O fim da escuridão

Você sabia?

José Horta Manzano

Era um meio-dia de janeiro, sol saariano, já faz um bocado de tempo. Eu estava ciceroneando um amigo europeu em sua primeira visita ao Brasil.

De repente, ele se exclama: «― Mas os postes não têm sombra!»(*). Mas é claro, pensei eu, em pleno janeiro, ao meio-dia, não podia ser diferente. O estrangeiro continuava extasiado. Nunca na vida tinha visto aquilo, um objeto exposto ao sol, sem sombra.

Les Neyrolles, França

Les Neyrolles, França

Quem vive entre os dois trópicos, seja no hemisfério norte, seja no sul, está habituado a esse fenômeno. A gente nem repara. Mas pode deixar: para  quem vem de latitudes mais elevadas ― mais afastadas do equador ―é prodígio que não passa despercebido.

Aqueles que ainda trazem alguma lembrança das aulas de Geografia, hão de se lembrar que, devido à inclinação do eixo terrestre, unicamente os habitantes das regiões próximas do equador terrestre podem assistir a esse fenômeno. Quem vive ao norte do Trópico de Câncer ou ao sul do Trópico de Capricórnio nunca verá o sol a pino, bem em cima do cocoruto.

Quanto mais nos afastarmos do equador em direção ao polo ― Polo Norte ou Polo Sul, pouco importa ―, menos alto se avistará o sol do meio-dia. Nas cercanias dos polos, então, a coisa pode ficar preta. No sentido literal. No inverno, durante algumas semanas, o sol não surge no horizonte, é noite o tempo todo. A compensação vem no auge do verão, quando o sol não se põe durante umas boas semanas. É um dia interminável.

Aqui na Europa meridional e central, o fenômeno não chega a esses extremos. Em junho e julho, os dias são bem longos. Se não houver montanhas no horizonte, pode-se admirar o sol até por volta das 22 horas. Ao contrário, no inverno, antes das 17h já é noite negra. Para presenciar o fenômeno de semanas de sol contínuo, precisa viajar para além do Circulo Polar, no extremo norte da Escandinávia.

No entanto, mesmo sem ir tão longe, há lugares curiosos por aqui mesmo. Um exemplo peculiar é um lugarejo chamado Les Neyrolles, um dos mais de 36’000(!) municípios franceses. Fica num vale dos Montes Jura, a uns 50km da fronteira suíça.

O centro da localidade apresenta uma particularidade pouco invejável. De meados de novembro até meados de fevereiro, o sol simplesmente não aparece no céu. Ainda que o tempo esteja claro, céu azul sem nuvens, será impossível contemplar o astro maior. A luminosidade, felizmente, chega, mas o sol permanece abaixo da linha do horizonte.

A razão é uma parede de montanhas plantada bem nas proximidades do burgo, exatamente na direção do sul. No inverno, a mecânica celeste não permite que o sol, fraco e sem força, ultrapasse o cume daqueles montes. O povoado fica muito triste e, principalmente, muito frio. Só vive lá quem não tem outra opção.

Les Neyrolles não é o único lugar habitado a sofrer com essa falta de iluminação direta. Por razões histórico-econômicas ― presença de um rio, passagem de alguma antiga estrada, jazida mineral ―, outros lugarejos se encontram na mesma situação.

Mas alegremo-nos, irmãos! Fevereiro está terminando, os passarinhos já começaram a cantar, e logo o sol voltará a alegrar a natureza de Neyrolles e de outros povoados semelhantes.

Até novembro é garantido. Depois disso, sabe como é…

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(*) Meu amigo se referia à acepção própria de postes: estacas para iluminação pública. Hoje em dia, é verdade, o termo pode prestar a confusão. No Brasil há “postes” sem luz própria.

 

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