Sarnentos

José Horta Manzano

Décadas atrás, chamar alguém de “sarnento” era ofensivo. Não sei se esse xingamento ainda sobrevive no balaio de mimos atuais. No universo dos pré-adolescentes de antigamente, “sarnento” concorria com “leproso” e “peste bubônica”, finezas que evocavam doenças desaparecidas ou em via de extinção.

A sarna animal ainda persiste e ataca cachorros de rua. É doença de pele causada por um ácaro. A região infectada coça intensamente. De tanto se coçar ou se mordiscar, o cão acaba provocando feridas. Dá pena ver. Mas não se assuste: sarna animal e sarna humana são obra de ácaros diferentes. Ninguém pega essa doença de um cachorro. Em nosso país, a melhora nas condições de higiene fazem que a sarna humana esteja pouco a pouco desaparecendo.

Faz alguns dias, a mídia voltou a falar dos “náufragos do aeroporto”. Refiro-me aos refugiados afegãos que, ao cabo de um roteiro penoso, demorado e perigoso, chegam a Guarulhos – o mais importante aeroporto da América do Sul – e, não tendo para onde ir nem dinheiro para se virar, por lá permanecem encalhados. Adultos, anciãos, crianças são obrigados a dormir no chão, sobre cobertores ou colchonetes puídos. Alimentam-se do que a caridade de funcionários lhes oferece. Não têm como tomar banho nem cuidar da saúde.

Se a triste história daquelas dezenas de infelizes saiu nos jornais é porque estavam começando a representar um perigo para a saúde pública: praticamente todos eles estavam com sarna, doença altamente contagiosa que se transmite por simples contacto.

Me pareceu estranho que tantos refugiados consigam chegar ao Brasil e, em seguida, que o aeroporto seja o fim do caminho, sem perspectiva de seguir adiante. Coisa esquisita, não? Como é que entram no país? Com visto ou sem?

Não foi preciso pesquisar muito. Fiquei sabendo que esses afegãos são titulares de visto humanitário concedido por representação brasileira no exterior. Fiquei sabendo também que o Brasil concedeu mais de mil vistos a afegãos candidatos a asilo. Mas entendi também que a generosidade do Itamaraty é parcimoniosa: fornecem visto aos infelizes mas, para o resto, eles que se virem.

Essa gente teve de vender tudo o que tinha (que não era grande coisa) e lançar-se em aventura complicada. Deixar o Afeganistão já é arriscado; passar fronteiras até chegar a um aeroporto de onde possam voar para o Brasil é programa perigoso, especialmente para quem tem poucos recursos e ainda por cima leva mulher e filhos pequenos.

Para os que conseguem chegar ao Brasil, a “acolhida” é uma pancada na cabeça. Ninguém os espera, não há estrutura de apoio, não há quem lhes dê um teto, não há quem pense em proporcionar-lhes alimentação, curso de língua, cuidados de saúde. Nada. Nothing. Nulla.

A Prefeitura de Guarulhos tem um abrigo, mas alega que está lotado. Assim sendo, os recém-chegados ficam à mercê de algum milagre, num país estranho, com língua estranha, comida estranha, dormindo no chão. E transmitindo sarna uns aos outros.

Na verdade, não acredito que tenham apanhado essa doença em Guarulhos. É muito provável que já a tenham trazido do exterior e que a promiscuidade do acampamento no aeroporto só tenha feito aumentar o contágio.

E pensar que, na virada do século 19 para o século 20, quando aportavam 70 mil imigrantes por ano, o Brasil estava mais bem aparelhado para recebê-los. Embora o país fosse muito mais pobre que hoje, as autoridades se entrosaram e foram capazes de oferecer acolhida digna para os que chegavam. Não se tem notícia de que, por falta de assistência, imigrantes tenham sido obrigados a dormir no cais do porto ou se cobrir com andrajos e se alimentar de doações de almas caridosas.

Depois que a mídia relatou o escândalo, rapidamente as autoridades se mexeram e instalaram os náufragos de Guarulhos numa colônia de férias à beira-mar. Tem afegão que passou 20 dias acampado no aeroporto. Agora estão sendo cuidados – vamos ver até quando. Enquanto isso, novas levas continuam chegando ao Brasil.

Ninguém se refugia em outro país de coração alegre. Se um indivíduo deixa o país de origem e se aventura do outro lado do mundo, num lugar estranho, não é por espírito de aventura juvenil. É porque as coisas estão muito muito feias. Os motivos são diversos: guerra, violência, fome, perseguição religiosa ou étnica.

Se nosso governo federal concede visto humanitário, não deve lavar as mãos e achar que já cumpriu sua obrigação. A acolhida de um refugiado é muito mais que um carimbo num passaporte.

Lá pelos anos 1980, entre os fundadores do Partido dos Trabalhadores, vários haviam conhecido as agruras do exílio. Haviam conhecido na própria pele o drama de chegar numa terra estranha, sem lenço nem documento, empurrado pelo destino.

Seria interessante que os petistas, que atualmente detêm o poder, tornassem a encarnar o espírito universalista de que são herdeiros. Que desçam do pedestal da glória passageira e deem uma mão aos pequeninos.

Lula… ambíguo?

O Globo, 8 jul 2023

José Horta Manzano

Li ontem um artigo que discorria sobre a relação mantida por Lula com ditaduras mundo afora, em especial com as latino-americanas. Não contesto o pensamento do autor, o que me incomoda é o título: “Lula é ambíguo com ditaduras”. Não é descrição adequada.

O dicionário esclarece que “ambíguo” é o que desperta dúvida, que admite interpretações diferentes e até contrárias. O comportamento de Lula com relação a qualquer ditadura não é nada ambíguo – é constante, claro e cristalino. Desde quando ele fundou o Foro de São Paulo, trinta anos atrás, sua posição não se moveu nem um milímetro. Todo regime ditatorial desperta sua simpatia.

Há que partir do princípio de que ditadura é ditadura, sem essa de “ditadura de esquerda” ou “ditatura de direita”. Quando se suprimem o direitos dos cidadãos a escolher seus representantes de forma justa, quando a imprensa livre é cerceada ou suprimida, quando a liberdade de ir e vir é entravada, tanto faz que o ditador se proclame de “direita” ou de “esquerda” – sempre ditadura será.

Lula nunca deu o menor sinal de ambiguidade nesse sentido. Nunca escondeu suas simpatias. Com grande desenvoltura, ele outro dia recebeu em palácio o mandachuva da Venezuela.

Ao regressar do Vaticano, pediu, com indisfarçada hipocrisia, que o ditador da Nicarágua libertasse “o bispo”, transmitindo assim um recado do papa. Digo que foi atitude hipócrita porque o mundo inteiro está sabendo que dezenas de membros do clero estão atrás das grades naquele país, todos perseguidos por serem religiosos. Lula, o falso humanista, só falou do “bispo”, com certo enfado, como se os demais não existissem.

A admiração que Luiz Inácio sente por autocratas é forte. Se ainda não foi visitar meia dúzia deles – Putin, Maduro, Ortega, os sucessores dos bondosos irmãos Castro – é porque assessores devem tê-lo retido pela manga.

Não é possível perceber ambiguidade na simpatia que nosso presidente demonstra por ditadores e autocratas em geral. Os Estados Unidos, por seu lado, são o fantasma que vem assombrando sua vida desde a juventude. A forte antipatia que Lula sente pelo grande irmão do norte é palpável, impregnada, inalienável.

Talvez seu cérebro ressentido veja, na proliferação de ditadores ao redor do mundo, uma forma de abalar o país detestado.

Multas

José Horta Manzano

Jair e Eduardo, os dois membros do clã Bolsonaro que mais amam afrontar a lei, pintaram e bordaram durante os quatro anos em que Jair permaneceu no topo do poder. A cada oportunidade que se apresentou, pai e filho carteiraram: ignoraram regulamentos, prescrições e leis. Foi como se as regras que organizam a vida em sociedade tivessem sido criadas só para a ralé. Eles, gente acima da carne seca, estavam isentos de se curvarem.

O pai, escorado em suas prerrogativas de função, fez mais que o filho. Desafiou mundos e fundos. Não se passou uma semana sem que deixasse marca de incivilidade, no limite da selvageria. Sem máscara (quando seu porte era obrigatório), espalhou perdigotos e carregou crianças no colo. Sem capacete, liderou “motociatas”. Se não zombou mais da lei é porque não teve ocasião.

O capitão foi vítima do mal que castiga toda pessoa de poder: a (ilusória) sensação de onipotência e de imunidade eternas. Como sabemos hoje, ele persistiu nessa crença até seu último dia de mandato. Decolou para os EUA na certeza de que seu poder se prolongaria, que seus antigos comandados se rebelariam e que ele voltaria nos braços do povo, Ou na garupa de um blindado das Forças Armadas, tanto faz.

Furou. Não sei se a ficha já caiu, mas o clã perdeu. E perdeu feio. Não só o sonho de um futuro de poder e imunidade desabou, como também estão chegando as cobranças de um passado delituoso. Com a condenação à inelegibilidade, o ex-presidente já levou a primeira pancada. Outras vêm por aí.

A Justiça do estado de São Paulo está tratando de cobrar as multas que os Bolsonaros acumularam por desprezar o uso da máscara no tempo da covid. Consolidada e atualizada, a conta do capitão chega a um milhão de reais. A do filho desordeiro é mais modesta: 130 mil reais. Os dois contestam naturalmente. Não sei se vão conseguir alguma clemência, imagino que não. Agora o capitão virou cidadão comum e o n°03, embora continue deputado, não tem mais pai presidente.

Acho excelente que a Justiça não tenha deixado pra lá. Acho melhor ainda que estejam insistindo na cobrança. E espero que levem o processo até o fim. Sei que os dois personagens estão escudados pela robusta fatia de fundo eleitoral que toca ao partido deles e imagino que, no fim da aventura, o boleto acabe sendo pago pelo próprio partido.

Assim mesmo, a cobrança é exemplar. Por um lado, serve para mostrar aos Bolsonaros que realmente perderam, e que mais vale se recolherem a sua insignificância. Por outro lado, serve de aviso para incautos que possam imaginar que um eventual momento de poder os blindará pelo resto da vida. É ilusão.

Mas – que fazer? – dizem que o ser humano é o único animal capaz de repetir os próprios erros.

Militância de sofá

José Horta Manzano

Bolsonaristas não são militantes políticos no sentido tradicional. O asfalto não é seu terreno. Preferem o conforto de um sofá macio de onde possam mexer os dedinhos, navegar por redes sociais e juntar-se a “patriotas” que pensam todos igual. Slogans e invectivas não são lançados pela boca, mas dedilhados no celular. É bem mais maneiro; desfilar debaixo de sol ou chuva é coisa de pobre. (Disclaimer: é ironia.)

Banido de todo cargo eletivo aos 68 anos, Bolsonaro está praticamente fora do jogo político para sempre. Só poderá voltar aos 75 anos, idade em que quase todo cidadão costuma estar em casa curtindo reumatismo e artrose de chinelo e pijama. Se a cabeça estiver funcionando, naturalmente.

Este escriba não frequenta redes sociais. Não por desamor, mas por achar que não são da minha idade. Um artigo do jornal O Globo publicado na esteira da condenação do capitão informa o seguinte: “um monitoramento interno do TSE, que acompanha eventuais ameaças à integridade dos ministros do tribunal, constatou um ambiente de calmaria nas redes bolsonaristas”.

É de causar espanto a ausência de reação dos devotos diante da condenação do “mito”. Parecem ter baixado os braços. Não se vê movimentação nem nas ruas nem nas redes. É de deixar encafifado. Se o apoio dos partidários de Bolsonaro é assim tão frágil e superficial, como é possível que tenham armado aquela batalha campal do 8 de janeiro? Terão sido realmente adeptos ou quem sabe se tratava de militância remunerada? (Essa é pra pensar em casa.)

Mas há males que vêm pra bem. A constatação de que a fidelidade dos apoiadores do ex-presidente é curta e frágil dá aos tribunais superiores uma dica de como agir na análise da pilha de processos que o capitão carrega nas costas. Se as reações ante a condenação pelo TSE foram tão minguadas, não há por que hesitar quando vier a hora de abrir-lhe as portas da Papuda.

Até algum tempo atrás, temia-se que eventual prisão de Bolsonaro pudesse provocar comoção nacional. Vê-se hoje que não é bem assim. O máximo que seus fãs saberiam fazer é armar tempestade dentro das redes. Nas ruas, nem um pé. O bicho é manso. As coisas mudaram. Ou teremos sido nós que, por prudência, havíamos exagerado nossos temores?

Podem jair preparando o camburão.

Inelegibilidade

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Talvez o distinto leitor e a encantadora leitora se recordem de um caso escabroso, ocorrido uns dez anos atrás, envolvendo um médico que acabou condenado a quase 300 anos de prisão por abusar sexualmente de pacientes. Paralelamente, o Conselho de Medicina decidiu anular seu direito de exercer. Seu registro de médico foi definitivamente cassado.

Um caso mais recente envolveu outro médico, um anestesista, filmado enquanto estuprava uma paciente anestesiada – uma história abjecta. Também esse perdeu definitivamente o direito de continuar a exercer. Pode até sair da cadeia um dia (certamente sairá), mas terá de procurar outra profissão.

É longa a lista de profissionais, não só da área médica, que perderam o direito de exercer em consequência de terem desonrado a profissão.

Jair Bolsonaro está sendo julgado por flagrante desvio de conduta cometido enquanto exercia a Presidência do país. O caso mais notório foi aquele “brienfing” para o qual convocou dezenas de embaixadores lotados em Brasília para “revelar-lhes” que o sistema eleitoral brasileiro era um jogo de dados viciados, verdadeira roleta fraudada.

O veredicto ainda não saiu no momento em que escrevo, mas observadores acreditam que o ex-presidente será julgado culpado, e que a pena será a perda de seus direitos políticos. Trocado em miúdos, talvez continue a ter o direito de votar, mas não poderá ser votado. O curioso é que a pena é limitada no tempo: vale somente por 8 anos.

Esse homem deu provas, durante quatro longos anos, de não estar apto para exercer a Presidência do país. Se está recebendo essa pena, não é por castigo – é o país que se protege contra um indivíduo que atentou durante seu inteiro mandato contra as instituições. O capitão não é culpado por ter escorregado uma vez, quiçá sob efeito de uma qualquer medicação. Seu problema é incrustado, permanente e incurável.

Sabe-se que, ainda nos longínquos tempos de capitão da ativa, já planejava explodir instalações do Exército. Durante seus anos na Presidência, fez o que pôde para explodir o Estado brasileiro. Seu caso não tem solução. Afastá-lo por 8 anos dá alívio temporário mas não resolve. Ele periga voltar para chacoalhar o coreto em 2030.

Imagine você se, no caso dos médicos indignos, fosse dado um “castigo” de 8 anos. Seria apenas uma suspensão temporária. Findo o prazo, eles voltariam à carga com todo o risco que isso comporta. A cassação do direito de exercer não deve ser vista como punição, mas como medida de proteção da sociedade.

No caso de um ex-presidente, permitir que ele um dia possa voltar ao lugar do crime para cometer as mesmas barbaridades pelas quais foi condenado é temeridade. Seus direitos políticos teriam de ser cassados definitivamente. Para sempre. Em seu caso, não há esperança de remissão.

IPVA

José Horta Manzano

Os adjetivos automotor, automotivo e automóvel são sinônimos. Veículo automotor (ou veículo automotivo ou ainda veículo automóvel) é aquele cujo movimento é gerado por motor próprio. Sendo assim, com a exclusão de patinete tradicional, bicicleta sem motor, barco a vela, triciclo infantil e mais alguns outros, os veículos que povoam nossas estradas, nossas águas e nosso ar são todos automotores.

IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores) é, como seu nome indica, o imposto que deve pagar todo proprietário de um veículo automotor.

Li outro dia que o projeto de reforma tributária que está atualmente em discussão propõe que jatinho (private jet) e barco a motor entrem para a lista de veículos sujeitos ao pagamento de IPVA.

Perdi o fôlego. Como é que é? Quer dizer então que, até esta data, proprietários de private jet e de jet ski sempre estiveram livres de pagar o boleto do IPVA?

Tudo indica que sim. Vê-se que essas normas foram estabelecidas pelos do andar de cima, os que fazem as leis do país. Todos, por coincidência, grandes entusiastas de jatinho privado e de lancha veloz.

E assim vai o Brasil, uma república em busca de leis republicanas.

Burrice?

José Horta Manzano

Advertência
Este artigo foi escrito antes do pedido de desculpas feito no domingo pelo capitão.


 

Quando a burrice é demais, a gente desconfia que alguma coisa está errada.

Bolsonaro passou seus quatro anos de mandato escancarando sua ignorância e sua lentidão mental. Em certos momentos, sua lerdeza de raciocínio pareceu tão exagerada que muita gente acreditou que ele estivesse forçando a caricatura. Não estava. As revelações sobre sua trama de dar golpe de Estado para permanecer no poder provam o contrário: não havia intenção de parecer mais burro do que era; o que ele desejava ardentemente era tomar as rédeas do país à força.

Só que, como diria o outro, aquilo foi o “antes”, e agora estamos no “depois”.

Com parte da curriola atrás das grades e generais varridos do primeiro plano, a realidade aparece em sua crueza: golpe, não haverá. O ex-presidente poderá se considerar premiado se conseguir escapar à Papuda. Não há mais motivo para se fingir de bobo.

Ora, bem. A cinco dias de um julgamento crucial para ele, o capitão continua surpreendendo adeptos e detractores. Numa cerimônia partidária realizada em Jundiaí (SP), Bolsonaro declarou:

“Agora vocês vão cair pra trás. A vacina de RNA tem dióxido de grafeno, tá. Onde ele se acumula segundo a Pfizer que eu fui lá ver aquele trem lá, no testículo e no ovário. Eu li a bula.”

Esclarecimento
A vacina de RNA da Pfizer é uma das que estão sendo utilizadas no Brasil. Sua bula não menciona nenhum composto de grafeno.

Logo, a declaração é mentira cabeluda, daquelas de fazer o nariz crescer daqui até a esquina. Qual é a intenção do capitão? O julgamento da semana que vem tem por objeto aquele malfadado dia em que Bolsonaro convocou embaixadores do mundo todo para contar-lhes uma baciada de mentiras sobre o funcionamento das urnas brasileiras. Se o tribunal concordar com a tese de que o então presidente espalhou feiquiníus que causaram dano à imagem do país, a pena será a cassação de seus direitos políticos (não poderá votar nem ser eleito por 8 anos).

Sua burrice, por mais arraigada que seja, não o impede de perceber que está na corda bamba. Se ainda tem esperança de escapar à condenação, o mínimo a fazer seria não provocar os magistrados que vão julgá-lo.

Em vez disso, Bolsonaro deu mais um giro na morsa que lhe estrangula o futuro político. Por quê?

Tenho cá minha ideia. Talvez o capitão esteja se projetando nas eleições presidenciais de 2026. Talvez entenda que, com as correntes que arrasta, será quase impossível ser de novo eleito. Pra não passar vergonha, prefere que lhe cassem o direito de ser candidato desde já, assim permanecerá como eminência parda de seu partido, sem ter a obrigação de passar pelas urnas para demonstrar força.

Se for isso, até que não é má ideia. Vai continuar recebendo polpudo salário do partido (mais as aposentadorias que acumula), vai continuar residindo em palacete protegido e vigiado, vai continuar usufruindo as regalias de ser ex-presidente. E não precisará provar que é bom de voto. Não é um futuro de paxá?


Nova conclusão
No dia seguinte à declaração, Bolsonaro veio às redes pedir desculpas pelo que disse. Alegou que, sendo ele entusiasta do grafeno, acordou com um nó na cabeça. Acabou misturando algo de que gosta (o grafeno) com algo que odeia (a vacina). E deu no que deu.

Com a ressalva de o ex-presidente ter feito seu pronunciamento sob “efeito de medicamentos”, como já alegou no passado, a nova conclusão é inescapável: o homem é burro mesmo. De uma burrice profunda, congênita, paralisante e afligente.

Eu não imaginava que seu déficit de raciocínio chegasse a esse ponto, mas sinto que não tem jeito. O homem é de uma burrice irremediável.

Mais um privilégio

José Horta Manzano


Em princípio, o que não for proibido é permitido, concorda?


Vamos aos fatos. Na calada da noite de ontem para hoje, a Câmara Federal votou e aprovou um projeto de lei que estabelece punição para quem discriminar políticos. Especificamente, a nova regra coloca instituições bancárias num sapato apertado.

Cometerá crime todo aquele estabelecimento que recusar abrir conta bancária, negar concessão de empréstimo ou ainda bloquear a prestação de outros serviços financeiros a políticos e pessoas “politicamente expostas”. Contraventores arriscarão condenação a penas privativas de liberdade. Dado que não se pode mandar banco para a cadeia, seus diretores sofrerão as consequências do novo crime.

Por um lado, é óbvio que os parlamentares estão legislando em causa própria, o que, em si, já é uma indecência. Por outro, a nova lei quebra a igualdade de tratamento a que todos os brasileiros têm direito, sejam eles políticos, agricultores, doutores ou mascates.

Difícil será demonstrar que, na hora de abrir conta em banco, “pessoas politicamente expostas” tenham mais necessidade de amparo que profissionais de outros ramos. Pelo contrário, o bom senso ensina que um político está mais preparado que um sorveteiro a enfrentar qualquer problema na hora de se entender com a diretoria do banco.

A lei cria uma categoria especial de cidadãos, os “politicamente expostos”, que têm direito a proteção legal para enfrentar estabelecimentos bancários. É mais um privilégio para uma categoria que já tem tantos outros. Nesse sentido, pode-se afirmar sem medo que o novo regramento é discriminatório. Se bancos são obrigados a abrir conta para esses cidadãos, têm de ser obrigados a fazer o mesmo para qualquer cidadão.

Talvez seja pedir muito, mas as excelências que põem regras em nossa vida bem que podiam, por um instante, esquecer conchavos e falcatruas, e pensar no bem do povo e na felicidade geral da nação. No próprio âmbito bancário, há muita lei que está pedindo para ser criada.

Na França, é proibido pagar salário em dinheiro. Todo salário tem de ser depositado na conta do funcionário. Isso descarrega a Justiça. Desaparecem querelas do tipo “Ele não me pagou!”, “Paguei sim, foi em notas de R$20!”. Por que não implementar sistema idêntico no Brasil? Como? Nem todo o mundo tem conta bancária? Ué, mas se a nova lei obriga estabelecimentos bancários a abrir conta para políticos, por que razão não os obrigaria a fazer o mesmo para todos os que solicitassem?

Outra esquisitice brasileira: pagamentos em “dinheiro vivo”. Experimente, em qualquer país europeu, fazer um pagamento de montante importante em “dinheiro vivo”. Dependendo da situação, o distinto pode terminar na delegacia dando explicações: origem, dono do dinheiro, destino, razão do pagamento. Com toda certeza, um inquérito seria aberto. Pagar imóvel com dinheiro vivo? Nem em sonho!

Por que nossas excelências não introduzem essa prática entre nós? He, he… Acho que a resposta é tão evidente, que dispensa explicação.

Avenida Paulista

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José Horta Manzano

Que é isso? Viva Lula? Viva Bolsonaro? Marcha para Jesus? Viva Getúlio? Abaixo Dilma? Estamos todos com Putin? Greve dos metalúrgicos? Estou com o Congresso e não abro? Queremos o passe livre? Abaixo o STF? Exigimos uma terra plana? Não tomamos vacina nem a porrete? Viva o Imperador?

Não, nenhuma das anteriores. É a Parada LGBT. De memória de paulistano, nunca se viu a Paulista tão coalhada de gente. Melhor assim.

Pra que serve um ministério?

Reunião ministerial

José Horta Manzano

Nossa Constituição não é específica ao falar de ministérios e de seus titulares. Parece partir do princípio que as funções desses auxiliares do presidente da República são de conhecimento de todos, portanto não vale a pena se estender em explicações detalhadas.

Vivemos num país de forte tradição cartorial. Já reparou nas intermináveis linhas de palavrório que aparecem na escritura de um lote de 10m x 10m situado num grotão qualquer? É um blablá tão comprido que te dá a impressão de estar comprando um castelo.

O fato é que essa fixação em dar a volta completa, abarcar um tema inteirinho e trancar a porta, sem deixar brecha para interpretações divergentes, acaba sendo perniciosa. Quando uma lei ou um regulamento não vem já esmiuçado, os cidadãos acabam raciocinando de forma extravagante: “Se não é proibido, forçosamente é permitido”.

Pela Lei Maior, a única condição para atribuir a chefia de um ministério é que o titular seja brasileiro. Explicitamente, não há limite de idade, não há exigência de notório conhecimento da área, não há proibição de nepotismo, não há imposição de reputação ilibada, não há obrigação de apresentar certidão negativa de antecedentes criminais.

Segundo nossa percepção, o que não está explicitamente proibido, só pode ser permitido. A razoabilidade não está entre as qualidades principais de nosso andar de cima. Eis por que o ministério do presidente – não só de Lula, mas de todos os predecessores – lembra mais um amontoado de figuras díspares, saídas não se sabe de onde, manifestamente incompetentes para assumir o encargo que lhes foi confiado.

A escolha de ministros não segue um padrão lógico, que vise a colocar o melhor especialista em cada área. Lula, como Bolsonaro, tem distribuído cargos de ministro segundo critérios que pouco têm a ver com qualificação do titular. Amizade pessoal, cumprimento de promessa de campanha, “indicação” de alguém, afiliação a este ou àquele partido – esses são os parâmetros. Como resultado, o conjunto dos ministros dá contribuição importante para que o país continue bloqueado e parado no tempo.

Lula tem ministro encrencado com a justiça, ministro incompetente, ministro apadrinhado por figurão, ministro que requisita avião da FAB para ir a leilão de cavalos. É uma pilha de figurinhas repetidas, daquelas que não têm valor. Há muita figura decorativa com título de ministro.

Como consertar a situação? A solução mais rápida e certeira só pode vir do Congresso, afinal são os parlamentares que fazem as leis. Teriam de ser especificados (e gravados na pedra) os critérios obrigatórios para a nomeação de ministro de Estado. Em país cartorial, as regras têm de ser explicitadas tim-tim por tim-tim.

Palco iluminado

José Horta Manzano

O distinto leitor e a graciosa leitora já devem ter visto foto tirada durante uma sessão parlamentar no exterior. Tirando republiquetas folclóricas, o palco onde se fazem as leis de um país costuma respirar dignidade. Os personagens exalam aquela sensação de comprometimento com o que está acontecendo, de apego aos ritos e à solenidade da hora.

Em nossas terras tropicais – e bonitas por natureza –, funciona assim não. Deputados e senadores vestem paletó e gravata por imposição do regulamento. Não fosse isso, veríamos eleitos do povo adentrar o recinto de bermudão e chinelo de dedo. Com exceção daquele jovem que um dia vestiu peruca amarela pra “lacrar”, nossos parlamentares costumam respeitar a indumentária exigida.

No entanto, se o regulamento fala do modo de vestir, é mudo quanto às atitudes admitidas. Observem a foto que reproduzo acima. Mostra uma sessão da Câmara Federal.

Ao centro, com ar compenetrado, está o presidente da mesa. O resto são figuras cuja presença naquele exato lugar é difícil de explicar.

Uma senhora está à esquerda na foto. Na verdade, ela está sentada à direita do presidente, sinal de que exerce cargo importante. Enquanto fala o chefe, lá está ela grudada no celular, pouco interessada no discurso.

Atrás do presidente, estão plantados seis indivíduos. (Talvez sejam mais numerosos, mas a foto só mostra essa meia dúzia.) Três deles dão as costas para o plenário, desinteressados dos debates mas interessadíssimos em algo que a foto não mostrou. Será uma bíblia? Uma foto de mulher pelada? Um jacaré?

Outros três personagens estão voltados para a plateia. Esses tampouco parecem fazer parte do conjunto de representantes do povo. Dois deles se apoiam, displicentes, no espaldar da poltrona do presidente da Câmara. Todos os três parecem interessadíssimos em espiar o papel onde está escrito o discurso do chefe.

Não sei você, mas eu não aprecio que alguém se apoie sobre a poltrona em que estou sentado, mormente quando é cadeira de escritório, com molejo que chacoalha quando alguém encosta.

Talvez esses chacoalhões expliquem certas decisões esquisitas de nosso Congresso. De fato, certas leis parecem ter sido escritas de cabeça pra baixo.

Goiabada basta

by Arend van Dam, desenhista holandês

José Horta Manzano

Virada a página Bolsonaro e passado o 8 de janeiro, acreditei que as coisas melhorassem. Nem esperava um definitivo “desta vez, vai!”, mas já me contentaria com um esperançoso “parece que sossegou”. Pra quem é, goiabada basta – como diziam os antigos. Do jeito que as coisas estavam, um pouco de silêncio já seria um bálsamo.

No entanto (tem sempre um porém pra atrapalhar), as coisas não parecem estar se endireitando. Se não, vejamos.

Em política externa, Lula se esmerou em escolher o lado errado na crise russo-ucraniana, que chacoalha o mundo.

Em política interna, já manteve no cargo ministro malandro que assalta os cofres do Estado para visitar feira equina. Já catou pelo braço o chefe do MST e deu-lhe a honra de viajar à China de aerolula, afago reservado a poucos.

Apesar de ter jurado retornar à decência republicana, Luiz Inácio, até agora, falhou. O cidadão esperançoso que aguardava nítida melhora desde o 1° de janeiro ficou com a goiabada mesmo. Sem queijo.

É verdade que acabaram ataques às urnas, às instituições, à mídia e às minorias. Por seu lado, porém, conchavos, condescendência para com assessores duvidosos e posicionamentos do lado errado da História continuam na ordem do dia. Como nos tempos do capitão.

Faz poucos dias, Lula deu a entender que quer porque quer furar poço de petróleo na região amazônica. Nos tempos atuais, é decisão estapafúrdia, que renega as juras de parar de agredir a fabulosa natureza brasileira, promessas feitas por um Lula candidato. Muita gente tinha acreditado – inclusive e principalmente no exterior.

Está também no capítulo agressão à natureza o “desconto” concedido a comprador de carro novo. Na verdade, desconto não é, pois não passa de supressão de imposto. E imposto, se não for pago por este, terá de ser pago por aquele. Do bolso do presidente é que não sai. O mundo se dirige a um futuro descarbonado, e eis que o Brasil incentiva a compra de carros de motor térmico. Faria sentido dar desconto para carro elétrico (ou a hidrogênio, ou a vento), mas desconto pra carro tradicional não tem cabimento.

Na mais recente façanha do andar de cima, há participação atuante do Congresso. Como todos já sabem, nossa política para o meio ambiente, cujo melhor trunfo foi a nomeação de Marina Silva, está sendo suprimida e sucateada por nossos próprios parlamentares. Numa operação nada sutil, estão desidratando os poderes dos ministérios onde se decidem as ações dedicadas ao desenvolvimento sustentável e respeitoso do meio ambiente. Francamente, contando, ninguém acreditaria.

O Brasil de 2023 está se saindo parelho ao Brasil de 2019. Cara de um, focinho do outro. Quem deseja ver as coisas mudarem de verdade vai ter de esperar 2027 e torcer pra que o estropício atual não seja reeleito e que o estropício anterior não volte. Nem um, nem outro, nem nenhum de seus respectivos capangas.

Clube de amigos?

José Horta Manzano

Está difícil captar a lógica de Lula da Silva no caso da guerra que a invasão da Ucrânia por tropas russas provocou. Analistas de todos os quadrantes – inclusive este escriba – têm atribuído o bizarro comportamento de Lula a diferentes causas: antiamericanismo primário, desejo de ficar na história como aquele que parou uma guerra, necessidade de ser visto como pacificador planetário.

Talvez as palavras e os gestos de nosso presidente reflitam um pouco de cada uma dessas razões. Mas tem mais. Um curto vídeo rodado na abertura da reunião da qual participaram todos os líderes (os do G7 e os de países convidados) revela que, à entrada de Zelenski, todos se levantaram e se dirigiram para acolhê-lo. Lula, fingindo estar entretido na leitura de um documento, nem ergueu a cabeça. Ficou sentado como se tivesse entrado a moça do café.

Lula da Silva não é homem culto. Mas também bobo não é. Se ele tivesse a intenção sincera de “levar a paz” àquela região e minorar o sofrimento de seus inocentes habitantes, sua atitude certamente seria outra. Ao ver, a dois metros de distância, entrar o líder de um dos países em conflito, teria se levantado imediatamente para saudá-lo, apertar-lhe a mão e soprar-lhe no ouvido: “Logo mais, vamos conversar”.

Não foi o que ele fez. Ao se fazer de estátua enquanto o resto dos líderes recepcionava o visitante, deu um recado: “Não vou porque não quero”. Pode-se traduzir por uma frase que criança usava antigamente: “Não sei quem é esse aí, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”.

Em suma, o desaforo que Lula fez a Zelenski não foi gratuito. Tem um motivo, mas qual?

Lula aparenta ter ficado extremamente irritado com a presença do convidado surpresa. Zelenski, popstar conhecido e famoso no mundo todo, ofuscou o papel de protagonista que Lula imaginava assumir. Roubou-lhe a cena. O mau humor de Luiz Inácio é a face visível do ciúme e da raiva que lhe roem a alma.

Dá pra imaginar que, no fundo, o “clube de amigos” que poria fim à guerra na Ucrânia não era o objetivo maior de Lula. Se fosse isso, Luiz Inácio teria agarrado a ocasião de dar um forte abraço no líder do país invadido. O grande objetivo de Lula era dominar a cena do festival, como fazia nos bons tempos em que era “o cara” de Obama. No fundo, para quem dizia querer criar um “clube de amigos”, o procedimento de Lula foi inamistoso e revelou sua falta de sinceridade.

Pois é, os tempos mudaram, mas Luiz Inácio esqueceu de evoluir. A continuar assim, periga nem ser convidado para o G7 do ano que vem.

Bullying

José Horta Manzano

Muita coisa mudou de meio século para cá. Sem dúvida, a sociedade evoluiu. No entanto, observando de outro ponto de vista, percebemos que certos problemas que nos parecem modernos já existem há séculos.

Desde que o mundo é mundo, crianças e adolescentes convivem com o que hoje se chama “bullying”. No passado, o jovem atazanado por colegas de classe podia até não apreciar as gozações, mas a situação não costumava degenerar a ponto de afetar sua saúde mental.

Hoje, vivemos uma época mais controlada, mais vigiada, mais restritiva, em que é bom policiar o que se diz e o que se faz porque qualquer deslize pode dar encrenca. Acosso estudantil sai nos jornais, entra na boca do povo e se torna preocupação de saúde pública.

Nessa linha, o governo do Mato Grosso do Sul acaba de lançar programa de combate à evasão escolar. Uma das medidas chama a atenção: facilitação para que esses jovens tiranizados tenham acesso à cirurgia reparadora. Os conceptores do plano partem do pressuposto que, quando um aluno é maltratado em razão de sua aparência física, a solução é… modificar a aparência física.

Sem querer ser alarmista, tenho de alertar para a chegada ao mundo estudantil do eugenismo que ameaça a sociedade brasileira.

A cirurgia plástica desenvolveu-se a partir dos anos 1920. Sua intenção era reparadora, para acudir soldados que voltavam da guerra com o rosto massacrado e disforme. Atualmente, esse ramo cirúrgico vem se dedicando a corrigir pequenos defeitos da natureza – ou pequenas imperfeições que o paciente acredita ter no corpo.

Vai daí, o império da beleza física é imposto por tique-toques e outras redes. Muitas jovens se fazem preencher os lábios, por exemplo, ainda que uma boca carnuda entre em contradição com um rosto de traços finos. O resultado é por vezes desastroso. Mas assim é. Estamos apostando numa cartilha eugenista, em busca de uma sociedade em que todos se parecem. São reflexos desse movimento que parecem estar chegando à escola.

Segundo o governo do MS, trata-se de um “programa de combate à evasão escolar”. Por baixo do nome ingênuo e suave, enxergo problemas graves. Eis alguns.

O primeiro, como já disse, é a aceitação da tendência eugenista, que nivela a sociedade com base num ser humano idealizado, modelo do qual ninguém tem direito de se afastar. Teorias eugenistas, que obrigam todos os cidadãos a se formatarem no mesmo molde, são vistas com simpatia pelos extremos do espectro político (direita ou esquerda). Tanto o regime nazista na Alemanha quanto o comunista na URSS adotaram essa cartilha de formatação em massa, e correram em direção ao desastre. Sabemos como terminou.

O segundo problema do programa do MS é de ordem ética. Ao aceitar que cabe ao ofendido tomar a iniciativa de disfarçar a própria aparência para escapar à violência do ofensor, o projeto desafia a ordem moral vigente em nossa sociedade. O senso comum diz que, em caso de maus-tratos, cabe ao tirano desculpar-se e emendar-se. Ao ceder às exigências do ofensor, o programa dá razão ao valentão, invertendo assim os valores.

Uma última observação tem a ver com igualdade de tratamento, tema muito debatido atualmente. Em princípio, todos os alunos humilhados têm direito a igualdade de soluções. Se o poder público oferece solução a um caso particular, deveria estar em condições de oferecer solução a todos os casos de maus-tratos no âmbito escolar.

O programa mato-grossense propõe solução cirúrgica para orelhas de abano, nariz fora dos padrões, mamas superdesenvolvidas, estrabismo, obesidade. Só que… esses “defeitos” não são os únicos que resultam em tirania contra um aluno. Há casos em que nenhuma cirurgia é útil.

Como é que fica a humilhação do “foguinho” (que tem cabelo vermelho)? E a do “dentuço” (prognata superior)? E a do “chove dentro” (prognata inferior)? E a do “sol de peneira” (sardento)? E a do “perna fina”? E a do “bochecha”? E a do “tição” (preto)? E a do “branquela” (albino)? E a do “tampinha” (baixinho)? E a do “arroz de pauzinho” (oriental)? E a do “bicha” (n° de chamada 24)? Enquanto os coleguinhas “se livram” do acosso, estes vão ficar a ver navios? Onde está a igualdade de tratamento?

Pois é, acredito que esse programa de “correção” da aparência de crianças para aproximá-las de um modelo idealizado é um barco cheio de furos. Dá impressão de solidez, mas não chegará a porto nenhum.

Tem mais. Imperfeição física não é o fator essencial para o aparecimento do “bullying” direcionado a um infeliz aluno. O Zé Grandão da classe pode até ter nariz torto, orelha de abano, verruga na testa, olho caído, sarda e outros “defeitos”, mas jamais será vítima de abuso nenhum. Simplesmente porque ninguém ousa afrontá-lo, com medo do físico imponente.

Por seu lado, um aluno franzino e tímido, ainda que não apresente imperfeição visível, é forte candidato a tornar-se o cristo da turma.

Acredito que a atenuação do problema só virá com a educação da criançada. Se não tiverem recebido boa educação em casa – o que parece ser o caso de muita gente hoje em dia –, a escola terá de se encarregar. Só o ensino poderá informar aos jovens o que pode e o que não pode. Civilidade se aprende.

Me parece que o trabalho do mestre não é emitir guia para aluno obeso fazer lipo pelo SUS. Sua tarefa é, antes, dar ao gordinho orientação básica sobre o valor nutritivo dos alimentos. Melhor será encaminhá-lo ao dietetista do que ao bisturi.

Observação
O distinto leitor talvez tenha notado que utilizei mais de uma palavra para designar “bullying” escolar. Nossa língua, que é rica, oferece diferentes possibilidades para representar a mesma realidade: acosso, intimidação, abuso, tiranização, humilhação. Podem ainda servir: prepotência e maus-tratos.

Se o telefone bater

José Horta Manzano

Pra enxergar melhor, amplie a imagem estampada acima. O instantâneo foi batido em maio de 2020, no auge da primeira onda de covid.

O então presidente aparece no centro da imagem. Ao redor, um batalhão de seguranças, reconhecíveis pelos óculos escuros estilo anos 60 e pelo fone de ouvido.

Um personagem de óculos pendurados na camiseta carrega uma pasta preta. Dado que não parecem dirigir-se a nenhuma reunião de trabalho, pode-se supor que a pasta pertença ao presidente. Talvez contenha alguma importante minuta, se é que me faço entender.

O presidente pela mão leva a criança, sua filha.

Na extrema esquerda, aparece o ajudante de ordens, o então major Mauro Cid, hoje na prisão. Marquei com flecha os três telefones celulares que se adivinham na imagem: um na mão direita do assessor, mais um em cada bolso da calça dele.

O presidente não parece levar nenhum telefone, fato inabitual em pessoa sabidamente ligada a esse meio de comunicação.

Esse fato invulgar nos leva a desconfiar que um dos aparelhos que o ajudante de ordens leva no bolso pertença ao chefe. Talvez até os dois celulares.

É possível que essa promiscuidade telefônica tenha despertado a curiosidade da PF que, acertadamente, confiscou os aparelhos de cada um dos dois, chefe e assessor, ao mesmo tempo.

Parece que o aparelho de Bolsonaro estava mudo, tudo apagado e nada mais. Mas o(s) do faz-tudo do chefe estava(m) recheado(s) de informações importantes, que vão pingando aos poucos.

Espremendo bem, inda vai acabar saindo o rascunho da minuta do golpe.

Busca e apreensão

José Horta Manzano

Muito esquisita a “breaking news” desta manhã de quarta-feira. Numa operação de busca e apreensão levada a cabo logo cedinho pela Polícia Federal, o braço direito do então presidente Bolsonaro, um tenente-coronel do Exército, foi preso preventivamente (por tempo indefinido). Outros personagens foram também levados de camburão. A residência de Bolsonaro, num condomínio de luxo de Brasília, sofreu perquisição que terminou com seu telefone celular sendo apreendido.

Oficialmente, a operação foi lançada para desmascarar e botar atrás das grades uma quadrilha de falsificadores de documentos públicos. Mais de quinze pessoas são acusadas de envolvimento na produção de falsos atestados de vacinação contra a covid. Parte da quadrilha estaria homiziada no próprio Palácio do Planalto na época em que Seu Jair era o dono do pedaço.

Tudo isso me parece um tanto estranho. Com tantas acusações de crime grave pesando sobre os ombros do ex-presidente, a PF preferiu deflagrar essa operação para investigar um crime francamente menor. Fraude em documento público pode dar até 4 anos de cana, mas cumplicidade na morte de centenas de milhares de cidadãos no auge da pandemia pode resultar em pena bem mais pesada.

Por que isso agora? A oposição dirá que é perseguição contra o cândido ex-presidente, alma boa e pura incapaz de fazer mal a um pernilongo. É verdade que o capitão deixou atrás de si um rastro de inimigos, de gente a quem insultou gratuitamente e que hoje não o olham com simpatia. Mas deixou também um rastro de atos e gestos indecorosos e criminosos que ainda hão de persegui-lo por anos.


Num primeiro momento, me ocorrem algumas reflexões.

Quando a pandemia se alastrou e pegou feio, o que todos queriam era esticar o bracinho pra receber a vacina salvadora – incluindo extremistas zumbificados. Até um general palaciano foi acusado de se ter vacinado escondido. Portanto, não faz sentido uma quadrilha se formar dentro do Planalto para emitir certificados de vacinação falsos.

Certificados para quem? Quando Bolsonaro esteve em Nova York para discursar na ONU, fez questão de apregoar seu status de não vacinado. Todos se lembram daquela cena surreal em que o chefe do Estado brasileiro e seu entourage aparecem mordiscando um triângulo de pizza gordurosa, com as mãos, todos de pé numa calçada nova-iorquina. Tanto ele não tinha sido vacinado, que não pôde entrar no restaurante. E se orgulhou disso. Ele, portanto, não precisava de certificado falso.

Por que, então, a operação de hoje?

1) A primeira possibilidade seria investigar a fundo e demonstrar que, apesar de afirmar o contrário, Bolsonaro se vacinou, sim, contra a covid. Nesse caso, imagina-se que ele sairia desmoralizado desse episódio perante seus adeptos. Não me parece que provar que ele se vacinou fizesse algum efeito. Os que não apreciam o capitão, não estão nem aí para seu estatuto vacinal; já seus zumbificados adeptos, que vivem num universo paralelo, se agarrariam a um pretexto qualquer para não acreditar na história.

2) Outra possibilidade poderia ser jogar holofotes sobre a estada de Bolsonaro nos EUA do fim de dezembro 2022 até fim de março 2023. Na ida, entrou no país em avião oficial, na qualidade de chefe de Estado estrangeiro, personagem de quem não se costuma pedir documento. No entanto, dois dias depois, ao fim de seu mandato, deixou de ser chefe de Estado e passou à condição de turista. Tendo assim perdido as prerrogativas, transformou-se em simples mortal, como qualquer um de nós. Foi nesse momento que o capitão entrou para a clandestinidade. A lei americana exige que todo visitante estrangeiro esteja vacinado. Bolsonaro não estava e nada fez para regularizar a situação.

Será que a PF está sugerindo às autoridades americanas que convoquem o capitão para esclarecer o caso? Se ele desdenhar do processo americano, acabará sendo julgado à revelia e poderá pegar 10 anos de cadeia entrar na lista vermelha da Interpol, o que o condenará a não mais sair do Brasil e a passar os próximos anos por aqui à espera do camburão. Será esse o raciocínio da PF?

3) Uma terceira possibilidade tem a ver com o telefone do ex-presidente, que foi apreendido. E se o objetivo maior de toda essa operação fosse simplesmente arrancar o celular das mãos de Seu Jair e mandá-lo para análise? Ele deve conter informações crocantes e apimentadas, daquelas que não saem no jornal. Enquanto estão todos discutindo se Bolsonaro se vacinou ou deixou de se vacinar, a PF está escrutando as entranhas do telefone ex-presidencial.

E como é que fica isso tudo? Veremos. O tempo dirá.

A gravata

José Horta Manzano

Madame Da Silva esteve na Europa para uma vilegiatura de 5 dias em Portugal, mais um dia de lambuja na Espanha. Enquanto o marido tratava com gente séria e soltava alguma bobagem (mas só de vez em quando), Madame não tinha muito que fazer.

Um dia, levantou da cama decidida. Convocou um batalhão de seguranças e dirigiu-se a uma franquia da rede Ermenegildo Zegna, aquela loja de adereços masculinos que marca presença nos bons centros comerciais (=shopping centers) ao redor do planeta.

Lá encantou-se por um modelito de gravata rajada azul e branco – uma graça! Não ficou claro se Madame perguntou o preço. Mandou embalar e voltou para o hotel com a compra debaixo do braço.

Jornalistas curiosos foram atrás de informações. E descobriram que o mimo adquirido por Madame custou a bagatela de 195 euros (cerca de R$ 1.100).

Ok, concordo que cada um gasta seu dinheiro como quer. Se Madame Da Silva não se importa de investir um patrimônio numa gravatinha de grife, o problema devia ser dela, não nosso.

Só que tem uma coisa. Se o distinto leitor entrar numa boutique Zegna e comprar uma gravata de mais de mil reais, a notícia não vai sair nos jornais. Agora, quando se é a primeira-dama do Brasil, é diferente. Todo gesto, toda palavra, todo ato é escrutado, analisado, pesado, medido e… publicado. Assim como o presidente deveria tomar mais cuidado com suas declarações, a primeira-dama deveria prestar mais atenção a certos gastos ostentatórios.

Em primeiro lugar, há o perigo de muita gente pensar que a compra foi debitada no cartão corporativo, ou seja, que o gasto foi pra conta do povão. Essa ideia é evidentemente falsa. Mas pega mal.

Em seguida, tem o alcance do gesto. Madame Da Silva, que é socióloga, está sem dúvida sabendo que 33 milhões de conterrâneos passam fome. Esse contingente foi confirmado por seu marido em fala recente. Convenhamos: quem compartilha com o marido o topo da escala de poder não deveria dar demonstração pública de esbanjar dinheiro num país em que um em cada sete habitantes sofre cronicamente o flagelo da fome. Pega muito mal.

De uma próxima vez, não custa encarregar um assessor de ir até a loja e trazer a caixinha. A hipocrisia será a mesma, mas ninguém vai ficar sabendo.

Para um 22 de abril

Descobrimento do Brasil
by Oscar Pereira da Silva (1867-1939)

José Horta Manzano

Você sabia?

 


Insegurança é componente importante do espírito brasileiro.

Vivemos num persistente estado de insegurança de raiz.


 

A desonestidade e a criminalidade onipresentes geram insegurança e transformam o honesto cidadão em refém da violência de criminosos.

Na política, fica a impressão de que os do andar de cima, embora podres, conseguem sempre escapar dos raios da justiça.

Para os do andar de baixo, a insegurança jurídica é proverbial. Vai-se dormir à noite sem ter certeza de que, no dia seguinte, leis e regulamentos ainda serão os mesmos.

Essas incertezas não vêm de hoje. Marcam a história do país desde o dia em que foi lavrada sua “certidão de nascimento”. Falo da carta de Pero Vaz de Caminha, bordada com arte e carinho pelo escriba da esquadra de Cabral.

A missiva é cristalina ao datar a descoberta – ou o achamento, como prefiram – da terra tropical. Diz ela: “nos 21 dias de abril (…) topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho”. No dia seguinte, foi avistado um «monte mui alto e redondo», além de serras e de terra chã com grandes arvoredos. Pronto, o Brasil estava achado. E era 22 de abril.

Acontece que essa carta, devidamente guardada nalgum escaninho da burocracia lusa, sumiu durante 300 anos e acabou esquecida. Só viria a ressurgir no século XIX. Enquanto isso, o Brasil já se havia declarado independente da metrópole. Logo após a independência, na complexa organização do novo país, foi buscada uma data de descobrimento. Na falta de informação segura, foi designado o dia 3 de maio. E por quê?

A insegurança gerada pela ausência de provas documentais fez supor que o primeiro nome dado à terra – Vera Cruz – viesse do dia que a Igreja consagra à celebração da verdadeira cruz, justamente o 3 de maio.

Em 1889, ao fixar os feriados oficiais da nova república, o governo provisório manteve a comemoração da chegada dos primeiros europeus em 3 de maio. Por essa altura, a carta de Pero Vaz já havia reaparecido – portanto, já se sabia que a verdadeira data não era aquela. Assim mesmo, por comodidade, deu-se preferência a manter a celebração no dia de Vera Cruz. Como o dia de Tiradentes, 21 de abril, já era dia de festa, não convinha fixar dois feriados seguidos.

Não foi senão durante a ditadura de Getúlio Vargas que a História se rendeu oficialmente à evidência: estava-se comemorando no dia errado. Resolveram corrigir. De uma tacada, vieram duas modificações: o descobrimento passou a ser celebrado dia 22 de abril e, ao mesmo tempo, deixou de ser dia feriado.

Quando eu era criança, meus pais me diziam que o Brasil tinha sido descoberto em 3 de maio e eu não entendia por que, na escola, me ensinavam data diferente. A insegurança sobre as datas só se desfez muitos anos depois, quando eu descobri que meus pais estavam apenas me transmitindo o que haviam aprendido nos tempos de grupo escolar.

O distinto leitor há de convir que, numa terra que já começou com provas documentais desaparecendo de circulação, não espanta que a insegurança continue sobressaindo. Fazer sumir provas tornou-se esporte nacional. Antes, eram documentos que desapareciam; hoje em dia, são as fitas das câmeras do Palácio do Planalto.

Francamente, continuamos a viver na terra do “eu não sabia de nada”.

O tapete vermelho

José Horta Manzano

O sistema de governo chinês – fechado, autoritário, repressivo, implacável – há de ser oprimente para os cidadãos do país, tanto para gente comum quanto para os graduados do regime, que temem a todo momento cair em desgraça. Para o brasileiro, é inimaginável viver sob um regime assim. Nem nos tempos mais duros de nossa ditadura, o rolo compressor do governo militar chegou a esmagar a população com o rigor e o método com que a ditadura do partido único faz com os chineses.

Assim mesmo, toda moeda tem duas faces. Apesar do hermetismo das decisões da cúpula dirigente chinesa, o planejamento do futuro do país continua em marcha. Com dança de cadeiras ou sem elas, os dirigentes seguem rigorosamente a política de Estado traçada para as próximas décadas. Estabelecido a longo prazo e cumprido com precisão metódica, é esse planejamento que permitiu à China, nos últimos 30 anos, galgar posições em numerosas áreas.

Lula está na China, acompanhado por caudalosa comitiva (que lotou dois Airbus). À sua chegada, o tapete vermelho não foi estendido só na pista: subiu as escadas até a porta do Aerolula. Esse afago é reservado aos grandes visitantes.

Analistas estrangeiros enxergam a visita de Lula como uma jogada de mestre no tabuleiro mundial, com o objetivo de valorizar o Brasil na disputa entre a China e os EUA. Pode até ser. Primeiro, precisa ver se Lula entendeu isso ou se está só sendo traído por seu antiamericanismo.

Estamos diante de um caso curioso. Não acredito que nosso presidente morra de amores por Pequim. Durante seus dois primeiros mandatos, Lula mostrou que, em matéria de política internacional, seu interesse se concentra na América Latina. Fora das Américas, o mundo lhe parece longínquo e de parco interesse. É minha análise pessoal.

A birra do ex-metalúrgico é com os Estados Unidos. Desde a juventude, Lula encasquetou que sua missão era tentar se opor à potência e à interferência dos americanos (de olhos azuis, lembra?), tanto em nossas vizinhanças quanto no resto do planeta. O mundo mudou muito nesse meio século, mas Lula persiste.

Presidente de novo, Lula retomou a cartilha antiga. Começou afirmando que, na invasão da Ucrânia pelos russos, os dois lados eram culpados. Curiosa acusação para alguém que pretende ser o mediador do conflito. Na pressa de mostrar a língua aos EUA, acabou desagradando a russos e ucranianos.

Pequim dispõe de bons analistas de geopolítica. A cúpula do país entendeu que nosso país é uma peça importante no xadrez mundial, e que convém afagar e conquistar como aliado. Por seu lado, Luiz Inácio também entendeu que a ascensão da China no panorama internacional desbancou qualquer pretendente ao pódio. Nem Rússia, nem Índia, nem Europa. Os dois grandes são agora os Estados Unidos e a China.

Para os dirigentes chineses, conquistar o Brasil não é tarefa inatingível. Um tapete vermelho bem fofo e uma recepção sorridente e calorosa fazem milagres – não precisa nem colar de diamantes. Quanto a Lula, entendeu que Pequim será excelente aliado em sua cruzada antiamericanista.

Temos, assim, o casamento da fome com a vontade de comer. Eu te ajudo, você me ajuda. Não é uma beleza, este mundo?

Convencer as pessoas

José Horta Manzano

Em nosso sistema político, o presidente da República encarna simbolicamente o povo brasileiro. Quando ele viaja de visita ao presidente chinês, por exemplo, é como se todos os brasileiros estivessem homenageando Xi Jinping.

Por ser incapaz de entender essa dimensão do poder, o capitão passou anos ofendendo duro dirigentes estrangeiros. Cada invectiva que lançou contra a França, a China e os outros foi captada como se o autor do insulto fosse o povo brasileiro. Daí a repercussão planetária.

Nesse aspecto, Lula é mais comedido. Nestes primeiros 3 meses de governo, não fez declaração pública insultante. Houve um dia em que se soltou numa entrevista entre camaradas. Mostrou rancor contra o ex-juiz Moro. Por causa disso, apanhou tanto que deve ter se emendado. Espera-se que continue bem comportado.

Além de procurar manter a decência esperada de um presidente, Lula retomou uma prática desdenhada por seu predecessor. Inteirado das catastróficas inundações no Maranhão, exerceu seu dever de solidariedade e sobrevoou a área. Foi como se o Brasil inteiro tivesse acorrido para demonstrar compaixão.

Só que… ninguém é perfeito. O Lula operário ficou no passado, não atravessou o milênio. Luiz Inácio, que nasceu e cresceu paupérrimo, está há mais de duas décadas acostumado ao bem-bom. Tirando os meses que passou em cela de luxo em Curitiba, tem levado vida de rei, morando em palácio e cercado de serviçais. A persistência dessa existência afastada do povo tem seu lado perverso: vai desconectando o indivíduo da realidade.


“Precisamos convencer as pessoas que não é possível construir uma casa num lugar que a gente sabe que vai dar enchente”


Essa foi a reflexão de nosso presidente ao sobrevoar a zona alagada. Em sua lógica, ‘alguém’ tem de aconselhar cada sinistrado a abandonar sua casa e se virar para construir em outro local. O Lula ativista de outrora, aquele que puxava greve e arregaçava as mangas por seus companheiros parece morto e enterrado. Desconectou.

O Maranhão é um estado de poucos recursos. Perder a casa (ou estar a ponto de perdê-la) é um drama terrível em qualquer lugar. No Maranhão, então, pode ser ainda mais catastrófico. O raciocínio de Lula me fez lembrar a frase atribuída a Marie-Antoinette, rainha da França, quando viu uma multidão pedindo pão. “Não têm pão? Pois que comam brioches!”. Talvez por não ter entendido o mundo que a cercava, a coitada acabou guilhotinada.

Por certo, Lula não arrisca o mesmo destino. Mas parece não mais entender o mundo dos mais humildes, justamente aqueles que garantiram sua vitória. “Essas pessoas” não precisam “ser convencidas” de que vivem num lugar perigoso, cercado de ravinas (voçorocas) e à mercê do próximo alagamento. Convencidas, já estão. E, se pudessem, já teriam ido pra outro lugar.

É que querer nem sempre é poder. O que se espera do presidente do Brasil, homem de poder, é que apresente um esboço de solução ao problema. As pirambeiras que cercam certas localidades são impressionantes. Há gente morando à beira do precipício – ao pé da letra.

Esses cidadãos não têm de ser convencidos, pois conhecem o perigo. Aquelas casas têm de ser interditadas e os habitantes provisoriamente realojados em local seguro. Em seguida, o poder público terá de indenizá-los e encontrar uma solução para construir casas novas em lugar “que a gente sabe que não vai dar enchente”. Bem longe dos despenhadeiros.

“Convencer as pessoas” é muito bom. Dar a mão a quem precisa é melhor.