Bolsonaro e a Marselhesa

La Marseillaise cantada pelo autor, Rouget de l’Isle
by Isidore Pils (1815-1875), artista francês

José Horta Manzano

Em 1792, a Revolução Francesa preparava o túmulo do Ancien Régime. Ao mesmo tempo, o Romantismo sacudia as artes. Verdadeiro traço de união entre a revolução e o movimento romântico, Rouget de l’Isle – oficial do exército, poeta e autor dramático – compunha, naquele mesmo ano, o poema que viria mais tarde a ser conhecido como a Marselhesa, o hino nacional da França.

A letra é longuíssima, o que explica quase nunca ser cantada por inteiro. Em execução pública, cantam-se somente as duas primeiras estrofes do hino. Todo o espírito romântico e revolucionário está contido nelas. O povo é conclamado a levantar seus estandartes e se rebelar contra a tirania. Há um chamado às armas e um convite para que os cidadãos formem seus batalhões e marchem para encharcar de sangue impuro os campos da pátria.

É verdade que essa profusão de hemoglobina não combina com os tempos atuais, em que, aposentadas as baionetas, a morte vem do céu, a bordo de drones silenciosos e traiçoeiros. Como essas chacinas costumam acontecer em lugares distantes e miseráveis, ninguém vê, ninguém comenta, ninguém chora. Ao final, descontando os mortos (que, afinal, ninguém é coveiro), nos sentimos de consciência tranquila.

Estou me afastando do que queria dizer. Na Marselhesa, quando o autor chama os conterrâneos para os dias difíceis da luta, não manda que corram ao matadouro sozinhos. Inclui-se entre eles. As palavras Marchons, marchons! – Marchemos, marchemos!”, que aparecem nos versos finais, são um encorajamento que inclui o encorajador. Em outras palavras, aquele que inflama a multidão não manda “vão vocês!”, mas “vamos juntos!”. Parece detalhe, mas faz toda a diferença.

Nunca assisti a nenhuma laive do capitão. A desta semana não foi exceção. Mas li os pontos importantes (se é que os há) na imprensa. Fiquei sabendo que o presidente mandou o povo tomar banho frio e dispensar o elevador. Ah, e desligar o ar condicionado, como se fosse produto de consumo comum, daqueles que todo brasileiro tem em casa. Ele ensinou que esse pouco de exercício revigora, faz bem à saúde e, principalmente, visto que contribui pra atenuar a crise hídrica, é poderoso auxílio para a almejada reeleição.

Não li em lugar nenhum que Bolsonaro tenha dado o exemplo, nem que fosse de mentirinha. Não me parece que tenha dito que ele mesmo já abandonou a água quente no banho e o elevador no palácio. Não me parece ter revelado que, com seu histórico de atleta, está acostumado a tomar banho gelado, hábito que adquiriu nos tempos de recruta. Tampouco lembrou-se de contar ter subido de 20° para 24° a temperatura do ar condicionado de seu escritório.

Sei que o capitão está longe de ser revolucionário e mais distante ainda de ser romântico, mas perdeu excelente oportunidade para (tentar) identificar-se com o populacho. Não devia ter dito “vão vocês!”, mas “vamos juntos!”. O líder, afinal de contas, devia ser ele! Ou não? Não disse nada disso. Que é que se pode fazer? Para ele, povo deve ser uma entidade abstrata, distante, que só serve pra trazer-lhe votos, mais nada.

Quem nasceu pra tostão não chega a milréis, dizia minha avó. Ou se nasce pra liderar, ou se nasce pra ser liderado. O capitão não é líder de nascença. É certamente por isso que bate cabeça o tempo todo. O homem diz, se desdiz, se contradiz, se maldiz, se rediz. Ao fim e ao cabo, não conduz, é conduzido.

Um pensamento sobre “Bolsonaro e a Marselhesa

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