Todos iguais

Carreata carnavalesca de Bolsonaro
na imaginação de Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

 

José Horta Manzano

Dizem que, fora um detalhe aqui, outro ali, somos todos iguais. Pode ser, só que parece que uns são mais iguais que outros. Nós, os do andar térreo, podemos até ter nossas opiniões, achar isto ou aquilo, pensar assim ou assado. Mas, por recato ou por estar conscientes de nossa pouca importância, guardamos nossas opiniões para um restrito círculo de amigos. Ou para um diário íntimo. Falando nisso, será que alguém ainda escreve diário?

Já os do andar de cima – ou os que acreditam estar lá instalados para sempre – agem diferente. Não guardam opiniões no bolso nem são discretos. Ao contrário: assim que enxergam uma plateiazinha, já vão soltando o verbo.

E olhe que não é fenômeno exclusivamente brasileiro. Viagens ao exterior oferecem momentos especialmente propícios a esse tipo de escorregão. Me lembro do caso de um primeiro-ministro francês que pretendia candidatar-se à Presidência. Na volta de uma longa viagem, estava dentro do avião,  rodeado por uma plateia de jornalistas. Conversa vai, conversa vem, animou-se e acabou dando um escorregão: referiu-se ao então presidente da República Francesa com palavras muito desrespeitosas. Foi o que bastou. Perdeu a eleição. Analistas políticos concordam que a derrota foi consequência daquele pronunciamento.

Entre outros, até papa Francisco já andou se excedendo durante um voo transcontinental, algum tempo atrás, quando disse coisas de que deve ter se arrependido.

Só que há diferença entre referir-se a alguém com pouco respeito e cometer atentado contra a inteligência do eleitor. Nossos inquilinos de cima são mestres na arte de mostrar prepotência. Deixam transparecer que realmente se julgam ungidos por Júpiter. Acreditam ser inalcançáveis, superiores aos demais. Têm certeza de estar por cima da carne seca, como o povo esperto costuma dizer.

Lembro aqui três falas que me impressionaram particularmente. (Quase) nada mais impressiona na política nacional, mas certas coisas são tão enormes, tão exóticas, tão esdrúxulas, que sobressaem.

Lula
Em 18 set° 2010, num comício em que dava uma força à candidatura da doutora Dilma, Lula não hesitou:
“Nós somos a opinião pública”

Bolsonaro
Em 20 abr 2020, em cima da caçamba de uma caminhonete estacionada à frente de um quartel do Exército, Bolsonaro ousou:
“Eu sou a Constituição”

Lorenzoni
Faz 3 dias, em 3 set° 2021, foi a vez de Onyx Lorenzoni, acólito excepcionalmente longevo de Bolsonaro, visto que está aboletado ao lado do capitão desde o início do mandato, coisa rara. Num discurso diante de uma plateia amestrada, sublinhou a ogeriza que o chefe tem contra o STF e afirmou, com voz trêmula e aos prantos:
“Supremo é o povo brasileiro”

O papa e os políticos franceses que me perdoem mas, enquanto eles vão indo, nossos aplicados dirigentes tupiniquins já estão voltando. Os nossos não vivem no andar de cima. Moram na cobertura.

Observação
A prudência manda lembrar que é bom ter em mente que nada é eterno. Quando o Lula mostrou sua soberba ao dizer que ele era “a opinião pública”, estava longe de imaginar que, poucos anos mais tarde, passaria ano e meio na cadeia.

Bolsonaro e seus acólitos erram feio ao desdenhar dessa lógica elementar. Nada é eterno. As coisas podem mudar rapidamente.