Malfeitos estrangeiros

José Horta Manzano

Às vezes a gente imagina que a corrupção é um mal exclusivamente brasileiro, que absurdos só acontecem em terra tupiniquim, que a malandragem é especificidade nacional.

É apenas meia verdade. Se é fato notório que corrupção, absurdos e malandragem correm soltos em nossas terras e fazem parte da paisagem, não é verdade que o Brasil seja o único lugar do planeta onde essas práticas são corriqueiras.Bola futebol

Sabemos todos que a próxima Copa do Mundo terá lugar em nosso País. Sabemos todos que irregularidades ― para usar um termo eufemístico ― têm ocorrido e que muitas mais ocorrerão nos meses que nos separam do evento.

É razoável imaginar que as edições do campeonato mundial de futebol hospedadas pela Alemanha, pela Coreia, pelo Japão não tenham sido manchadas por trambiques. Se os houve, foram menos escancarados.

Já de uns tempos para cá, parece que a Fifa resolveu tirar a máscara. Não bastasse a escolha da África do Sul e do Brasil, a Rússia está escalada para abrigar a edição seguinte.

O imenso país, que se estende do Báltico ao Pacífico, tem espaço, tem população, tem tradição futebolística. Não é por esse lado que se poderá criticar a escolha. O que atrapalha um pouco o quadro é o fato de a Rússia nunca ter conhecido um governo democrático.

Desde os tempos de Ivan, o Terrível, o território tem sido controlado com mão de ferro. De monarquia feroz, passaram a ditadura comunista. Seguiu-se um governo autoritário que ainda subsiste. A candidatura da Rússia não foi, portanto, apresentada por legítimos representantes do povo, mas pela nomenklatura. É verdade, não se usa mais esse termo, mas a realidade não mudou muito por aquelas bandas. As castas dirigentes ainda hão de continuar sobrevoando o populacho por um bom tempo.

Não é absurdo imaginar que algum mimo tenha sido oferecido aos integrantes do comitê que escolheu a Rússia. Dado que não é costume assinar recibo quando se recebem agrados desse jaez, ficaremos sem saber.
Camelo

Mas o que vem depois é bem pior. Os dirigentes da Fifa decidiram que a edição seguinte, a de 2022, vai-se realizar no Catar. O nome se escreve meio esquisito. Quem preferir, que use Qatar ou até Katar, que fica mais exótico.

Poucos já visitaram esse país, mas os meios de informação de que dispomos atualmente nos deixam a par de muita coisa. Não precisa ser nenhum especialista para saber que o Catar não tem tradição futebolística. Uma rápida pesquisa nos ensina que a superfície do país é de 11 mil km2, a metade de Sergipe, o menor estado brasileiro. Da população total de menos de dois milhões de almas, metade está concentrada na capital. As duas maiores cidades abrigam 80% dos habitantes.

Mas há pior ainda. O clima é desértico, sem árvores, sem vegetação. Para completar, a média das temperaturas diurnas em junho/julho, justamente quando a Copa será disputada, é de amenos 41°, 42°. Atenção: falo de média. Um dia mais abafado pode empurrar o mercúrio até os 48° ou 50°. Esses valores são, naturalmente, medidos à sombra. Mas nenhum visitante será obrigado a ficar à sombra.

Trinta e duas equipes participarão. Jogarão 64 partidas. Como é que vão se arranjar com as sedes? Todos os jogos no mesmo estádio? Ou novas arenas serão edificadas no deserto? Cá entre nós, nunca o termo «arena» terá sido tão bem utilizado. Em italiano e em espanhol, significa areia.

Dado que é impossível que esses detalhes tenham escapado aos nobres dirigentes do futebol mundial, alguma razão oculta tem de estar por detrás da designação desse micropaís. O fato é que a Fifa, inflexível, mantém sua escolha.

Como diziam os mineiros de antigamente, «debaixo do angu tem carne».

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Nota: Pode-se entrever um pedacinho da carne escondida debaixo do angu por este artigo. Decididamente, está instituído o programa Bolsa-futebol.

Estamos quase no Primeiro Mundo

José Horta Manzano

Dois meses atrás, o jornal parisiense Mediapart publicou uma revelação capaz de causar estrago no governo francês. Após meses de investigação, teve acesso, não se sabe bem como, à gravação de uma conversa telefônica. Um dos interlocutores era o Ministre du Budget ― o número um do Ministério do Orçamento. No diálogo, o ministro mencionava uma conta pessoal secreta que havia mantido num banco suíço. Imaginem só. Um ministro ser acusado de fraude fiscal e evasão de divisas, justamente os crimes cujo combate estava sob sua responsabilidade. Pegou muito mal.

Jérôme Cahuzac

Jérôme Cahuzac

Ato contínuo, o ministro negou que a voz fosse dele. O jornal insistiu. O homem político continuou negando veementemente. A gravação foi enviada à polícia nacional, que conta com os melhores peritos do país.

Passaram-se as semanas. Dois dias atrás ― catapum! ― veio a confirmação: o dono da voz gravada é o ministro Jérôme Cahuzac mesmo.

A reação do governo foi imediata. O ministro, certamente pressionado pelo presidente, apresentou sua demissão. A renúncia foi aceita sob a justificativa de liberá-lo de suas funções para que possa preparar melhor sua defesa.

Monsieur Cahuzac já foi substituído no ministério. Se conseguir provar que nunca teve conta não declarada no exterior ― o que não será fácil ― tem alguma chance de voltar um dia à vida pública. Caso contrário, pode pendurar suas chuteiras, porque nunca mais voltará a se eleger. Não conseguirá nem mesmo um cargo de vereador.

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Temos nós também, no Brasil, gente graúda metida em situações parecidas. A diferença está no olhar indiferente que a nação lança aos infratores da lei. Um olhar que acaba se tornando um incentivo para a perpetuação de atitudes ilícitas.

Um veterano figurão político brasileiro, que já foi prefeito, governador, deputado e até candidato à presidência da República, é sabidamente beneficiário de não uma, mas várias contas secretas no estrangeiro. Já as teve na Suíça, nos EUA, nas Ilhas Anglo-normandas. Aliás, foi recentemente condenado pelas autoridades de Jersey a devolver alguns milhões aos cofres públicos brasileiros. Chegaram à conclusão de que o beneficiário havia-se apoderado de dinheiro que não lhe pertencia. É coisa pouca perto das centenas de milhões que se suspeita tenham sido subraídas ao erário. Mas já é melhor que nada.

Apesar de todas as evidências, nosso conhecido homem político não se dispôs, até hoje, a admitir seus malfeitos. Continua afirmando que nunca foi beneficiário de nenhuma conta no estrangeiro. E ninguém parece dar muita importância a isso.

Maluf e Lula 2

Já faz tempo que, a pedido dos EUA, a Interpol lançou um mandado de captura visando a levá-lo àquele país para lá ser julgado. O homem não pode nem pensar em pôr os pés fora do território nacional, se não será irremediavelmente detido e extraditado.

Mas nossos costumes são outros. Embora todos saibam que o homem meteu a mãozona no nosso dinheiro, o peculiar político nunca pensou em renunciar a nenhum cargo. Sabendo-se blindado, continua circulando livre e solto. Para provar que nosso povo, generoso mas ingênuo, não se abala com «malfeitos», recebeu em sua casa o presidente-adjunto do Brasil, que, com espantosa desenvoltura, veio solicitar seu apoio político. Esperto, o fugitivo da Justiça internacional fez questão de convocar a imprensa para imortalizar sua glória e a flagrante humilhação infligida ao antigo presidente do País.

O Primeiro Mundo está ali na esquina. Já, já chegamos lá.

Cobranças e pedidos

José Horta Manzano

Papa Francisco foi entronizado. Uma situação bizarra, em que dois pontífices coexistem, um já aposentado e outro na ativa. Quem tem menos de 500 anos de vida ― e acredito que seja o caso de todos nós ― nunca viveu uma situação semelhante.

A História já registrou momentos confusos, quando dois homens reivindicavam o mesmo trono, ambos convictos de representar a autoridade suprema da Igreja. Cada um considerava o outro um antipapa. O cristianismo chegou até a conhecer três papas ao mesmo tempo. Mas isso já faz muito tempo, muito mesmo. O último capítulo desse cisma desenrolou-se há 600 anos.

Cada país, cada povo, cada religião, cada confraria, cada clube tem suas regras. Ainda que nenhum caso parecido tenha ocorrido nos últimos séculos, a doutrina da Igreja não impede o Sumo Pontífice de renunciar a seu cargo. As regras, portanto, não foram infringidas.

A cada função correspondem rituais que lhe são inerentes. Representar um grupo é encargo cerceado por normas explícitas. Até reis e dirigentes absolutistas costumavam respeitar uma certa liturgia. Caso algum detalhe do cerimonial não esteja escrito em papel quadriculado, vale o bom senso. Certas quebras de protocolo podem até ser divertidas e inócuas. Em geral, são aceitas de bom grado. Já outras transgressões pegam mal.Dilma e Cristina

Centenas de chefes de Estado, primeiros-ministros, presidentes e outras personalidades viajaram a Roma estes dias. Foram todos marcar presença. Coube a cada um deles levar a homenagem de seu país ao novo chefe do Estado do Vaticano. Cerca de 150 países enviaram representantes para a entronização do papa.

Não deveria passar de uma visita protocolar, algo como dar bom-dia ao vizinho. Muitas vezes, preocupados com nossos problemas quotidianos, não temos a menor vontade de saudar vizinho no elevador. Mas faz parte do jogo. Todo jogo tem suas regras.

Espantosamente, alguns dos visitantes ultrapassaram os limites fixados pelo protocolo. Por sorte, não foram muitos. Mas dois deles extrapolaram. São justamente pessoas importantes em seus respectivos países.

Cristina Fernández de Kirchner, presidente da vizinha República Argentina, foi uma delas. Com uma das mãos, ofereceu ao homenageado uma cuia de chimarrão. Sem cerimônia, aproveitou para estender a outra mão com um pedido ao Papa Francisco: solicitou seu apoio no diferendo que a opõe ao Reino Unido a propósito das Ilhas Falkland/Malvinas. Por sorte (ou por pudor), os fotógrafos não registraram nenhum tapinha nas costas.

Foi como se a senhora Fernández de Kirchner dissesse: «Olhe aqui, Santidade, o senhor pode até ser papa, mas não deixa de ser argentino. Portanto, fique com esta cuia e me ajude a agregar aquele arquipélago ao nosso território. Meu futuro político depende disso». Que falta de classe! Pior ainda quando se sabe, pela imprensa do país hermano, que a convivência entre a “presidenta” e o então cardeal foi áspera.

Dilma Rousseff, presidente da República Federativa do Brasil, foi ainda mais longe. Não ousou dizer na cara do Papa Francisco o que queria, mas fez chegar-lhe um recado pelos jornalistas. Antes mesmo que o novo chefe da Igreja assumisse o cargo oficialmente, Dilma deu-lhe, por caminhos tortuosos, uma lição (não solicitada) sobre como conduzir o rebanho. Instou o novo pontífice a procurar compreender as «opções diferenciadas das pessoas»(sic).

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Dizem que o poder inebria e que, às vezes, chega a cegar. Quando é exercido por pessoas pouco preparadas, a coisa é ainda pior. De um convidado para uma homenagem, espera-se que venha com os braços cheios de presentes e que se retire com as mãos vazias. Choradeira tem hora. Onde já se viu fazer pedidos públicos ao homenageado do dia? Tem cabimento dar-lhe lições de bem governar? O comportamento das duas senhoras foi ousado e grotesco. Deram, mais uma vez, mostra de absoluta falta de tacto. Há hora e lugar para tudo, mas elas não leram o manual.

A língua portuguesa tem muitas palavras em vias de extinção, por mera falta de uso. A atitude da chefe do Executivo de nosso País comprovou a obsolescência de um desses termos: recato. Faz muita falta a nossos mandachuvas.

Em castelhano, por acaso, a palavra é a mesma.

A infraestrutura

José Horta Manzano

«Carregado com 37 toneladas de soja, o sete eixos de placas HKE 0878, dirigido por Sonildo Alves de Souza, de 40 anos, saiu da Fazenda São Luis, em Ipiranga do Norte, no Mato Grosso, na sexta-feira, dia 8. O motorista atravessou quase 2 mil quilômetros, numa viagem de quatro dias, até chegar ao Porto de Santos, litoral de São Paulo, no começo da noite de segunda-feira. Mas chegar é uma coisa; entregar a encomenda, é outra. Sonildo teve de esperar 31 horas na fila de caminhões para descarregar no terminal de granéis da T-Grão, na Avenida Silo do Porto de Santos.

No final da tarde de terça-feira, 20 horas depois da chegada à Baixada Santista, o cargueiro servia de sombra para a rede do motorista, estacionado perto da Praça Guilherme Aralhe, onde fica a empresa T-Grão Cargo – Terminal de Granéis, endereço final da soja do cerrado. “Antes da meia-noite não descarrega”, previa Sonildo, atirado na rede, já conformado com a longa espera na fila dos caminhões.»

Esses são os dois primeiros parágrafos do artigo de autoria de Pablo Pereira, publicado pelo Estadão online de 17 de março. Para quem se interessar em continuar a leitura, fica aqui o endereço.

Caminhão 2

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Faz alguns anos que se fala nas vantagens que traria a implantação de um trem-bala no trecho Campinas-São Paulo-Rio de Janeiro. Pode até ser. Por meu lado, acredito que os trinta ou quarenta bilhões que teremos de desembolsar para essa obra faraônica seriam bem mais úteis se empregados para ressuscitar nossas antigas ferrovias.

Se a Europa pode dar-se ao luxo de calcar sua logística majoritariamente em transporte ferroviário, por que não poderíamos nós? Trem é poderoso, forte, seguro, não poluente, confiável. Uma só composição pode transportar carga equivalente à de dezenas de caminhões. Dos grandes. Trem não tem medo de chuva, barro, tempestade, vento.

Se nem os Estados Unidos, sempre na ponta do progresso tecnológico, abandonaram suas ferrovias, por que devemos nós banir as nossas?Caminhão 1

Segundo a canadense Michelle Lalande-Dery, autora do livro La suite des idées (Les Editions Lucange, Québec, Canadá), a via férrea apresenta vantagens consideráveis. Algumas estão elencadas abaixo:

A ferrovia é o meio de transporte ecológico do futuro, movido a energia limpa.

O transporte de frete por trem consome 1/3 da energia necessária para transportar o mesmo peso por estrada.

Um trem pode transportar uma tonelada de mercadoria por uma distância de 169km com um litro de combustível.

No caso de locomotivas movidas a diesel, o reservatório tem capacidade para 15’000 litros. A maior parte dos trens pode percorrer mais de 1600km sem precisar reabastecer.Caminhão 3

Numa distância de 1 km, um caminhão consome 13 vezes mais energia que um trem para transportar uma tonelada de frete.

Uma via férrea de um único par de trilhos equivale a uma via expressa de 14 pistas paralelas.

Um comboio de 200 vagões transporta tanto quanto 400 carretas rodoviárias.

Acrescentar um único trem de frete à rede equivale a retirar da circulação até 280 caminhões.

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Precisa mais?

A intervenção

José Horta Manzano

Quem examinar um mapa do Oriente Médio atual, com seus países bem delimitados e desenhados em diferentes cores, dificilmente se dará conta de que aquela partilha territorial é criação totalmente artificial.

Desde tempos imemoriais, a extremidade leste do Mediterrâneo foi habitada. Para lá convergiram populações vindas de horizontes diversos, cada qual com sua língua, seus costumes, suas tradições, sua religião.

Seja pela fertilidade de alguns de seus vales, seja por razões religiosas, seja ainda por sede de poder econômico, muitos se interessaram por aquelas terras ― tanto gente miúda, quanto poderosos. Desde os sumérios e os hititas, muitos povos habitaram a região. Até mesmo os romanos estenderam seus domínios até lá, ao conquistarem a orla mediterrânea do Oriente Médio.

Após a débâcle de Roma, Constantinopla, a atual Istambul, tornou-se o centro de gravidade. Dali saíam as ordens e ali chegavam os impostos, que é o que mais interessava.

A partir do século X, levas de população turcomana provenientes da Ásia Central arribaram e fincaram pé no extremo leste da Anatólia, a península onde se assenta a Turquia atual. Era um povo aguerrido. Seus chefes tinham sede de expansão.

Em cinco séculos, conquistaram toda a Anatólia, tomaram Constantinopla, desbancaram o Império Romano do Oriente, subjugaram a península balcânica e chegaram às portas de Viena. O Oriente Médio, do Mar Negro ao Egito, da Arábia Saudita à Tunísia foi submetido a uma dominação turca que duraria 400 anos. Formou-se o longevo Império Otomano.

Império Otomano

Mas o mundo gira. Quando estourou a Grande Guerra, em 1914, o sultão de Constantinopla tomou uma decisão que levaria ao desaparecimento do império: aliou-se à Alemanha. Perderam a guerra. O Tratado de Sèvres (1920) e o Tratado de Lausanne (1923) sacramentaram o esfacelamento da velha potência e sua partilha entre os vencedores.

A região foi retalhada na prancheta pelos vencedores. Inglaterra e França, potências dominantes à época, decidiram quem ficaria com o quê. E desenharam o contorno dos novos países. Raças, religiões, costumes, línguas e tradições não foram a preocupação maior dos novos mandatários.

O resultado foi a criação de países artificiais. A Síria, o Iraque, a Jordânia, o Líbano abrigam populações heterogêneas, que pouco têm a ver entre si. Dentro das fronteiras nacionais coabitam inimigos históricos.

Se um simulacro de coesão subsistiu até nossos dias, foi porque cada um dos novos países foi governado com mão de ferro por ditaduras ou governos pra lá de autoritários. Foi uma calma de aparência, como a que se viu na  Iugoslávia de Tito, na Espanha de Franco, na Tchecoslováquia comunista.

Nós outros, que vivemos em nações mais uniformes e que desconhecemos tensões étnicas ou religiosas, temos dificuldade em entender a realidade daquela região. Em palavras mais chãs, temos a impressão de que todos são meio malucos por ali, que se agridem sem real motivo.

É um pouco mais complicado que isso. A Síria, como o Iraque e os vizinhos, abriga nações díspares. Um curdo da Síria deve sentir-se tão sírio quanto um escocês se sente inglês. Certos xiitas de Basra consideram-se tão iraquianos quanto certos bascos se consideram espanhóis. A região é uma verdadeira colcha de retalhos.

Estes dias, o presidente da França e o primeiro-ministro britânico ameaçaram fornecer armas aos oponentes do mandachuva sírio. À primeira vista, parece uma decisão justa. Se a ditadura pode, impunemente, massacrar seu próprio povo, por que razão não auxiliar os pequeninos a se defenderem?

Desgraçadamente, o problema não é assim tão simples. Se, por hipótese, o ditador for apeado do poder, quem tomará seu lugar? Qual das minorias sobrepujará as demais? Vamos simplesmente trocar uma ditadura por outra?

Longe de mim aprovar que velhos, mulheres e crianças sejam trucidados nessa guerra sem fim. Que o ditador abandone seu trono e vá curtir o resto de seus dias nalgum paraíso ― há sempre gente interessada em acolher endinheirados. Mas como ficará depois?

Não tenho a resposta, muito menos o poder de interferir. Não tenho muita fé, mas sempre resta um fio de esperança de que os grandes deste mundo estejam pensando nisso.

Como em 1918, são justamente a França e a Grã-Bretanha as potências que se dizem prontas a intervir. Que intervenham, pois, e que ponham fim ao massacre. E que redesenhem o mapa da região levando em conta, desta vez, o interesse das populações. Não será tarefa fácil.

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Nota: Um artigo do Estadão de 17 de março, de autoria de Guilherme Russo, vem corroborar minha opinião. Quem se interessar vai encontrá-lo aqui.

Os descendentes de Jacó

José Horta Manzano

Você sabia?

A tradição hebraica, atestada pela Gênese ― um dos livros que compõem o Antigo Testamento ― ensina que, muitos anos antes de nossa era, viveu Yakov. Neto de Abraão, filho de Isaac e de Rebeca, é um patriarca bíblico.

Acreditam alguns que seu nome derive de uma palavra significando calcanhar, dado que Yakov teria nascido agarrado ao calcanhar de Esaú, seu irmão gêmeo. Afirmam outros que o termo poderia ter o sentido de suplantar, numa alusão ao prato de lentilhas que Yakov deu ao irmão para adquirir os direitos atinentes à condição de primogênito.

À primeira vista, podemos até não nos dar conta de que está aí um dos nomes mais comuns no planeta. Sua propagação teve início com a conquista dos territórios do Oriente Médio pelos romanos. Os invasores, sabe-se lá por que razão, apreciaram o nome e logo trataram de latinizá-lo. Assumiu a forma Jacobus ou, mais raramente, Jacomus.

Passaram-se alguns séculos. A expansão do cristianismo por toda a Europa, aliada ao fato de numerosos Jacobus terem sido santificados, fez que o nome se alastrasse pelo continente. O passar do tempo se encarregou de adaptá-lo ao vernáculo de cada região.

Em algumas línguas, o antigo Yakov mantém-se ainda muito próximo da forma original. Em outras, contudo, sofreu importantes transformações gráficas e fonéticas que o tornaram quase irreconhecível.

Assim, encontramos hoje, em praticamente todas as línguas europeias, filhotes de Jacó. Dou-lhes abaixo uma lista. Ela está longe de ser exaustiva.

Bible

Inglês:
Jacob, Jakob, Jake, Jack, Jackie, Jock, Cobb, Cobby, Jeb, James, Jim, Jay, Jimmie, Jamie

Alemão:
Jakob, Jakobus, Jeckel, Jockel, Jocki, Jakel, Kobi, Köbes

Francês:
Jacques, Jacob, Jacquot

Espanhol:
Jacobo, Jaime, Diago, Diego, Iago, Santiago
(Santiago é contração do nome do santo. Sant’Iago = Santiago)

Catalão:
Jaume

Sueco, dinamarquês e norueguês:
Jakob, Jacob

Italiano:
Giacobbe, Giacobbo, Giacomo

Húngaro:
Jakab, Jákób, Jákó, Jakus

Occitano:
Jacme, Jaume

Polonês:
Jakub, Kuba, Kubuś

Armênio:
Hagop

Russo:
Яков (= Yakov)

Grego:
Ιάκοβος (= Iákovos)

Estoniano:
Jaagup, Jaak

Tcheco:
Jakub, Jakoubek, Kuba, Kubík, Kubas, Kubis

Letão:
Jekabs

Finlandês:
Jaakob

Árabe:
Yakub

Galego:
Xacobe, Xaime, Iago

Lituano:
Jokubas

Georgiano:
Iakobi

Turco:
Yakup

Ucraniano:
Яків (= Yakiv)

Albanês:
Japku, Jakup, Jakub

Napolitano:
Giacumino, Jacuviello, Jacuvo, Cuviello

Milanês:
Giàcum, Giàcumin

Piemontês:
Giàcom, Giàco, Giacolino

Curdo:
Ya’qub, Aqo

Bretão:
Jagu, Jagut, Jak, Jakez, Jakou, Iagu, Jalm

Português:
Jacó, Jaime, Diogo, Diego, Iago, Tiago, Santiago
(Santiago e Tiago provêm da mesma contração do espanhol).

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Conheço dois irmãos, um chamado Tiago e o outro, Diego. Ambos fazem parte da grande família dos filhotes de Jacó.

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Num outro dia, dou-lhes uma lista expressiva de sobrenomes derivados do mesmo Jacó bíblico.

Prêmio de consolação

José Horta Manzano

Tempos houve em que o papa detinha tanto o poder espiritual quanto o poder temporal sobre seus súditos. Os que não perderam nenhum aula de História hão de se lembrar vagamente da Bula Inter Caetera. Esqueceu? Não tem problema, vou resumir.

O ano de 1492 foi extremamente significativo para a Espanha dos muy católicos reis Fernando de Aragão e Isabel de Castela. Três acontecimentos marcaram aquele período.

O primeiro foi a tomada do Reino de Granada, último bastião árabe em terra ibérica. Aconteceu logo em janeiro. Foi a conclusão de um processo secular que os espanhóis chamam La Reconquista. A coroa espanhola passou a reinar sobre toda a península, com a notável exceção do vizinho Portugal. Não só vizinho, mas adversário e concorrente.

O segundo acontecimento veio menos de 3 meses depois. Um real decreto conhecido como Édito de Granada não foi brando, nem suave, nem comedido. Dava aos judeus residentes no reino duas opções: ou se convertiam ao catolicismo ou deixavam o país. Era uma espécie de Brasil, ame-o ou deixe-o. Só que não era apenas um convite, mas uma imposição, sem discussão possível.

O terceiro acontecimento, do qual certamente ninguém esqueceu, foi a chegada de Cristóvão Colombo a terras americanas, em 12 de outubro daquele mesmo ano.

Era muita coisa ao mesmo tempo. A coroa portuguesa não aplaudiu de pé as façanhas do vizinho. A guerra, que não interessava a nenhum dos dois reinos, ameaçava espocar. Que fazer para serenar os ânimos?

Pois foi aí que o papa, imbuído de poder supranacional, foi chamado a intervir. Emissário vai, emissário vem, Sua Santidade convenceu as duas coroas a concluírem um acordo. Não foi preciso discutir muito.Tordesilhas

Já em maio de 1493, o papa Alexandre VI emitiu a Bula Inter Caetera(*), um decreto solene com força de lei. Estipulava nada menos que a divisão do globo terrestre em duas metades. Portugal teria direito sobre todas as novas terras descobertas ou a descobrir situadas a leste de um determinado meridiano. E a Espanha ficava com os territórios a oeste da mesma linha.

Dizem que o rei de França, que por acaso tinha o mesmo nome do novo papa ― Francisco I ― não apreciou muito a decisão. Parece até que ousou pedir que lhe mostrassem o testamento em que Adão deixava o planeta de herança aos países ibéricos e excluía a França. Talvez seja só uma lenda…

No ano seguinte, as duas potências ibéricas fizeram alterações menores na posição geográfica da linha imaginária. Sacramentaram o novo acordo pelo Tratado de Tordesilhas.

O poder do bispo de Roma era, como se vê, muito maior do que é hoje. As diretivas de sua bula foram, bem ou mal, respeitadas. A prova é que os portugueses se estabeleceram nas terras que lhes foram atribuídas e deixaram o resto aos espanhóis. Não fosse o decreto papal, e talvez o Brasil não existisse.

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Neste 13 de março um novo papa foi escolhido. Mas o mundo mudou. Já faz tempo que Sua Santidade perdeu todo poder temporal, à exclusão do minúsculo enclave do Vaticano. Quanto ao poder espiritual, está hoje em dia mais para o simbólico que para o real.

Católicos ou não, os que não suportam mais o cônjuge vão acabar se divorciando. Devotos ou não, os casais homossexuais vão acabar se casando, nos países onde essa união é reconhecida. Praticantes ou não, os casais que não desejarem procriar vão continuar tomando as medidas apropriadas.

Diferentemente de algumas outras, a Igreja Católica emperrou em algumas posições que dificilmente se coadunam com os dias de hoje. Os pontos de fricção atuais são o resultado da defasagem que vem se alargando há séculos. A sintonia entre os fiéis e as regras a respeitar anda muito complicada.

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Um último lembrete àqueles que não ficaram sabendo. A notícia saiu na Folha de SP mas ficou um pouco obnubilada pelo advento do novo papa. Pela primeira vez, um brasileiro foi sagrado clérigo xiita. É um prêmio de consolação para os brasileiros decepcionados pelo fato de o sucessor de Bento XVI não ser nosso conterrâneo.

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(*) Todas as bulas e encíclicas papais são conhecidas por suas duas ou três palavras iniciais. O texto solene de 1493 começava com a expressão Inter caetera, que significa entre outros. Aliás, o termo caetera é o mesmo que ainda se esconde atrás de nossa conhecida abreviação etc. Et caetera significa e outros.

O plebiscito

José Horta Manzano

Domingo 10 e segunda-feira 11 de março, os habitantes das Ilhas Falkland/Malvinas estão sendo chamados às urnas. Devem responder se querem que seu arquipélago continue a fazer parte do Império Britânico. Prevê-se que o sim vença por esmagadora maioria.

A intenção do Reino Unido é reforçar sua posição para fazer face às recorrentes reivindicações argentinas sobre o território. Um sim maciço permitirá aos britânicos proclamar que, além de já terem a posse de facto, os ilhéus querem manter o statu quo ante bellum, o estado em que as coisas estavam antes da guerra. Em outras palavras, nem os donos da terra, nem muito menos seus habitantes desejam que a situação mude.

As Falkland/Malvinas são um caso peculiar. A história daquele pedaço de terra desolado, frio, sem árvores, batido pelos ventos já começa tão enevoada como o clima. Américo Vespúcio em pessoa, ingleses, espanhóis e até holandeses são apontados como primeiros visitantes das ilhas. Provavelmente não saberemos nunca quem foi o pioneiro. Pouco importa.

Nos primeiros 250 anos, ninguém se interessou em providenciar envio de população para ocupar e colonizar as ilhas. Os estabelecimentos europeus não ultrapassaram o estágio de simples presença militar.

Os primeiros a tentar implantar uma colônia, com famílias, foram os franceses, já na segunda metade do século XVIII. A colônia não prosperou, mas o nome ficou. Grande parte dos colonos vinha do vilarejo francês de Saint-Malo, na região da Bretanha. Os de Saint-Malo são chamados «malouins». Daí terem rebatizado as ilhas como «malouines». Os espanhóis gostaram da ideia e logo hispanizaram para «malvinas».

Saint-Malo, Bretagne, France

Saint-Malo, Bretagne, France

Longe de tudo e de todos, impróprio para a agricultura, o território foi abandonado por hispânicos e por franceses. No início do século XIX, as colônias sul-americanas foram, uma após a outra, declarando sua independência da coroa espanhola. O Império Britânico, potência dominante, entendeu que a maneira mais eficaz de guardar uma presença estratégica no Atlântico Sul seria instalar uma colônia e povoar aquelas ilhas desoladas que não interessavam ninguém.

O plano tornou-se realidade a partir de 1833. Podemos, assim, dizer que, salvo alguma incursão de caráter militar, os primeiros e únicos habitantes do território são de origem britânica. Estão lá há 180 anos, o que equivale a cerca de uma dezena de gerações.

Quem é o dono? Será o que reivindica sua posse baseado em legado histórico ou documental? Ou será o povo que aí nasceu, tirou seu sustento da terra, aí se reproduziu e criou filhos, num ciclo que já dura quase dois séculos?

A resposta não é simples nem evidente. Se fosse tão fácil, a tensão que eletriza o Oriente Médio seria bem mais branda. Que dizer de Gibraltar, um enclave inglês em território espanhol? E com Ceuta e Melilla, enclaves espanhois em território marroquino, como é que ficamos? E que dizer então de Büsingen, pequeno município alemão encravado na Suíça, cercado de território helvético por todos os lados?

Não tenho a resposta, muito menos a solução. Mas tendo a levar em conta o princípio do usucapião. Seja quem for o dono da terra abandonada, seja qual for o motivo do abandono, uma ocupação continuada pode transformar o «invasor» em dono. A meu conhecimento, não há legislação internacional regulando esse assunto. É complexo e delicado demais.

No fundo, o que continua valendo é a lei do mais forte.

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Quem se interessar pode consultar o site do Telegraph de Londres sobre o plebiscito. O artigo traz vídeos de interessantes entrevistas com ilhéus. Aqui.

A hora é agora

José Horta Manzano

Regimes autoritários cujo mando está em mãos de um homem só dificilmente sobrevivem ao desaparecimento do guia, do timoneiro, do number one, ou como se queira chamá-lo. Assim foi na China de Mao, na Itália de Mussolini, na Espanha de Franco, no Portugal de Salazar e até no Haiti de Duvalier.

Há exceções que apenas confirmam a regra. São pouquíssimas. Entre elas, a mais conhecida: a Coreia do Norte. Poucas informações passam pela malha finíssima de segredo que envolve o país, mas tudo indica que sai líder, entra líder, e tudo continua como antes.

A partida de Chávez deixou órfãos. Não penso tanto nos eleitores que, fanáticamente ou não, o apoiavam. Para os venezuelanos, até que o futuro não se anuncia tão sombrio. Pior do que estava, é difícil que fique. Alguém terá de dirigir o país. Será aquele que o quase ditador havia ungido, será algum outro, será o chefe da oposição, pouco importa: alguém surgirá. E esse alguém estará a léguas do carisma do predecessor. Como disse François Hollande ao substituir Nicolas Sarkozy, o país terá, por fim, um presidente «normal». Seja ele quem for, o novo dirigente venezuelano será menos exótico.

Os verdadeiros órfãos de Chávez estão fora das fronteiras venezuelanas. Como é que ficará o clã dos Castros em Cuba? E a Nicarágua de Ortega? E a Bolívia, o Equador? E a Argentina, nossa vizinha tão próxima? Todos eles dependiam, em maior ou menor medida, do apoio venezuelano. Um precisava de ajuda econômica, outro carecia de sustentação política, aqueloutro necessitava esteio ideológico. Alguns precisavam de tudo isso. Todos terão de encarar um futuro incerto. Nenhum deles tem chance de sair ganhando.America latina

No fundo, no fundo, o Brasil não é o maior prejudicado pela a falta do comandante. Pelo contrário. Não se pode contrariar o destino, nem refazer a História. Se uma luz miraculosa lograsse iluminar meia dúzia de decididores em Brasília, o que hoje parece uma contrariedade poderia ser transformado em tremenda oportunidade de “remettre l’église au milieu du village”, como dizem os franceses, de repor as coisas nos devidos lugares no âmbito do Mercosul.

Nosso bizarro clube está cada vez mais para agremiação ideológica que para associação de promoção comercial. O pequeno Paraguai, punido por respeitar sua própria Constituição, já foi botado para escanteio faz meses. Um Uruguai espremido entre dois vizinhos gigantescos não tem como fazer ouvir sua voz. A Venezuela, antes de retomar o caminho do crescimento equilibrado, assistirá a inevitáveis querelas intestinas que tendem a enfraquecê-la ainda mais. A Argentina, já afligida por crônicos problemas econômicos, será estrangulada pela falta dos dólares bolivarianos. Nesse cenário de infortúnio, o Brasil tem duas opções: ou continua sua obra estéril de bom samaritano, ou assume de vez as rédeas do clube e impõe-lhe as normas que o farão desempacar.

Pode insistir, como vem fazendo há anos, na tentativa de salvar a economia argentina. Até hoje, tem sido perda de tempo, de esforço e, principalmente, de dinheiro. Um poço sem fundo. Temos passado anos a discutir troca de geladeiras por chuveiros elétricos, enquanto muitos trens passaram. Não lhes fizemos caso, perdemos todos eles e continuamos a discutir geladeiras e chuveiros.

As cabeças pensantes de Brasília ― que ainda as há, tenho certeza ― podem agarrar a oportunidade para desempoeirar o Mercosul e para abrir o subcontinente a novos acordos comerciais e a novos horizontes condizentes com os tempos atuais. Que se ponham de lado as ideologias que nos atravancam e que se pense no crescimento econômico do País. O subcontinente nos acompanhará, é certeza.

Continuo torcendo para que os que decidem em nossas altas esferas virem a página dos ressentimentos pessoais e deem ouvidos ao chamado dos novos tempos. Não tenho muita esperança, mas não custa sonhar. Sai de graça e não faz mal a ninguém.

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Nota: Fala-se no diabo, e logo aparece o rabo. Li um post da Sylvia Colombo, correpondente da Folha de SP em Buenos Aires. Achei que era um bom complemento ao texto acima. Se quiser conferir, o caminho está aqui.

Frustração 2

José Horta Manzano

Em artigo anterior, expus minha opinião sobre a coabitação Chávez-Lula. Disse eu que o quase ditador de nosso país vizinho tinha sido uma verdadeira pedra no sapato de nosso Lula nacional. Na verdade, Chávez barrou o caminho do Lula ao estrelato global.

Onde a maioria viu convivência pacífica ― até conivência ― eu não ressenti senão competição, animosidade e imensa tensão. O ego hiperinflado de cada um deles esbarrou no do outro.Lula e Chavez

Muitos articulistas chegaram à conclusão de que a quase ditadura da Venezuela foi benéfica para o Brasil. Vista pelo ângulo puramente econômico, é indiscutível que ela contribuiu para que alguns grandes empresários brasileiros conseguissem auferir lucros milionários. Já no que tange ao, digamos assim, “plano de carreira” de nosso guia, o regime bolivariano foi catastrófico. Puxou-lhe o tapete exíguo sobre o qual se equilibrava. Roubou-lhe o protagonismo.

Neste começo de século, por numerosas razões, o olhar dos europeus foi mais benevolente para com Chávez do que para com o Lula. O inegável carisma do sorridente caudilho venezuelano transmitia mais calor humano do que a frieza carrancuda de um Lula. Diferentemente do brasileiro, o venezuelano não representava um país pressentido como possível futuro concorrente econômico. Chávez se expunha por inteiro, transmitia uma impressão de sinceridade. Podia-se apreciá-lo ou não, mas o sentimento que ficava era o de que ele tinha uma cara só, coisa rara entre homens políticos.

O desaparecimento prematuro do mandachuva venezuelano só fez contribuir para imortalizá-lo. Como Gardel, Garcia Lorca, Noel Rosa e tantos outros que partiram cedo, ficará na memória como um homem relativamente jovem, vigoroso, cheio de boas intenções, que só não foi mais longe porque a ceifadeira o escolheu para uma colheita temporã.

Não sou o único a enxergar com os mesmos óculos. Artigo do Estadão de 7 de março cita uma entrevista concedida pelo britânico Richard Gott. Aqui vai um fragmento do texto:

Segundo o historiador britânico Richard Gott, especialista em América Latina, autor do livro À Sombra do Libertador – Hugo Chávez Frias e a transformação da Venezuela, em entrevista à BBC Brasil, Chávez “é um dos personagens mais importantes e significativos dos últimos cinquenta anos. Há poucos com seu calibre. No contexto latino-americano, é o mais interessante desde Fidel Castro.” (*)

Quem tiver curiosidade de ler o artigo integralmente, que se dirija diretamente à fonte.

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(*) O grifo é meu.

Frustração

José Horta Manzano

Um pouco por seus próprios méritos, um pouco por ajuda de interesseiros, o Lula conseguiu, em sua quarta tentativa, ser eleito presidente do Brasil.

Um pouco por interesse dos que o tinham ajudado a guindar-se à presidência, um pouco por sua própria vontade, o Lula ansiava ficar na História. História mundial, se possível.Boina

Sob o conselho de assessores mais bem informados e sintonizados com a realidade, seu governo manteve, em suas grandes linhas, a mecânica de funcionamento que já havia destravado o País antes de sua eleição. Não transtornar a gestão da economia foi fundamental. O sol desanuviado que inundou as finanças planetárias até a crise de 2008 ajudou também. E muito.

Nosso presidente, embriagado pelo sucesso que ― para espanto de cidadãos mais antenados ― não hesitou em atribuir exclusivamente a seus méritos pessoais, queria mais. As fronteiras nacionais, embora extensas, tornaram-se estreitas para seu anseio de glória planetária.

Seus assessores ― acertada ou ingenuamente, só o tempo dirá ― sopraram-lhe que o caminho mais direto seria alçar contra os Estados Unidos, potência  dominante, uma bandeira de discordância explícita e sistemática.

O presidente anuiu e acumpliciou-se com os que lhe indicavam a senda exótica. Nossos dirigentes decidiram, então, entregar nossos anéis, de mão beijada, à China. Em sua ingenuidade, convenceram-se de que o país oriental, pobre e atrasado como o nosso, se tornaria nosso melhor aliado. Mais que isso: nossa melhor garantia de conquistar uma cadeira cativa no Conselho de Segurança da ONU, obsessão do Planalto já faz 10 anos. Na garupa, viria, naturalmente, a glória eterna de nosso taumaturgo.

Doce ilusão. Esqueceram-se de Drummond. (Talvez jamais tenham ouvido falar dele.)

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

PedraÉ. A pedra se chamava Hugo Chávez. Com esse, ninguém contava. Até pouco tempo antes, a Venezuela era apenas conhecida como saco de pancada da seleção nacional de futebol. Cinco a zero, seis a zero, oito a zero, era tudo o que esperávamos dos hermanos do norte.

Acontece que Hugo Chávez também tinha acólitos que o aconselhavam. E seus auxiliares lhe haviam soprado a mesma recomendação que recebera nosso presidente: afrontar os Estados Unidos.

O inconveniente é que Chávez foi mais rápido, mais midiático e mais contundente. Terá sido por sua boina caída de lado, por sua camisa vermelha, por seu descaramento, por sua falta de compostura. Terá sido porque seu único produto de exportação era mais estratégico que todos os nossos reunidos. É difícil dizer.

O fato é que o presidente vizinho fez mais barulho que o nosso, projetou-se mais que o nosso, amedrontou mais que o nosso. Em uma palavra: enevoou a imagem que nosso Lula nacional gostaria de ter projetado no planeta.

Nosso guia teve de abandonar a ideia de tornar-se líder da rebeldia sulamericana. Foi obrigado a contentar-se com o papel de coadjuvante. Há de ter sido uma das maiores frustrações de sua carreira.

O destino, que é inexorável, decidiu e obrou. Enquanto nosso Lula era número um inconteste no Brasil e brilhava dentro das fronteiras, quem resplandecia no panorama global era Chávez. Ofuscava nosso presidente. Incomodava.

Agora acabou. Ao bolivariano, restam as homenagens dos irredutíveis, as obséquias nacionais, a comoção do bom povo, o culto póstumo. A nosso guia tupiniquim, resta a amargura do que poderia ter sido mas não foi.

Se nosso Lula guarda ― entre outros ― um desgosto particular, é certamente este: seu caminho ao estrelato foi sombreado por um concorrente com as mesmas ambições. Que fazer? Nada é perfeito.

Agora é tarde. Para ambos.

Emérito

José Horta Manzano

Você acha que alguns meses de serviço militar é muita coisa? Pois não viu nada! Os guardas pretorianos da Roma antiga tinham de cumprir 16 anos. Para os legionários, então, era mais duro ainda: 20 anos. Depois desse tempo todo ― ufa! ― tinham direito a receber um prêmio.Coroa de louro

Há dúvidas sobre o fato de a língua latina ter sido, em algum momento, a língua vernacular, ou seja, aquela que todos utilizavam no dia a dia. Muitos autores acreditam que o latim, como o português culto, estava distante do falar popular. Era reservado para pessoas de grande erudição. O povão falava diferente.

Meu próprio professor de latim dizia que, se Cícero usasse com seus empregados domésticos o mesmo linguajar erudito que utilizava nas altas esferas, não seria entendido. Acredito que ele tinha razão.

Seja como for, a língua escrita era o latim. As leis e os regulamentos tinham de se valer dele para serem difundidos.

A língua culta usava a palavra meritum, com significado próximo de nosso atual mérito. Era a coisa merecida, o prêmio, a recompensa.

Pretorianos e legionários, uma vez cumprido seu longo serviço à pátria, adquiriam direito ao descanso. Era um prêmio a que faziam jus por mérito. Ex-meritum, dizia-se. De ex-meritum, foi um pulinho chegar a emeritum e, de lá, a emérito.

.:oOo:.

Bento XVI, a partir deste 1° de março, conservará seu título de papa. Mas será papa emérito. E expressão feliz e honrosa. Significa que o papa cumpriu seu serviço e aposentou-se por mérito.

Não sei se é a opinião de todos, mas, no que me tange, minha admiração por Joseph Ratzinger tem crescido a cada dia. É uma figura surpreendente.

Tem a bravura de um ariano aliada ao senso do real de um europeu do norte. Renunciou ao cargo, quebrando assim um tabu que já durava meio milênio. E, para coroar o feito, teve o destemor de declarar, em sua derradeira homilia, que, em certos momentos de seu pontificado, «o Senhor parecia dormir». Não é qualquer um que, na sua posição, ousaria proferir essas palavras.

Que tenha uma aposentadoria longa e tranquila! Esse personagem singular ganhou-a por mérito.

.:oOo:.

Caso alguém tenha saltado esse capítulo, o Corriere della Sera traz o relato da última audiência pública de Bento XVI. Se você preferir, o Estadão online também dá a notícia.

Globalização

José Horta Manzano

Com o desvanescimento do comunismo, cuja pedra tombal foi talhada a partir de um flanco do Muro de Berlim desmoronado, nosso antigo Partidão não teve outro jeito senão mudar de nome e de programa.

De suas cinzas, surgiu o Partido Popular Socialista, conhecido como PPS. Como todos os partidos brasileiros, abriga afiliados vindos de horizontes diversos. Essa heterogeneidade não facilita aos brasileiros identificar quem é quem, nem que partido quer o quê.

Essa opacidade não desagrada aos partidos. O que, no fundo, todos querem mesmo é o poder. Ou, pelo menos, um naco dele. Com todas as mordomias que vêm de quebra.

.:oOo:.PPS-Italia

Mas o assunto deste post é outro. Renata Bueno, antiga vereadora da Câmara Municipal de Curitiba (PR), à época filiada ao PPS, acaba de ser eleita para o Parlamento Italiano. Segundo as leis italianas, três são os ungidos para representar os italianos residentes na América do Sul. Renata está entre os três.

A moça tem duas cidadanias. A italiana, naturalmente, mas também a brasileira. O que a faz a primeira cidadã (também) brasileira a conquistar o direito de tomar assento no parlamento daquele país. Nossos melhores votos de sucesso e boa gestão!

Quem quiser ler a notícia em detalhe, que se dirija ao portal do (antigo) Partidão. Aqui.

O fim da escuridão

Você sabia?

José Horta Manzano

Era um meio-dia de janeiro, sol saariano, já faz um bocado de tempo. Eu estava ciceroneando um amigo europeu em sua primeira visita ao Brasil.

De repente, ele se exclama: «― Mas os postes não têm sombra!»(*). Mas é claro, pensei eu, em pleno janeiro, ao meio-dia, não podia ser diferente. O estrangeiro continuava extasiado. Nunca na vida tinha visto aquilo, um objeto exposto ao sol, sem sombra.

Les Neyrolles, França

Les Neyrolles, França

Quem vive entre os dois trópicos, seja no hemisfério norte, seja no sul, está habituado a esse fenômeno. A gente nem repara. Mas pode deixar: para  quem vem de latitudes mais elevadas ― mais afastadas do equador ―é prodígio que não passa despercebido.

Aqueles que ainda trazem alguma lembrança das aulas de Geografia, hão de se lembrar que, devido à inclinação do eixo terrestre, unicamente os habitantes das regiões próximas do equador terrestre podem assistir a esse fenômeno. Quem vive ao norte do Trópico de Câncer ou ao sul do Trópico de Capricórnio nunca verá o sol a pino, bem em cima do cocoruto.

Quanto mais nos afastarmos do equador em direção ao polo ― Polo Norte ou Polo Sul, pouco importa ―, menos alto se avistará o sol do meio-dia. Nas cercanias dos polos, então, a coisa pode ficar preta. No sentido literal. No inverno, durante algumas semanas, o sol não surge no horizonte, é noite o tempo todo. A compensação vem no auge do verão, quando o sol não se põe durante umas boas semanas. É um dia interminável.

Aqui na Europa meridional e central, o fenômeno não chega a esses extremos. Em junho e julho, os dias são bem longos. Se não houver montanhas no horizonte, pode-se admirar o sol até por volta das 22 horas. Ao contrário, no inverno, antes das 17h já é noite negra. Para presenciar o fenômeno de semanas de sol contínuo, precisa viajar para além do Circulo Polar, no extremo norte da Escandinávia.

No entanto, mesmo sem ir tão longe, há lugares curiosos por aqui mesmo. Um exemplo peculiar é um lugarejo chamado Les Neyrolles, um dos mais de 36’000(!) municípios franceses. Fica num vale dos Montes Jura, a uns 50km da fronteira suíça.

O centro da localidade apresenta uma particularidade pouco invejável. De meados de novembro até meados de fevereiro, o sol simplesmente não aparece no céu. Ainda que o tempo esteja claro, céu azul sem nuvens, será impossível contemplar o astro maior. A luminosidade, felizmente, chega, mas o sol permanece abaixo da linha do horizonte.

A razão é uma parede de montanhas plantada bem nas proximidades do burgo, exatamente na direção do sul. No inverno, a mecânica celeste não permite que o sol, fraco e sem força, ultrapasse o cume daqueles montes. O povoado fica muito triste e, principalmente, muito frio. Só vive lá quem não tem outra opção.

Les Neyrolles não é o único lugar habitado a sofrer com essa falta de iluminação direta. Por razões histórico-econômicas ― presença de um rio, passagem de alguma antiga estrada, jazida mineral ―, outros lugarejos se encontram na mesma situação.

Mas alegremo-nos, irmãos! Fevereiro está terminando, os passarinhos já começaram a cantar, e logo o sol voltará a alegrar a natureza de Neyrolles e de outros povoados semelhantes.

Até novembro é garantido. Depois disso, sabe como é…

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(*) Meu amigo se referia à acepção própria de postes: estacas para iluminação pública. Hoje em dia, é verdade, o termo pode prestar a confusão. No Brasil há “postes” sem luz própria.

 

Vamos ajudar a Fifa

José Horta Manzano

Costuma-se dizer que o exemplo vem de cima. Parece-me uma evidência, de baixo é que não poderia vir. Outro dito popular ― adoro ditados e provérbios ― afirma que quem semeia vento colhe tempestade. Em geral, é o que acontece.

Há corrupção no futebol em vários países! Que surpresa! O correspondente do Estadão deu a inacreditável informação, publicada na edição online de 17 de janeiro. Na mesma linha, seguiram o Globo, Terra e outros sites noticiosos.

Todos relatam que a Fifa, um dos organismos mais endinheirados do planeta, precisa de ajuda para coibir a propagação da corrupção. É mais ou menos como se uma raposa, presa num galinheiro, pedisse ajuda às galinhas para escapar.

Ora, pois. Não é segredo para ninguém que a Fifa, além de ser dona de cofres abarrotados, é composta de elementos altamente suspeitos de corrupção. Não falo de ladrões de galinhas, mas de raposas, de criminosos de alto coturno. Daqueles cujo balcão de negócios faria empalidecer de inveja certos congressistas tupiniquins. Dos mais graduados!Corrupção

Pouca gente arriscaria a pele para assaltar a pobre vendinha de seu Zé. Já onde há dinheiro, a tentação é, evidentemente, maior. Para eliminar ― ou, pelo menos, reduzir ― a corrupção no «esporte das multidões», a retidão tem de começar no topo. O exemplo vem de cima. Uma associação (mais que) suspeita de pesados malfeitos não tem moral para exigir de seus afiliados aquilo que não exige de si própria.

Mas que se aquietem todos, nada de pânico! A corrupção, os árbitros vendidos, as trapaças em todos os escalões do futebol ainda têm dias risonhos à frente. Estamos ainda em plena semeadura de vento. As borrascas de verdade só virão mais tarde.

Falando nisso, ainda não consegui entender por que raios o Catar (ô nome esquisito, prefiro Qatar, mais exótico) foi designado para acolher a Copa do Mundo de 2022. Se o Japão e a Coreia, poucos anos atrás, tiveram de unir forças para abrigar uma evento de tal magnitude, como é possível que alguns quilômetros quadrados de deserto possam montar a tenda, receber o circo e garantir o espetáculo? Tudo indica que, nessa história, os palhaços somos nós.

Onde tem fumaça, tem fogo. Tá ruço.

O homem do saco 2

Você sabia?

José Horta Manzano

«Quando não vai por bem, vai por mal». Desde pequenos, ouvimos essa expressão. Há variantes, entre as quais: «Se não for pelas boas, vai com casca e tudo». Parece lugar-comum dizer isso, mas a sabedoria popular é realmente bem mais profunda do que imaginamos.

Há regras e normas que, por preguiça ou negligência, costumamos ignorar. Todos nós sabemos, por exemplo, que é proibido estacionar um veículo em cima de uma faixa de pedestres. Assim mesmo, não se passa um dia sem que flagremos carros parados bem em cima de faixas protegidas. Por que acontece isso? Será por deficiência visual do motorista? Não acredito. É negligência, fruto da quase certeza da impunidade.

Saco oficial

Saco oficial

Por aqui, faz anos que se incita o povo a triar o lixo doméstico. Nossa sociedade produz montanhas de detritos que precisam, de um modo ou de outro, ser tratados. Que se os incinere, enterre, recicle, algum fim tem de ser dado a todo esse descarte. No passado, já cheguei a ver famílias com vários recipientes em casa, cada um etiquetado para um tipo de despejo. Mas não era muita gente a proceder assim, pois a decisão dependia unicamente da boa-vontade e da consciência ecológica de cada um. As autoridades bem que tentaram fazer que os cidadãos entendessem que nem tudo o que se joga fora é lixo inaproveitável. Desde que se faça uma triagem conscienciosa, muita coisa pode ser utilizada para outros fins. Depois que está tudo misturado, a separação fica difícil, se não impossível.

Pelas boas, não foi. Os conselhos não adiantaram muito. Mentalidades não se mudam assim, da noite para o dia, sem mais nem menos, só com um apelo à consciência de cada um. A parte mais sensível do homem, como se sabe, é o bolso. Como não houve outro meio, restou a maneira forte.

Foi o que relatei num artigo postado em 21 de dezembro de 2012, quando lhes relatei sobre a nova taxa que estava para vigorar no município onde vivo. É a «taxa do lixo» também conhecida como «taxa por saco».

Na época, insurgi-me contra a obrigatoriedade do novo regulamento. Cheguei a fazer referência jocosa à história do «homem do saco», aquela figura inventada pelos antigos para domar, pelo terror, crianças desobedientes. Fiz alguns cálculos apressados e concluí que as novas regras poderiam representar uma despesa extra de 550 dólares anuais para uma família, o que me pareceu desproporcional e injusto.

Já vai para dois meses que a nova regra entrou em vigor. Dado que toda a região a adotou ao mesmo tempo, não dá nem mesmo para fazer «turismo do lixo», ou seja, embarcar o saco de entulho no automóvel para jogá-lo num município vizinho.

Todos os habitantes receberam um livreto de instruções da prefeitura municipal, todo bonitinho, com desenhos coloridos, coisa fina. Estão lá descritos todos os objetos que um cidadão costuma descartar. Começa com remédios vencidos, passa por móveis velhos, pilhas gastas, lâmpadas queimadas, papel, metal, plástico, tecidos, e vai até o lixo orgânico.

Ninguém paga de bom grado 2,50 dólares por um saco de plástico para enchê-lo de lixo. Assim mesmo, todos os habitantes fomos obrigados a nos sujeitar ao novo regime. Pois pasmem, caros e fieis leitores! Constato hoje que a mudança de hábitos foi extremamente salutar. No final, ganham todos.

Temos hoje em casa 7 recipientes, um para cada tipo de descarte. O mais volumoso ― eu não imaginava! ―, é o de plástico. É incrível o que se utiliza de matéria plástica, sobretudo para embalagens.

Temos ainda um recipiente para metais, onde vai o que for de ferro, aço ou alumínio. Não serve para pilhas nem para lâmpadas, que essas têm de ser devolvidas à loja que as vendeu.

Uma outra caixa é para papel e papelão. Uma outra ainda fica reservada para PET, aquele polímero usado para água engarrafada. Antes de descartar, tem-se de pisar a garrafa para tirar o ar e atarraxar de novo a tampinha no bocal. Uma quinta caixa serve para objetos de vidro.

O sexto recipiente é especial: serve para o lixo orgânico, ou seja: resto de comida, casca de fruta, escama de peixe, coisas desse tipo. É conveniente que esse recipiente seja pequeno, de modo a caber no congelador. Se não, ai, ai, ai, vai exalar um cheirinho. É conveniente forrá-lo com um saco de material biodegradável, que será aceito como lixo orgânico. Essa matéria, depois de processada, vai se transformar em adubo. Por caminhos tortuosos, voltará a nossos pratos.

Por fim, sobrou… a antiga lixeira, devidamente forrada com seu novo (e caro) saco. Depois da triagem, pouco ou nada sobra para este sétimo recipiente. Talvez algum saco de aspirador, objetos que contenham plástico e metal ao mesmo tempo, fraldas de recém-nascido, coisas assim.

O depósito de lixo municipal tem caçamba para cada tipo de lixo. Cada habitante do município pode levar seus detritos ao depósito e lançá-los no contêiner adequado. Não pagará nada. As crianças adoram jogar garrafas na caçamba apropriada. Não só as crianças. É um dos raros lugares onde se pode quebrar vidro sem sentimento de culpa. Mas atenção, há um requinte: garrafas brancas, verdes ou marrons vão em recipientes diferentes.Poubelles

Para facilitar a vida dos munícipes, evitando que tenham de visitar o depósito municipal a todo momento, pequenos contêineres de cor marrom estão instalados em pontos estratégicos da cidade, disponíveis o tempo todo. São reservados exclusivamente para lixo orgânico, aquele que ninguém quer guardar muito tempo.

Pode parecer complicadíssimo, mas não é. É questão de costume, acreditem. E é sempre reconfortante saber que cada um está fazendo sua parte na preservação do planeta.

Não deu para introduzir a nova prática pelas boas. Foi pelas más.

E a coisa continua!

José Horta Manzano

A finalidade principal deste blogue não é, definitivamente, tratar de assuntos de religião. Especular sobre o resultado da escolha que os cardeais farão no próximo conclave seria como dar palpite em briga alheia.

Mitra 2.Parece que nem todo o mundo pensa como eu. Alguns continuam imaginando que o próximo papa tem de estar sintonizado com a situação declinante do catolicismo no Brasil, que tem de levar em conta nossa situação «emergente», que não pode ignorar o fato de que concentramos o maior número de católicos declarados.

Aos que pensam assim, eu gostaria de dizer que:

1°) Ao assumir seu encargo, o papa ganha automaticamente a nacionalidade vaticana. Não há papa italiano, nem polonês, nem brasileiro, nem tadjique. São todos vaticanos. Ou vaticanenses, como preferirem. Os dicionaristas hesitam.

2°) O chefe supremo de uma Igreja não é escolhido necessariamente em função da comunidade mais numerosa entre as muitas que compõem seu rebanho. Pelo contrário. Se, no Brasil, a alternância e o contraditório tornaram-se noções fora de moda, continuam valendo em outras esferas e em outras partes do mundo.

3°) O papa não é o secretário-geral da Igreja Católica brasileira, mas o chefe supremo do catolicismo planetário. A população (que se diz) católica no Brasil, de 120 milhões de almas, não está muito à frente do número de fiéis americanos, filipinos, mexicanos.

4°) No Brasil, o número de pessoas que se declaram católicas vem decaindo dia após dia. O futuro papa pouco ou nada pode fazer contra essa debandada. Como também tem limitado poder contra a perseguição de cristãos na Índia, no Egito ou no Paquistão. Se os católicos abandonam a Igreja tradicional, não será por razões filosóficas nem teológicas. As causas do sangramento estão fora do alcance do poder papal.

.:oOo:.

Cabe à cúpula da Igreja decidir em que direção quer avançar e, coerentemente, escolher o chefe mais bem sintonizado com o programa.

Podemos até nos considerar «emergentes», visto que latifundiários tupiniquins vendem atualmente muita soja e muito minério de ferro aos chineses. Ainda assim, não chegou a hora de nos atrevermos a pressionar os grandes eleitores de cúpulas religiosas.

Conclave não é reunião de diretoria de ong. Não se está a eleger o síndico de um condomínio.

Segredo é pra quatro paredes

José Horta Manzano

Já faz um tempinho que se fala menos de Julian Assange, aquele que andou bisbilhotando mensagens confidenciais do governo americano e espalhando o resultado da façanha pela internet.

Muita gente aplaudiu. O homem foi, por um breve tempo, elevado à categoria de herói, uma espécie de Robin Hood dos tempos modernos, aquele que rouba segredos dos poderosos para distribui-los aos sem poder. Não é minha visão.

Mala diplomática 1Um bonito samba-canção de Herivelto Martins e Marino Pinto que Dalva de Oliveira gravou em 1947 (*) dizia justamente que «segredo é para quatro paredes». Naqueles tempos recuados, as paredes já tinham ouvidos, mas o som não ia muito além do quarto ao lado. O pior que podia acontecer é que algum maldizente espalhasse a fofoca pela vizinhança. Hoje não é mais assim.

A internet e os novos meios de difusão da informação abriram caminhos que nós, pioneiros, estamos ainda longe de conceber aonde vão levar. Hoje em dia, um sussurro emitido em Singapura será ouvido instantaneamente em Sydney, em Helsinque e até em Ushuaia. Quem joga informações na rede deve estar bem consciente dessa nova realidade. E o senhor Assange certamente estava quando decidiu divulgar dados obtidos por meios fraudulentos.

Na primeira metade dos anos sessenta, foi assinada a Convenção de Viena sobre as Relações Diplomáticas. É aceita por praticamente todos os países. Até Cuba e a Coreia do Norte são membros do clube. Entre outras determinações, a Convenção de Viena reitera e regulamenta o antigo princípio da mala diplomática.

Tradução portuguesa da expressão valise diplomatique, a mala chegou, realmente, a ser uma espécie de baú. Os países signatários da convenção comprometeram-se a deixá-la passar, sem violá-la e sem controlar seu conteúdo. O nome ficou, mas a mala, nos dias atuais, se desmaterializou.

Mensagens diplomáticas transitam agora por internet. A mudança de meio de transporte, no entanto, não invalidou o princípio da inviolabilidade do conteúdo. Violá-lo continua sendo um crime. Difundir por internet o produto do crime, a informação surrupiada, é duplamente repreensível.

Os tempos do faroeste passaram. As leis são feitas para serem obedecidas. A ninguém ― salvo, naturalmente, a alguns figurões brasileiros «especiais» ― é dado desobedecer a elas. Quem o fizer, terá de prestar conta de seus atos.Mala diplomática 2

O senhor Assange cometeu um ato de pirataria. C’est plus bête que méchant, diriam os franceses, está mais para tolice que para malvadeza. Seja como for, o ato foi leviano e deu pano pra mangas. Agora, para coroar, o pirata mostra que sua coragem só funcionava quando se sentia protegido por um biombo, perdão, por uma tela de computador. Desmascarado, exposto e procurado por polícias do mundo inteiro, amoita-se num cômodo acanhado da embaixada londrina de uma pequena República sulamericana.

Na entrevista que teve a fineza de conceder a um correspondente do Estadão, Assange fez questão de se apresentar fantasiado de jogador de futebol. Uniformizado como se fosse dos nossos. É receita certeira para embevecer muita gente. Veja aqui e aqui.

Plugado e conectado, o hóspede da exígua embaixada deve estar a par da acolhida peculiar que o governo brasileiro costuma dispensar a refugiados. Deve saber que, durante a Segunda Guerra, nossas representações diplomáticas estavam instruídas a negar visto de entrada a judeus. Deve saber também que o último grande bandido internacional extraditado pelo Brasil foi Tommaso Buscetta, um mafioso pentito (arrependido), faz 30 anos. Deve ter estudado tim-tim por tim-tim o caso Battisti.

Em resumo, sabe que não poderá ― nunca mais ― atravessar fronteiras e circular livremente. Se tiver a sorte de se safar da embaixada onde se encontra encurralado, imagino que trocará o apertado Equador(2) por um refúgio no espaçoso Brasil. À beira-mar, se possível.Mala diplomática 3

Nesse particular, não tem muito a temer: muito provavelmente será aceito. Talvez de braços não tão abertos, dado que seu crime não foi de sangue, mas, assim mesmo, lo recibiremos de corazón.

Seus feitos combinam com o clima de malandragem e de traição.

(1) Quem quiser recordar o samba-canção, siga por aqui.

(2) Quem quiser assistir a um pouso no aeroporto de Quito, clique aqui.

Mister Vatican

José Horta Manzano

Aprecio muito o estilo irreverente de Elio Gáspari. Mais que isso, estou, a maior parte do tempo, de acordo com o que ele diz. A prova é que mantenho, neste blogue, um link permanente para sua coluna da Folha de SP.

Mas ninguém é perfeito. Em seu artigo deste 13 de fevereiro ― Vem aí um conclave inesquecível Gáspari extrapola. Exprime seu amargor pelo que ressente como eurocentrismo do Vaticano. Reclama que grandes cidades de outros países vêm sendo privilegiadas com nomeação de novos cardeais, em detrimento de megalópoles brasileiras. Especula sobre as chances de este ou aquele país ser premiado com a eventual promoção de um de seus cardeais ao cargo de papa. Não passa longe de propor um sistema de quotas, tantos cardeais para países evoluídos, tantos para os subdesenvolvidos.

MitraNosso caro Elio não é o único a misturar no mesmo tacho uma instituição religiosa com orgulho nacional. Muitos outros jornalistas andam enveredando pelo mesmo caminho. Quem será o próximo? Um africano? A América Latina tem chances? A Europa está sobrerrepresentada no colégio cardinalício! Não se dão conta de que não se está a escolher entre países nem entre raças, mas entre personalidades.

Para mim, essas observações são impertinentes e intempestivas. Não estamos tratando de Copa do Mundo nem de concurso de Miss Universo. Esta não é uma disputa entre países. Não haverá ― ou não deveria haver ― ganhadores nem perdedores. O próximo ocupante do trono de São Pedro não deverá ser louvado ― tampouco estigmatizado ― por sua nacionalidade, pela cor de sua pele, por sua língua materna. Nem por torcer por este ou por aquele time de críquete.

Todos nos apercebemos de que o catolicismo vive uma época difícil. Faz alguns séculos, nos tempos em que a Igreja conjugava o domínio das mentes com o poder temporal, não havia discordância. Nem podia haver, que não era tolerada.

Mas os tempos mudam. Aos poucos, a rachadura que havia entre preceitos religiosos e comportamento civil foi-se alargando até chegar ao fosso que ressentimos hoje. Não há de ser fácil exercer a função de chefe espiritual de um rebanho que, a cada dia, mais se distancia da espiritualidade.

Cada cardeal votará naquele que melhor representar sua visão pessoal da Igreja. Cada um de nós é livre de dar sua opinião ou seu palpite. Mas não me parece que estejamos assistindo a um certame entre países ou entre cores de pele. A personalidade de cada postulante é o que conta.

Seja quem for o eleito, terá um caminho pedregoso pela frente. E será cobrado por suas decisões, isso é certeza.

On ne peut pas plaire à tout le monde, não se pode agradar a gregos e a troianos.

Carnaval na Quaresma

José Horta Manzano

Você sabia?

Para nós, acostumados à tradição brasileira, Carnaval é a festa maior. Suplanta São João, dia das Mães e até o Natal. Mas, como tudo o que é bom ― para quem gosta, naturalmente ―, dura pouco. Na Quarta-feira de Cinzas está tudo acabado. Não sei se ainda se usa fazer uma visita à igreja para «tomar as cinzas», um jeito de pedir perdão pelos excessos cometidos.

Você gostaria de dar uma esticadinha, mas não pode porque já estamos na Quaresma, tempo de penitência. São coisas da vida. Mas… Drummond já havia constatado que o mundo é vasto. Que você se chame Raimundo ou não, e se quiser mesmo, vai sempre encontrar um jeitinho de espichar a folia.

Por razões históricas ou simplesmente por respeito a pactos de não concorrência, nem todas as metrópoles, cidades e vilarejos do vasto mundo festejam o Carnaval ao mesmo tempo. Na Suíça, cada cidade é livre de marcar a data que melhor lhe aprouver.

Quem tiver realmente vontade de encompridar a festa, que tome nota dos carnavais que ainda estão programados para este ano. Pode ir reservando sua passagem. Mas faça rápido, porque já estão para começar.

Vai aqui abaixo um florilégio de carnavais suíços. Não se esqueça de que, em alemão, Carnaval é Fasnacht:Carnaval Basel

Carnaval de Moudon
(Chamado Brandons)
de 28 fevereiro a 3 de março

Carnaval de Payerne
(Chamado Brandons)
de 15 fevereiro a 18 de março

Carnaval de La Chaux de Fonds
dias 13 e 16 de março

Carnaval de Basiléia
Este é considerado o mais importante carnaval suíço
Estende-se por todo o mês de fevereiro, com ponto alto dia 18

Carnaval de Berna
de 14 a 16 de fevereiro

Carnaval de Biel/Bienne
de 13 a 17 de fevereiro

Carnaval de Lucerna
Este é bem esticado. Vai de 18 janeiro a 15 fevereiro

Carnaval de Sainte-Croix
de 15 fevereiro a 17 março

Carnaval de Winterthur
de 14 a 16 de fevereiro

Basler Fasnacht Guggemusiker

Para quem prefere a França ― eta país chique ―, fica aqui a informação sobre o carnaval mais famoso:

Carnaval de Nice
de 15 fevereiro a 6 março

Importante: Seja qual for seu destino, esqueça o fio dental, a manga curta e o umbigo de fora. Nesta época, faz um frio do cão. Agasalhe-se bem!

NOTA: Debaixo de cada nome de cidade, há um link para o site oficial dos respectivos festejos.