Pixuleco

José Horta Manzano

Pixuleco 1Quando Luiz Inácio da Silva, o Lula, chegou ao posto máximo do Executivo, o sorriso abriu-se-lhe de orelha a orelha. Sentiu-se numa nuvem. Deu-se conta de que, mais ainda do que já estava acostumado, bastava levantar um dedinho pra que todos se curvassem à sua vontade. E a seus caprichos. Era paparicado por grandes e pequenos, por ricos e pobres. Um verdadeiro estado de graça.

Não sei quanto tempo terá durado o inebriamento. Terão sido alguns meses. Passado o encanto inicial, o figurão investiu-se, corpo e alma, na batalha da reeleição. Precisava porque precisava garantir a permanência no trono. Aquilo era bom demais pra ser descurado.

Pixuleco 4Embora a expressão ainda não estivesse na moda, «fez o diabo». Paralelamente à distribuição de bolsas variadas a clientela cativa, cuidou de alimentar oportunistas e aliados de circunstância. Cargos, sinecuras, benesses, mensalões e petrolões estão aí pra provar.

Reeleito, deu-se conta de que o horizonte de número um se fecharia em quatro anos. Passado esse tempo, impossibilitado de competir mais uma vez, teria de ceder o lugar. A perspectiva não há de lhe ter agradado.

Pixuleco 6Que não fosse por isso. Faria o necessário para escolher um sucessor sem graça, sem carisma, sem potencial para fazer-lhe sombra. Arregaçou as mangas e mandou pra escanteio – para usar sua costumeira metáfora futebolística – todos os postulantes que lhe pudessem prejudicar a popularidade. Foi assim que optou por dona Dilma, aquela que as más línguas chamaram de poste.

Nosso líder fez bem questão de colar seu nome ao dela. Deixou bem claro que, por detrás da desconhecida, continuaria ele dando as cartas. Gente simples chegou a convencer-se de que aquela era «a muié do Lula».

Pixuleco 5Durante todo o primeiro mandato do «poste», o Lula chamou para si os holofotes. Não faltou a cerimônias, inaugurações, seminários, convenções e palanques. Reforçou a ideia de que a «muié» fazia tudo o que o «marido» mandava. Ele e ela eram a mesma coisa.

Nenhuma alegria é eterna. Não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe, como diziam os antigos. Um belo dia, já no segundo mandato da «muié do Lula», o desastre ficou evidente: inflação, desemprego, carestia, roubalheiras, corrupção, obras inacabadas, promessas não cumpridas, um pandemônio.

Faz quase um ano que nosso guia vem tentando descolar sua imagem da do «poste». É missão doravante impossível. O demiurgo, a pupila, o partido e até aliados oportunistas caíram no mesmo pote de cola. O mesmo visgo os envolve e os iguala.

Pixuleco 3Se faltasse uma prova, que se observem os pixulecos, aqueles bonecos que vêm se tornando símbolo da bandalheira. A atual presidente, o governador de Minas, o prefeito de São Paulo já foram homenageados com a própria imagem inflada e elevada às alturas.

Pixuleco 2Mas reparem bem: o pixuleco mais importante nunca está muito longe. Para o bem ou para o mal, o Lula continua exercendo seu papel de puxador de cordão.

O futuro chegou e, como havia almejado, nosso guia continua debaixo dos holofotes. Não exatamente como ele tinha sonhado, é verdade.

Mas, que diabo, não se pode ter tudo na vida! Ou não?

O fim da escuridão

Você sabia?

José Horta Manzano

Era um meio-dia de janeiro, sol saariano, já faz um bocado de tempo. Eu estava ciceroneando um amigo europeu em sua primeira visita ao Brasil.

De repente, ele se exclama: «― Mas os postes não têm sombra!»(*). Mas é claro, pensei eu, em pleno janeiro, ao meio-dia, não podia ser diferente. O estrangeiro continuava extasiado. Nunca na vida tinha visto aquilo, um objeto exposto ao sol, sem sombra.

Les Neyrolles, França

Les Neyrolles, França

Quem vive entre os dois trópicos, seja no hemisfério norte, seja no sul, está habituado a esse fenômeno. A gente nem repara. Mas pode deixar: para  quem vem de latitudes mais elevadas ― mais afastadas do equador ―é prodígio que não passa despercebido.

Aqueles que ainda trazem alguma lembrança das aulas de Geografia, hão de se lembrar que, devido à inclinação do eixo terrestre, unicamente os habitantes das regiões próximas do equador terrestre podem assistir a esse fenômeno. Quem vive ao norte do Trópico de Câncer ou ao sul do Trópico de Capricórnio nunca verá o sol a pino, bem em cima do cocoruto.

Quanto mais nos afastarmos do equador em direção ao polo ― Polo Norte ou Polo Sul, pouco importa ―, menos alto se avistará o sol do meio-dia. Nas cercanias dos polos, então, a coisa pode ficar preta. No sentido literal. No inverno, durante algumas semanas, o sol não surge no horizonte, é noite o tempo todo. A compensação vem no auge do verão, quando o sol não se põe durante umas boas semanas. É um dia interminável.

Aqui na Europa meridional e central, o fenômeno não chega a esses extremos. Em junho e julho, os dias são bem longos. Se não houver montanhas no horizonte, pode-se admirar o sol até por volta das 22 horas. Ao contrário, no inverno, antes das 17h já é noite negra. Para presenciar o fenômeno de semanas de sol contínuo, precisa viajar para além do Circulo Polar, no extremo norte da Escandinávia.

No entanto, mesmo sem ir tão longe, há lugares curiosos por aqui mesmo. Um exemplo peculiar é um lugarejo chamado Les Neyrolles, um dos mais de 36’000(!) municípios franceses. Fica num vale dos Montes Jura, a uns 50km da fronteira suíça.

O centro da localidade apresenta uma particularidade pouco invejável. De meados de novembro até meados de fevereiro, o sol simplesmente não aparece no céu. Ainda que o tempo esteja claro, céu azul sem nuvens, será impossível contemplar o astro maior. A luminosidade, felizmente, chega, mas o sol permanece abaixo da linha do horizonte.

A razão é uma parede de montanhas plantada bem nas proximidades do burgo, exatamente na direção do sul. No inverno, a mecânica celeste não permite que o sol, fraco e sem força, ultrapasse o cume daqueles montes. O povoado fica muito triste e, principalmente, muito frio. Só vive lá quem não tem outra opção.

Les Neyrolles não é o único lugar habitado a sofrer com essa falta de iluminação direta. Por razões histórico-econômicas ― presença de um rio, passagem de alguma antiga estrada, jazida mineral ―, outros lugarejos se encontram na mesma situação.

Mas alegremo-nos, irmãos! Fevereiro está terminando, os passarinhos já começaram a cantar, e logo o sol voltará a alegrar a natureza de Neyrolles e de outros povoados semelhantes.

Até novembro é garantido. Depois disso, sabe como é…

.

(*) Meu amigo se referia à acepção própria de postes: estacas para iluminação pública. Hoje em dia, é verdade, o termo pode prestar a confusão. No Brasil há “postes” sem luz própria.