Sem fronteiras

José Horta Manzano

Seja qual for o resultado da final de consolação deste 12 de julho, a Copa das copas já terminou. Chegou a hora do inventário. Quando o resultado é bom, distribuem-se os dividendos. Dado que o exercício foi catastrófico, é hora de apontar os culpados.

Certa de que o Brasil venceria o torneio, dona Dilma tinha-se atribuído, de antemão, a paternidade de glórias futuras. As glórias entraram em greve e não vieram. Todos agora lançam olhar interrogativo à presidente e perguntam: «Ué, a senhora não disse que ia dar tudo certo e que ia ser uma maravilha?». Presidenta que se preza não pode se esquivar alegando que foi traída, que não sabia de nada. Essa desculpa já está muito manjada.

Elefante 2Instruída por algum assessor, ela chegou à conclusão de que, para escapar, o melhor seria jogar a responsabilidade no colo de alguém. A CBF, responsável pela organização do futebol nacional, apareceu como culpada ideal pelo descalabro. Dona Dilma, sob a ameaça de ver suas «arenas» se transformarem em elefantes brancos, aceitou a sugestão. Já se pronunciou mais de uma vez declarando, em tom peremptório, que uma profunda reformulação do futebol brasileiro tem de ser empreendida.

Cabe a pergunta: por que, diabos, essa profunda reformulação não foi posta em prática faz sete anos, desde o momento em que o Brasil foi designado para abrigar a Copa das copas? Por que esperaram que a incúria desembocasse numa acachapante derrota?

Ainda que tardiamente, nossa presidente propõe que se criem escolas de futebol, como na Alemanha, para que nossos craquinhos possam desenvolver sua craquidão e tornar-se cracões sem ter de recorrer a escolas estrangeiras. Assim ― raciocina a mandatária ― jogadores brasileiros ficarão no Brasil, o nível do futebol nacional subirá e os estádios lotarão, afastando o espectro de elefantes albinos plantados em plena Amazônia Legal.

O raciocínio manca das duas pernas. Parte da falsa premissa de que nossos atletas vão jogar na Europa por causa da inexistência de escolas de futebol nacionais. Não é bem assim. Eles vão jogar onde o salário for mais vantajoso. Se os clubes brasileiros pagassem o que pagam os europeus, haveria fila de cracões mundiais à espera de uma chance.

Elefante 1A segunda leviandade é ignorar o custo da empreitada. Já imaginaram? Cria-se nova estatal, a Futebrax (ou SoccBras, de sabor mais americanizado). Em seguida, abrem-se 27 filiais da autarquia, uma em cada estado. Depois vêm as sedes, os campos de treinamento, os professores, os assessores, os olheiros, os fisioterapeutas, os médicos, os roupeiros, os treinadores, os psicólogos, os porteiros, os seguranças, a mulher do café. Sem esquecer os agregados, os nomeados, os apaniguados, os amigos do rei e a indispensável propaganda institucional ― um verdadeiro cabide de empregos. Para salvar elefantinhos (os estádios inúteis), cria-se um elefantão. Contrassenso.

Proponho a dona Dilma um caminho muito mais simples, rápido e barato. Que institua imediatamente a Bolsa-Futebol. Os craquinhos que demonstrarem talento serão contemplados. Passarão dois anos na Alemanha, estudando numa escola de futebol, com todas as despesas pagas. Depois disso, terão de honrar o compromisso de atuar no futebol brasileiro, obrigatoriamente, durante dois anos. A partir daí, estarão liberados para trabalharem onde bem entenderem.

A mim, parece-me uma solução de baixo custo e de fácil realização. Em vez de construir uma estrutura a partir do zero, cara e demorada, aproveita-se a estrutura já existente no estrangeiro. Não vejo desonra nisso.

Para disfarçar o estigma de assistencialismo embutido na palavra bolsa, melhor chamar o programa de Futebol sem fronteiras. Que tal?

Malfeitos estrangeiros

José Horta Manzano

Às vezes a gente imagina que a corrupção é um mal exclusivamente brasileiro, que absurdos só acontecem em terra tupiniquim, que a malandragem é especificidade nacional.

É apenas meia verdade. Se é fato notório que corrupção, absurdos e malandragem correm soltos em nossas terras e fazem parte da paisagem, não é verdade que o Brasil seja o único lugar do planeta onde essas práticas são corriqueiras.Bola futebol

Sabemos todos que a próxima Copa do Mundo terá lugar em nosso País. Sabemos todos que irregularidades ― para usar um termo eufemístico ― têm ocorrido e que muitas mais ocorrerão nos meses que nos separam do evento.

É razoável imaginar que as edições do campeonato mundial de futebol hospedadas pela Alemanha, pela Coreia, pelo Japão não tenham sido manchadas por trambiques. Se os houve, foram menos escancarados.

Já de uns tempos para cá, parece que a Fifa resolveu tirar a máscara. Não bastasse a escolha da África do Sul e do Brasil, a Rússia está escalada para abrigar a edição seguinte.

O imenso país, que se estende do Báltico ao Pacífico, tem espaço, tem população, tem tradição futebolística. Não é por esse lado que se poderá criticar a escolha. O que atrapalha um pouco o quadro é o fato de a Rússia nunca ter conhecido um governo democrático.

Desde os tempos de Ivan, o Terrível, o território tem sido controlado com mão de ferro. De monarquia feroz, passaram a ditadura comunista. Seguiu-se um governo autoritário que ainda subsiste. A candidatura da Rússia não foi, portanto, apresentada por legítimos representantes do povo, mas pela nomenklatura. É verdade, não se usa mais esse termo, mas a realidade não mudou muito por aquelas bandas. As castas dirigentes ainda hão de continuar sobrevoando o populacho por um bom tempo.

Não é absurdo imaginar que algum mimo tenha sido oferecido aos integrantes do comitê que escolheu a Rússia. Dado que não é costume assinar recibo quando se recebem agrados desse jaez, ficaremos sem saber.
Camelo

Mas o que vem depois é bem pior. Os dirigentes da Fifa decidiram que a edição seguinte, a de 2022, vai-se realizar no Catar. O nome se escreve meio esquisito. Quem preferir, que use Qatar ou até Katar, que fica mais exótico.

Poucos já visitaram esse país, mas os meios de informação de que dispomos atualmente nos deixam a par de muita coisa. Não precisa ser nenhum especialista para saber que o Catar não tem tradição futebolística. Uma rápida pesquisa nos ensina que a superfície do país é de 11 mil km2, a metade de Sergipe, o menor estado brasileiro. Da população total de menos de dois milhões de almas, metade está concentrada na capital. As duas maiores cidades abrigam 80% dos habitantes.

Mas há pior ainda. O clima é desértico, sem árvores, sem vegetação. Para completar, a média das temperaturas diurnas em junho/julho, justamente quando a Copa será disputada, é de amenos 41°, 42°. Atenção: falo de média. Um dia mais abafado pode empurrar o mercúrio até os 48° ou 50°. Esses valores são, naturalmente, medidos à sombra. Mas nenhum visitante será obrigado a ficar à sombra.

Trinta e duas equipes participarão. Jogarão 64 partidas. Como é que vão se arranjar com as sedes? Todos os jogos no mesmo estádio? Ou novas arenas serão edificadas no deserto? Cá entre nós, nunca o termo «arena» terá sido tão bem utilizado. Em italiano e em espanhol, significa areia.

Dado que é impossível que esses detalhes tenham escapado aos nobres dirigentes do futebol mundial, alguma razão oculta tem de estar por detrás da designação desse micropaís. O fato é que a Fifa, inflexível, mantém sua escolha.

Como diziam os mineiros de antigamente, «debaixo do angu tem carne».

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Nota: Pode-se entrever um pedacinho da carne escondida debaixo do angu por este artigo. Decididamente, está instituído o programa Bolsa-futebol.