Ucranização do Brasil

José Horta Manzano


Bem depois do triste 7 de setembro, fanáticos de extrema-direita continuaram acampados por bom tempo em Brasília. A ideia fixa deles é a de sempre: preparar uma “faxina geral para pôr fim à corja maldita da República”. Na visão dessa gente, a “corja maldita” está integrada pelos magistrados do STF e pelos parlamentares eleitos pelo povo. Em resumo, “malditos” são todos os que não dizem amém aos caprichos do capitão.

Quando acampados, usaram várias vezes a expressão “vamos ucranizar o Brasil!”. Essa gente feroz gosta de utilizar esse mote. Como diria minha avó, ouviram cantar o galo, mas não sabem onde é a missa. Típicos representantes de uma geração que não lê nem aprende, contentam-se com as duas primeiras linhas de um tuíte qualquer, sem buscar saber os comos e os porquês das coisas. Deve ter sido assim que aprenderam a repetir essa bobagem. Ou então, pior ainda, sabem o que aconteceu por lá, mas omitem o fim da novela, pra ficar mais bonito. Isso já é pesada desonestidade intelectual – o que não é espantoso vindo de quem vem.

“Ucranizar o Brasil” é expressão pra lá de inapropriada. Sofrer o mesmo destino da Ucrânia é desgraça que ninguém – repito, ninguém, nem os mais incendiários – desejam para o próprio país. Sem ter a pretensão de escrever um tratado sobre os problemas da Ucrânia, dou abaixo algumas pinceladas, para o caso de alguém estar interessado em conhecer ou recordar.


Após a queda do Muro de Berlim (1989) e a desintegração da União Soviética, que veio pouco depois, a vontade maior dos povos que orbitavam em volta do império russo era livrar-se definitivamente do perigo de, um dia, ser de novo aspirados e tragados pelo temível vizinho.

As repúblicas ex-soviéticas situadas na Ásia não tiveram escolha. Afastar-se da Rússia significava jogar-se nos braços da China ou da Índia, os grandes vizinhos mais próximos. Não era bom negócio. Sem escolha, continuam até hoje na órbita do Grande Irmão.

Já as repúblicas situadas em solo europeu – tanto as que integravam a União Soviética (Ucrânia, Bielorrússia), quanto as que giravam em torno como satélites (Polônia, Hungria e as demais) – tinham um sonho comum: aderir à União Europeia. Naquele momento em que o equilíbio mundial estava se rompendo, a Guerra Fria ainda estava presente em todas as mentes. O objetivo dos povos que haviam vivido sob a pesada influência da Rússia soviética era ser acolhido e amparado por um braço forte que os protegesse do antigo papão.

Um a um, sob o olhar desacorçoado de uma Rússia impotente, os antigos satélites da União Soviética solicitaram o bilhete de entrada na União Europeia. Em 2004, de uma tacada só, 8 antigos afilhados de Moscou foram oficialmente aceitos na UE. Mas Putin já tinha tomado as rédeas do país, com a firme intenção de reerguer o império. Graças a ele, mesmo sem recobrar o status da antiga URSS, o país voltou a figurar entre os grandes. Manteve seu posto de segunda potência nuclear do planeta, atrás dos EUA e muitíssimo à frente da China, com diversas bases militares no estrangeiro.

Com uma Rússia fortalecida, a ilusão de aderir à UE foi ficando distante para a Ucrânia. É enorme a dependência de Kiev com relação a Moscou. Para os russos, a Ucrânia é o berço da civilização deles, uma joia que não se pode entregar a estrangeiros de jeito nenhum. A língua ucraniana é uma variante do russo, o que reforça os laços. Para Putin, seria inadmissível ter às portas de seu país uma Ucrânia integrada na UE, quiçá com tropas da Otan(*) estacionadas na fronteira.

Durante o inverno gelado 2013-2014, o povo ucraniano se rebelou contra a decisão tomada por seu governo, que desistiu de assinar um acordo com a UE e preferiu reforçar os laços com o Grande Irmão russo. As manifestações de protesto se estenderam por 3 meses, ao final dos quais o presidente ucraniano, grande amigo de Moscou, foi destituído.

Mas o povo obteve uma vitória de Pirro – vistosa mas de consequências contrárias ao que desejavam. A partir da destituição do presidente ucraniano, a Rússia apertou o torniquete. Cortou o gás, mercadoria vital em pleno inverno, sem a qual a população perigava morrer de frio. Suspendeu trocas comerciais. O resultado é que a Ucrânia teve de entregar os pontos. Acabou deixando pra lá o objetivo anterior, que era de candidatar-se a uma vaga na União Europeia.

E agora vem a parte que os devotos bolsonaristas não contam. Desconhecem por ignorância? Escondem por malandragem? É difícil saber. O fato é que a consequência principal do levante popular de 2014, que os fanáticos do capitão chamam de “ucranização”, é a guerra civil que se instalou no país e que não acabou até hoje.

As províncias do leste da Ucrânia são culturalmente muito próximas da Rússia, a ponto de a maioria de seus habitantes se considerar mais russa do que ucraniana. Com as províncias do oeste, acontece o inverso. E daí? Daí, o país se dividiu em dois. O governo de Kiev controla a parte oeste do país. Quanto às províncias orientais, é tudo mais ou menos. Ninguém sabe direito quem manda. Na região do Donbass (capital: Donetsk), é pior ainda. Ali grassa uma guerra civil. Tanques passeiam pelas ruas. As estradas têm bloqueios, e não passa quem quer. Virou terra de ninguém: teoricamente ucraniana, mas russa de facto. Com os espíritos exaltados pelo nacionalismo exacerbado, ninguém está disposto a ouvir as razões do adversário, muito menos abandonar a língua materna. Embora se pareçam muito, o russo e o ucraniano são línguas diferentes. Para nós, podem ser muito parecidas, mas para eles a língua materna é o marcador da nacionalidade. Ninguém está disposto a abandonar seu falar em favor da outra variante. Portanto, não há solução à vista.

O único remédio – que é provavelmente o que vai acabar ocorrendo – é a partição oficial do país, com entrega à Rússia da parte onde a população se sente mais russa que ucraniana. Em resumo, o país está para sempre fraturado – com fratura exposta. É realmente isso que os fanáticos do capitão gostariam que ocorresse entre nós? A “ucranização do Brasil”?

(*) A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) é um pacto militar capitaneado pelos EUA, do qual fazem parte quase todos os países europeus.

Vamos de cloroquina?

Prof. Didier Raoult, médico francês defensor da cloroquina contra a covid

 

José Horta Manzano

Esta semana, a Nature, conceituada revista científica britânica, publicou o resultado de uma análise sobre a administração de cloroquina e de hidroxicloroquina a pacientes que sofrem de covid-19. Nada menos que 94 cientistas endossam o estudo, que se baseou em quase três dezenas de ensaios clínicos efetuados com mais de dez mil pacientes.

Chegaram à conclusão de que o uso de hidroxicloroquina eleva a taxa de mortalidade. Já a cloroquina, molécula da mesma família, demonstrou ser simplesmente inócua. A fim de desestimular toda ideia de automedicação, os cientistas recomendam que pacientes de covid sejam alertados para esse perigo. Acrescentam que a administração de hidroxicloroquina potencializa o risco de hospitalização mais prolongada com frequente necessidade de intubação.

O estudo só vem reafirmar o que faz algum tempo que todos já sabemos: em caso de covid-19, cloroquina e hidroxicloroquina são medicamentos a banir. Na melhor das hipóteses, não fazem efeito nenhum; na pior, levam à morte. Tirando algum iluminado, como o professor Raoult – lombrosiano médico francês adepto ferrenho da cloroquina e da hidroxicloroquina –, todo profissional consciencioso devia passar ao largo desses medicamentos.

Não deixa de causar espanto que, no Brasil, muitos médicos (centenas? milhares?) continuem receitando e administrando essas moléculas a título de “tratamento precoce” de pacientes de covid. Será que esse pessoal não costuma se inteirar dos avanços da pesquisa científica? Não leem inglês ou, quem sabe, simplesmente não leem? Ou serão devotos fanáticos do capitão, daqueles que fazem tudo o que seu mestre mandar, sem parar pra refletir?

Talvez nenhuma das hipóteses mencionadas. Talvez a realidade seja mais tenebrosa ainda. É possível que, tendo estudado em escola de medicina de segunda categoria, estejam mal formados e despreparados para exercer a profissão. O que explica que não leiam pesquisa, visto que não entenderiam. O que também explica que sigam as orientações do capitão, visto que Bolsonaro lhes parece mais entendido no assunto do que os fracos professores que tiveram na escola.

Que São Benedito nos ajude!

Imunidade de rebanho

José Horta Manzano

Você sabia?

Muito se tem falado sobre o conceito de imunidade de rebanho, que também pode ser chamado imunidade gregária, imunidade coletiva ou ainda imunidade de grupo. Há muita gente aplaudindo o método sem saber exatamente do que se trata. Imaginam que a tal imunidade é como mágica que cai do céu, um presente concedido pelo chefe bondoso. Não é exatamente isso.

O conceito já tem 200 anos de idade. Desde quando se popularizou a vacinação contra a varíola, começaram a aparecer os efeitos da imunização coletiva. Já em meados do século XIX, cientistas constataram que bastava imunizar parte da população para conter epidemias de varíola. Não era necessário vacinar todos. Para se atingir a imunização de grupo, os cálculos variam. As melhores estimativas garantem que a imunização coletiva será atingida assim que 60% a 85% dos habitantes estiverem imunizados.

O princípio não é difícil de entender. Parte-se da premissa de que é possível entravar o alastramento de uma doença infecciosa numa população, desde que determinada parcela de indivíduos esteja imunizada, seja por vacina, seja porque já teve a doença e se curou.

De fato, quanto mais aumentar a proporção de pessoas imunizadas, menor será o risco de um não-imunizado apanhar a doença. A partir de um certo ponto, o risco será tão baixo que é mais provável um B-747 cair na cabeça do cidadão do que ele se contaminar. Ao fim de um determinado tempo, a epidemia se extinguirá por si mesma.

Dito assim, é tentador. A gente se pergunta por que é que a maioria dos países está impondo medidas de proteção à população. Ora, que sejam todos deixados à vontade até que se atinja o ponto estatístico a partir do qual o risco de contágio praticamente desaparece! Por que não?

Há uma razão para que as autoridades não tenham decidido assim. É que a implementação do método de ‘abrir as porteiras já’ colide com uma visão humanista da sociedade. Nossa Constituição garante, a todos os habitantes do território, igualdade perante a lei. Nenhum dispositivo legal, portanto, pode contrariar essa pretendida igualdade. Ora, para atingir a imunidade de rebanho, será preciso morrer muita gente. Como assim?

Não é difícil entender. Se soltarmos todos, à vontade, num clima de ‘liberou geral’ antes da chegada da vacina, a imunização não virá por milagre. Será preciso passar muito tempo – meses ou anos – até que se chegue aos 60% ou 85% de cidadãos imunizados. Mas, daqui até lá, é garantido: muita gente vai morrer. Quem? Em primeiro lugar, as populações que correm maior risco: idosos e pobres.

Os idosos formam um grupo de risco porque este coronavírus, ninguém sabe realmente por que, parece ter especial predileção por eles. Quanto aos mais humildes, são os que mais se expõem dado que raramente podem teletrabalhar e todos os dias passam horas e horas espremidos em condução lotada. Portanto, as ‘vítimas colaterais’ do caminho preparatório para a imunidade de grupo são essas: idosos e pobres.

Temos de agradecer aos céus o fato de as determinações de proteção (máscara, distanciamento social, lavagem das mãos, lockdown) terem sido ditadas pelos governadores. Se essas decisões tivessem sido deixadas nas mãos de doutor Bolsonaro, estaríamos caindo feito enxame de pernilongos borrifado com Detefon. À espera de atingir a imunidade coletiva, naturalmente.

A cegueira de nosso presidente sobre esse caminho doloroso que leva à imunidade coletiva sem vacina ficou patente. Sua alardeada religiosidade provou ser só de fachada. Na fé cristã, os valores de caridade e compaixão são básicos – e doutor Bolsonaro mostrou não comungar com eles. Ele tem agido como se presidisse outra nação, não a nossa, castigada pelo maior desastre sanitário dos últimos 100 anos.

Em sua longa e didática fala de 28 de out°, Emmanuel Macron, presidente da França, delineou como será a vida de sua população até dia 1° de dezembro, neste novo período de confinamento para enfrentar a segunda onda de covid. Aproveitou para rejeitar explicitamente esse caminho da imunidade de rebanho por ser ‘contrário aos valores de nossa República’. Concordo com ele.

No Brasil também, o caminho já está traçado. Antes da chegada da vacina, seja o que Deus quiser. Assim que a vacina chegar, cidadãos esclarecidos se imunizarão. Devotos renitentes, se forem coerentes, rejeitarão a vacina. Muitos deles morrerão. É o preço a pagar por esta aplicação tardia das doutrinas eugenistas do século 19: os fracos ficam pelo caminho, enquanto os fortes seguem adiante. Assim, passo a passo, com a colaboração de devotos renitentes, a imunidade coletiva se espalhará pelo país.