefe do Estado. A diferença entre esse sistema e o presidencialismo puro é que o mais alto dirigente sul-africano não depende diretamente das urnas, mas da confiança do parlamento. Caso os parlamentares votem uma moção de desconfiança, ele é apeado do cargo.

Foi o que aconteceu dois dias atrás com Jacob Zuma, terceiro sucessor do velho Mandela. Seu partido, que é amplamente majoritário, pediu-lhe que renunciasse à presidência. Caso não o fizesse, moção de desconfiança estava pronta pra ser votada. Bem a contragosto, o presidente se foi. Não sem antes apresentar um balanço de seus anos de governo. É um balanço típico de ‘contabilidade criativa’, em que, escamoteados os passivos, só os ativos são mencionados. Só o lado sorridente aparece.

Mas o lado sombrio é tenebroso. O presidente caído está enroscado em 783 acusações de corrupção(!) ‒ volume pra deixar qualquer envolvido na Lava a Jato babando de inveja. O país-modelo da África deixou-se gangrenar pela corrupção erigida em sistema de governo. Bem longe das promessas de vinte anos atrás, a África do Sul tem hoje 50% dos habitantes abaixo da linha de pobreza. E a taxa de desemprego atinge 30% da população em idade de trabalhar.

O fator mais preocupante é o desencanto do povo: a maioria acredita que o substituto de Mister Zuma será tão corrupto quanto ele. Nós, no Brasil, que atravessamos um longo período de corrupção e de roubalheira análogo ao da África do Sul, pelo menos guardamos esperança de que o futuro seja mais risonho. Não há dúvida: o brasileiro é um povo cordial.

Ocultação de crime

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 22 jul° 2016

Chamada do Estadão, 22 jul° 2016

Na máfia, essa atitude é conhecida como omertà(*). Criminoso apanhado pela Justiça mente para cobrir e proteger um superior. Faz parte dos códigos da bandidagem.

Em terras civilizadas, isso se chama não denunciação de crime (ou ocultação de crime ou ainda obstrução de Justiça), ato que costuma ser reprimido e punido pela lei. Na hipótese mais benigna, será considerado fator agravante de outros crimes. Como reagirão os juízes de Curitiba?

(*) Nota linguística
Omertà é palavra presente em dialetos do sul da Itália, especialmente em napolitano. É a maneira local de dizer umiltà (= humildade). A Lei da Humildade é outro nome da Lei do Silêncio. Segundo ela, bandido não tem o direito, em nenhuma hipótese, de denunciar comparsa. É obrigado a calar-se, evitando, assim, que o companheiro seja apanhado pela Justiça.

Na mafia siciliana, na camorra napolitana e na ‘ndrangheta calabresa, quem entregar companheiro tem o destino selado: mais cedo ou mais tarde, será despachado desta para melhor.

Na organização criminosa que se apoderou de nosso andar de cima, porém, as regras são mais flexíveis: a Lei do Silêncio transformou-se na Lei do Salve-se Quem Puder. Afinal, o brasileiro é, antes de tudo, cordial. Ou não?