De ministros e telenovelas

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 março 2021.

Não é à toa que telenovela faz tanto sucesso no Brasil. E não é de hoje. Quando não havia tevê, nossas mães e avós já se encantavam com as radionovelas. A razão é simples: brasileiro adora assistir a um espetáculo grátis. Se for dramático, melhor ainda. Se sair sopapo e palavrório, é um delírio. Se pingar sangue, então, é o nec plus ultra, o júbilo total.

Em outras terras, troca de ministros é operação que já chega ao distinto público como pacote pronto e embrulhado pra presente. Sai um, entra outro, cumprimentam-se na porta, e a vida segue macia. As tratativas e negociações que precedem a escolha fazem parte da cozinha interna e nunca são divulgadas. Entre nós, não funciona assim.

O povo aprecia um espetaculozinho. Começa já semanas antes, com ‘fritura’ pública do titular e boatos que correm. Será que cai? Será que não cai? Depois vêm os ‘convites’. Fulano foi convidado; vai aceitar? Ih, foi conversar com o presidente! Será que se entenderam? Não, parece que não deu certo. Dizem que a Ala X quer, mas a Ala Y rejeita. E assim segue, como se fosse espetáculo teatral, com a população sentada na fileira da frente. Entre uma pipoca e outra, cada um dá seu palpite.

Quando, finalmente, a coisa decanta e o novo ministro é nomeado, parece último capítulo de novela. Comentários correm soltos pelos elevadores, na rua, no cabeleireiro, no supermercado, na padaria. Passado o desenlace, todos murcham e já se preparam para a próxima atração.

É um procedimento peculiar, esse modo brasileiro de troca ministerial. Mal comparando, é como se um sujeito fosse trocar de carro e os vizinhos resolvessem se intrometer. Cada um se permitiria dar palpite (não solicitado) sobre marca, modelo e cor, tudo sob o olhar atento da rua inteira (ou do condomínio inteiro), uma multidão dividida em alas, cada uma torcendo por seu modelo ou sua cor. É surreal.

No fundo, a escolha de ministros de Estado é ato privativo do presidente da República, visto que são assessores de sua confiança – é o que reza a Constituição. Em princípio, pois, o chefe do Executivo não deve satisfações a ninguém nesse assunto. Se o povo está em desacordo com a política deste ou daquele ministério, o melhor caminho não é reclamar do ministro. Ele foi nomeado para executar a política ditada pelo chefe. No fundo, o cômico Pazuello tinha, até certo ponto, razão: “Um manda, outro obedece”.

O general ficou marcado para o resto da vida pela ingenuidade de ter pronunciado a frase, mas ela não deixa de refletir a realidade. O que se reprova não é tanto que ele a tenha dito, mas que tenha aceitado o posto, já sabedor de que teria de se curvar a um chefe iracundo. A doutora que, outro dia, recusou o posto mostrou-se também ingênua de acreditar poder impor suas visões a um presidente obcecado por conceitos que, viessem de um terraplanista, não chocariam. A ex-futura titular da Saúde escapou na undécima hora, justo a tempo de evitar ter de carregar no currículo a pecha de ter sido ministra de Bolsonaro.

Esse rebuliço que se alevanta a cada troca de ministro não desenha imagem firme e forte do governo federal. Dirigente forte, bem assentado e de pés no chão dispensa teatralidade: troca seus assessores e pronto. Tratativas há, como é natural, mas não há por que deixá-las transpirar. Com a publicidade que foi dada à contratação da quase ministra Hajjar, quem saiu mal foi o próprio presidente. Ao fim e ao cabo, a imagem passada à nação é de que foi ela a dispensar Bolsonaro, e não o contrário. Outro que saiu mal na foto foi o sucessor do general demitido. Está passando recibo de ser ministro de segunda linha – “second choice”, como diriam os ingleses. Isso é péssimo.

Inteligência e sutileza não são mercadoria abundante no Planalto, disso sabemos todos. Será essa a razão de Bolsonaro não estar se dando conta de que, ao imprimir a uma simples troca ministerial ares de espetáculo teatral, está deixando claro que o governo é fraco, hesitante e dependente da opinião alheia. Não fica bem sobretudo para um presidente que, mais de uma vez, já chegou a reclamar: “Quem manda aqui sou eu, pô!”.

Os galegos

José Horta Manzano

A contagem dos imigrantes que se estabeleceram no Brasil indica que os originários da Espanha formaram o terceiro contingente mais numeroso, atrás de italianos e portugueses. No entanto, sobrenomes de outras comunidades parecem ser muito mais difundidos que os espanhóis.

Há de ser só uma impressão decorrente da grande semelhança entre nomes portugueses e espanhóis e de imprecisões de grafia. De fato, muitos Fernandes, Gomes e Rodrigues – que a gente toma por lusitanos – são, na origem, Fernández, Gómez e Rodríguez, espanhóis da gema mal transcritos.

Na esfera pública, é ainda menos comum ver um descendente de espanhóis suceder a outro. Aconteceu estes dias um caso que está dando que falar.

É do conhecimento de todos que Bolsonaro trocou o antigo e folclórico ministro da Saúde por um novo, que ninguém sabe ainda que pito vai tocar, nem como vai se equilibrar para continuar merecendo o respeito que se deve a um médico e ao mesmo tempo escapar do desprezo que a gente sente pelo negacionismo. Dizem que o recém-chegado é admirador do presidente, o que não é propriamente o que se possa considerar excelente cartão de visitas.

Mas vamos aos nomes, aparentemente ambos galegos.

Pazuello (o que sai)
Já me detive sobre o sobrenome do ministro que se vai. Mas não custa contar de novo.

Pazuello é sobrenome de evidente origem ibérica. A raiz latina palatium (=palácio) deu, em castelhano, palacio. Na língua galega, falada nas províncias do noroeste da Espanha, palatium evoluiu para pazo, que equivale a nosso paço. Designa um solar, uma casa suntuosa.

Pazuello seria, pois, o diminutivo de pazo = um pequeno solar, um palacete. O nome é curiosamente de formação híbrida. Embora o núcleo seja galego (pazo), o sufixo uello é castelhano legítimo. Em galego, diminutivos se constroem com o sufixo iño, que corresponde a nosso inho. Portanto, seria de esperar um Paziño (Pazo + iño).

Híbrido ou não, neste ponto, surge um problema. O sobrenome é raríssimo. Tão raro que, vasculhando a lista telefônica da Espanha inteira, não se encontra ninguém que o ostente.

No entanto, ele aparece no Dicionário Sefaradi de Sobrenomes, obra compilada por Paulo V. Faiguenboim & alia, ao lado de variantes tais como Pazuelo (com um L só) e Pazuelos (com S no final).

Sefardis são os judeus espanhóis. Eles foram expulsos do país em 1492 pelos reis católicos, o que explica o desaparecimento do nome na Espanha. É concebível que o general seja descendente de uma dessas famílias forçadas ao exílio quinhentos anos atrás.

Rio Quiroga, província de Lugo (Galiza, Espanha)

Queiroga (o que chega)
O sobrenome Queiroga é variante do tronco principal Quiroga. É um topônimo, ou seja, um nome geográfico. Na realidade, é o nome de um riacho afluente de um riozinho chamado Sil que, por sua vez, deságua no caudaloso Rio Minho – que marca a fronteira entre Espanha e Portugal. O Vale do Quiroga fica na região da Galícia, situada no nordeste da Espanha. Quiroga é também o nome de um vilarejo à beira do rio.

É bem provável que, cerca de 700 anos atrás, longínquos antepassados de nosso ministro tenham um dia deixado a aldeia de Quiroga para se estabelecer noutro vilarejo nas cercanias. Era um tempo em que ninguém tinha ainda sobrenome. A família acabou ficando conhecida como «os [que vêm] de Quiroga», denominação que, com o tempo, foi abreviada.

Quirogas, na Espanha de hoje, há numerosos. No entanto, na lista telefônica, só encontrei uma pessoa que tem por sobrenome a variante Queiroga. É sinal de que não são multidão.