As mágoas do Lula

by Gilmar Fraga (1968-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

Muita gente, inclusive este escriba, considera que Bolsonaro tem uma visão distorcida do que sejam relações humanas. Confunde afinidades pessoais com relação entre nações. Acredita que o relacionamento do Brasil com países estrangeiros está irremediavelmente vinculado às relações pessoais que ele possa ter com os governantes desses países.

Enquanto Donald Trump era presidente dos EUA, chamava-o de amigo, nunca escondeu seu fascínio pelo personagem e mostrou claramente acreditar que as relações entre Brasil e EUA dependiam dessa “ligação carnal” entre supostos amigos. Enquanto o “amigo” esteve na Casa Branca, fez diversas visitas ao país de Tio Sam, pouco importando o pretexto para a viagem. Desde que Trump se foi, nunca mais quis saber de conversa. É verdade que não foi convidado, mas tampouco consta que tenha convidado Biden para tomar um café com pão e leite condensado no Planalto.

Foi à Rússia e disse que Putin e ele professam os mesmos valores(!). Foi à Hungria e chamou Orbán de irmão(!). Tem agido como se as relações exteriores do Brasil só funcionassem com nações comandadas por “amigos”. Essa visão redutora das relações internacionais pode servir para alimentar sua bolha de fanáticos, mas é nociva ao país.

Em artigo deste sábado, a jornalista Bela Megale conta algumas tristezas do Lula, antigo presidente do Brasil. Diz que o homem está ressentido com o comportamento de Dias Toffoli. Entre outras reclamações, está desagradado com a proximidade de Toffoli com Bolsonaro, fato que incomoda o demiurgo de Garanhuns. O Lula reclama ainda dos entraves postos por Toffoli no dia em que, ainda encarcerado, solicitou ser liberado por algumas horas para acompanhar o enterro de um irmão.

É bom lembrar que o atual ministro do STF foi advogado do PT e advogado-geral da União (AGU) durante o governo do Lula. Se hoje ocupa uma poltrona no STF, é por ter sido nomeado justamente pelo antigo presidente.

As mágoas do Lula são inquietantes. Ele demonstra estar sintonizado com Bolsonaro na mesma visão de um mundo dividido entre “os meus compadres” e os outros. Formam um par perfeito. Ao indicar Toffoli para o STF, o Lula tinha a certeza de ter “comprado” um juiz para defendê-lo fiel e incondicionalmente para o resto da vida. Essa esperança é idêntica à que Bolsonaro deposita nos pupilos alçados por ele ao STF: o “terrivelmente evangélico” e o “terrivelmente dócil”.

Ao dividir personagens políticos e magistrados entre “amigos” e “inimigos”, Lula dá mostra de agir exatamente como o capitão. A bem da verdade, ressalte-se não há que se espantar; essa faceta do ex-presidente já era conhecida. Nas diversas ocasiões em que foi a Havana louvar os bondosos irmãos Castro e à África incensar ditadores corruptos, Lula já tinha deixado evidente sua maneira de enxergar o mundo.

Entre os dois adeptos do compadrio desbragado – o Lula e o capitão –, está cada dia mais difícil separar o joio do trigo. Só se vê joio. Trigo mesmo, que é bom, anda em falta.

Quem tem medo de Bolsonaro?

Avaliação do governo Bolsonaro
Pesquisa Datafolha publicada em 17 set° 2021

José Horta Manzano

A última pesquisa Datafolha sobre as perspectivas da eleição presidencial do ano que vem traz muitos ensinamentos. Novidades, quase nenhuma – se há, não há nada abracadabrante.

A tendência verificada nas análises publicadas nos últimos meses por todos os institutos sérios é sempre a mesma. O viés de baixa de Bolsonaro é relativamente lento, mas parece inexorável. Já o Lula continua imperial, flutuando sozinho por cima de uma massa de candidatos indefinidos e não-declarados.

No ano passado, muita gente contava com a memória ultracurta do brasileiro. Acreditava-se que, jugulada a pandemia, todos esqueceriam rápido a montanha de mortos e Bolsonaro recobraria popularidade. Não é o que se verifica.

A pademia, jugulada, não está; mas que arrefeceu, arrefeceu. A média de mortos caiu a menos da metade do que foi nos piores momentos. Até a frequência com que se ouvia o epíteto de “genocida”, dirigido ao capitão, diminuiu. Mas, infelizmente para ele, esse esperado esquecimento não se reflete nas pesquisas.

É sinal de que o problema do presidente é mais profundo que isso. A pandemia só fez agravar a situação dele. Até na comunidade neopentecostal, o apoio tem diminuído. Nem perspectiva de nomeação de um juiz “terrivelmente evangélico” para o STF tem ajudado. Os PMs, no feriado do 7 de Setembro, não deram nem um passo, nem um pio.

Com a perspectiva de autogolpe praticamente descartada, evangélicos pulando do barco e PMs sem ânimo de subir a bordo, não se vê, neste momento, o que é que poderia impulsionar a reeleição do capitão.

E o Lula que se cuide. Basta surgir um candidato de terceira via razoavelmente forte pra ele também ficar pra trás. Embora não tão astronômica quanto a de Bolsonaro, a taxa de rejeição do ex-metalúrgico também é elevada.

Os próximos meses dirão. Mas o caminho não está fácil nem para um nem para o outro. Para o capitão, todo esforço parece furo n’água. Quanto ao Lula, ainda vai precisar comer muita buchada de bode pra se fortalecer.

Comentário de um leitor da Folha, ao pé do resultado da última pesquisa Datafolha: “Espero que o Brasil tenha aprendido as consequências de eleger um meme.”

Terrivelmente cristão

José Horta Manzano

Outro dia, doutor Bolsonaro usou o advérbio terrivelmente ao sugerir que poderia nomear um ministro de confissão neopentecostal para o STF. Declarou, sem pestanejar, que queria alguém ‘terrivelmente evangélico’. O grande público recebeu a notícia boquiaberto, mormente porque ele não pontuou a frase com o característico ‘talquei’.

O presidente reincidiu no último fim de semana. Falando ao público presente a um culto neopentecostal, confirmou que o advogado-geral da União é pastor e ‘terrivelmente evangélico’. Pra coroar o discurso, declarou-se ‘terrivelmente cristão’, sob uma chuva de aplausos do auditório cativo. E lá veio o ‘terrivelmente’ de novo. Gostaria de sugerir ao presidente modificar, da próxima vez, o palavreado, que me parece impróprio.

Terrível é palavra irmã de terror, ambas derivadas do verbo latino terreō, que significa fazer tremer, meter medo, causar terror. Propriamente, a boa definição do terror é o medo grande, assinalado pela cor pálida, que provoca tremedeira nos membros e faz dobrar os joelhos.

by Frédéric ‘Hephez’ Simon, desenhista francês

Quando doutor Bolsonaro se diz ‘terrivelmente cristão’, é de bom-tom acreditar que não tenha intenção de botar medo em ninguém, nem de causar tremedeira e obrigar o bom povo brasileiro a dobrar os joelhos. (Cá entre nós, ainda que ele tivesse esse desejo oculto, não ousaria externá-lo assim, sem mais nem menos, aos ouvidos de todos.)

Portanto, nem que seja pra salvar as aparências, sugiro ao presidente que, de uma próxima vez, abandone o ‘terrivelmente’. Pra ficar em família, pode usar outra derivação do mesmo verbo terreō: o particípio perfeito térritum, que deu em português as palavras intérrito e impertérrito. Concordo que são pouco usadas, mas valem o que valem. Ambas têm o mesmo significado: que não tem medo, que não sente terror, ousado, bravo, valoroso, intrépido, impávido, valente.

Se doutor Bolsonaro, ousado como é, se declarar ‘cristão impertérrito’ vai causar frisson. Jornalistas hão de correr para o dicionário pra ver o que é. Assim tudo termina em paz: ele acaba usando derivação do mesmíssimo verbo ao qual está acostumado e, de quebra, em vez de dizer que provoca terror, estará dizendo que não sente medo. É autovalorizante, não? Ele vai abafar, como se dizia antigamente. Declarar-se valente combina com o espírito do capitão. Convém não terminar a frase com o irritante ‘talquei’, senão estraga tudo.