Dom Bolsonaro Primeiro

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 setembro 2019.

Doutor Bolsonaro emergiu das catacumbas de um «baixo clero» tão populoso quanto inexpressivo. Assim que tomou posse do cargo, cercou-se de equipe heterogênea. Ministros de primeira grandeza foram nomeados ao lado de integrantes um tanto folclóricos. O conjunto dos designados até que parecia sólido, feito pra durar. Àquela altura, muita gente fina acreditou na coesão e na longevidade do grupo. Os novos chegados traziam ideias e, até certo ponto, supriam faltas e falhas. Enriqueciam os desnutridos dotes presidenciais. O tempo que passa, no entanto, lesa ilusões.

O presidente não era um habituado dos costumes palacianos. Não contava entre os assíduos dos salões seletos da República. Não tendo antes exercido cargo executivo, não sabia dos beija-mãos e dos rapapés que cercam um chefe de Estado. Há de ser realmente um choque ser alçado, de repente, a tão excelso posto. Da noite para o dia, brotam assessores, serviçais, secretários, auxiliares – um mundaréu de gente. O chefe acaba desaprendendo a simples arte de abrir portas, visto que haverá sempre um solícito assistente pra fazê-lo. Entronizado no novo cargo, doutor Bolsonaro há de ter viajado de surpresa em surpresa. O poder, vitaminado por tantas delícias, é inebriante.

Atualmente, ninguém é capaz de traduzir, à clara, o que ocorre no entorno presidencial. O povo tem a impressão de que, ao votar num presidente, acabou elegendo uma família. Não estava escrito nos santinhos da campanha, mas a realidade é essa. Diferentemente de famílias discretas que reinam em outras terras, a nossa é barulhenta. Num ritual diário, pai e filhos falam pelos cotovelos. Dão entrevista, tuítam, postam, gesticulam, vociferam, ameaçam, humilham, ralham, espinafram, esculhambam, ironizam, atacam.

O eleitor, que tinha esperança de entrar num período mais sereno depois de 15 anos conturbados, sente frustração diante de tamanha violência vinda daqueles que deviam zelar pela pacificação nacional. Do estrangeiro, ecoam protestos contra nosso país. Grandes firmas começam a boicotar produtos brasileiros em razão da apatia do governo federal em matéria de respeito ao meio ambiente. Nossa terra, vítima de embargo! O que era inimaginável está se tornando realidade. Passamos dois séculos a construir imagem de país sorridente, acolhedor e pacífico… pra uma família destruir tudo com um par de tuítes? É insuportável.

The Little King, criação de Otto Soglow (1900-1975)

Por capricho ou erro de cálculo, doutor Bolsonaro tem criado um cordão de vácuo em torno de si. Dos assessores graduados da primeira hora, diversas cabeças já rolaram. Dos que (ainda) não se foram, os mais importantes estão mergulhados em ‘fritura’ a fogo lento. São alvo constante de humilhações e flechadas. Não vão demorar a sair. Com a partida de assessores antes apresentados como excelentes, doutor Bolsonaro está se isolando. Decifrada a charada, aparece a desavergonhada propensão de nosso presidente a tornar-se Dom Bolsonaro Primeiro. É aposta temerária. Ao desligar todas as luzes que lhe estão em torno, o presidente tende a aparecer como farol e guia único da nação. Quer pôr seu nome no topo do edifício, descurando o tremendo risco de ser atingido por um raio.

Daqui a três anos, se ele segurar o cargo até lá, virá a hora do veredicto. Caso a maior parte da população tenha a sensação de que o governo deu certo, Bolsonaro terá ganhado a aposta; será reeleito com um pé nas costas. Se, no entanto, a impressão reinante for de que o governo deu errado – hipótese mais provável –, doutor Bolsonaro terá dado com os burros n’água. A manutenção de nomes de primeira grandeza a seu redor, ainda que ofuscasse sua glória, seria biombo providencial nessa hora. «Não foi culpa minha. Eu dei a ordem certa, foi o ministro X que não cumpriu!» – seria a justificativa. Do jeito que o presidente está fazendo, beberá sozinho o cálice amargo da derrota. Agora, vamos ser francos: doutor Bolsonaro dá mostra mesmo é de sonhar com um golpe militar. No entanto, se esse desastre devesse ocorrer, seria ele a primeira vítima.

Qui se ressemble – 3

José Horta Manzano

Já tivemos pencas de ministros desonestos. Já tivemos profusão de ministros corruptos. Já houve até ministros que acabaram na cadeia. Ao final do ciclo lulopetista, achamos que já tínhamos visto tudo o que tinha pra ser visto em matéria de folclore ministerial. Assustados, nos damos ora conta de que não era bem assim. Há pior.

Quando doutor Bolsonaro anunciou que não lotearia seu ministério entre partidos e apoiadores, a imensa maioria dos brasileiros aplaudiu de pé. Agora, vai! – pensamos.

Todo o mundo acreditou no que disse o novíssimo presidente. Só que ninguém se preocupou em perguntar quem ocuparia as vagas. De onde viriam esse ministros que o presidente ia tirar do chapéu? Todos esperavam que, no lugar dos velhos políticos bichados, viria gente fina, instruída, competente e capaz. Em algum ponto, por desgraça, a receita desandou. O ministério inclui figuras maléficas.

O caso de dona Damares é mais folclórico do que perigoso. Mas dois colegas dela estão causando estrago. São o ministro da Educação e o do Meio Ambiente. Ambos são caso típico de pessoa errada no lugar errado.

Emmanuel Macron insultado via Twitter por um ministro brasileiro
Chamada do jornal Le Temps, Genebra

O ministro do Meio Ambiente age como ministro do Desflorestamento, uma contradição nociva ao país. Comporta-se como lobista dos inimigos da natureza. Um disparate.

De todos, o ministro da Educação é o mais sem educação. Insultou o presidente da França outro dia, com palavras pesadas. Fez isso gratuitamente, sem nem ter sido provocado. Agiu conforme a receita do integrante de clã fechado e agressivo: assim que o chefe abre as hostilidades, o resto da turma entra pela brecha, armas na mão. Doutor Bolsonaro endossou comentário injurioso sobre a aparência física da esposa de Monsieur Macron. Foi a conta. Numa reação de agressividade grupal, o resto da patota se sentiu livre pra xingar.

São ministros, minha gente! Estamos falando do presidente da República brasileira, senhores! Como é que pode? Será que já vimos tudo ou será que ainda vem por aí coisa pior? Isso ainda vai acabar mal. Valei-nos, São Benedito!

«Qui se ressemble s’assemble – os semelhantes se atraem».

Frase do dia — 85

«Pasmem: o Brasil está importando etanol dos Estados Unidos! O país que inventou o Proálcool, pátria dos veículos flex, o maior produtor mundial de cana-de-açúcar, anda de marcha à ré no combustível renovável.
(…)
Lula, em nome do populismo, destruiu uma das maiores invenções brasileiras. As importações de etanol de milho do Brasil configuram o maior fracasso mundial de uma política pública na área da energia renovável.»

Xico Graziano, agrônomo e antigo secretário da Agricultura e do Meio Ambiente (SP), in Estadão 21 jan° 2014.

Os piratas modernos

José Horta Manzano

Those were the days, my friend. Aqueles, sim, é que eram dias. Aqueles, sim, é que eram heróis. Aqueles, sim, é que eram gente de fibra e de coragem.

Quando Diogo Cão, Cristóvão Colombo, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral zarparam, no comando de uma frota de frágeis caravelas de madeira, só podiam contar com a cara e a coragem. Se algo pior acontecesse ― e o risco era omnipresente ― não tinham a quem apelar. Ocorresse um naufrágio durante uma tormenta, ninguém os poderia socorrer. Seria o fim, certo como um e um são dois.

Pirata

Pirata

O mundo mudou. Hoje funciona diferente. Mapas de navegação sofisticados, relógios ultraprecisos, balizas de sinalização luminosa, dispositivos de localização geográfica, radar, sonar, telefone por satélite compõem uma rede de proteção (quase) infalível. Competições de volta ao mundo para navegadores solitários são organizadas todos os anos. Solitários é força de expressão. Cada navegante tem seu cordão umbilical ligado permanentemente à base terrestre, comunica-se várias vezes por dia por videoconferência, ingere alimentação balanceada. O risco de apanhar escorbuto perdeu-se na poeira de um passado longínquo. Navegar, hoje, com toda essa mordomia, virou moleza.

A ong Greenpeace, dedicada à defesa do meio ambiente, foi fundada mais de 40 anos atrás. Dizem muitos que, de peace (paz), só tem o nome. Seus métodos costumam ser musculosos. A União Europeia tende a considerá-la uma organização terrorista. Seus objetivos são certamente nobres, mas suas intervenções costumam ser espetaculosas, arriscadas, no limite da legalidade ― quando não abertamente ilegais. Fazem isso porque, como os modernos navegadores, sabem que alguém sempre há de se abalar para tirá-los de situações delicadas.

A mais recente travessura dos ongueiros foi particularmente ousada. Um punhado de ativistas ― entre os quais uma conterrânea nossa ― aventuraram-se em águas russas. A fim de demonstrar que não estão de acordo com a decisão de Moscou de extrair óleo de sua costa ártica, arriscaram-se a abordar, sem ser convidados, uma plataforma petrolífera ao largo de Murmansk.

Tivessem desembarcado em plataforma brasileira, teriam causado um auê, mas não acredito que corressem maior perigo. Nesta terra tropical, tudo acaba se arranjando. Especialmente quando se tem como pagar bons advogados. Tudo terminaria ao redor de uma bela pizza. Quem sabe até lhes fosse concedida a Ordem de Rio Branco, tão desprestigiada ultimamente.

Para desgraça de nossos aprendizes de pirata, as coisas na Rússia não costumam se desenrolar tão suavemente como no Brasil. Tomar de assalto uma instalação estratégica do país é afronta levada muito a sério por lá. As autoridades se sentem humilhadas com a demonstração de que não estão dando conta de defender os bens do país. É difícil de engolir. Todos os invasores foram detidos.

Sábado último, Greenpeace convocou manifestações concertadas e simultâneas em dezenas de países do mundo. Tinham por intuito chamar a atenção do planeta para a desventura dos jovens ativistas, agora retidos pelas autoridades russas.

Pirata

Pirata

Cada um tem sua maneira de enxergar o mundo. Concordo com o princípio que motiva os ativistas. Acho até que nenhum campo de exploração deveria ser instalado tão cedo na faixa de pré-sal do litoral brasileiro. Se dependesse de mim, esse tesouro seria guardado como reserva estratégica para o futuro ― nunca se sabe o que pode acontecer. Usemos o dos outros e guardemos o nosso.

No entanto, discordo da maneira de agir dos ongueiros. Intervenções violentas, teatrais e, sobretudo, ilegais não me parecem ser a maneira mais eficaz de convencer as autoridades de Moscou para o desastre ecológico que podem estar provocando.

Alguém imagina que, na sequência da invasão da plataforma, a prospecção petrolífera no Mar Ártico seja suspensa? Não acredito. Pode até surtir efeito contrário. As atividades de extração de petróleo naquela região podem vir a ser dissimuladas sob manto de segredo ainda mais espesso. Terá sido uma expedição à toa, sem finalidade prática.

Os jovens ativistas não serão, imagino, condenados a apodrecer durante anos num campo siberiano de reeducação. Mas também não há de ser amanhã de manhã que serão liberados. Se não me engano, a legislação russa não prevê embargos infringentes. Com certos países, é melhor não facilitar.