Pandora Papers

José Horta Manzano

Este blogueiro nunca foi dono nem associado de nenhuma empresa fantasma, dessas situadas em paraísos fiscais, que levam o simpático e sugestivo nome de “companhias offshore”. O motivo não é político, nem legal, nem moral; é simplesmente de ordem financeira: nunca possuí quantidade de dinheiro suficiente para justificar essa manobra.

O que acabo de dizer não tem nada de original. Sem precisar consultar nenhum levantamento estatístico, eu diria que 99,9999999% da humanidade está no mesmo caso. Se não abrem esse tipo de empresa, é porque não têm dinheiro pra fazê-lo. Simples, não?

Por seu lado, um bocado de gente tem as burras(*) abarrotadas e está em condições de abrir uma offshorezinha, nem que seja uma pequenina pra começar. Desde que a origem dos haveres seja lícita e os preceitos legais tenham sido cumpridos – impostos em dia, declaração à receita federal em ordem e transferência ao exterior dentro dos conformes – não vejo onde está o problema.

Na China, que alguns ainda acreditam ser um “perigoso país comunista”, é permitido guardar dinheiro em moeda estrangeira; os cidadãos são também autorizados a manter conta no exterior. Se o perigoso comunista chinês pode, por que não poderíamos nós?

Nestes dias em que se tornou público o “escândalo” dos ditos Pandora Papers, o assunto está em todas as bocas. No regime capitalista em que vivemos, a posse de bens, em si, não é condenável. A corrupção e a fraude fiscal, sim. Nenhum cidadão será perseguido por ser mais abastado que outro, desde que não haja infringido a legislação.

Ao esmiuçar a lista de figurões que possuem uma companhia offshore, o jornal argentino Página 12 encontrou uma concentração de titulares originários das Américas. Só da América Latina, aparecem três presidentes em exercício, 11 ex-presidentes, ministros e altos funcionários entre os felizes proprietários dessas empresas de fachada.

A meu ver, são bem mais numerosos. Acredito que todos os ex-presidentes e seus ministros poderiam ser incluídos na lista. Assim como (praticamente todos os) parlamentares atuais e passados. Só que aí já estamos falando de outro departamento: o da fortuna obtida através de peculato & outros trambiques com nosso dinheiro. Estamos falando de roubo, crime que tem de ser tratado conforme as leis penais.

Se a lista contém uma penca de nomes latino-americanos, a razão é a desconfiança para com os rumos que a economia nacional pode tomar. Nossos países são instáveis, e qualquer mudança de governo pode causar uma catástrofe econômica como a que vemos atualmente no Brasil. Em outras partes do mundo, a economia é mais estável e previsível. Para o rico latino-americano, manter dinheiro fora do país aumenta a segurança do investimento.

Dois figurões nacionais integram os Pandora Papers: o ministro da Economia e o presidente do Banco Central. Juram ambos que a fortuna tinha sido obtida antes de assumirem o cargo e que estava declarada à Receita Federal. Se for verdade, o caso é menos grave, mas ainda assim não totalmente límpido. Resta a questão do conflito de interesses.

Dado que ambos têm o poder, deixando escapar um simples vazamento, por exemplo, de balançar a relação dólar x real, há sempre o risco de, em algum momento, terem agido (ou virem a agir) em causa própria. Pra evitar isso, tinham de ter extinto a(s) respectiva(s) offshore(s) ao assumir o cargo. Não o fizeram. Eis por que estão agora no olho do furacão.

Que o distinto leitor não se deixe impressionar. Há crimes de colarinho branco bem mais escabrosos na República. Nosso dinheiro é diariamente roubado, escamoteado, desviado, surrupiado, encurtado, até enfiado nalgum lugar inominável. Desaparece sob denominações inocentes do tipo “jabuti”, “emenda individual”, “verba de contingência”, “orçamento secreto”. O pessoal do andar de cima é muito criativo na hora de encontrar nomes que soam inocentes.

Sorria, você está sendo permanentemente roubado. E não reclame, se não vai ser pior.

(*) Burra, aqui, não é a fêmea do burro. É termo antigo, pouco utilizado atualmente, que indica uma caixa onde se guardavam preciosidades tais como ouro e pedras preciosas. Parece ter sido usado por analogia ao burro (animal), obrigado a transportar aquele peso no lombo.

Desmatamento

com Informações do jornalista Lauro Jardim, O Globo

O Brasil entrou na edição de 2022 do livro de recordes do Guiness como o país com a maior perda de floresta primária tropical da série histórica do Global Forest Watch, instituto especializado na observação da cobertura vegetal do planeta.

Entre 2002 e 2019, a perda foi de 24,5 milhões de hectares, ou seja, 7,1% da floresta primária(*) total que restava no país em 2001.

(*)Floresta primária é a cobertura originária, aquela que nunca foi tocada por atividades humanas. Apresenta alto grau de diversidade biológica, tanto na fauna quanto na flora.

Floresta secundária é aquela que, tendo sido usada durante algum tempo para agricultura ou pastoreio, foi abandonada, permitindo que o mato voltasse a crescer. É sempre melhor que um deserto, mas jamais voltará a contar com a mesma diversidade de vida animal e vegetal da cobertura originária.

Devo ter perdido um capítulo

José Horta Manzano

Faz tempo que cogito sobre as razões que levam nosso impagável capitão ao negacionismo. Louco, a gente sabe que ele é; mas ninguém ainda o viu babando. Portanto, uma réstia de razão deve ter sobrado naquela cachola.

Posso entender a atitude dos que o seguem – comportam-se tipicamente como maria vai com as outras; quem age assim, simplesmente executa o que seu mestre mandar e pronto. Mas tenho dificuldade em captar o real objetivo de Bolsonaro. Afinal, seu mestre é ele mesmo! Ou não seria?

No começo da pandemia, muita gente (que hoje faz de conta que estava cochilando) também imaginou que a covid ia desaparecer tão rápido como chegou. Alguns, famosos, chegaram a dar entrevista afirmando que o Brasil chegaria a 2 mil mortos, não mais. Até aí, dá pra entender.

Acontece que tempo passou, mais tempo passou, muito tempo passou. Chegamos a 600 mil mortos, que não tem como esconder. Milhares e milhares de empresas fecharam. Milhões perderam o emprego. E o capitão continua negando a realidade!

Ainda outro dia, em “discurso” pronunciado na ONU, voltou a bater o pé ao receitar remédios perigosos para a saúde de quem já estiver doente de covid. Como se não bastasse, proclamou aos quatro ventos que ele, pessoalmente, não estava vacinado e que não tinha intenção de espichar o braço.

Portanto, além do medo da agulha, alguma razão há de haver. Só que essa razão me escapa. Se alguém tiver alguma ideia, mande cartas para a redação. Agradeço desde já.

Observação
Na mesma cartinha, se puder, me dê sua versão das razões que levaram (ainda levam?) a empresa de “saúde” Prevent Senior a tomar pacientes de covid como cobaias sem consentimento (nem do doente, nem da família). Por que razão administraram (ainda administram?) medicamentos nocivos à saúde? A intenção era acelerar a agonia dos infelizes que já estavam dando mais despesa que lucro, liberando assim o leito para o próximo coitado? E por que razão omitiram (ainda omitem?) o nome da covid ao estabelecer atestado de óbito?

Não mandem cartas demais, porque, neste país, a jurisprudência ensina que réus podem até ser inocentados por excesso de provas. Já aconteceu.

A história se repete

José Horta Manzano

O general João Baptista de Oliveira Figueiredo presidiu o Brasil durante exatos 6 anos, de 1979 a 1985. Foi o último presidente do período militar. Conhecido por seu falar franco, era um tipo sem papas na língua.

Apesar disso, que fique bem claro, não chegava nem perto da vulgaridade nem do linguajar chulo do capitão que ocupa hoje o mesmo cargo. Comparado a Bolsonaro, Figueiredo era um fidalgo. Não privei da intimidade do presidente, mas tenho certeza de que, na presença de dona Dulce, sua mulher, ele não soltava os palavrões que Bolsonaro solta diante de qualquer um, para um Brasil enojado ouvir.

Naquele começo da década de 1980, o regime já começava a amansar. A censura estava afrouxada. Os exilados retornavam. Não havia mais presos políticos. O sol começava a despontar no horizonte. Pois foi justamente nesse período cheio de promessas que o general sofreu um infarto.

Os brasileiros, habituados a tramas e golpes urdidos nos círculos do poder, ficaram ressabiados. Com um Figueiredo impossibilitado de presidir, como é que ficaria? Quem tomaria seu lugar? E a abertura democrática – continuaria ou não?

Bem ou mal, o presidente se recuperou do ataque. Mas não completamente. Naquela época, a medicina no Brasil estava defasada com relação a países mais adiantados. Ricos e poderosos, quando gravemente enfermos, procuravam ajuda médica no exterior.

Em 1983, dado que os problemas cardíacos do general continuavam incomodando, ele decidiu tratar-se nos EUA. Foi internado numa clínica de Cleveland, onde lhe implantaram duas pontes (nome que muitos aportuguesam para “bypass”, bem mais chique), uma de safena e outra de mamária. Depois da intervenção, com seu linguajar pouco aveludado, Figueiredo chegou a comentar que se sentia “como um peru de Natal, todo costurado”.

De lá pra cá, o Brasil avançou muito nas ciências médicas. Hoje em dia, é raro alguém procurar tratamento no exterior, seja para uma simples vacina, seja para cirurgias complexas. Em geral, os bons hospitais nacionais estão capacitados para atender a todos os casos.

Bem, nem todos os cidadãos seguem as mesmas regras. Há os que estão (ou imaginam estar) por cima da carne seca, como se diz. Quarenta anos depois dos problemas coronários de Figueiredo, a atual primeira-dama deu o ar de sua graça nesse palco iluminado.

Como todos ficaram sabendo, Madame Bolsonaro decidiu estender o braço para ser vacinada contra a covid justamente durante uma breve estada em Nova York. Por que razão fez isso? Por que repudiou a vacina daqui? É difícil saber.

Podia até ter guardado silêncio, que ninguém teria jamais descoberto. Mas o marido, linguarudo, dedurou numa entrevista. O que ele pretendia reafirmar é que ele, pessoalmente, não tinha tomado vacina, não estava tomando e não tinha a menor intenção de tomar. O nome da primeira-dama entrou na conversa assim como Pilatos entrou no Padre-Nosso: era pra ser uma citação dita “en passant”, mas foi o que marcou a fala.

O resumo da novela ficou feio, até para os padrões bolsonáricos. O presidente confessou, sem se dar conta, que não manda nem em casa. Não tem voz ativa. Embora continue remando contra a corrente e batendo o pé na sua estúpida convicção antivax, a mulher se vacinou. Os filhos também estenderam o braço para a picada anticovid. Isso prova que seus conselhos não são seguidos nem pela família, que dirá pelo resto da nação.

Ucranização do Brasil

José Horta Manzano


Bem depois do triste 7 de setembro, fanáticos de extrema-direita continuaram acampados por bom tempo em Brasília. A ideia fixa deles é a de sempre: preparar uma “faxina geral para pôr fim à corja maldita da República”. Na visão dessa gente, a “corja maldita” está integrada pelos magistrados do STF e pelos parlamentares eleitos pelo povo. Em resumo, “malditos” são todos os que não dizem amém aos caprichos do capitão.

Quando acampados, usaram várias vezes a expressão “vamos ucranizar o Brasil!”. Essa gente feroz gosta de utilizar esse mote. Como diria minha avó, ouviram cantar o galo, mas não sabem onde é a missa. Típicos representantes de uma geração que não lê nem aprende, contentam-se com as duas primeiras linhas de um tuíte qualquer, sem buscar saber os comos e os porquês das coisas. Deve ter sido assim que aprenderam a repetir essa bobagem. Ou então, pior ainda, sabem o que aconteceu por lá, mas omitem o fim da novela, pra ficar mais bonito. Isso já é pesada desonestidade intelectual – o que não é espantoso vindo de quem vem.

“Ucranizar o Brasil” é expressão pra lá de inapropriada. Sofrer o mesmo destino da Ucrânia é desgraça que ninguém – repito, ninguém, nem os mais incendiários – desejam para o próprio país. Sem ter a pretensão de escrever um tratado sobre os problemas da Ucrânia, dou abaixo algumas pinceladas, para o caso de alguém estar interessado em conhecer ou recordar.


Após a queda do Muro de Berlim (1989) e a desintegração da União Soviética, que veio pouco depois, a vontade maior dos povos que orbitavam em volta do império russo era livrar-se definitivamente do perigo de, um dia, ser de novo aspirados e tragados pelo temível vizinho.

As repúblicas ex-soviéticas situadas na Ásia não tiveram escolha. Afastar-se da Rússia significava jogar-se nos braços da China ou da Índia, os grandes vizinhos mais próximos. Não era bom negócio. Sem escolha, continuam até hoje na órbita do Grande Irmão.

Já as repúblicas situadas em solo europeu – tanto as que integravam a União Soviética (Ucrânia, Bielorrússia), quanto as que giravam em torno como satélites (Polônia, Hungria e as demais) – tinham um sonho comum: aderir à União Europeia. Naquele momento em que o equilíbio mundial estava se rompendo, a Guerra Fria ainda estava presente em todas as mentes. O objetivo dos povos que haviam vivido sob a pesada influência da Rússia soviética era ser acolhido e amparado por um braço forte que os protegesse do antigo papão.

Um a um, sob o olhar desacorçoado de uma Rússia impotente, os antigos satélites da União Soviética solicitaram o bilhete de entrada na União Europeia. Em 2004, de uma tacada só, 8 antigos afilhados de Moscou foram oficialmente aceitos na UE. Mas Putin já tinha tomado as rédeas do país, com a firme intenção de reerguer o império. Graças a ele, mesmo sem recobrar o status da antiga URSS, o país voltou a figurar entre os grandes. Manteve seu posto de segunda potência nuclear do planeta, atrás dos EUA e muitíssimo à frente da China, com diversas bases militares no estrangeiro.

Com uma Rússia fortalecida, a ilusão de aderir à UE foi ficando distante para a Ucrânia. É enorme a dependência de Kiev com relação a Moscou. Para os russos, a Ucrânia é o berço da civilização deles, uma joia que não se pode entregar a estrangeiros de jeito nenhum. A língua ucraniana é uma variante do russo, o que reforça os laços. Para Putin, seria inadmissível ter às portas de seu país uma Ucrânia integrada na UE, quiçá com tropas da Otan(*) estacionadas na fronteira.

Durante o inverno gelado 2013-2014, o povo ucraniano se rebelou contra a decisão tomada por seu governo, que desistiu de assinar um acordo com a UE e preferiu reforçar os laços com o Grande Irmão russo. As manifestações de protesto se estenderam por 3 meses, ao final dos quais o presidente ucraniano, grande amigo de Moscou, foi destituído.

Mas o povo obteve uma vitória de Pirro – vistosa mas de consequências contrárias ao que desejavam. A partir da destituição do presidente ucraniano, a Rússia apertou o torniquete. Cortou o gás, mercadoria vital em pleno inverno, sem a qual a população perigava morrer de frio. Suspendeu trocas comerciais. O resultado é que a Ucrânia teve de entregar os pontos. Acabou deixando pra lá o objetivo anterior, que era de candidatar-se a uma vaga na União Europeia.

E agora vem a parte que os devotos bolsonaristas não contam. Desconhecem por ignorância? Escondem por malandragem? É difícil saber. O fato é que a consequência principal do levante popular de 2014, que os fanáticos do capitão chamam de “ucranização”, é a guerra civil que se instalou no país e que não acabou até hoje.

As províncias do leste da Ucrânia são culturalmente muito próximas da Rússia, a ponto de a maioria de seus habitantes se considerar mais russa do que ucraniana. Com as províncias do oeste, acontece o inverso. E daí? Daí, o país se dividiu em dois. O governo de Kiev controla a parte oeste do país. Quanto às províncias orientais, é tudo mais ou menos. Ninguém sabe direito quem manda. Na região do Donbass (capital: Donetsk), é pior ainda. Ali grassa uma guerra civil. Tanques passeiam pelas ruas. As estradas têm bloqueios, e não passa quem quer. Virou terra de ninguém: teoricamente ucraniana, mas russa de facto. Com os espíritos exaltados pelo nacionalismo exacerbado, ninguém está disposto a ouvir as razões do adversário, muito menos abandonar a língua materna. Embora se pareçam muito, o russo e o ucraniano são línguas diferentes. Para nós, podem ser muito parecidas, mas para eles a língua materna é o marcador da nacionalidade. Ninguém está disposto a abandonar seu falar em favor da outra variante. Portanto, não há solução à vista.

O único remédio – que é provavelmente o que vai acabar ocorrendo – é a partição oficial do país, com entrega à Rússia da parte onde a população se sente mais russa que ucraniana. Em resumo, o país está para sempre fraturado – com fratura exposta. É realmente isso que os fanáticos do capitão gostariam que ocorresse entre nós? A “ucranização do Brasil”?

(*) A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) é um pacto militar capitaneado pelos EUA, do qual fazem parte quase todos os países europeus.

Casamento para todos – 2

José Horta Manzano

Contei ontem a saga suíça do Casamento para Todos, uma maratona que levou décadas pra ver a linha de chegada. Em reação, uma antiga e fiel leitora fez um comentário e uma pergunta. Eis o que ela escreveu:


Coincidentemente, tenho pensado muito no como a proposta de conservadorismo de costumes de Bolsonaro pôde ser absorvida por boa parte da população, sendo que a liberalidade no comportamento público e na esfera sexual sempre nos caracterizou. Claro que a orientação religiosa pesou muito na aderência ao conceito de defesa da família para criticar os movimentos LGBT, mas acho que isso não explica tudo. Intuo que o ressentimento dos estratos populacionais mais carentes contra a elite endinheirada que se permite todo tipo de prazer desempenhe um papel importante para o nascimento desse fenômeno. O que você acha?


Pensei que o assunto há de interessar a muita gente. Nos tempos de antigamente, homossexual(*) era artigo raro. Pelo menos, era o que nos parecia, pois quase não se via nenhum. A lógica ensina que não surgiram todos com a virada do milênio, como se estivessem escondidos atrás do último mês da folhinha de 1999. Ao terminar o ano, despencaram todos.

Se temos a impressão de que hoje são muito mais numerosos, a responsável é a internet. É ela que tem trazido ao grande público conceitos que antes só eram discutidos em círculos pra lá de restritos. E o resultado tem sido surpreendente – uma boa surpresa, quero dizer. Como um novelo do qual se vai puxando o fio, uma realidade consistente e desconhecida vai surgindo. Desconhecida ou abafada, tanto faz.

De repente, cada um se dá conta de que tem um amigo homossexual, uma vizinha, um irmão, uma colega, um parente, um professor, e por aí vai. O bicho vai se tornando menos feio do que parecia. Quando se observa bem, são gente normal como o resto da humanidade. A imensa maioria não dá escândalo em público. Não conheço nenhum que tenha o costume de devorar criancinhas. Votam no Lula ou no Bolsonaro. Ou se abstêm. Ou gostariam de ver surgir um candidato de terceira via. Uns são ricos; outros, pobres. Uns são letrados; outros, de pouco estudo. Uns são cirurgiães; outros, operários. Há de tudo. No fundo, são gente normal, com as qualidades e os defeitos do resto da população.

Hoje em dia, dizer o que acabo de dizer não leva à cadeia nem ao fogo da Inquisição. Nem causa escândalo. Mas, que os mais novos acreditem: faz ainda pouco tempo, não era assim. Falar em homossexualidade era tabu. Há gente estacionada nos anos 1970, como nosso capitão, que não consegue captar essa mudança na sociedade. Ninguém me fará acreditar que, entre os adeptos de seitas evangélicas, não há nenhum homossexual. Estatisticamente, não é possível.

Os afagos que o presidente dirige aos evangélicos são mal dirigidos. A meu ver, não pode haver oposição entre orientação sexual (que ninguém escolhe) e adesão a uma religião (que cada um é livre de escolher). Não pode haver incompatibilidade entre uma coisa e outra.

Quanto à pergunta da leitora, respondo que não, não me parece que as propostas de um suposto “conservadorismo” bolsonariano tenham sido absorvidas por parte da população. O capitão é homofóbico. (Se é recalque ou desejo reprimido, deixo a conclusão para quem entende da alma humana.) Orientação sexual escapa às normas de toda convenção, justamente por não ser uma.

Ser conservador é ser contrário às modernidades convencionadas pela sociedade: divórcio (o presidente já se casou pelo menos três vezes), adesão a uma religião (nosso capitão já se fez batizar em diferentes “denominações”, além da Igreja). Enfim, ser conservador é levantar-se contra toda mudança em estatutos entre os quais se pode escolher. Orientação sexual não se escolhe, portanto não entra nos moldes apertados de um hipotético “conservadorismo” presidencial.

Será difícil provar, mas acredito que nenhum devoto aderiu ao desbaratino bolsonariano, a menos que o próprio devoto já não fosse desbaratinado antes. Se são agora mais visíveis, a razão é a câmara de eco da internet.

Tampouco acredito que classes menos favorecidas olhem para os abastados como quem aponta um dedo reprovador a “essa gente que escapou de Sodoma ou Gomorra”. Orientação sexual independe de classe social – perpassa toda a sociedade. Com exceção de algum desatinado, como o presidente, ninguém costuma atirar pedras no próprio telhado.

Para fechar, gostaria de dizer duas palavras sobre os desfiles do tipo Gay Pride, nome que foi estranhamente traduzido para “Orgulho Gay”. Orgulho de quê? Na minha opinião, essas manifestações, justamente por reforçar a caricatura que se quer eliminar (ou pelo menos suavizar), são contraproducentes. Levam ao resultado contrário do que se queria obter. Os menos informados acabam acreditando que todo homossexual anda seminu pela rua, com maquiagem pesada no rosto e plumas na cabeça. Rebolando e desmunhecando como vedete de teatro de revista (será que ainda existe teatro de revista?).

Gente com a mente estreita de Bolsonaro só vê isso. Por mim, usaria tempo e esforço pra vulgarizar essa realidade de maneira mais eficiente. Essas ações que sublinham diferenças (como política de cotas, linguagem politicamente correta, desfiles de “orgulho gay”) dão resultado oposto ao que se buscava, pois acabam enfatizando diferenças que se gostaria de aplainar. Por mim, eliminaria todos esses paetês e implementaria uma política de esclarecimento da população. Dá mais futuro.

(*) Meus leitores habituais sabem que não me enrosco nesse falar “politicamente correto”. Escapar da vulgaridade e da escrita rasteira é uma coisa; referir-se a “brasileiros e brasileiras” ou a “os e as homossexuais” é outra, bem diferente, que frisa o ridículo.

Meus leitores, que são todos gente fina, sabem que palavras não têm sexo: têm gênero gramatical. Gente e bicho têm sexo; palavras, não. É sempre bom evitar associar regras gramaticais à sexualidade humana. Não dá certo.

Neste texto – como em todos os outros – a expressão “os homossexuais” inclui eles e elas. Evidentemente.

Aerolula x Aerobolso

José Horta Manzano

Acho que ninguém esqueceu de quando, no longínquo março de 2020, Bolsonaro foi visitar o amigo Trump, que o recebeu em seu resort particular de Mar-a-Lago.

Na volta, 22 integrantes da comitiva, que tinham viajado no Aerolula (que agora deveríamos chamar de Aerobolso ou talvez Aeronaro) receberam resultado positivo no teste anticovid. Vinte e dois!

Passou-se exatamente um ano e meio durante o qual Bolsonaro praticamente não viajou para o exterior. Por um lado, foi por causa da covid. Por outro, é porque ninguém quer ser visto ao lado do capitão. Dado que fogem dele como da peste, ninguém o convida.

Ele então aproveitou a ocasião da abertura dos trabalhos anuais da ONU para dar um pulinho a Nova York. Aproveitou pra vacinar a esposa e pra levar a turma pra espairecer, gastar nosso dinheiro em hotéis estrelados e fazer umas comprinhas com o cartão corporativo. A ONU de Nova York é o único lugar aonde ele pode ir sem ser convidado, ainda que o preço a pagar seja comer pizza na calçada.

Na volta, os infetados por covid já começaram a aparecer. O primeiro foi o próprio ministro da Saúde (da Saúde!), aquele que cometeu o delicado gesto de apontar o dedo maior em riste aos que demonstravam não gostar do chefe dele. Em seguida, começa a cair gente graúda. Saiu hoje a notícia que o presidente da Caixa é a 4a vítima. Se não apareceu mais gente contaminada, é porque muitos – provavelmente todos, com exceção de Bolsonaro – estão vacinados.

Esse avião presidencial está mais pra navio fantasma, embarcação mal-assombrada, carroça com urubu trepado. Será praga do presidente barbudinho que preferiu comprar essa aeronave, deixando pra trás a nacional Embraer?

Não sei, mas, se fosse eu, mandava benzer esse avião. Eu é que não punha os pés lá dentro, nem que me pagassem.

Bolsonaro e a Marselhesa

La Marseillaise cantada pelo autor, Rouget de l’Isle
by Isidore Pils (1815-1875), artista francês

José Horta Manzano

Em 1792, a Revolução Francesa preparava o túmulo do Ancien Régime. Ao mesmo tempo, o Romantismo sacudia as artes. Verdadeiro traço de união entre a revolução e o movimento romântico, Rouget de l’Isle – oficial do exército, poeta e autor dramático – compunha, naquele mesmo ano, o poema que viria mais tarde a ser conhecido como a Marselhesa, o hino nacional da França.

A letra é longuíssima, o que explica quase nunca ser cantada por inteiro. Em execução pública, cantam-se somente as duas primeiras estrofes do hino. Todo o espírito romântico e revolucionário está contido nelas. O povo é conclamado a levantar seus estandartes e se rebelar contra a tirania. Há um chamado às armas e um convite para que os cidadãos formem seus batalhões e marchem para encharcar de sangue impuro os campos da pátria.

É verdade que essa profusão de hemoglobina não combina com os tempos atuais, em que, aposentadas as baionetas, a morte vem do céu, a bordo de drones silenciosos e traiçoeiros. Como essas chacinas costumam acontecer em lugares distantes e miseráveis, ninguém vê, ninguém comenta, ninguém chora. Ao final, descontando os mortos (que, afinal, ninguém é coveiro), nos sentimos de consciência tranquila.

Estou me afastando do que queria dizer. Na Marselhesa, quando o autor chama os conterrâneos para os dias difíceis da luta, não manda que corram ao matadouro sozinhos. Inclui-se entre eles. As palavras Marchons, marchons! – Marchemos, marchemos!”, que aparecem nos versos finais, são um encorajamento que inclui o encorajador. Em outras palavras, aquele que inflama a multidão não manda “vão vocês!”, mas “vamos juntos!”. Parece detalhe, mas faz toda a diferença.

Nunca assisti a nenhuma laive do capitão. A desta semana não foi exceção. Mas li os pontos importantes (se é que os há) na imprensa. Fiquei sabendo que o presidente mandou o povo tomar banho frio e dispensar o elevador. Ah, e desligar o ar condicionado, como se fosse produto de consumo comum, daqueles que todo brasileiro tem em casa. Ele ensinou que esse pouco de exercício revigora, faz bem à saúde e, principalmente, visto que contribui pra atenuar a crise hídrica, é poderoso auxílio para a almejada reeleição.

Não li em lugar nenhum que Bolsonaro tenha dado o exemplo, nem que fosse de mentirinha. Não me parece que tenha dito que ele mesmo já abandonou a água quente no banho e o elevador no palácio. Não me parece ter revelado que, com seu histórico de atleta, está acostumado a tomar banho gelado, hábito que adquiriu nos tempos de recruta. Tampouco lembrou-se de contar ter subido de 20° para 24° a temperatura do ar condicionado de seu escritório.

Sei que o capitão está longe de ser revolucionário e mais distante ainda de ser romântico, mas perdeu excelente oportunidade para (tentar) identificar-se com o populacho. Não devia ter dito “vão vocês!”, mas “vamos juntos!”. O líder, afinal de contas, devia ser ele! Ou não? Não disse nada disso. Que é que se pode fazer? Para ele, povo deve ser uma entidade abstrata, distante, que só serve pra trazer-lhe votos, mais nada.

Quem nasceu pra tostão não chega a milréis, dizia minha avó. Ou se nasce pra liderar, ou se nasce pra ser liderado. O capitão não é líder de nascença. É certamente por isso que bate cabeça o tempo todo. O homem diz, se desdiz, se contradiz, se maldiz, se rediz. Ao fim e ao cabo, não conduz, é conduzido.

Lei? Ora, a lei!

José Horta Manzano

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“Lei? Ora, a lei!”

A frase, um tanto estranha, é atribuída a Getúlio Vargas

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A meu conhecimento, não há gravação do pronunciamento. Gravador era artigo escasso nos tempos do velho ditador. Mas historiadores explicam que, ao pronunciar essas palavras, ele não estava se referindo a sua própria pessoa. Naquele tempo, a petulância do homem político ainda não havia chegado a esse ponto. Dizer isso referindo-se a si mesmo seria um acinte acima dos padrões da época.

Na verdade, a frase refletia uma crítica de Getúlio aos empresários que passavam por cima da lei e descumpriam pontos da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), o arcabouço da legislação trabalhista brasileira, instituído justamente durante sua gestão.

No entanto, até hoje a frase é empregada com outra conotação. É posta, em sentido irônico, na boca de governantes que se creem acima do populacho vil. Estou falando daquele tipo de políticos que ignoram a lei quando ela lhes põe obstáculos para obter benefícios ilícitos. Em resumo, infringem todo regulamento que não lhes agrada. A frase aparece em diálogos assim:

O assessor:
“Senhor governador, não dá pra fazer assim! É a lei!”

O governador:
“A lei? Ora, a lei…”

Todos temos tendência, sejamos francos, a torcer o nariz para uma proibição que nos desagrada. Mas não gostar é uma coisa; reagir é outra. A reação de cada um está ligada à própria personalidade. 1) Há quem aceite embora não goste, e acabe cumprindo a obrigação. 2) Há quem fraude no escurinho, sem alarde, sem dar muito na vista, tipo “atirando a pedra e escondendo a mão”. 3) Há, enfim, os que transgridem abertamente, sob o sol do meio-dia, tipo “eu sou mais eu; vai encarar?”.

O Brasil atravessa um período conturbado, com um presidente que se enquadra na terceira categoria, a dos que delinquem sem vergonha, sem se esconder e sem sequer ruborizar. Para ele, deve ser divertido. Para o país, é uma desgraça, uma noite interminável, um dia que não amanhece.

Pelas notícias que me chegam, a mais recente afronta feita à lei pelo capitão foi ainda em Nova York. Horas depois de ter sido informado de que seu ministro da Saúde, o improvável doutor Queiroga, estava infectado pelo coronavírus, descumpriu a regulamentação aplicável ao que chamamos aqui “caso-contacto” (qualquer um que tenha estado em contacto com um indivíduo comprovadamente positivo).

Bolsonaro havia estado em contacto com o ministro. Portanto, era um “caso-contacto” e tinha de seguir o protocolo de isolamento. Pois nosso capitão não só não se isolou, como desceu à calçada em frente ao hotel e misturou-se ao grupo apoiadores que por ele esperavam. Se eu fosse o prefeito de NY, mandava deter o homem. Para averiguações. Nem que fosse por algumas horas. Já imaginaram o susto? O quê? Incidente diplomático? Não temam. Com o Itamaraty que temos hoje, está tudo dominado. Durmam tranquilos.

Ah, me ocorreu! – 1
Francamente, como esse homem gosta de calçada, já repararam? Primeiro, a pizza. Agora, a aglomeração.

Ah, me ocorreu! – 2
Tenho dificuldade em entender como é possível que cidadãos brasileiros que vivem numa das cidades mais cosmopolitas do planeta e que, aparentemente, não ganharam carona de ônibus com direito a hambúrguer+coca grátis só pra aplaudir o presidente – como é que essa gente consegue apoiar aquele estropício.

Ah, me ocorreu! – 3
A melhor sugestão que o general Mourão, presidente substituto, recebeu durante sua interinidade no cargo foi a de editar um decreto proibindo a entrada no país de todo cidadão não-vacinado. Ele ficou de pensar. Mas não deu tempo, que o outro voltou. Fica pr’a próxima. Um dia, ele vai, pede asilo nalgum paraíso fiscal e não volta mais.

Bolsonaro na ONU

José Horta Manzano

Assim como eu, o distinto leitor certamente se dá conta da importância da imagem que um país dá ao mundo externo. Os estrangeiros não estão necessariamente a par de tudo o que acontece no Brasil. É capaz de não saberem da crise hídrica, da suspensão da vacina para adolescentes, da situação de miséria crônica em que se debate grande parte do povo, da violência – verbal e física – que se tornou a forma preferencial de expressão do brasileiro.

Também não imaginam que o Lula não era exatamente o “pai dos pobres”, o sujeito bonzinho e injustiçado, que só trabalhou em favor dos desvalidos, e que acabou sendo castigado por ter sido bom. Não sei se já se deram conta de que o governo Bolsonaro é tão recheado de corruptos quanto todos os que antecederam – talvez até pior. Se ainda não acordaram, logo toca o despertador.

Seja como for, a melhor política é não deteriorar a imagem que nosso país projeta. Se nada se pode fazer para melhorar, que pelo menos não se trabalhe para piorar. A começar pelo primeiro escalão da República.

Embora não tenha a visibilidade de uma Copa do Mundo de Futebol, a abertura anual dos trabalhos da ONU é acompanhada ao redor do globo. Bolsonaro não era obrigado a comparecer. Em várias ocasiões, o Brasil já chegou a ser representado por um um ministro, não pelo presidente. Podia também ter optado por mandar um vídeo gravado. Preferiu ir pessoalmente. Nada contra. Só que…

Só que, sacumé, Bolsonaro é Bolsonaro. Ele é sempre igual a si mesmo, nunca muda. De espírito arruaceiro, adora transgredir. Se não pode pescar, ele pesca. Se não pode andar sem máscara, ele vai de cara nua. Se tem de se vacinar, ele não se vacina. E faz isso com muito orgulho. Sua egolatria lhe ocupa todo o espaço mental, sem deixar lugar para outro pensamento.

É por isso que não se dá conta de que não foi a Nova York a turismo, mas como representante de mais de 200 milhões de conterrâneos seus, todos seres humanos como ele. Seus atos e gestos transbordarão da esfera pessoal para serem interpretados como a expressão da vontade dos brasileiros. É o Brasil inteiro que, tendo recusado a vacina, foi barrado no restaurante e obrigado a comer pizza na rua, de pé, sem prato, plantado numa calçada sinistra, com a mão nua segurando o petisco gorduroso.

Agora já é terça-feira, e Bolsonaro acaba de discursar. Assisti ao vivo. Foi uma fala sem importância, saudada por aplausos protocolares vindos de uma plateia mais interessada no discurso seguinte – o de Joe Biden. O pronunciamento do capitão foi o que se esperava: pra inglês ver. Segundo ele, nossa cobertura vegetal está intacta desde o descobrimento. Todos os habitantes do território vivem num país de conto de fadas, felizes, dinheiro no bolso e feijão no prato. E, com a graça de Deus, protegidos contra o perigoso comunismo que bate às portas. De que anda reclamando esse povo venturoso?

Todos sabem que o que o capitão diz não se escreve. Sua palavra vale tanto quanto uma nota falsa. Portanto, o que ele disse, tanto faz como tanto fez. Não vai mudar a visão que o mundo tem de nosso país e de nosso governante. Infelizmente.

Quem tem medo de Bolsonaro?

Avaliação do governo Bolsonaro
Pesquisa Datafolha publicada em 17 set° 2021

José Horta Manzano

A última pesquisa Datafolha sobre as perspectivas da eleição presidencial do ano que vem traz muitos ensinamentos. Novidades, quase nenhuma – se há, não há nada abracadabrante.

A tendência verificada nas análises publicadas nos últimos meses por todos os institutos sérios é sempre a mesma. O viés de baixa de Bolsonaro é relativamente lento, mas parece inexorável. Já o Lula continua imperial, flutuando sozinho por cima de uma massa de candidatos indefinidos e não-declarados.

No ano passado, muita gente contava com a memória ultracurta do brasileiro. Acreditava-se que, jugulada a pandemia, todos esqueceriam rápido a montanha de mortos e Bolsonaro recobraria popularidade. Não é o que se verifica.

A pademia, jugulada, não está; mas que arrefeceu, arrefeceu. A média de mortos caiu a menos da metade do que foi nos piores momentos. Até a frequência com que se ouvia o epíteto de “genocida”, dirigido ao capitão, diminuiu. Mas, infelizmente para ele, esse esperado esquecimento não se reflete nas pesquisas.

É sinal de que o problema do presidente é mais profundo que isso. A pandemia só fez agravar a situação dele. Até na comunidade neopentecostal, o apoio tem diminuído. Nem perspectiva de nomeação de um juiz “terrivelmente evangélico” para o STF tem ajudado. Os PMs, no feriado do 7 de Setembro, não deram nem um passo, nem um pio.

Com a perspectiva de autogolpe praticamente descartada, evangélicos pulando do barco e PMs sem ânimo de subir a bordo, não se vê, neste momento, o que é que poderia impulsionar a reeleição do capitão.

E o Lula que se cuide. Basta surgir um candidato de terceira via razoavelmente forte pra ele também ficar pra trás. Embora não tão astronômica quanto a de Bolsonaro, a taxa de rejeição do ex-metalúrgico também é elevada.

Os próximos meses dirão. Mas o caminho não está fácil nem para um nem para o outro. Para o capitão, todo esforço parece furo n’água. Quanto ao Lula, ainda vai precisar comer muita buchada de bode pra se fortalecer.

Comentário de um leitor da Folha, ao pé do resultado da última pesquisa Datafolha: “Espero que o Brasil tenha aprendido as consequências de eleger um meme.”

“Estados oposicionistas”

José Horta Manzano

Ô sujeito estranho, esse nosso ministro dos Dinheiros Públicos! É Guedes, um falastrão de marca maior. Preconceituoso até a raiz dos cabelos, já falou mal de empregada doméstica em avião, de filho de porteiro em curso superior. Já insultou a primeira-dama da França. Já prometeu muito, mas entregou pouco.

Faz quase três anos que é desmentido, contradito, menosprezado pelo capitão. Não conseguiu emplacar nenhuma das reformas a que se propunha – quando não é o Congresso, é o próprio presidente que lhe puxa o tapete. E ele aceita bovinamente.

Com um histórico desses – e principalmente tendo a conta bancária abastada, como diz ter – fica difícil entender por que é que ainda insiste em continuar ao lado do capitão. Talvez sofra algum distúrbio de personalidade, um evidente prazer de sofrer humilhação pública, dia sim, outro também. Será que isso existe em psicologia ou ele é um caso sui generis?

A Folha de SP lembra que, 4 meses atrás, Guedes mostrou-se animado com a perspectiva da campanha de reeleição do chefe.

Ontem, doutor Guedes virou a casaca. Sem corar, declarou que a reeleição foi “o maior erro político que já aconteceu no país”. Ah, se o capitão souber da declaração…

E não ficou por aí, que ontem foi um dia premiado. Pela enésima vez, nosso doutor ministro se queixou em público, como é costume seu. Com certa dose de ironia, disse achar curioso que, no governo Bolsonaro, caem precatórios que vão para dois ou três “estados oposicionistas”.

O Globo, 16 set° 2021

As aspas são minhas. Não sei o que significa um “estado oposicionista”. Na história do Brasil e do mundo, tenho visto províncias rebeldes, territórios conquistados, regiões conflagradas. “Estado oposicionista” é noção que me escapa.

No Brasil, estado é uma unidade da Federação. Não é de sua natureza ser ou deixar de ser “oposicionista”. Num mesmo estado, o governador pode apoiar Bolsonaro, enquanto a maioria dos prefeitos se opõem a ele. Ao mesmo tempo, as pesquisas podem indicar que o povo daquele estado está indeciso, dividido ao meio. Como é que fica, então, essa história? Esse será um “estado oposicionista” ou não? Melhor perguntar a doutor Guedes.

Romário, antigo jogador da Seleção, disse um dia que Pelé, de boca fechada, era um poeta. O mesmo se pode dizer de nosso ministro falastrão. Se ele se aposentasse, entregasse o chapéu, viajasse pra bem longe e se instalasse, por exemplo, nas cercanias de Mar-a-Lago (perto de Trump), pouca gente tiraria o lenço pra enxugar uma lágrima.

De que cô qué?

José Horta Manzano

Na Suíça, vigora um sistema original de democracia. Dois métodos correm paralelos, ambos destinados à manifestação da vontade popular.

Do lado tradicional do sistema, estão os representantes do povo, deputados e senadores, eleitos pelo voto universal e secreto, com mandato fixo – como em qualquer democracia que se preze.

Por outro lado, menos comum em outras partes do mundo, o método plebiscitário é muito utilizado. Embora a possibilidade também seja prevista pela Constituição de outros países (inclusive a nossa), é raramente utilizada. Não é o caso da Suíça, país onde qualquer cidadão (ou grupo de cidadãos) pode lançar uma coleta de assinaturas, conhecida como “iniciativa popular”. O objetivo é reunir um determinado número de cidadãos que, com sua assinatura, confirmam estar de acordo com a matéria proposta.

Para ser válida, a iniciativa não pode entrar em colisão com a Constituição. Portanto, antes de lançá-la, seu texto será submetido à autoridade competente para análise. Uma vez considerada constitucional, é liberada. A coleta de assinaturas pode ser iniciada e deverá estar terminada dentro do prazo estipulado. Há diferentes modalidades de iniciativa, cada qual com um determinado número de assinaturas necessárias.

Uma vez obtido o número mínimo de assinaturas dentro do prazo, as pilhas de documentos são entregues ao departamento encarregado de validá-las. Cada assinatura será conferida. Se as regras tiverem sido respeitadas e o número de assinaturas válidas tiver sido alcançado dentro do prazo fixado, o governo marcará a data do voto popular.

É um dos aspectos que integram a chamada democracia direta. Em média, o povo suíço vota quatro vezes por ano. O voto não é obrigatório. Cada votação pode reunir duas, três ou mais iniciativas. O eleitor dará sua opinião sobre cada uma delas. Tanto podem ser de âmbito municipal, cantonal ou federal.

Assim mesmo, apesar de já ter esses amplos meios de exprimir sua vontade, a população ainda conta com a possibilidade de manifestar seus desejos (ou, mais frequentemente, suas contrariedades) por meio de passeatas e manifestações ao ar livre. (“Carreatas” ainda não estão na moda aqui. E muito menos “motociclatas”.)

Passeatas, há muitas. Nessas horas, o importante não costuma ser a vestimenta dos manifestantes, mas os slogans escandidos e, principalmente, os cartazes brandidos. O que vai aparecer na mídia e na tevê são justamente os cartazes, a palavra escrita. Vê-se gente vestida de preto, branco, azul, vermelho, amarelo, cor-de-rosa, e quantas mais cores houver. Não há código vestimentar. A mensagem não está na cor da roupa, mas na palavra gritada ou escrita.

É estranho que, nas manifestações de rua do Brasil deste começo de século, a vestimenta fale mais alto que as palavras. Às vezes, penso que essa bizarrice se deve à falta de argumentos – quem não tem o que dizer, veste-se de determinado modo como marca de identificação tribal. Mas posso estar enganado.

Nos tempos do lulopetismo, vinham todos de vermelho. Até o Lula e os acólitos. Vermelho, por acaso, é a cor preferida deste blogueiro, mas isso não vem ao caso; já gostava dessa cor antes que o PT existisse. Agora, desde que o capitão assinou contrato de locação no Palácio do Planalto, a cor dos desfilantes mudou: vêm todos de verde-amarelo.

Quando de grandes movimentos do passado, como as Diretas Já e as Marchas de 1964, o povo não vinha fantasiado. As convicções, boas ou más, estavam dentro das gentes e vinham expressas em cartazes. Por que mudou?

Lula e Bolsonaro são do tipo cabeça-dura. Não lhes viria à ideia sugerir a seus devotos que variassem a cor da indumentária. Então, aproveito a deixa para dizer o que penso. Acho que tanto um lado quanto o outro ganhariam se maneirassem no uso do vermelho, por um lado, e do verde-amarelo, por outro. Do jeito que está, fica caricato. Passa a ideia de rebanho domesticado e amestrado, o que não pega bem pra ninguém.

Dado que as manifestações de rua são marcadas com antecedência e amplamente divulgadas, todos sabem se o desfile é a favor deste ou contra aquele. Por que as cores, então? Fosse eu, daria aos apoiadores instruções para que cada um viesse vestido da cor que mais lhe agrada. Não está escrito em lugar nenhum que esquerdista tem de se vestir obrigatoriamente de vermelho, nem que um neofascista deve usar roupa amarela.

Está ficando ridículo para ambos os lados. Um desfile com um bando de vermelhinhos lembra mais um reclamo de outras eras, de um tempo em que crianças trabalhavam em fábricas e mulheres não tinham o direito de voto. Um desfile com um bando de verde-amarelinhos lembra mais um circo, em que alguns parecem proteger-se enrolados numa bandeira brasileira, como se tivessem medo de sermos invadidos pela Bolívia.

Vamos! Coragem, minha gente! O importante são as ideias e, principalmente, as palavras. A vestimenta não voga.

(*) De que cô qué?
Devo uma explicação sobre o título deste artigo. Este blogueiro, que teve avó mineira de Mariana, se lembra de piadas que deviam parecer muito engraçadas no século 19. Hoje, não tenho certeza de que fariam tanto sucesso. A bizarrice da cega preferência que os manifestantes de hoje demonstram por esta ou aquela cor me lembrou uma delas.

Na empoeirada cidadezinha do interior, um cliente entra na loja de armarinhos e pede um corte de tecido.

Balconista:
– De que cô qué?

Cliente:
– De caqué cô.

Se afinou

by Jacques Azam (1961-), desenhista francês

José Horta Manzano

A toda ação, corresponde uma reação oposta e de igual intensidade. Bem simplificada, essa é a terceira lei de Newton, ou “princípio da ação e reação”. Não funciona só na concretude, vale também para fatos da vida de todos os dias, concretos ou abstratos.

Por questões de diferença de fuso horário, este blogueiro já havia encerrado o expediente quando chegou o grande susto do dia. Só fiquei sabendo hoje de manhã. Com que então, o capitão recuou, é? No meu tempo a gente dizia “se afinou”, que era um misto de falar fino e sair de fininho. Sair de fininho é hábito do capitão; todo o mundo sabe como ele costuma escapar a situações incômodas. Já falar fino – em ambos os sentidos da palavra – é novidade. O que prova que a gente nunca conhece perfeitamente uma pessoa. Tem sempre o pulo do gato, que vem de repente e surpreende.

O homem mandou um avião presidencial (custeado por nós) para exumar Michel Temer e trazê-lo a Brasília. O velho ex-presidente aceitou o convite e foi aconselhar o chucro que nos governa. Mas essa história está contada pela metade. Todos sabem que a capacidade mental do capitão é precária. Sozinho, ele não tem condições de entender que a coisa ficou preta pro lado dele depois do que ele aprontou dia 7.

Portanto, alguém (ou alguéns) de seu entourage próximo deve(m) ter-lhe dado conselho de pedir conselho a quem entende do riscado. Bolsonaro agiu como agem os que estão se afogando e imploram por uma boia: agarram-se a ela.

Quem terá sugerido ao capitão aconselhar-se junto a doutor Temer? É difícil saber. Falando em entourage, por onde andam mesmo os bolsonarinhos? Parecem quietinhos. Minha mãe dizia que criança, quando está muito quieta, é sinal de que está fazendo alguma arte.

Pra quem já estava animado com a subida de tom do presidente, na crença de que ele estava a um passo do impeachment (ou de ser internado, de camisa de força, num hospital psiquiátrico), é péssima notícia. Com a afinada, doutor Bolsonaro ganha um respiro. Ainda não é amanhã cedo que o camburão estará esperando por ele à porta do palácio no fim do expediente.

Mas basta ter um pouquinho de paciência. O homem é incorrigível. Como bem lembrou Bernardo Mello Franco em seu artigo de hoje n’O Globo, logo nos primeiros dias do governo Bolsonaro, seu adversário de segundo turno, Fernando Haddad, tinha profetizado: “Antes de defender uma bozoideia, espere 24h. Poupa o esforço de defender o recuo”.

Quer o capitão renegue amanhã o recuo, quer não renegue, há duas excelentes notícias. A primeira – muito importante – é saber que tem gente que, embora muito próxima a ele, consegue botar a cabeça pra fora da bolha, ler os jornais, sentir a temperatura, apreciar se o momento é adequado para isto ou aquilo e, se houver perigo, dar o alerta. Neste caso, o alerta deve ter tocado fortíssimo, tipo fff. É reconfortante saber que, embora goste de manter pose de “imorrível, imbroxável e incomível”, o personagem não é tão blindado quanto quer parecer.

A segunda boa notícia – igualmente importante – é saber que, entre os integrantes da cúpula militar do Brasil, os apoios com que o capitão pode contar estão longe de ser suficientes para dar-lhe sustentação na sonhada aventura de tomar o poder pela força. Ingênuo, ele acaba de dar a prova final dessa realidade.

Portanto, ânimo, minha gente! A cada recuo do presidente, é o Brasil que ganha um ponto. Ganha o Brasil e ganhamos nós todos.

Deu chabu

by Lezio Júnior, desenhista paulista

José Horta Manzano

Nesta quarta-feira 8 de setembro, acordei ansioso. Estava curioso pra ver com que olhos a imprensa europeia tinha observado as passeatas que Bolsonaro convocou em louvor de si mesmo. Logo de manhã, ao ligar o rádio, um calafrio me fez imaginar que pudessem estar em edição especial anunciando com voz grave um golpe de Estado no Brasil.

Não estavam em edição especial. Sintonizei as rádios suíça e francesa. Fui para a internet. Dei uma olhada nos títulos da BBC. Perpassei as manchetes do Corriere della Sera e as chamadas do Figaro. Olhei ainda duas ou três mídias menos importantes. Nada. Na respectiva primeira página, cada um estava preocupado com as próprias mazelas.

A BBC, sempre atenta ao que ocorre no exterior, dá prioridade a notícias do novo governo do Afeganistão. O Corriere della Sera está preocupado com intrigas da política interna italiana e com o passaporte sanitário – que lá se chama “green pass”. Na França, discute-se também o “pass sanitário”, mas o grande assunto do dia é a abertura do alentado processo que julga 20 acusados de participar do ataque terrorista desferido na boate Bataclan em 2015, assalto que deixou 130 mortos, centenas de feridos e um país traumatizado. O suíço Le Temps comenta a nova regra que limita a velocidade da circulação a 30 km/h, que vai vigorar em todo o perímetro urbano da cidade de Lausanne, de 22h a 7h da manhã. Uma lei aprovada no México, para destravar o aborto voluntário, era outro tema.

Enfim, cada um com suas preocupações. De Brasil, muito pouco, quase nada. Alguma coisinha aparecia lá no fundo, bem abaixo dos títulos, em clara sinalização do pouco interesse que o assunto desperta nos leitores daqui. Por que será? Acredito que se deva atribuir ao cansaço de ouvir sempre os mesmos acontecimentos, que, de tão repetidos e previsíveis, já não encantam nem surpreendem.

Este é um blogue de respeito. Portanto, não tem cabimento ficar repetindo palavrório pesado que a gente usava na adolescência. (É verdade que presidente da República hoje fala pior que adolescente, mas essa já é outra história.) O que eu queria dizer é que, com seu chove e não molha, Bolsonaro me lembra a frase que a gente soltava quando alguém ameaçava, ameaçava, sem nunca se decidir a partir para a ação. Em termos próprios “para senhôras”, era algo como: “ou resolve logo ou sai de cima”. Se é que me entendem.

A jornada com que o presidente nos brindou ontem deixou um gostinho de chabu. Tudo era pra ser grandioso e definitivo, mas não passou do nível habitual de discurso de bêbado de botequim: rasteiro, com ameaças, insultos e palavrões, mas vazio de efeito. Nem a PM, que parecia amaciada e pronta pra pegar carona na carroça do chefe fazendo “arminha” com as mãos, deu as caras. Como o presidente deve ter se sentido desamparado…

Dos salvados do incêndio, sobram dois restos – ambos desagradáveis. O primeiro, desagradável para o presidente, é que ele queimou todos os cartuchos. Sua “revolução”, anunciada com antecedência e data marcada, munida de ordem de marcha e financiada com dinheiro (público) às pencas, simplesmente não deu certo. O dia terminou exatamente como tinha começado, com a única diferença que o capitão, ainda mais fraco que antes, arrumou mais algumas dúzias de inimigos e atiçou o Congresso para apressar o lançamento desse processo de impeachment antes que seja tarde. Bolsonaro está desarmado e desacreditado como um leão sem dentes. Tudo o que vier pela frente não passará de mais do mesmo. Seus truques, conhecidos de todos, já não assustam ninguém.

O outro salvado do incêndio é desagradável para a população brasileira, que ficou privada do 7 de Setembro, seu feriado maior. Isso não se faz. Em vez de visita de convidado de honra estrangeiro na tribuna de honra, damas de longo e cavalheiros empertigados, desfile de gente fina nos saguões do Planalto, o que tivemos? Uma tribuna mequetrefe, com crianças fantasiadas de bandeira do Brasil. Após passagem rápida e protocolar pela cerimônia brasiliense, o capitão correu pra participar de uma festa mambembe, que não deixou nada a dever ao animado estilo dos trios elétricos lulopetistas. Participantes havia às pencas, só que, desta vez, os ônibus estacionaram longe; o sanduíche de mortadela e a cloroquina(*) foram distribuídos dentro dos veículos, longe das câmeras, que é pra não dar na vista.

Tem nada não. No próximo 7 de Setembro, teremos nossa festa tranquila, risonha e descontraída. E, oxalá, sem Bolsonaro.

(*) Foi o próprio capitão a afirmar que o povo “de esquerda” toma tubaína, enquanto o “de direita” engole cloroquina.

Todos iguais

Carreata carnavalesca de Bolsonaro
na imaginação de Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

 

José Horta Manzano

Dizem que, fora um detalhe aqui, outro ali, somos todos iguais. Pode ser, só que parece que uns são mais iguais que outros. Nós, os do andar térreo, podemos até ter nossas opiniões, achar isto ou aquilo, pensar assim ou assado. Mas, por recato ou por estar conscientes de nossa pouca importância, guardamos nossas opiniões para um restrito círculo de amigos. Ou para um diário íntimo. Falando nisso, será que alguém ainda escreve diário?

Já os do andar de cima – ou os que acreditam estar lá instalados para sempre – agem diferente. Não guardam opiniões no bolso nem são discretos. Ao contrário: assim que enxergam uma plateiazinha, já vão soltando o verbo.

E olhe que não é fenômeno exclusivamente brasileiro. Viagens ao exterior oferecem momentos especialmente propícios a esse tipo de escorregão. Me lembro do caso de um primeiro-ministro francês que pretendia candidatar-se à Presidência. Na volta de uma longa viagem, estava dentro do avião,  rodeado por uma plateia de jornalistas. Conversa vai, conversa vem, animou-se e acabou dando um escorregão: referiu-se ao então presidente da República Francesa com palavras muito desrespeitosas. Foi o que bastou. Perdeu a eleição. Analistas políticos concordam que a derrota foi consequência daquele pronunciamento.

Entre outros, até papa Francisco já andou se excedendo durante um voo transcontinental, algum tempo atrás, quando disse coisas de que deve ter se arrependido.

Só que há diferença entre referir-se a alguém com pouco respeito e cometer atentado contra a inteligência do eleitor. Nossos inquilinos de cima são mestres na arte de mostrar prepotência. Deixam transparecer que realmente se julgam ungidos por Júpiter. Acreditam ser inalcançáveis, superiores aos demais. Têm certeza de estar por cima da carne seca, como o povo esperto costuma dizer.

Lembro aqui três falas que me impressionaram particularmente. (Quase) nada mais impressiona na política nacional, mas certas coisas são tão enormes, tão exóticas, tão esdrúxulas, que sobressaem.

Lula
Em 18 set° 2010, num comício em que dava uma força à candidatura da doutora Dilma, Lula não hesitou:
“Nós somos a opinião pública”

Bolsonaro
Em 20 abr 2020, em cima da caçamba de uma caminhonete estacionada à frente de um quartel do Exército, Bolsonaro ousou:
“Eu sou a Constituição”

Lorenzoni
Faz 3 dias, em 3 set° 2021, foi a vez de Onyx Lorenzoni, acólito excepcionalmente longevo de Bolsonaro, visto que está aboletado ao lado do capitão desde o início do mandato, coisa rara. Num discurso diante de uma plateia amestrada, sublinhou a ogeriza que o chefe tem contra o STF e afirmou, com voz trêmula e aos prantos:
“Supremo é o povo brasileiro”

O papa e os políticos franceses que me perdoem mas, enquanto eles vão indo, nossos aplicados dirigentes tupiniquins já estão voltando. Os nossos não vivem no andar de cima. Moram na cobertura.

Observação
A prudência manda lembrar que é bom ter em mente que nada é eterno. Quando o Lula mostrou sua soberba ao dizer que ele era “a opinião pública”, estava longe de imaginar que, poucos anos mais tarde, passaria ano e meio na cadeia.

Bolsonaro e seus acólitos erram feio ao desdenhar dessa lógica elementar. Nada é eterno. As coisas podem mudar rapidamente.

Vem aí o Sete de Setembro

José Horta Manzano

Já faz semanas que os franceses são obrigados a apresentar um “pass sanitaire” (passaporte vacinal) para entrar em bares, restaurantes, teatros, salas de concerto, museus e outros lugares públicos. Para obter o documento, é preciso dar prova de estar vacinado contra a covid ou de ter contraído a doença e estar curado. Há também raros casos em que, por razões médicas, o cidadão não pode tomar a vacina.

Desde que a obrigação foi anunciada, os franceses voltaram a praticar um de seus esportes preferidos: a tradicional passeata dos sábados. O ambiente costuma ser familiar, uns com faixas e cartazes, outros escandindo slogans. Todos exigem que lhes seja devolvida a liberdade de ir e vir, de entrar onde quiserem, sem ter de tomar essa vacina nem apresentar esse “maldito passaporte”, que consideram imposição de um governo tirânico.

Eu estava ouvindo hoje a fala do dirigente de uma região do país, a quem perguntaram o que gostaria de dizer a esses manifestantes que, sábado sim, outro também, saem às ruas pra manifestar desacordo e rebeldia. Sua explicação me pareceu cheia de bom senso. Aponto aqui os pontos principais.

Viver em sociedade implica aceitar abrir mão de certos direitos individuais em prol do bem coletivo. Por exemplo, todo adulto tem direito de se embriagar, à condição de depois renunciar a dirigir. Essa regra é, sem dúvida, uma restrição ao direito de ir e vir, mas foi imposta para proteger a maioria.

Com a vacina, dá-se o mesmo. A vacinação individual serve para proteger a sociedade como um todo. Na região administrada pela autoridade que citei, 7 mil manifestantes têm saído em passeata toda semana. Enquanto isso, entre 40 mil e 50 mil cidadãos têm se apresentado toda semana para a vacinação. Esses que tomam a vacina, embora quietos, sem faixa e sem slogans, também estão se manifestando!

Isso é democracia. Sondagens indicam que 67% dos franceses são favoráveis ao passaporte sanitário, ou seja, 2 em cada 3 cidadãos. Apesar de barulhenta, a minoria não pode impor sua vontade à maioria. Esse documento não foi inventado por capricho de uma autoridade qualquer; é fruto da decisão dos eleitos do povo – é a lei. No dia em que a minoria impuser sua vontade no grito, já teremos deixado de viver em democracia.

Acho que a lição cai bem para nosso Dia da Pátria. Quem decide é a urna. Como não dá pra votar todos os dias, as pesquisas fazem as vezes. Todas elas são claras e mostram de que lado está a maioria no Brasil.

Então, o que é que fazemos? Entregamos a vitória aos que berram mais alto?

Observação
Repare num detalhe revelador. Em países mais adiantados, não viria à cabeça de ninguém sair em “carreata” ou “motociclata”. Em Paris, tem disso não. Vai-se a pé, sem pensar duas vezes.

A divisão da população em classes superiores e inferiores é especialidade de sociedades mais atrasadas. E é tão arraigada no Brasil – em especial entre devotos do capitão – que a tradicional passeata, em que todos se igualavam ao pisar o asfalto, transformou-se em “moto-carreata”.

Na cabecinha dos “moto-carreateiros”, esse comportamento apresenta duas vantagens. Por um lado, têm a impressão de que a lataria protege sua frágil pessoa contra a plebe ignara. Por outro, mostram a todos que possuem veículo potente, o que significa que são importantes e ricos.

Blasé

José Horta Manzano

No Brasil de hoje, nada mais assusta, não é? Tem certeza? É verdade que as os sobressaltos que o governo nos causa são de deixar qualquer um blasé. Como sabe meu culto leitor, blasé é palavra francesa que, com cinco letrinhas, exprime um misto de sentimentos que flutuam entre: indiferença, enfado, fastio, cansaço, desgosto.

Mas não é um sentimento positivo. Quando a gente se sente blasé é como se tivesse entregado os pontos. Não é bom. Mais vale guardar o frescor de quem acaba de desembarcar do planeta Marte e não está a par do que se passa. Mais vale deixar que os sobressaltos diários continuem a nos comover. É importante manter a capacidade de levar sustos.

Só quem mantém o olho vivo está em condições de reagir. A intenção do bando que nos governa é justamente de entorpecer a população com bombardeio diário de horrores. O acúmulo de catástrofes embota a mente. Povo de mente embotada não reage. É justamente o que eles querem, e é contra isso que devemos lutar.

Ao abrir o jornal hoje, encontro três horrores e uma boa notícia. Aqui estão.

Folha de São Paulo

Ai, São Benedito! Lá vai ele nos envergonhar de novo. Talvez a ideia seja de explicar o ‘golpe’ do 7 de Setembro. Se tiver fracassado, como esperamos, ele é capaz de desistir da viagem.

O Globo

Que cara de pau! Se ridículo matasse, poucos de nossos eleitos sobreviveriam.

O Globo

“No meu governo, não tem corrupção!” Alguém se lembra dessa declaração?

Estadão

Uma notícia boa. Livre, finalmente, daquele extraterrestre que ocupava o posto de chanceler, o Itamaraty volta a tomar atitudes dignas. Já que o governo não quer saber dos desgraçados nacionais, pelo menos que estenda a mão aos desgraçados estrangeiros.

Faria Limer

José Horta Manzano

Até o começo dos anos 60, a Iguatemi, em São Paulo, era uma ruazinha de bairro, com uma fileira de bem-comportados sobradinhos de cada lado. Aquela região era um pouco afastada do centro.

Chegava-se lá depois de uma boa viagem desde o centro. Numa reminiscência do tempo em que o grosso da população vivia na zona rural, afastada do centro do povoado, o centro de São Paulo era chamado de “cidade”. “Hoje fui à cidade”, “Meu pai trabalha na cidade”, “Ah, pra comprar isso, só na cidade” – eram frases que se ouviam com frequência. Basta substituir “cidade” por “centro”, e o significado atual aparece.

A Rua Iguatemi era um pouco longe da “cidade”. Na euforia dos anos 60, decidiu-se que a expansão da capital seria direcionada para o oeste e para o sudoeste. Meio às pressas, sem grande planejamento, a (então) estreita rua Iguatemi foi escolhida como futuro eixo de circulação.

Mais de uma centena de propriedades foram desapropriadas para permitir o alargamento da rua. Ao final da década, apesar dos buracos que ainda obstruíam o leito carrossável, a nova avenida foi aberta. Em homenagem ao prefeito falecido pouco antes, ela recebeu o nome de Faria Lima.

Cinquenta anos mais tarde, os sobradinhos são apenas uma lembrança distante. A avenida está hoje coalhada de prédios altos que concentram empresas do setor terciário, como bancos, startups, empresas de informática, serviços especializados.

Já faz algum tempo que, num espírito oscilando entre admiração e galhofa, profissionais ligados a essas empresas de alto padrão são chamados de “Farialimers”. Alguns dias atrás, a imagem de doutor Guedes, nosso ministro da Economia, foi afixada em cartazes gigantescos, acompanhada da frase “Faria loser”, num evidente espírito de deboche que faz jogo de palavras mesclando o nome da rua e o termo inglês “loser” (=perdedor).

Passaram-se poucos dias. Refeitos do susto, autoridades (não sei quais, mas certamente com nosso dinheiro) mandaram cobrir as vergonhas da nação. Afinal, não se pode expor assim, de qualquer maneira, a inabilidade de um ministro.

A imagem que agora esconde o rosto sofrido do ministro é a de uma estranha bandeira brasileira. Digo estranha porque está fora das proporções oficiais. Não precisa ser doutor pra ver que o verde está espichado de um lado e do outro.

Os jornais dão hoje a notícia. Falam do cartaz jocoso que zombava do ministro. Falam da bandeira que substituiu a afronta. Ninguém, no entanto, se preocupou com o fato de a bandeira estar distorcida. A bandeira, minha gente, é símbolo nacional oficial. Seu desenho, suas cores e suas proporções são rigorosamente definidas em lei. A regulamentação vem do tempo dos militares, mas vigora, visto não ter sido abolida. Bandeira nacional não é pano decorativo. Como todo símbolo oficial tem de ser usada conforme manda o figurino. Em princípio, todo mau uso afronta a lei e está sujeito a punição. Mormente quando tiver sido orquestrado por autoridades, como parece ser o caso.

No entanto, no entanto, o pior passou em branco. A Folha de São Paulo, que publicou a foto da esquina com a bandeira e narrou a situação com abundância de detalhes, não deu muita importância ao que ninguém gosta de ver. Na foto da bandeira, bem no centro, aparece uma pobre criatura, um trapo humano, deitado na calçada da avenida. É visivelmente um morador de rua – perdão! um indivíduo “em situação de rua”, como a falsa pudicícia obriga a dizer hoje.

A brincadeira do “Faria loser” não passa de estudantada. A cobertura das vergonhas, apesar de ser mais truculenta e menos sorrisonha, também não mata ninguém. A verdadeira vergonha, que passou em branco, transparente como tudo aquilo que a gente não gosta de ver, é o cidadão estirado no chão, bem no centro da foto, como um traço horizontal a sublinhar o lema “Ordem e Progresso”. Certamente a criatura não está lá pelo prazer de dormir numa cama dura pra aliviar as dores de coluna.

Enquanto dramas como esse continuarem a passar despercebidos, quase como atrapalhando a foto, de pouco vão adiantar a crítica leve feita contra o ministro incapaz e a repressão peremptória da autoridade que prefere ver a parede limpa, mas se desinteressa da sorte da ralé.

Governantes – e povo – que dão mais importância à ilusão de muro impecável do que à feia realidade de um povo desgraçado não merecem dormir em colchão quentinho e macio.

Voto impresso auditável

José Horta Manzano

Essa interessante fotografia foi tirada no comecinho dos anos 1960, no tempo em que havia eleições, antes de 31 de março de 1964. Ela dá uma vista geral das mesas de apuração eleitoral. A cesta de basquete indica que a ação se passa num ginásio de esportes.

Para os mais jovens, é bom lembrar que no (já distante) século 20 o eleitor brasileiro não conhecia a urna eletrônica. Aliás, acho que eleitor nenhum conhecia, dado que a eletrônica ainda se chamava eletrotécnica e estava engatinhando. Votava-se por meio de cédulas de papel. Naturalmente, a apuração era manual, os votos tendo de ser contados um a um.

No dia da eleição, assim que a seção eleitoral terminava seu trabalho, a urna era lacrada pelos mesários. Em seguida, esperavam pela passagem do caminhão da Justiça Eleitoral, que ia percorrendo seção por seção e recolhendo urna por urna.

A urna era de material forte e maleável, uma espécie de lona que lembrava encerado de carroceria de caminhão. Nas cidades maiores, aquele amontoado de urnas era armazenado num local de bom tamanho e lá pernoitava sob a vigilância da Força Pública ou algum outro grupo de homens armados. Ninguém tinha autorização para entrar nem que fosse pra verificar se tudo estava em paz (ou se ninguém estava “passeando” por perto das urnas).

Na manhã seguinte, começava a apuração. O trabalho era lento. Imagine só, trazer cada urna à seção apuradora, abri-la, despejar aquela papelada sobre a mesa, espalhar tudo, catar os que eventualmente tivessem caído ao chão, dar um montinho a cada escrutador pra permitir que ele contasse. E tudo isso num ambiente barulhento, com muita gente circulando, gesticulando, falando alto, gritando, se exasperando.

Computador não existia. Cada voto era anotado à mão, em papeletas apropriadas. Cada mesa tinha a missão de contar os votos e dar o resultado à junta apuradora.

Durante a apuração, os partidos mandavam fiscais, cada um deles com a missão de vigiar as cédulas do candidato daquele partido. Quanto aos candidatos de outra agremiação, acho que os fiscais não eram tão severos.

A apuração levava dias, às vezes chegava a duas semanas. Enquanto isso, a cidade, o estado e o país ficavam às escuras, todos à espera do resultado final. Que era sempre uma surpresa, dado que as técnicas de sondagem de opinião não eram sofisticadas como hoje. E tinha outra variável: ninguém podia calcular a extensão dos milhares de fraudes.

Na realidade, não é difícil imaginar a infinidade de oportunidades de adulterar os resultados. Votos válidos desapareciam, votos trazidos no bolso do paletó de um escrutador (ou até de um fiscal) podiam surgir do nada, sem que ninguém notasse. Uma balbúrdia. E olhe que, nas metrópoles, ainda havia um verniz de ordem. Fico imaginando, nas pequenas localidades, quem é que tinha coragem de contradizer as ordens do mandachuva local?

Atropelado por uma baciada de más notícias e de problemas variados, já faz dias que nosso capitão presidente parou de falar em “voto impresso auditável”. Ainda bem. Tomara que enterre o assunto. Pode interessar a ele, mas tenho certeza de que os eleitores brasileiros não querem dar tamanho passo atrás. Os anos 60 tiveram seus encantos, mas o velho sistema de apuração eleitoral não está entre eles.

Vamos falar com clareza. Entendo que o que Bolsonaro pretende não é exatamente o voto unicamente em cédula de papel, como nos anos 1960. Ele quer papel + eletrônica, de maneira a permitir que se conte os papeizinhos em caso de necessidade.  À primeira vista, poderia até ser razoável. Só que… conhecendo a peça, a gente pode imaginar o pior.

Assim que terminasse a apuração, se o resultado não fosse favorável ao capitão, o Brasil conheceria uma torrente de ações, reclamações, requerimentos, e outros procedimentos desse tipo, todos pedindo recontagem dos votos. Os pedidos pipocariam em todos os estados, em todos os municípios, em cada lugarejo. Como resultado, teríamos exatamente a volta aos anos 1960, com seus males e seus vícios. E sem seus encantos.