Devo ter perdido um capítulo

José Horta Manzano

Faz tempo que cogito sobre as razões que levam nosso impagável capitão ao negacionismo. Louco, a gente sabe que ele é; mas ninguém ainda o viu babando. Portanto, uma réstia de razão deve ter sobrado naquela cachola.

Posso entender a atitude dos que o seguem – comportam-se tipicamente como maria vai com as outras; quem age assim, simplesmente executa o que seu mestre mandar e pronto. Mas tenho dificuldade em captar o real objetivo de Bolsonaro. Afinal, seu mestre é ele mesmo! Ou não seria?

No começo da pandemia, muita gente (que hoje faz de conta que estava cochilando) também imaginou que a covid ia desaparecer tão rápido como chegou. Alguns, famosos, chegaram a dar entrevista afirmando que o Brasil chegaria a 2 mil mortos, não mais. Até aí, dá pra entender.

Acontece que tempo passou, mais tempo passou, muito tempo passou. Chegamos a 600 mil mortos, que não tem como esconder. Milhares e milhares de empresas fecharam. Milhões perderam o emprego. E o capitão continua negando a realidade!

Ainda outro dia, em “discurso” pronunciado na ONU, voltou a bater o pé ao receitar remédios perigosos para a saúde de quem já estiver doente de covid. Como se não bastasse, proclamou aos quatro ventos que ele, pessoalmente, não estava vacinado e que não tinha intenção de espichar o braço.

Portanto, além do medo da agulha, alguma razão há de haver. Só que essa razão me escapa. Se alguém tiver alguma ideia, mande cartas para a redação. Agradeço desde já.

Observação
Na mesma cartinha, se puder, me dê sua versão das razões que levaram (ainda levam?) a empresa de “saúde” Prevent Senior a tomar pacientes de covid como cobaias sem consentimento (nem do doente, nem da família). Por que razão administraram (ainda administram?) medicamentos nocivos à saúde? A intenção era acelerar a agonia dos infelizes que já estavam dando mais despesa que lucro, liberando assim o leito para o próximo coitado? E por que razão omitiram (ainda omitem?) o nome da covid ao estabelecer atestado de óbito?

Não mandem cartas demais, porque, neste país, a jurisprudência ensina que réus podem até ser inocentados por excesso de provas. Já aconteceu.

9 pensamentos sobre “Devo ter perdido um capítulo

  1. Seria preciso um tratado de fôlego – filosófico, psiquiátrico, político, sociológico – para explicar as razões do negacionismo dessa figura inominável, mas insisto na minha tese: ele aspira ao posto de visionário, o único líder mundial que apostou numa “verdade” científica que ninguém mais viu. Quer vencer e convencer “against all odds” – não importam as evidências em contrário, se um dia ficar comprovado que ele estava certo e todo mundo estava errado, ele será aclamado universalmente como sábio audaz (meio na linha de Einstein, que comprovou que o infinito ficava logo ali na esquina). Quanto à Prevent Sr,, aí já é caso de formar um novo Tribunal de Nuremberg. Manipulação perversa é o sobrenome e a missão da empresa.

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    • Entendi e não teria dificuldade em concordar com sua explicação sobre o comportamento do capitão.

      Já quanto à empresa de “saúde”, faltam as razões. Por que fizeram (estão fazendo?) isso? Por ideologia? Para eliminar clientes não-rentáveis e, ao mesmo tempo, liberar leitos? Para agradar ao capitão? Se for para agradar ao capitão, por que razão? Interesse financeiro? Pagamento adiantado de proteção para encobrir outros crimes inconfessáveis?

      É, acho que temos aí farto trabalho peritos como os de Nuremberg. Ou de Haia.

      (A Redação agradece pela contribuição.)

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      • Pelo que testemunhou na CPI a advogada dos médicos demitidos da Prevent Sr. por não concordarem com esse estado de coisas, havia uma espécie de “acordo de proteção” [contra demandas judiciais] com o ministério da Economia [para que todos voltassem ao trabalho imediatamente e não comprometessem a economia] e indiretamente com o Planalto (através do gabinete paralelo da Saúde que deveria sustentar teoricamente a viabilidade de uso do kit covid) para que Bolsonaro fosse reeleito em 2022. Essa empresa cresceu exponencialmente sob a égide de JMB e também por ser a única a investir exclusivamente no segmento de idosos, justamente os mais atingidos pela pandemia, praticando preços abaixo do mercado – o que permitiu que ela multiplicasse sua carteira de clientes, atraindo os mais carentes. Sejamos claros: quem se importa se um velhinho aposentado, sem familiares esclarecidos, morreu disto ou daquilo?

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        • Algo me escapa. Se essa empresa “de saúde” é voltada para o segmento de idosos, é legítimo supor que a maior parte dos clientes estejam aposentados. Se estão aposentados, como falar em “voltar ao trabalho imediatamente para não comprometer a economia”?

          Tem mais carne debaixo desse angu.

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          • Certamente. Mas, se você lembrar da proposta de confinamento vertical (isto é, só para idosos, crianças e pessoas com comorbidades) que Bolsonaro e o ministério da Economia apresentaram, vai perceber que o uso indiscriminado de cloroquina estava por trás da ideia de volta imediata ao trabalho – meio na linha de “se a cloroquina funciona para os velhinhos, você também pode se valer dela para não ficar doente e ir trabalhar. Não precisa usar máscara, nem evitar a aglomeração nos transportes urbanos”. Por assim dizer, a Prevent Senior se ofereceu e se comprometeu em “testar e comprovar a eficácia” do Kit Covid para dar legitimidade à tese do capetão.

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            • De toda essa tragédia, resta um consolo: o capitão perdeu em toda a linha.
              1) O kit covid não funciona.
              2) Mais de meio milhão de vidas se foram, sem contar os que sofreram durante dias, semanas ou meses e guardarão sequelas pela vida toda. Cada um representa, no mínimo, meia dúzia de novos inimigos para Bolsonaro. Talvez bem mais que isso.
              3) Sem o empenho e a cabeça-dura do capitão, não haveria CPI da cloroquina. E Ricardo Salles ainda estaria derrubando árvore e roubando madeira.
              4) Com ou sem ajuda de Prevent Senior, foi tudo para o vinagre. Lembrando que tem muita gente fina que perdeu pai ou mãe nessa bandalheira, imagino que não fique tudo por isso mesmo.

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      • Não por coincidência, a manchete de hoje no UOL é que o Ministério Público de SP arquivou 3 denúncias contra a Prevent Sr há mais de um ano sem qualquer investigação

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  2. Bom dia a todos. É interessante como geralmente tratamos de maneira um tanto simplista e até inofensiva as pessoas que agem de forma criminosa. Não é difícil testemunharmos gente que chame Bolsonaro ou Hitler de “louco”. Modestamente, creio que esses homens estão longe dessa atribuição. Contrário a essa visão poética do louco, eles são medonhamente perigosos. Quando visitamos clínicas psiquiátricas, vemos claramente o que significa a loucura e devo admirir que nem Bolsonaro e nem Hitler possuem tais anomalias psíquicas. Talvez o termo louco usado entre nós, para lidar com esses “líderes” seja algo simbólico ou metafórico, todavia desvirtuamos o poder do nome e do que ele representa, “o estado de loucura no ser humano”. Algo que é muito grave. Bolsonaro não é louco. Ele é extremamente consciente. E perigoso. Exatamente como os que estavam sentados na cadeira de presidente antes dele: Dilmão, Luiz Inácio, Temer, Collor, FHC, Sarney. Todos eles nefastos.

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    • Olá, Toni! A Redação agradece pela colaboração. É interessante conhecer opiniões variadas. Concordo quando você diz que tratar o capitão de ‘louco’ é quase um elogio (ou uma ofensa a loucos verdadeiros).

      Mas então, se louco não é, quais são seus objetivos – na sua opinião – ao comportar-se assim? Faz isso pelo doentio prazer de “cancelar CPFs” de baciada? O que é que move suas atitudes?

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