Aerolula x Aerobolso

José Horta Manzano

Acho que ninguém esqueceu de quando, no longínquo março de 2020, Bolsonaro foi visitar o amigo Trump, que o recebeu em seu resort particular de Mar-a-Lago.

Na volta, 22 integrantes da comitiva, que tinham viajado no Aerolula (que agora deveríamos chamar de Aerobolso ou talvez Aeronaro) receberam resultado positivo no teste anticovid. Vinte e dois!

Passou-se exatamente um ano e meio durante o qual Bolsonaro praticamente não viajou para o exterior. Por um lado, foi por causa da covid. Por outro, é porque ninguém quer ser visto ao lado do capitão. Dado que fogem dele como da peste, ninguém o convida.

Ele então aproveitou a ocasião da abertura dos trabalhos anuais da ONU para dar um pulinho a Nova York. Aproveitou pra vacinar a esposa e pra levar a turma pra espairecer, gastar nosso dinheiro em hotéis estrelados e fazer umas comprinhas com o cartão corporativo. A ONU de Nova York é o único lugar aonde ele pode ir sem ser convidado, ainda que o preço a pagar seja comer pizza na calçada.

Na volta, os infetados por covid já começaram a aparecer. O primeiro foi o próprio ministro da Saúde (da Saúde!), aquele que cometeu o delicado gesto de apontar o dedo maior em riste aos que demonstravam não gostar do chefe dele. Em seguida, começa a cair gente graúda. Saiu hoje a notícia que o presidente da Caixa é a 4a vítima. Se não apareceu mais gente contaminada, é porque muitos – provavelmente todos, com exceção de Bolsonaro – estão vacinados.

Esse avião presidencial está mais pra navio fantasma, embarcação mal-assombrada, carroça com urubu trepado. Será praga do presidente barbudinho que preferiu comprar essa aeronave, deixando pra trás a nacional Embraer?

Não sei, mas, se fosse eu, mandava benzer esse avião. Eu é que não punha os pés lá dentro, nem que me pagassem.

O Lula em lua de mel

Lua de mel

Wálter Maierovitch (*)

Para a mídia alemã não representa notícia de interesse público o fato de a chanceler Angela Merkel, chefe de governo, não dar carona ao marido em avião oficial. Por exemplo, Merkel passou a Páscoa na cidade italiana de Nápoles a fim de descansar. O avião oficial que a transportava desembarcou na sexta-feira e o corpo de segurança alemão a acompanhou à residência que alugara com dinheiro próprio.

Avião 6Cerca de quatro horas depois do desembarque de Merkel em Nápoles, chegou o seu marido. Estava programado que o casal passaria a Páscoa em Nápoles. O “maridão”, no entanto, pegou um vôo comercial Berlim-Roma e, na sequência, uma conexão para Nápoles.

Por que não pegou uma “carona” com a poderosa chanceler e esposa? A resposta é simples. A carona em vôo oficial, segundo a legislação alemã, é muito cara. Mais de dez vezes o preço de um bilhete aéreo comercial. Por isso, o casal Merkel viajou separado. Em outras palavras, para economizar. Assim, o varão viajou como um comum mortal que, temporariamente, é esposo da chefe de governo da Alemanha. A mandachuva, de enormes responsabilidades institucionais, cumpriu a lei e fez economia doméstica.

AviaoDepois da Páscoa, um avião alemão oficial conduziu Merkel de volta a Berlim, sede do governo e sua cidade natal. O esposo da chanceler partiu em vôo de carreira, com conexão e passagem paga por ele próprio e não pelo cidadão alemão.

(No Brasil, o senador Eduardo Suplicy, depois de noticiado o fato na imprensa, correu para devolver o valor de uma passagem aérea que o seu gabinete, por sua ordem e numa relação privada, havia comprado para a namorada.)

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(*) Wálter Fanganiello Maierovitch é jurista e professor. Já foi desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo. O texto apareceu no Portal Terra já faz algum tempo. Foi recentemente repercutido pela Tribuna da Internet.