Lição de distributivismo

Sede da OMS, Genebra (Suíça)

José Horta Manzano

Vamos imaginar uma situação. É um bocado irreal, mas serve para ilustrar o que quero dizer. Digamos que o distinto leitor, ao caminhar no centro da cidade, topa com um grupo de pessoas maltrapilhas, adultos e crianças. Dois homens, que parecem liderar o grupo, estendem a mão. Faz sol, o dia está bonito, você se levantou feliz e de bem com o mundo. Por isso, se dispõe a ajudar. Vasculha a carteira e tira de lá uma nota de 5 reais (ou 10, ou 20, ou 50 – dependendo do nível de generosidade do leitor).

Você estende a nota em direção aos dois, movimenta levemente o braço de um lado para o outro e diz: “Isto é para os dois; não tenho trocado, mas fica metade pra cada um”. Neste ponto, em vez de agradecer, um dos homens retruca: “Ei, moço (ou moça, se for o caso), metade pra cada um não está certo! O companheiro aqui tem dois filhos e eu tenho três. Mereço mais.”

Quem achou que a situação é absurda acertou. Ela é. Pra início de conversa, nos dias atuais, seria imprudente parar na rua diante de um grupo de cidadãos desconhecidos e, ainda por cima, remexer na carteira (ou na bolsa). Porém, há mais importante que isso: as regras básicas da civilidade ensinam que não cabe ao suplicante dar instruções ao socorrista sobre a repartição do auxílio.

Pois esse princípio elementar acaba de ser violado por um ministro de Bolsonaro. Foi na semana passada. Durante coletiva de imprensa organizada pela OMS (Organização Mundial da Saúde), doutor Queiroga, ministro da Saúde do Brasil, lançou um apelo. Falando de vacina anticovid, implorou a todos os países que tivessem doses sobrando que compartilhassem lotes com o Brasil.

Até aí, tudo bem. Pedir, todo o mundo pode. O enrosco vem agora. Petulante, o doutor aproveitou os holofotes para dar instruções aos hipotéticos doadores. Em verdadeira lição sobre distributivismo, acrescentou que “o acesso ao imunizante deve ser proporcional à gravidade da emergência sanitária”. Com isso, quis dizer que o Brasil merece receber mais que os demais, visto que nossa situação é mais embolada.

Tenho dois reparos. Primeiro, como já disse antes, não cabe ao suplicante dar instruções ao socorrista sobre a repartição do auxílio. Esse tipo de arrogância pega mal pra caramba.

Segundo, não se pode esquecer que o governo Bolsonaro – ao qual o ministro serve – não tem perdido ocasião, desde que a pandemia se instalou, para desancar a OMS, difundir notícias falsas sobre ela, acusá-la de ser partidária e de estar a serviço da China. O capitão imitou o comportamento de Donald Trump, seu ídolo, nesse desvario. Só que, agora que Trump se foi, Bolsonaro ficou no mato sem cachorro tendo de implorar à pérfida OMS umas sobras de vacina. Um vexame.

Não tivessem nossos dirigentes sido tão estúpidos e pretensiosos, o planeta inteiro estaria socorrendo o Brasil espontaneamente, como um punhado de países mais civilizados estão fazendo com a Índia. Não precisaria nem pedir, e muito menos ensinar aos socorristas como distribuir as doações.

De ministros e telenovelas

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 março 2021.

Não é à toa que telenovela faz tanto sucesso no Brasil. E não é de hoje. Quando não havia tevê, nossas mães e avós já se encantavam com as radionovelas. A razão é simples: brasileiro adora assistir a um espetáculo grátis. Se for dramático, melhor ainda. Se sair sopapo e palavrório, é um delírio. Se pingar sangue, então, é o nec plus ultra, o júbilo total.

Em outras terras, troca de ministros é operação que já chega ao distinto público como pacote pronto e embrulhado pra presente. Sai um, entra outro, cumprimentam-se na porta, e a vida segue macia. As tratativas e negociações que precedem a escolha fazem parte da cozinha interna e nunca são divulgadas. Entre nós, não funciona assim.

O povo aprecia um espetaculozinho. Começa já semanas antes, com ‘fritura’ pública do titular e boatos que correm. Será que cai? Será que não cai? Depois vêm os ‘convites’. Fulano foi convidado; vai aceitar? Ih, foi conversar com o presidente! Será que se entenderam? Não, parece que não deu certo. Dizem que a Ala X quer, mas a Ala Y rejeita. E assim segue, como se fosse espetáculo teatral, com a população sentada na fileira da frente. Entre uma pipoca e outra, cada um dá seu palpite.

Quando, finalmente, a coisa decanta e o novo ministro é nomeado, parece último capítulo de novela. Comentários correm soltos pelos elevadores, na rua, no cabeleireiro, no supermercado, na padaria. Passado o desenlace, todos murcham e já se preparam para a próxima atração.

É um procedimento peculiar, esse modo brasileiro de troca ministerial. Mal comparando, é como se um sujeito fosse trocar de carro e os vizinhos resolvessem se intrometer. Cada um se permitiria dar palpite (não solicitado) sobre marca, modelo e cor, tudo sob o olhar atento da rua inteira (ou do condomínio inteiro), uma multidão dividida em alas, cada uma torcendo por seu modelo ou sua cor. É surreal.

No fundo, a escolha de ministros de Estado é ato privativo do presidente da República, visto que são assessores de sua confiança – é o que reza a Constituição. Em princípio, pois, o chefe do Executivo não deve satisfações a ninguém nesse assunto. Se o povo está em desacordo com a política deste ou daquele ministério, o melhor caminho não é reclamar do ministro. Ele foi nomeado para executar a política ditada pelo chefe. No fundo, o cômico Pazuello tinha, até certo ponto, razão: “Um manda, outro obedece”.

O general ficou marcado para o resto da vida pela ingenuidade de ter pronunciado a frase, mas ela não deixa de refletir a realidade. O que se reprova não é tanto que ele a tenha dito, mas que tenha aceitado o posto, já sabedor de que teria de se curvar a um chefe iracundo. A doutora que, outro dia, recusou o posto mostrou-se também ingênua de acreditar poder impor suas visões a um presidente obcecado por conceitos que, viessem de um terraplanista, não chocariam. A ex-futura titular da Saúde escapou na undécima hora, justo a tempo de evitar ter de carregar no currículo a pecha de ter sido ministra de Bolsonaro.

Esse rebuliço que se alevanta a cada troca de ministro não desenha imagem firme e forte do governo federal. Dirigente forte, bem assentado e de pés no chão dispensa teatralidade: troca seus assessores e pronto. Tratativas há, como é natural, mas não há por que deixá-las transpirar. Com a publicidade que foi dada à contratação da quase ministra Hajjar, quem saiu mal foi o próprio presidente. Ao fim e ao cabo, a imagem passada à nação é de que foi ela a dispensar Bolsonaro, e não o contrário. Outro que saiu mal na foto foi o sucessor do general demitido. Está passando recibo de ser ministro de segunda linha – “second choice”, como diriam os ingleses. Isso é péssimo.

Inteligência e sutileza não são mercadoria abundante no Planalto, disso sabemos todos. Será essa a razão de Bolsonaro não estar se dando conta de que, ao imprimir a uma simples troca ministerial ares de espetáculo teatral, está deixando claro que o governo é fraco, hesitante e dependente da opinião alheia. Não fica bem sobretudo para um presidente que, mais de uma vez, já chegou a reclamar: “Quem manda aqui sou eu, pô!”.

Os galegos

José Horta Manzano

A contagem dos imigrantes que se estabeleceram no Brasil indica que os originários da Espanha formaram o terceiro contingente mais numeroso, atrás de italianos e portugueses. No entanto, sobrenomes de outras comunidades parecem ser muito mais difundidos que os espanhóis.

Há de ser só uma impressão decorrente da grande semelhança entre nomes portugueses e espanhóis e de imprecisões de grafia. De fato, muitos Fernandes, Gomes e Rodrigues – que a gente toma por lusitanos – são, na origem, Fernández, Gómez e Rodríguez, espanhóis da gema mal transcritos.

Na esfera pública, é ainda menos comum ver um descendente de espanhóis suceder a outro. Aconteceu estes dias um caso que está dando que falar.

É do conhecimento de todos que Bolsonaro trocou o antigo e folclórico ministro da Saúde por um novo, que ninguém sabe ainda que pito vai tocar, nem como vai se equilibrar para continuar merecendo o respeito que se deve a um médico e ao mesmo tempo escapar do desprezo que a gente sente pelo negacionismo. Dizem que o recém-chegado é admirador do presidente, o que não é propriamente o que se possa considerar excelente cartão de visitas.

Mas vamos aos nomes, aparentemente ambos galegos.

Pazuello (o que sai)
Já me detive sobre o sobrenome do ministro que se vai. Mas não custa contar de novo.

Pazuello é sobrenome de evidente origem ibérica. A raiz latina palatium (=palácio) deu, em castelhano, palacio. Na língua galega, falada nas províncias do noroeste da Espanha, palatium evoluiu para pazo, que equivale a nosso paço. Designa um solar, uma casa suntuosa.

Pazuello seria, pois, o diminutivo de pazo = um pequeno solar, um palacete. O nome é curiosamente de formação híbrida. Embora o núcleo seja galego (pazo), o sufixo uello é castelhano legítimo. Em galego, diminutivos se constroem com o sufixo iño, que corresponde a nosso inho. Portanto, seria de esperar um Paziño (Pazo + iño).

Híbrido ou não, neste ponto, surge um problema. O sobrenome é raríssimo. Tão raro que, vasculhando a lista telefônica da Espanha inteira, não se encontra ninguém que o ostente.

No entanto, ele aparece no Dicionário Sefaradi de Sobrenomes, obra compilada por Paulo V. Faiguenboim & alia, ao lado de variantes tais como Pazuelo (com um L só) e Pazuelos (com S no final).

Sefardis são os judeus espanhóis. Eles foram expulsos do país em 1492 pelos reis católicos, o que explica o desaparecimento do nome na Espanha. É concebível que o general seja descendente de uma dessas famílias forçadas ao exílio quinhentos anos atrás.

Rio Quiroga, província de Lugo (Galiza, Espanha)

Queiroga (o que chega)
O sobrenome Queiroga é variante do tronco principal Quiroga. É um topônimo, ou seja, um nome geográfico. Na realidade, é o nome de um riacho afluente de um riozinho chamado Sil que, por sua vez, deságua no caudaloso Rio Minho – que marca a fronteira entre Espanha e Portugal. O Vale do Quiroga fica na região da Galícia, situada no nordeste da Espanha. Quiroga é também o nome de um vilarejo à beira do rio.

É bem provável que, cerca de 700 anos atrás, longínquos antepassados de nosso ministro tenham um dia deixado a aldeia de Quiroga para se estabelecer noutro vilarejo nas cercanias. Era um tempo em que ninguém tinha ainda sobrenome. A família acabou ficando conhecida como «os [que vêm] de Quiroga», denominação que, com o tempo, foi abreviada.

Quirogas, na Espanha de hoje, há numerosos. No entanto, na lista telefônica, só encontrei uma pessoa que tem por sobrenome a variante Queiroga. É sinal de que não são multidão.